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	<title>Agência Social de Notícias &#187; Rafa Carvalho</title>
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		<title>Mestiço</title>
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		<pubDate>Fri, 10 Jul 2020 22:32:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Rafa Carvalho]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Rafa Carvalho para vocês dois, no sumidouro dos seus nomes Com esta carta, crônica, poema – vocês podem chamar do que quiserem – peço a licença para abrir um hiato. Tô me ausentando por um tempo das redes sociais, talvez também desta coluna, não sei – tudo agora, é um imenso não saber. Do ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Rafa Carvalho</strong></p>
<p>para vocês dois, no sumidouro dos seus nomes</p>
<p><em>Com esta carta, crônica, poema – vocês podem chamar do que quiserem – peço a licença para abrir um hiato. Tô me ausentando por um tempo das redes sociais, talvez também desta coluna, não sei – tudo agora, é um imenso não saber. Do amanhã ninguém tem certeza, mas espero que todas fiquemos bem. E para não largar a mão de ninguém nesta última leitura, esta carta é para dois colegas de profissão, ambos suicidados. Um branco, saltando do alto pro mundo. Um negro, que se enforcou em casa. Os textos que aparecem nas entrelinhas deste são: “O gambá e o homem” de Victor Heringer; e “Súplica” de nossa mãe Noémia de Sousa. Escrevo com todo o respeito. E com todo amor a estes dois poetas. Saudades deles e do que sempre sonhei que pudéssemos ser.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Qual é a sensação durante a queda?</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Do mais alto que pulei, sem metáforas, foram 15 metros –</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">havia uma piscina embaixo.</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Machuquei a cara olhando pro chão, pro limite.</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">E as mãos, tentando parar; segurar o impossível.</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Vocês não acham engraçado que tenhamos tanto pudor em falar do suicídio?</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Essa estranha mania nossa, social, de pensarmos que:</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">se não falamos, não existe.</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Ou que se falamos, existe: paz, utopia; esperança&#8230;</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">falar, fazer</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">ser, parecer</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">&#8230;que dualidades terríveis, não são?</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;"></h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Como não ser um gambá gordo desengonçado equilibrista?</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Como não cheirar mal a esses humanos?</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Como ser um gambá</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">assim?</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Eu sei, eu sei</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;"><em>We don’t fit in</em></h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Mas, pensando aqui</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">nessa morte que se morre enfim, voando</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">há uma certa dignidade branca;</h5>
<h5>livre</h5>
<h5>diferente da corda no pescoço.</h5>
<p>_</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Qual a sensação durante a corda no pescoço?</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Se a senti, fora das metáforas – em que é constante<br />
–, foi por vaga aproximação apenas.</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;"></h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;"></h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">(hoje meu filho, vez em quando, me estrangula sem querer,</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">pisando os doze quilos da inocência sobre minha garganta</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">e eu deixo;</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">deixo quase além da conta, pra sentir:</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">o limite; a vontade de não mais conter o impossível)</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Infelizmente é uma morte bem preta essa.</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Longe</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">dos direitos humanos</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">à dignidade&#8230; de voarmos livres</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">sem esse sufoco.</h5>
<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">_</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;"></h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">No final, a vida é o que é</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">a gente é o que é</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">mas o que a gente parece</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">o que a gente aparece</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">depende, não é?</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Às vezes se parece ou aparece melhor</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">por uma questão alheia à nossa essência&#8230;</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">não é bem um quem somos,</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">senão: quem podemos ser</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">neste mundo?</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">O que tem protocolo para ser notado&#8230;</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">O que tem gabarito para ser legítimo&#8230;</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">E assim soamos mais ou menos dignos,</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">mais ou menos humanos,</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">mais; ou menos</h5>
<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">.</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Querendo ou não,</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">alguns gambás são mais aceitáveis que outros&#8230;</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">É a vida, mas<br />
no caso de vocês: a diferença,</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">os privilégios ou não,</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">em nada questionavam, para mim, suas essências.</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Sinto a falta do que os dois ainda trariam pra esse mundo.</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Tão diferentes&#8230; tão maravilhosos.</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Algumas diferenças tão justas,</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">outras: tão desgraçadas.</h5>
<h5>É&#8230; e vocês deixaram toda essa complexidade aqui;</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">pra gente.</h5>
<h5>E porque é complexo, vocês continuam junto. aqui.</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">E nós por aí, também.</h5>
<p style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;"> _</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Qual é a sensação?</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Todo poeta, em lato senso, é de alguma forma:</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">um suicida.<br />
Eu: me suicido desde a infância.</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Minhas primeiras lembranças da vida: são de suicídios –</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">este termo que não podemos dizer, pra que não exista.</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Ironicamente trabalhei com os guarani e terena</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">para evitar o suicídio entre jovens indígenas;</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">e no Japão</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">para evitar o suicídio infantil.</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">(Como se eu o tivesse evitado<br />
comigo.)</h5>
<p>_</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Talvez vocês me entendam:</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">vivemos uma grande e enorme crise dos conceitos&#8230;</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">de termos.</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Vivemos</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">a extinção dos gambás</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">gordos desengonçados equilibristas</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">tupiniquins</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">e os outros todos.</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Mas, falemos um pouco dos tupiniquins:</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">eles não são preto e branco como Pepé Le Pew</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">como os tabuleiros de xadrez da Noémia</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">preto ou branco como no fascismo</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">e no racismo, não: eles são</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">pardos.</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Pardos como diz-se de todos os gatos à noite.</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Pardos como eu em meu registro geral.</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Pardos como o que não se nomeia</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Eu prefiro dizer-me mestiço.</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Não sou o primeiro nem o último da fila.</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;"></h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Visitei já os lugares altos.</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Nasci com uma corda no quarto.</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">E em síntese:</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">nem para a morte finda-se a dualidade.</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Artistas se inspiram, se motivam mutuamente, se imitam:</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">é natural&#8230;</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Por mais que sonhemos com essa originalidade,</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">absurda: tudo, em sermos humanos,<br />
começa</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">e termina<br />
com a mímese</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">(imagem e semelhança)</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Não há nada de original em desistir do mundo.</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Mas compreende-se bem: cada vez mais</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">as inspirações para tanto ficam</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">ARREBATADORAS</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">E como julgar alguém por querer regravar</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">uma pérola já tão regravada</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">de uma velha bossa</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">nova?</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Eu regravaria também, se pudesse&#8230;</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Mas não sou mais o bastante para a corda.</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Não sou ainda o suficiente pras alturas.</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Como se o mestiço pardo</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">se equilibrasse desengonçando</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">sobre o jogo de xadrez que a mãe nos cita</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">É triste ter todos os lados –</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">nada mais humanamente –</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">e por isso parecer assim</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">em cima;</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">do muro.</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">É difícil morrer.</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">É difícil viver.</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;"></h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Fácil mesmo, só escrever esta carta, poema</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">– de canhota</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">– depois de quebrar a mão direita socando uma parede.</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Sinto a falta do que eu ainda traria pra esse mundo.</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Sinto a falta de vocês.</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Tudo é noite e o fio, entre os postes de luz.</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">Minha casa é térrea, meu filho brinca</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">pisando em minha garganta.</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">E os gambás,</h5>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">lutando, desengonçados,</h5>
<p>&nbsp;</p>
<h5 style="margin: 0cm; margin-bottom: .0001pt;">pra sobreviver</h5>
]]></content:encoded>
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		<title>ANDAR COM FÉ &#124; 400 mil projetos #02</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Jul 2020 22:59:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Rafa Carvalho]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Blog Cultura Viva]]></category>
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		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
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		<description><![CDATA[Por Rafa Carvalho Nesta sessão de sua coluna, Rafa Carvalho cria um singelo inventário dos projetos artísticos que o perpassam, sempre pelo seu viés de considerar o artista como um simples meio. Ao longo de sua carreira, o poeta vai criando inúmeros projetos que, ao mesmo tempo, vão criando sua própria vida. Assim, indescritivelmente, vida ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Rafa Carvalho</strong></p>
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<div dir="ltr">
<div>
<p><i>Nesta sessão de sua coluna, Rafa Carvalho cria um singelo inventário dos projetos artísticos que o perpassam, sempre pelo seu viés de considerar o artista como um simples meio. Ao longo de sua carreira, o poeta vai criando inúmeros projetos que, ao mesmo tempo, vão criando sua própria vida. Assim, indescritivelmente, vida e arte inteiras se misturam. Tudo passa a ser sua obra; trabalho: um emprego da energia ao existir. E deste mesmo modo: tudo passa a ser processo. Sempre em curso. Assim, o que temos aqui é nosso colunista mais uma vez querendo juntar o segregado, fluir o que se entrava; ousando falar do indizível. Sejam bem-vindos e aproveitem, pois a lista é longa.</i></p>
<p align="justify">Eu realmente tenho muitos projetos – não falaria 400 mil assim à toa.</p>
<p align="justify">Mas dentre todos este é, sem dúvidas, o mais distinto. Não é por ser tão íntimo; tão biográfico e vital&#8230; Afinal, muitos de meus projetos o são. Vivo dizendo que rasguei o véu que separa a vida da obra. Tudo é obra. E tudo é vida. Tenho tentado viver com isso. Do mesmo modo em que não acredito em espiritualidade se o divino estiver separado do mundano; o profano do sagrado. Mesmo motivo que me faz desacreditar em nacionalidades, por exemplo. Nossa única nação aqui na Terra – assim, para efeitos de atribuição de importância – é a própria Terra. Todo o resto é a delícia da nossa cultura, humana, com todas as diversidades suas – e ainda as do planeta.</p>
<p align="justify">Acontece que quando participei da geração de um filho&#8230; quando fizemos de tudo pra mantê-lo vivo, mesmo ouvindo de uma enfermeira que ele não viveria&#8230; quando apontaram uma arma na minha cara e tudo que eu pensava era ele&#8230; quando o peguei escorregadio com minhas mãos, no instante exato em que foi dado à luz por sua mãe, agachada, às 7h59 da manhã daquele dia fatídico: tudo mudou.</p>
<p align="justify">Ser pai é maravilhoso e arriscado demais. E essas características se transmitem inteiras para o andar com Fé. De uma forma que ele se distingua&#8230; no mais perigoso e utópico – cheio de esperanças – dos meus projetos.</p>
<p align="justify">Nós, homens, ainda não processamos muito bem nosso machismo e seus efeitos terríveis para a humanidade – incluindo a nós mesmos. Levou tempo a que eu me desse conta de que nunca contemplei o pensamento binário, nem que fosse ignorado pelo mesmo em minha essência. Demorei até vislumbrar minha pansexualidade com todos os seus pormenores de características muito específicas. No entanto, não é isso o que conta aqui, mas sim: o reconhecimento social que nos é dado no momento em que nascemos, como homens; sob os signos do qual somos criados; e as expectativas e imposições que isso nos gera, desde o início.</p>
<p align="justify">Quais são nossas referências de homem bom? De bom pai? A própria imagem e idéia de Deus, como força paterna e masculina, a meu ver, é corrompida em si desses nossos valores distorcidos do que represente: ser homem. Logo, por mais que eu ame muito meu pai, avôs e tios; meus amigos, irmãos, professores e mestres&#8230; por mais que os compreenda e aceite&#8230; que referências tenho – salvando uma ou outra de um generalismo ignorante e da total desesperança – senão essas todas equivocadas?</p>
<p align="justify">Eu cometi muitos enganos por machismo até hoje. Por outro lado, muitas falhas minhas que aparentemente estariam relacionadas a ele, podem ter suas causas enraizadas em outros fatores. Coisas de temperamento, índole, personalidade; das visões de mundo, situação de alma e desencaixes com os padrões vigentes&#8230; independente do sexo com que tenha nascido e ao qual seja vinculado. É evidente, contudo, que nada disso está desvinculado do que sou no mundo. Também não nego que: ser reconhecido como homem socialmente me “isentaria” de certas cargas e cobranças, “legitimando” muitas dessas atitudes.</p>
<p align="justify">Porém, por outro lado ainda, cada indivíduo é um universo inteiro. E as relações estão sempre submetidas a esta grandeza. Todas essas tensões históricas, políticas e socioculturais contam muito sim. Mas as tramas não se acabam por aí&#8230; há ainda os mistérios da mente, de ânima; do espírito.</p>
<p align="justify">E enfim: eu invento muitas verdades, realidades; mas não tolero fingi-las.</p>
<p align="justify">Assim, a construção de um projeto como este, de partilhar uma história de família, entrando numa relação conjugal, no mais íntimo do dia a dia, envolvendo a dois indivíduos complexos, que decidem conviver de uma vida, chegando até um filho – outra complexidade maior – nascido homem neste mundo, sendo um pai – um homem – sem referências e querendo ainda assim poder sinalizar qualquer alternativa, melhor se possível, de como sermos neste mundo: não poderia ser algo apenas tranquilo.</p>
<p align="justify">Bom, isso introduz o andar com Fé numa perspectiva muito pessoal de minha trajetória até ele. Mas o mais importante aqui é: o que ele é, o projeto? E como acomoda tantos trajetos diversos, pessoais, nessa caminhada única?</p>
<p align="justify">Pois então vamos lá&#8230; Precisamos ter muita fé para que Fé nascesse. E ele nasceu, graças à Vida. Mas aí nos demos conta disso: ele tinha nascido&#8230; e agora? Sa e eu somos duas pessoas de origem bastante simples&#8230; ela rural e eu urbana. Demos muito duro, cada qual à sua maneira, para fazer a vida. Trabalhamos em diversas funções. Sa foi atendente em videolocadora, eu dei aulas de defesa pessoal pra polícia militar; ela foi corretora de seguros, eu raspei e pintei cascos de pequenas embarcações; ela vendia carros numa concessionária, eu demoli casas e fui servente à construção de outras. Coincidentemente, ambos nos tornamos educadores, artistas e produtores culturais no fim das contas. E assim, juntos com essa classe quase toda, somos subvalorizados no Brasil.</p>
<p align="justify">Vínhamos vivendo assim, com várias lutas em curso&#8230; buscando os reconhecimentos, interlocuções; aquela sensação de existir. Tentando grana, pagar as contas; financiamentos. Querendo um parto digno, humano ao nosso filho. E vendo em volta o mundo pegar fogo. Grupos de família rachando ao telefone; a mesma bipolaridade destruindo as redes sociais; pessoas cada vez menos pacientes, mais à flor da pele&#8230; o mundo cada vez mais doente: depressões, suicídios, genocídios, desesperos, desesperanças, mentiras, injúrias, corrupção, pessimismos, golpes&#8230; meu Deus – nós pensamos. Pra que mundo nós estávamos trazendo um filho?</p>
<p align="justify">Vou dar um tempo pra essa pergunta ecoar por aí&#8230; E volto logo para terminar este texto. Faço isso por intenção e necessidade: vocês verão quando este texto continuar, que uma das maiores dificuldades é manter tudo organizado no meio deste caos por onde estamos. No entanto, seguimos com Fé. E para se inteirar mais do projeto, enquanto isso, você pode se juntar a nós nos seguintes links:</p>
<p align="justify">Instagram, no @projetoandarcomfe: <a href="https://www.instagram.com/projetoandarcomfe/" target="_blank">https://www.instagram.com/projetoandarcomfe/</a></p>
<p align="justify">Facebook <a href="https://www.instagram.com/projetoandarcomfe/" target="_blank">https://www.facebook.com/projetoandarcomfe/</a></p>
<p align="justify">e YouTube: <a href="https://www.youtube.com/andarcomfe" target="_blank">https://www.youtube.com/andarcomfe</a></p>
<p align="justify">Um abraço e até já, deste Rafa que torce por andarmos juntos.</p>
<p>(CONTINUA)</p>
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		<title>GALÁXIAS &#124; 400 mil projetos #01</title>
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		<pubDate>Sat, 27 Jun 2020 00:38:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Rafa Carvalho]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Blog Cultura Viva]]></category>
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		<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
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				<content:encoded><![CDATA[<p align="justify"><i>Nesta sessão de sua coluna, Rafa Carvalho cria um singelo inventário dos projetos artísticos que o perpassam, sempre pelo seu viés de considerar o artista como um simples meio. Ao longo de sua carreira, o poeta vai criando inúmeros projetos que, ao mesmo tempo, vão criando sua própria vida. Assim, indescritivelmente, vida e arte inteiras se misturam. Tudo passa a ser sua obra; trabalho: um emprego da energia ao existir. E deste mesmo modo: tudo passa a ser processo. Sempre em curso. Assim, o que temos aqui é nosso colunista mais uma vez querendo juntar o segregado, fluir o que se entrava; ousando falar do indizível. Sejam bem-vindos e aproveitem, pois a lista é longa.</i></p>
<p align="justify"><strong>Por Rafa Carvalho</strong></p>
<p align="justify">Vou inaugurar esta lista com um projeto que começa a ganhar forma apenas bem recentemente. Embora a ideia seja das mais antigas em minha curta carreira, datando lá de 2004. Natural, para um projeto nomeado assim&#8230; o tempo cósmico é outro além do nosso. Galáxias se formam: de vagar.</p>
<p align="justify">Por isso o escolho a esse início: pessoas são galáxias. Esta é a premissa deste meu projeto.</p>
<p align="justify">Digo meu, mas vocês sabem, né? Tenho tentado converter a minha – nossa – ganância, em algo mais prestável. Tudo está aí, no universo. E estamos a postos&#8230; mais ou menos conscientes. Mais ou menos atentos às antenas. Mas todas estamos. Eu não acredito em patente, chancela&#8230; nada que se protocole com carimbos oficiais ou firma reconhecida. A burocracia serve, sobretudo, pra normalizar a injustiça. Eu não preciso de um documento grilado em chão amazônico, nas gavetas de algum coronel e seu bando, pra saber, por exemplo, de quem é a terra realmente. Entendem? O que precisamos, de verdade, nesse mundo: é dignidade. E isso não se assina; não tem rubrica nem palavra que garanta. Nem é algo fácil de se decifrar entre nós. Quem tem sabe na hora de dormir. Quem não, pode enganar a todo mundo. Mas nunca ao cosmos em seu tempo. E nem a si mesmo; quando se tange esse núcleo de consciência que todas contemos, dentro.</p>
<p align="justify">Mas sem me alongar hoje nessa complexidade e seguindo à proposta honesta dum vagabundear o mais íntegro possível pela minha vida: Galáxias é um projeto inicialmente sobre pintas. Que depois virou um projeto sobre pele, manchas e marcas corporais; cicatrizes, rugas e sinais do tempo. E que daí já era um trabalho sobre pessoas e humanidade. Um tratado da astronomia humana. Astrologia pessoal de cada um. Algo sobre o nosso corpo físico metafísico. Valendo-se de uma linguagem que é também metalinguística. Desafiando as fronteiras do que é ficção ou documental, como quem desafia a terceira dimensão; ou ainda a cisão – e talvez a linearidade – do tempo em passado, presente e futuro. Um projeto que assusta as certezas com a alusão dos mundos paralelos. Das alternativas negadas aqui, que simultaneamente concorrem toda a nossa existência&#8230; aceitas num outro aqui, por outros de nós.</p>
<p align="justify">Sei que pode parecer um papo de maluco. E não deixa de ser. Mas eu vou contar de onde a idéia vem. Sempre tive um lance com pintas. Que bem dizer: é um lance com as peles e as marcas no geral. Mas às pintas, ao mesmo tempo, sempre houve um quê mais específico; um afeto diferente. Quando comecei com os amores mais nus, tinha o hábito de contar as pintas nos corpos que o meu encontrava. Um dia adivinhei antes mesmo de contar: 91.</p>
<p align="justify">Eu também tinha alguma coisa com estrelas. Fui uma das milhões de crianças que querem ser astrônomas na infância. Mas até que levei isso a sério. Estudei pra valer nos livros que arranjava. Apontava pra elas no alto sem medo das verrugas. De astrologia eu não me aproximava muito, pois havia o preconceito da família. O mais perto que cheguei foi sendo um superfã dos Cavaleiros do Zodíaco. Mas depois, como se já estivesse escrito, cheguei nisso também. Aliás, uma astróloga misteriosa que foi parar na festa surpresa de um amigo uma vez, só pra me dizer umas coisas que eu devia ouvir, tornou-se chave em toda essa minha caminhada. Mas esta é “outra” história.</p>
<p align="justify">Fato é que essas coisas me impressionavam muito. Nós&#8230; sermos feitos de pó de estrelas&#8230; contermos os minérios essenciais, os elementos químicos, os mesmos átomos dos astros. Tudo isso era divino maravilhoso. E agitavam minhas viagens e imaginação de adolescente periférico; meio nerd.</p>
<p align="justify">Essa paixão é extensa. E eu poderia falar textos e textos só dela. De como usei negativos de fotos antigas para ver um eclipse solar no meio da quebrada na infância. De como acordei às 3 e pouco da manhã sozinho pra ver uma chuva de meteoros daquele mesmo ponto anos depois. De como nasci na beira do Halley no último periélio. Da minha relação com a nossa Lua e de como vê-la vermelha de sangue me fez arrepiar na Dinamarca. De como ganhei amor contando estrelas cadentes. Em tapetes sobre a grama úmida do campo. Ou por praias vazias sem energia elétrica cantando Los Hermanos. E de como quase fiquei cego de um olho depois de perseguir um rabicho de aurora boreal numa montanha lá da Noruega. No silêncio mais profundo que eu já não ouvi.</p>
<p align="justify">No entanto, voltando pro Galáxias – mesmo sem não ter saído dele: seu estalo veio quando cheguei com o circo na Argentina. Era minha primeira saída do Brasil e o ano, como já disse, era 2004. Apontei a pinta no braço de uma moça e ela me perguntou se eu gostava dos lunares. Saber como chamavam as pintas no espanhol foi o elo que faltava. Ali aumentava um pouco mais o meu fascínio pelas línguas, por como nos ensinam nas suas nuances, das coisas que, em suma, não se pode dizer em nenhuma delas. Ali também aumentava esse meu lance com as pintas&#8230; pois logo depois descobri que, em francês, elas eram grãos de beleza&#8230; e daí pra frente foi só mais e mais mergulhar nelas.</p>
<p align="justify">E ali, ainda: nascia Galáxias.</p>
<div id="attachment_17598" style="width: 559px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://agenciasn.com.br/wp-content/uploads/2020/06/galáxia2.jpg"><img class="size-large wp-image-17598" src="http://agenciasn.com.br/wp-content/uploads/2020/06/galáxia2-549x1024.jpg" alt="Galáxia RMC 1985 (foto: Rafa Carvalho) " width="549" height="1024" /></a><p class="wp-caption-text">Galáxia RMC 1985 (foto: Rafa Carvalho)</p></div>
<p align="justify">Lembro que fiz nessa viagem de 2004 as minhas primeiras considerações sobre o projeto, seus métodos, alguns rabiscos iniciais&#8230; tudo ainda muito disperso. 7 anos depois, quando vagabundeava a Europa pela terceira vez, me achei na praia da Ursa em Portugal uma tarde, onde tudo é tão Atlântico, contando os lunares de uma bailarina da Espanha, que me levava até lá. Ali foi como um novo pulso ou explosão nesse processo: estabeleci conexões entre os céus e as navegações dos corpos; ensaiei primeiros mapas&#8230; e fui seguindo, cada vez mais me orientando. Até que outros 7 anos mais tarde, esperava já o meu primeiro filho. Eu tinha 33 anos. Um ciclo inteiro se cumpria aqui em nosso Sistema Solar. Ele nasceu e, pouco tempo depois, uma pinta quase invisível apontou em sua bochecha esquerda. Um tantinho mais tarde, uma outra – essa bem forte e escura – surgiu em seu sovaco; também o esquerdo. Era como assistir ao nascimento de uma galáxia. Um quê de supernova. Uma pele lisinha sem marcas; quase páginas em branco. Um céu ainda puro, começando com o caos, a dinâmica e as explosões.</p>
<p align="justify">Lembrei de ver anos antes o braço de minha vó, ainda lúcida. A minha vó galáxia explodida esta semana&#8230; Seu braço tão cheio de pintas e manchas e marcas. Todo de vincos, sulcado de rugas, estrias, estradas. Todo o contraste da maturidade. Cada sinal acendia uma história&#8230; E então pensei em como eu – nesse meio entre minha vó e o meu filho – tenho acompanhado a minha própria pele envelhecendo; feito um céu que vai crescendo em espaço.</p>
<p align="justify">Fui considerando tudo isso. E eu gosto sempre de lembrar que considerar é: fazer-se um, com o espaço sideral.</p>
<p align="justify">Tenho, vocês sabem, uma história com o mar. O mar que tem uma história com as pessoas. Que tem uma história com as estrelas. O mar que é um universo. E isso de sentir-me marinheiro, nas saudades, pra mim, tem muito mais a ver com o universo, que com esse mar daqui. O marinheiro tá sempre com saudade de casa. Se no mar, da casa-terra. Se na terra; da casa-mar. Eu, que nasci longe da praia e que nem sequer a conhecia. Que cresci numa quebrada e que mal saía dela, a não ser imaginando. Tinha saudades sempre também. Como se além da casa-Terra, houvesse outra, por acaso&#8230; alguma casa-lá.</p>
<p align="justify">Não à toa, a primeira constelação que descobri em mim foi essa, da foto: a constelação de Âncora.</p>
<p align="justify">Para nomear as galáxias que somos, tenho dois métodos: um, mais técnico formal, incide nas inciais de nossos nomes seguidas por um traço (ou não) e os dígitos do nosso ano de nascimento (todos ou os últimos dois, três&#8230; dependendo do gosto). Por exemplo, eu sou a galáxia RMC 1985; meu filho: FSC-19. Isso nos deixa na categoria de nomes como NGC 253 ou IC 5152. O outro modo é mais lírico e livre, criando-se uma nomeação por qualquer razão ou referência que seja: como Via Láctea, Sombreiro; ou Andrômeda. Como sempre na vida, devemos encontrar assim as reincidências. Daí, é só irmos desambiguando quando necessário; e quando possível.</p>
<p align="justify">Dentro de cada galáxia, porém, tudo é singular. Nelas, sempre procurei por histórias. De pronto, buscava essas constelações de pintas. Tentava encontrar as formas que formavam, bem como suas características astrais. Depois tudo se expandiu: planetas e outros corpos celestes de nossos corpos, nuvens, buracos negros, supernovas, qualquer tipo de paisagem espacial em nós. Cada sinal em qualquer tipo de pele, com cores, saúdes e idades bem distintas. Com psoríases, hematomas e impinges. Acnes, cravos; poros. Tudo passou a interessar. Ao ver-nos como galáxias, seguimos todas ligadas umas às outras ao mesmo tempo em que formamos cada qual um conjunto único de estruturas, signos e significações próprias.</p>
<p align="justify">A metodologia para tudo isso é ancestral: sinto, acho e intuo; como nossas avós. Arrisco o palpite como os povos antigos. Acredito que, ainda em 2020, quando nos pomos diante de nós mesmos: estamos de frente a um mistério tão insondado, quanto o céu para os gregos 2200 anos atrás. Por tanto, para viajar assim, é preciso abandonar as presunções. Viajo só; deixo que minha imaginação responda. Faço isso sobre o meu e outros corpos. Mas também converso com pessoas, sobre os seus – e o meu – corpos. Trago perguntas, peço coisas, anoto, registro. E os modos de se partilhar esses efeitos, também são muitos. Fotografias, como essa da capa e de outras maneiras; composições gráficas e cartográficas; vídeos; áudios; instalações; performances; e texto.</p>
<p align="justify">Sobre o texto, neste projeto, as palavras flutuam sempre entre o que chamamos realidade e o que dizemos ficção. Para mim, este é um tema constante. Desafio este limite – sobretudo no que diz respeito à predefinição das elites que querem determinar a História e o presente do mundo – como desafio a linha imaginária – mesmo quando transformada em cerca, bomba ou muro – que separa os países econômica e politicamente. Além disso, elas também se alternam entre textos bem técnicos, que podem explicar o surgimento ou desaparecimento de fenômenos, por exemplo; e a criação dos mitos e lendas mais aparentemente descontrolada. O tempo todo sagrado e profano. Nossos signos conformando cadeias multidimensionais de sentido.</p>
<p align="justify">É importante dizer aqui da minha idéia de liturgia pessoal. Já contei dela antes. E ainda devo falar mais em outros projetos e textos desta coluna&#8230; Mas em síntese: minhas questões filosóficas existenciais se fundem com espiritualidade desde a infância. Sou um andarilho neste sentido, partindo de um seio familiar com suas crenças e preconceitos, mas passando daí a muitos lugares distintos. Fui ministro de louvor e missionário cristão; monge tântrico; vivi coisas como a espiritualidade indígena do xamanismo à pajelança e o zenbudismo oriental tudo in loco; o encontro da fé negra e vermelha – e um tanto da branca – em Cuba e aqui; a espiritualidade das artes marciais japonesas, da capoeira angola; tornei-me ogan de terreiro. E nunca neguei um ciclo para iniciar o outro. Fui criando a minha própria liturgia, muito respeitosamente. Pois no fim, nós somos a única “coisa” que teremos pra sempre por perto, enquanto vivos. Além de pessoa e galáxia, nosso corpo também é um templo. Assim vamos criando nossa própria ritualística de vida. Nosso jeito de rezar, de se comprometer. Nossos marcos, os salmos; provérbios. E eventualmente nossos dogmas, enganos e proibições.</p>
<p align="justify">Digo isso pois Galáxias compõe este universo. O céu e as estrelas estão profundamente ligados à fé humana, aos nossos mistérios, religiões e espiritualidade. Mitos. Lendas. E ao nos orientarmos por nossas próprias estrelas, estamos criando essas rotas litúrgicas. É um outro jeito de estarmos imagem e semelhança com o universo e às forças criadoras da vida.</p>
<p align="justify">Lembrando de novo da minha vó que partiu, quando criança, na casa dela, eu gostava de imaginar as vidas minúsculas que podiam viver nas frestinhas das paredes, buracos de muro, rachados no chão. Um dia conto melhor tudo isso, mas&#8230; é quase como pensar que, assim como nós olhamos esse céu imenso, nossos corpos poderiam ser o céu imenso de alguém: como talvez seja, esse céu ainda, o que olhamos, o corpo infinito de um outro que, por fim, nos imagina possíveis ou não, pelo viés de uma brechinha.</p>
<p align="justify">Bem, acho que isso basta pra firmar o Galáxias neste inventário. Naturalmente, ainda há muito pra falar dele. E além do mais, tudo pode mudar. Lembro aqui que sempre vejo meus projetos como constantes&#8230; vivos e dinâmicos como eu. Eles nunca acabaram, mesmo quando foram ações pontuais realizadas há anos atrás. Do mesmo jeito: eles nunca começam. São energias que estiveram e estarão aí o tempo todo. Assim, os projetos assumem mesmo essa existência cósmica&#8230; e ficam com um tempo mais parecido com o meu – com esse velho que tenho na cabeça: que não se parece em nada com este tempo pós-moderno em que vivemos.</p>
<p align="justify">E se vocês ficaram com vontade de ver mais do Galáxias, saibam que não deve demorar – embora isto seja sempre relativo. Mas estou preparando ações dele para breve. São ações variadas, online e offline; no Brasil e em outros países. Recentemente eu encontrei, no meio de caixas com livros e revistas que fui herdando por aí, uma série de reportagens sobre o cometa Halley datando de outubro de 85, meu mês de nascimento. Junto com isso, achei mapas de constelações, revistas de astronomia, apostilas, fotos analógicas de um eclipse feitas com uma lente telescópica&#8230; e tudo isso tem se incorporado aqui, nas criações.</p>
<p align="justify">Enquanto isso, me despeço com um trecho do texto sobre Âncora, a constelação da foto:</p>
<p align="justify">“Há milhares de anos, humanos se deixam guiar pelas estrelas. Há pelo menos centenas de anos, estas estrelas orientam as grandes viagens, movimentos migratórios, circuitos de intercâmbio, descobertas, fugas, conquistas, aventuras&#8230; pelo âmbito das navegações. As estrelas também sugerem destino, com os ventos internos&#8230; o prumo da escolha, o leme do espírito; às correntes. Em tudo isso sempre houve dinamismo, fluxo; movimento. Quando o marinheiro descobriu, no céu de si mesmo, a constelação de Âncora, decidiu o inaceitável: aquelas estrelas apontariam o caminho da paragem. O horário em que as pernas descansam. Era o hiato do voo. O silêncio da pausa, sem a qual não pode haver a música.</p>
<p align="justify">E de repente, marinheiros de todos os mundos passaram a buscar por Âncora e sua inusitada guia. Uma constelação que questionava todas as outras com suas conquistas; todos os rumos e os supostos alcances. Quando ancorava um marujo, qual era o saldo de tudo? Quando cessava o zunido, a ilusão da pressa e o movimento, o que sobrava no coração de uma pessoa? Andava-se, corria-se tanto, para chegar-se aonde mesmo?</p>
<p align="justify">Dizem que também a chamavam constelação do caminho que não se caminha. Que se iluminavam com ela por toda Ameríndia, África, até a Indochina. No entanto guiar-se por ela fosse perigoso. Não era à toa que alguns piratas prefeririam andar em perna de pau, que conviver ao próprio membro&#8230; num instante imóvel.”</p>
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		<title>400 mil projetos</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Jun 2020 22:36:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Rafa Carvalho]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Rafa Carvalho Eu amo e detesto listas. Sim, isto é um paradoxo. Mas bem-vindas&#8230; Esta é minha vida. Não devo demorar hoje aqui nessa ideia dum paradigma paradoxal, mas quero introduzir a vocês esta lista, que resolvi criar: chamo-a 400 mil projetos, inspirado em “guardanapos de papel”, versão de Carlos Sandroni que o Milton ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<div>
<p align="justify"><strong>Por Rafa Carvalho</strong></p>
<p align="justify">Eu amo e detesto listas.</p>
<p align="justify">Sim, isto é um paradoxo. Mas bem-vindas&#8230; Esta é minha vida.</p>
<p align="justify">Não devo demorar hoje aqui nessa ideia dum paradigma paradoxal, mas quero introduzir a vocês esta lista, que resolvi criar: chamo-a 400 mil projetos, inspirado em “guardanapos de papel”, versão de Carlos Sandroni que o Milton Nascimento cantou para “biromes y servilletas”, linda música do artista uruguaio Leo Maslíah.</p>
<p align="justify">Essa canção fala de poetas. Quiçá como a biografia de muitas de nós. Sendo que pessoalmente, uma a uma, muitas de nossas biografias jamais serão escritas por ninguém; nem despertam na gente interesse&#8230; Talvez lá longe, depois de morrermos: como foi com Van Gogh e toda essa imensa lista de poetas mortas desse jeito.</p>
<p align="justify">Talvez também por isso eu tenha chorado quando ouvi a canção pela primeira vez. Identificação&#8230; e pena; pesar. A voz do Milton já ajuda em qualquer choro. Ainda mais nesse vídeo, onde aparece com uma banda linda, parecendo muito um orixá. Bem dizer, chorei na primeira e em algumas – tantas – outras ouvidas. E vocês verão – mais adiante, não hoje – que essa música me inspirou em um tanto de coisas. Neste texto, contudo, para introduzir minha lista, vou falar de algo específico.</p>
<p align="justify">A letra original fala de poetas e seus projetos não alcançados, cansados; cansados. Há este aspecto da história. Em partes, pode-se dizer que o motivo disto é a utopia. Esta coisa que muitos consideram impossível. Já eu penso em não descansar enquanto não tiver a utopia aqui, no escritório de onde escrevo este texto – antes dum nascer do Sol, num dia comum. No entanto, de um jeito ou de outro, que não reste dúvidas: cansa. Tanto o possível quanto o impossível. Cansam. E não é só isso: para além da utopia, há a insensibilidade do mundo.</p>
<p align="justify">Eu sempre insisto em Van Gogh nessas horas: como atualmente tanta gente acha tão lindo as suas obras? Como hoje uma carta escrita por ele pode ser comprada por mais de 1 milhão de reais? Como seus trabalhos agora valem ainda muito mais que isso? E há alvoroço de gente milionária nos leilões. E roubam-se os seus quadros dos museus. Como foi possível assim, ele em vida, as pessoas serem tão indiferentes ao que ele tinha para transmitir? Como assim ele não teve sequer o respaldo mínimo pra poder viver com sua arte? Como o olhar da sociedade pode mudar tanto, para alguém, com o tempo?</p>
<p align="justify">Pra não ficar só neste meio, Cafú, o capitão do penta com três finais de copa nas costas, dois títulos e uma carreira imensa entre os clubes, foi rejeitado em quase dez peneiras antes de ser aceito num time. Pensem se isso não cansa. E sintam se há cabimento nessas coisas&#8230; Pouquíssimos jogadores chegaram no seu nível. A chance dele ter tido algo bom a mostrar já logo na primeira tentativa é bem grande. Assim como os quadros do Van Gogh já eram como são hoje, no tempo em que ele os pintou. Nada na obra, ou na essência do trabalho, mudou. No entanto, no olhar da sociedade – ou antes, dos especialistas – sim. E a lista de casos desses, nas artes, esportes e em todos os assuntos, deve ser gigante.</p>
<p align="justify">Nosso mundo é feito dessas listas que não gosto. Listas verticais que atestam quem passa e quem não passa. Quem avança e quem não. Listas de melhores; prêmios. Estes editais, que tantos poetas tentam – porque precisam – e não alcançam. Tentem imaginar um prêmio literário, por exemplo. Milhares de livros inscritos para que um vença. Cada pessoa do júri não vai ler todos os livros. O primeiro lido não vai ter a medida do anterior, como o segundo; e assim por diante. O nível de atenção, euforia ou stress do jurado vai mudar com as horas dos dias e cada livro será examinado numa conjuntura. É impossível que estes resultados não sejam praticamente aleatórios. Que não sejam sempre parciais e, na melhor das hipóteses: mera casualidade. Pois se não for casual, as chances de haver corrupção, tráfico de influência ou bairrismo, proteção de classe, toma lá dá cá, manutenção dos privilégios e coisas parecidas, chegam a ser absurdas.</p>
<p align="justify">É fácil pensar assim estando do lado de cá do cordão: o lado de fora. Difícil é manter-se o tom lá do camarote. Sendo um poeta vagabundo qualquer como eu, é de se esperar uma análise dessas – que pode facilmente ser taxada de recalque. Complexo vai ser quando eu ganhar um prêmio assim, daqueles. Se vou dar conta ou não de manter a postura. Zélia Duncan viraliza hoje num vídeo sobre cultura, política e sociedade; aparentemente lúcida. Amanhã, ela sai em defesa de si mesma, falando de meritocracia: como se o argumento que a gente negasse a um coronel, pudesse servir a uma artista.</p>
<p align="justify">Veem? Em tudo isso há cansaço. Meredith Monk dedica uma vida à criação artística, vai fundo nos processos, se esforça pra seguir humana, digna, solidária. Ainda assim: vez em quando ela ouve alguém questionando se aquilo que ela faz é arte&#8230; A insensibilidade do mundo cansa.</p>
<p align="justify">Cansa todo mundo. Mas principalmente nós: que já somos poetas.</p>
<p align="justify">Sim, porque eu – daqui deste escritório e daqui desta utopia – acredito – e desejo, profundamente – que um dia esta desgraça acometa todo mundo. Ser poeta&#8230;</p>
<p align="justify">Mas enfim: a versão brasileira da canção é mais específica neste quesito e, surrealmente, enumera a quantidade de projetos que um poeta se lança a fazer pela vida: inexatos 400 mil.</p>
<p align="justify">Quando eu parei de contar, por cima e grosseiramente, eram trinta e poucos. Isso há alguns anos atrás. Hoje, atualizando-se as datas e considerando nuances com atenção, nem imagino quantos seriam. Pra quem considera astrologia – acho que já disse isso na semana passada: sou libriano. E ao contrário do que possam pensar, não sou indeciso por isso. Mas sou decidido por quase tudo. Frio ou calor? Praia ou montanha? Feijoada completa ou só uma couve-florzinha cozida no vapor sem sal nem dada? Paris ou Bangladesh? Pelé ou Maradona? Noite estrelada ou oliveiras com Sol amarelo? Minha resposta é: todas elas; sem dúvidas.</p>
<p align="justify">Daí, chegando na arte com isso, sendo quem sou, tenho essa dificuldade incrível de: separar.</p>
<p align="justify">É como se pra mim só houvesse a poesia. Tanto em arte, quanto na vida. A poesia ou sua insuportável ausência.</p>
<p align="justify">Linguagens artísticas são só nuances. Assim como as línguas, idiomas&#8230; são apenas vislumbres do que realmente pode haver – ou não: comunicação. Para mim, minha língua materna sempre foi o silêncio. Só ele dá conta: sem contar. Todo o resto é tentativa e errância. Nisso, tenho me permitido o fazer artístico – ou arteiro – pelos anos. Sempre numa intenção de partilha. Aprendi a entender isto melhor agora que sou pai&#8230; Fé, meu filho, está o tempo todo descobrindo coisas suas, de si pra si. Ao mesmo tempo: está constantemente em busca dos encontros&#8230; se inspira nos outros, em nós; quer dividir a sua experiência; mostrar e assistir; dar e ter. É também assim que me sinto.</p>
<p align="justify">De vez em quando eu descubro que tenho mais leitores e leitoras do que penso. Costumo sentir que tenho tenho três; ou quatro. Mas daí parece que chegam mesmo a ser dez, onze pessoas. Uma dúzia delas, até. E também percebo que nem todas são pessoas que eu já conhecia antes&#8230; as amigas que leem por amor e amizade, pra salvar um pouco a gente dessa solidão. Descobri por exemplo esta semana duas pessoas assim: que eu não conheço, mas que leem tudo que publico. Essas pessoas devem sentir o quanto aparentemente eu me repito. Um professor na universidade – e o homem que me ensinou a dançar – disse que minha escrita é mântrica. Que vou aos círculos, parecendo regulares mas, que a cada volta, afundo mais – ou elevo&#8230; como se quisesse espiralar. Em todo giro nasce uma ponte, dou mais um nó – ou desato; ligo um ponto novo.</p>
<p align="justify">Portanto essas pessoas, leitoras, devem ter lido já muitas vezes essa história: de que eu era uma criança pobre e tímida na periferia, deslocada, com jeitos de autista, que fazia arte de gaveta, como um mecanismo puro e simples de sobrevivência, contra a autoexplosão e outros dilemas, que sem querer entrei na faculdade de educação física, que ainda não tinha me encarnado totalmente, e que acabei depois por acidente virando artista de circo em meio a tudo aquilo, acrobata, palhaço, e que seguindo, entre ser missionário, monge, garçom, demolidor, campesino e mais um monte de coisas, fui me aventurando pela dança, teatro, mexendo com as artes visuais, e que o tempo todo a literatura e a música estiveram comigo, até chegar à performance, à curadoria etc etc etc. Então, por respeito a essas pessoas, hoje: não vou contar isso tudo neste texto, de novo, aprofundando nos detalhes. Mas, vale dizer que: nesta lista, que vim aqui apresentar&#8230; cada detalhe conta.</p>
<p align="justify">Se o Cafú levou lá uns dez nãos, pra poder jogar num time&#8230; posso dizer que minha lista nisto então: é bem maior. Aqui cabe dizer que não sou muito de bater martelo em julgamento. Eu passo por histórias, sim&#8230; faço inferências, sinto, penso; intuo. Mas não gosto disso: sentenciar pessoas. Portanto, embora me pareça que Monk seja uma referência de humana ainda mais forte que de ótima artista: eu não tenho certeza. Não sou ninguém pra julgar a Zélia&#8230; suas necessidades reais, sua condição no mundo. Nem sei quem foi Van Gogh de fato – sua história nas minúcias&#8230; pra afirmar com segurança isso ou aquilo. Ou seja: não digo que foi mais fácil pro Cafú, que pra mim. No fundo eu só quero dizer que cada pessoa tem a sua história. E que, no máximo, só ela saberá o que significa. Cada poeta tem os seus poemas&#8230; por mais que – voltando à canção: não cansemos de nos plagiar.</p>
<p align="justify">Eu levei incontáveis nãos até aqui – ainda essa madrugada me veio um da China. Mas também sins, que foram me salvando e permitindo que a caminhada chegasse a esse ponto. Tenho ainda uma incômoda – trágica, cômica – coleção de segundos lugares e outros quases, na trave, que nem vou listar aqui.</p>
<p align="justify">São nãos de instituições, editais, classes, grupos, coletivos, categorias, pessoas. E nãos históricos, sociais, pesados pra mim e ainda muito menores que os nãos de tantas pessoas mais além de mim. Pessoas mais negras, pessoas mais pobres, pessoas mais mulheres&#8230; pessoas mais indígenas, mais estrangeiras, mais ciganas&#8230; uma lista muito grande de pessoas mais atingidas que eu, por nãos muito maiores e excludentes. Isso tudo reflete em nãos técnicos, econômicos; temporais. E daí tantos projetos impossíveis ainda; tanta coisa incompleta, interrompida&#8230;</p>
<p align="justify">Mas não é só isso. A vida não cabe nas coisas, de qualquer modo. Se um artista trabalha com a vida, ele vai sempre estar parindo, gerando; tecendo. Sempre correndo atrás da vida&#8230; e a vida atrás dele.</p>
<p align="justify">Veem? Eu achei que este texto teria só uma página, curta, falando sucinto dessa lista. E vejam aonde chegamos. E ainda não falei das circunstâncias da vida&#8230; Plantar uma horta pra se ter o que comer, ajudar no sustento, no orçamento&#8230; e o tempo de cuidar disso; ter um filho e não querer ser o pai que você teve, no sair às seis da manhã e voltar à meia-noite todo dia do trabalho; querer partilhar com a companheira o lavar das fraldas, das louças, o preparo da comida, o cuidado com a flor; estar ali quando seu filho disser a primeira palavra, quando der o primeiro passo, quando levar o primeiro tombo&#8230;</p>
<p align="justify">E mais ainda sem dizer que: se eu estiver feliz, minha casa estiver feliz, mas a minha comunidade de origem não&#8230; se a minha linhagem mestiça nos falsos enquadros das minorias também não, seja aqui ou em qualquer outra povoação, do planeta, não é possível que eu esteja plenamente feliz em minha casa. É preciso fazer arte por isso, tanto quanto.</p>
<p align="justify">Em suma: não falei de nada dessas coisas, nem ainda dessa pós-modernidade esmagadora. O Kali Yuga abismal em que estamos. Nem do quanto a Terra se adoeceu de nós, apresentando febre, diminuindo seus campos eletromagnéticos, pervertendo a alma do tempo que temos, até ele quase sumir de nós – embora os ponteiros ainda marquem o mesmo. Por todas essas razões, nossa demanda por projetos é gigantesca. No entanto: ainda somos muito limitados&#8230;</p>
<p align="justify">Mas enfim – deve ser a segunda vez que uso esta expressão; como fosse de fato concluir alguma coisa: por tudo isso – e por um amor impressionante que sinto pela vida – tenho me perdido entre projetos. Tentando me encontrar; dar passos no caminho. Às vezes espero, como outras tantas poetas – imagino – que alguma legitimidade venha de fora. Ou respaldo. Uma chancela, algum selo; a inserção desses projetos em alguma dessas listas&#8230; “oficiais”, importantes&#8230; pra que eles – e nós – possam(os) existir. Outras vezes esperamos mesmo que questões práticas – mais simples, mas também complexas – se organizem minimamente para isto; pra existirem. Seja como seja, nossos projetos de poesia estão sempre nessa condição ambígua; sempre de algum modo desafiadora.</p>
<div id="attachment_17590" style="width: 628px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://agenciasn.com.br/wp-content/uploads/2020/06/PARTILHAS_2.png"><img class="size-large wp-image-17590" src="http://agenciasn.com.br/wp-content/uploads/2020/06/PARTILHAS_2-1024x576.png" alt="Rafa Carvalho/Arquivo Pessoal" width="618" height="348" /></a><p class="wp-caption-text">Rafa Carvalho/Arquivo Pessoal</p></div>
<p align="justify">Pois bem&#8230; é como se este texto começasse aqui: eu tenho pesquisado muito as noções de legado, humano, que temos no mundo. Idéias de raiz e herança. Linhagem. Como também sempre gostei dos relicários. Junto essas tranqueiras, que muitos dizem assim&#8230; mas que pra mim importam muito; são de um imenso valor.</p>
<p align="justify">E nesta nova sessão, que começamos hoje – a 400 mil projetos: vou deixar um inventário.</p>
<p align="justify">Sinceramente, não sei quanto tempo mais eu sobrevivo&#8230; na vida ou na arte. E morra onde morrer, não quero ficar com tudo isso só pra mim. Mesmo que pra muita gente isso tudo não signifique nada. Se o poeta é um ser do mundo, e elabora a inutilidade das coisas, é questão de inutilidade pública que sua produção esteja disponível. Como compositor, tentei contar quantas canções já tenho feitas nesses 16 anos&#8230; a primeira assim mais consciente que eu me lembre foi aos 18, morando na Dinamarca; um sambinha chamado “joão de barro”&#8230; e parei quando cheguei nas 50. A maioria dessas nunca foi ouvida por ninguém, nunca saíram da gaveta. Algumas na verdade sequer foram pra ela; seguem apenas na caixola. E esses dias comecei por gravá-las, aqui em casa, uma a uma&#8230; à capela, batucando objetos, arranhando o violão, num pandeiro ou tambor. Duas delas já foram pro ar e a idéia é seguir publicando tudo. Deixá-las no mundo. Às vezes alguém pode querer gravar, ou aprender pra tocar numa rodinha&#8230; Uma bailarina uma vez transformou um vídeo caseiro meu tocando “o fabuloso fim de semana de amélias, amoras e eus” com o Diogo Nazareth em mp3, anos atrás, e saiu ouvindo isso por São Paulo, colorindo os cinzas. Uma poeta ouviu “pitanga” ao pé do ouvido numa tarde de papos à toa e anos depois me gravou uma mensagem cantando ela inteirinha de cor. Outra vez Laura, uma criança de Valinhos – que me viu cantando na praça com sua tia – começou a ouvir a “nina” pra dormir todas às noites. E “véia” – uma dessas duas que já publiquei – foi chegar lá na Polônia, sabe-se lá como, pro bebê Orionas ouvir&#8230; e se acalmar. De repente uma música dessas faz parte da vida de alguém que não sei&#8230; e eu não posso impedir que elas se encontrem. Na verdade o artista talvez devesse viver – e morrer – pelo contrário deste impedimento: liberdade; e permissão.</p>
<p align="justify">Mas enfim – esta é a terceira vez em vão que uso isso: assim como comecei a fazer com as canções, composições minhas ou, como prefiro, que passaram por minha mediação pra se aterrarem aqui, entre nós&#8230; nesta sessão, vou trazendo, um a um, todos os projetos que lembrar.</p>
<p align="justify">Coisas que criei há muito tempo, outras mais recentes. Algumas que vêm sendo desenvolvidas faz anos. Outras em que ainda devo principiar. Um inventário mesmo. Uma lista – só que do tipo que eu gosto, horizontal, tranquila; sem prioridades&#8230; Arquivo, cardápio; catálogo. Como preferirem. Faço isso como mecanismo de sobrevivência pra mim; como os poemas de gaveta lá do início. E faço isso como meu filho, também: de mim pra mim, mas sempre buscando a partilha. Tendo vocês como referência, dando enquanto tenho, recebendo; apresentando; e assistindo.</p>
<p align="justify">Importa dizer aqui que, pra mim, os projetos nunca são acabados, nunca terminam totalmente. E da mesma forma: eles nunca começam senão que&#8230; sempre foram. Em outras palavras: tudo é processo. Tudo é em curso; fluxo e trabalho. O tal do work in progress, que acostumamos falar em inglês. Emprego de energia; movimento. Compromisso. Na arte e na vida. É um pouco assim que eu vejo. Que encaro meus fazeres vitais&#8230; artísticos. E é assim que experimento meus projetos, como os que trago aqui, nesta sessão.</p>
<p align="justify">Ninguém é obrigado a contar a minha história. Mas eu posso. Ninguém foi obrigado a cuidar do Van Gogh, ou seria de mim; mas nós devemos nos cuidar. Ninguém tem obrigação de entender a arte da Meredith Monk. Mas ela – e nós – pode(mos) tentar.</p>
<p align="justify">Eu&#8230; que amo as histórias das outras pessoas, que as busco como sendo também minhas, que reparo nelas com a atenção que meu filho tem ao reparar em mim&#8230; que trago pra minha literatura muito disso, sobretudo pensando nas histórias que não são contadas por quem se administra nesse posto de contar a História – pretensiosamente singular e maiúscula&#8230; que tento fazer assim uma literatura cada vez mais nossa&#8230; me permito: aqui neste espaço, de ensaio, memória biográfica e autoficção, retrilhar com quem quiser os caminhos que trouxeram ao que hoje sinto por vida; e arte. Como cheguei nessa noção prática, alheia às teorias antes inacessíveis em meu processo&#8230; criada fora das formalidades, na ausência de livros, referências dentro dos padrões. Como foi chegar a uma noção de arte, contemporânea e perene, sem passar por salas e salões reconhecidos, vindo desta precariedade que acomete muitos; mas que também é a nossa riqueza: como é ter mestres literários que são analfabetos, nunca foram à escola ou a largaram logo no primário, que nunca lançaram livro&#8230; Como é a sua inspiração de moda vir da costureira do bairro, seu elogio do canto vir da alma da voz&#8230; sua referência de artista vir de artistas que possam ser também – e principalmente – referências de pessoa, humana, e de como podemos – e precisamos – coletivamente ser neste mundo.</p>
<p align="justify">Então é mais ou menos isso&#8230; No meio de um texto outro aqui, uma carta nova lá, um poema, uma crônica&#8230; vou enchendo esta sessão com meus 400 mil projetos ou mais. Ou menos. E vocês sejam bem-vindas. Eu sei o quanto soo autorreferente quase sempre. Sei dos riscos que isso representa. Mas no fundo, tudo o que eu quero: é partilha. Dar o que tenho; ter o que nosso. Nós temos nossas experiências; nossa solidão. Temos também a demanda do encontro.</p>
<p align="justify">Foi isso que eu sempre trouxe pra cá. É isso o que eu sempre quero quando me atrevo a algo novo, se me lanço num projeto&#8230; É isso, portanto, que vai ter também nesta sessão; juntando tudo.</p>
<p align="justify">E aproveitando: se você é uma pessoa dessas, amiga, que por amor lê essas tranqueiras minhas&#8230; valeu demais. Mas se ao invés disso você for uma dessas, que eu ainda não conheço, mas que está por aqui, lendo&#8230; valeu demais também.</p>
<p align="justify">Vivo querendo esse mundo onde a gente se reconheça. E fico feliz pra caramba quando vendo um livro meu, compreensivelmente&#8230; é a chance de pagar um pedaço de conta, botar algum tanto na mesa, do sustento. Mas quando alguém aparece pra contar qual seu personagem favorito do meu livro, ou pra dizer que meu texto é imaturo trazendo-me maduros argumentos que me ajudem a crescer. Quando alguém vem contar uma história sua, confiando em mim, movendo-se por algum projeto meu. Se vejo o vídeo de uma criança lá longe curtindo uma musiquinha minha mal gravada, em casa&#8230; sendo feliz. Se uma menina que foi abusada pelo avô, ficando em silêncio completo, traumático, por meses, volta a falar bem numa atividade que medio em sua escola. Ou se deparo com alguém me confessando, que desconsiderou suicidar-se depois de um texto meu; que vem se curando das depressões ao passo em que avançamos juntos na conversa&#8230; aí não é sobre pagar uma conta, comprar comida: é sobre sentir que a vida tem valido a pena. Porque eu enfrento essas coisas todas aqui também&#8230; Como acredito que enfrentem todas as pessoas: as poetas, as artistas, as famosas, premiadas, as presentes nas listas importantes, cheias de seguidores e curtidas; todas.</p>
<p align="justify">Mas assim, ao menos&#8230; sinto que vou andando junto com quem leio. E com quem me lê.</p>
<p align="justify">Veem? No final, é só um jeito de estar junto. E partilhar o que se sente.</p>
<p align="justify">Enfim – ainda sem concluir, mas pra acabar: pra vocês dez, onze pessoas – até uma dúzia, quem sabe&#8230; e pra toda posteridade, vêm aí: 400 mil projetos.</p>
</div>
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		<title>FELIZ DIA DAS NAMORADAS!</title>
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		<pubDate>Fri, 12 Jun 2020 16:59:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Rafa Carvalho]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Rafa Carvalho Esta semana foi uma loucura. Caos, correria; e um ataque súbito de borboletas. É duro ter que lutar com borboletas. Mas precisamos colher dessa horta; parte importante do nosso sustento após a pandemia deve depender disso. E as borboletas, coitadas&#8230; também: só querem viver. Elas não pensam coisas como: vou destruir esta ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p align="justify"><strong>Por Rafa Carvalho</strong></p>
<p align="justify">Esta semana foi uma loucura. Caos, correria; e um ataque súbito de borboletas.</p>
<p align="justify">É duro ter que lutar com borboletas. Mas precisamos colher dessa horta; parte importante do nosso sustento após a pandemia deve depender disso. E as borboletas, coitadas&#8230; também: só querem viver.</p>
<p align="justify">Elas não pensam coisas como: vou destruir esta lavoura familiar e acabar com seus humanos. Apenas fazem aquilo que nós também fazemos: transam, têm filhas; e querem que elas tenham abrigo, comida; futuro.</p>
<p align="justify">Ou seja: queremos as mesmas coisas. Mas a confluência de nossas demandas termina não sendo assim tão simples nem harmoniosa.</p>
<p align="justify">Sinto que é assim, também, com as pessoas que namoram.</p>
<p align="justify">O relacionamento amoroso humano este, romântico, das paixões enlouquecidas&#8230; que lota com borboletas a barriga&#8230; é sempre fundamental na vida das pessoas. Não posso dizer que fui virar poeta por qualquer outro motivo. Na época, não pensava em paz mundial, na unidade da América Latina, nem nos crimes do primeiro mundo contra a Somália; os frutos vis do preconceito, injustiça social, a ferida aberta das fronteiras&#8230; não conhecia ainda o som perturbador das madrugadas, a vida adiante com suas nostalgias profundas; minhas utopias maiores.</p>
<p align="justify">Pensava só nas bochechas de Patrícia. Nos óculos de lentes grossas em Jóice. Nos peitinhos da Suélen.</p>
<p align="justify">Mas este amor, afinal, carrega as sementes do mundo. Não só pelos novos humanos que nascem, dos encontros amorosos&#8230; senão por conterem em si a essência da dualidade terrena. Nada mais egoísta que amar alguém&#8230; assim, querendo pra si, a partir do próprio desejo desperto. Só que também: nada mais altruísta que isso, ao mesmo tempo&#8230; num fazer do mundo de outro, o seu.</p>
<p align="justify">Fica estabelecido assim: o desafio de nós. Faz tempo que sinto não se tratar de sermos egoístas ou altruístas, mas sim ambos o tempo todo. É um convite ao tal do paradoxo que os cartesianos detestam&#8230; àquele Tao do yin yang. Chamo de nobisismo. Um termo que cunhei na faculdade – era pro meu TCC&#8230; mas que ninguém aparentemente deu bola.</p>
<p align="justify">Nobisismo vem de nobis, nós em latim. Unindo o ego, ao alter.</p>
<p align="justify">Parece simples, talvez óbvio&#8230; mas não é. Unir os humanos aqui de casa, com essas borboletas&#8230; Reparem que a idéia de nós não é absoluta. Pois criamos logo outra idéia para eles. E ficamos: nós; e eles&#8230; Só bem acima desta outra dualidade, enfim, poderá existir um nós maior; transcendido. Sinto que muitos de nossos problemas hoje derivam disto; mas esta, é “outra” história&#8230;</p>
<p align="justify">A coisa aqui é que: assim como nós aqui em casa e as borboletas pela horta, é complexo unir duas pessoas que se querem. Estes relacionamentos, que nos incitam a celebrar pelos dozes de junho no Brasil, ou nos quatorzes de fevereiro noutras partes deste mundo, são a raiz exponencial da nossa universalidade&#8230; O sinal do infinito em nossas almas.</p>
<p align="justify">Por isso é que Freud explica tudo a partir disto. A mente humana é parte de uma inteligência maior. Fragmento: correm por nossas artérias minérios de estrelas muito distantes. E o primeiro passo dessa reintegração de nossas almas, assim, é amar alguém. Se apaixonar&#8230; sentir-se atraído por outra pessoa; além de nós. Num magnetismo dos amálgamas que se buscam, por um dia terem sido já cisão.</p>
<p align="justify">Isto demonstra a importância do tema. Daí a maioria esmagadora das canções populares de sucesso falar deste amor&#8230; suas dores, separações, vontades, tesões, retornos, tensões, traições, alegrias, resistências, êxitos, sonhos, fracassos, ilusões, frustrações, cotidianos, delírios, loucuras e esperanças. Às vezes surge outro mote relevante, como o da ostentação, por exemplo. Mas vejam que: por trás da ostentação, também está a falta e a necessidade do outro.</p>
<p align="justify">Por isso as novelas são sobre isto. E os filmes de sessão da tarde. E também os filmes cult, de arte. Por isso todos os seriados, independendo do tema, trazem histórias de amor como concorrentes. O tema dentro dos temas. Por isso os livros, a poesia, o teatro, o circo. Por isso as artes visuais e a tentativa da arte pra todos os sentidos. Por isso a vida inteira sendo erótica.</p>
<p align="justify">Todos os pais das correntes da psicologia moderna se encontram neste amor. Todos os filósofos. Todos os autoritários, totalitaristas, genocidas. Todos os tiranos e os sacerdotes. Uma das coisas que faz deste papa Francisco um líder tão especial, por exemplo, deve ser esse amor latente, passado e presente que carrega. Até o papa se apaixona. Os mais fervorosos espiritualistas e os ateus. A direita, a esquerda. Comunistas ou neoliberais. Todo o mundo se move por isso.</p>
<p align="justify">Quando o presente de alguém não se aquece por estes sentimentos, é sempre porque no passado, algo terrível dentro disto aconteceu. Logo, este amor continua sendo um determinante para tudo.</p>
<p align="justify">São espelhos. Relacionamentos amorosos humanos, românticos, passionais: são espelhos. Muito próximos e detalhistas. Ali vemos quem somos. E nos incomodamos profundamente com isso. Por isso nas relações heterossexuais há tanta violência contra a mulher, tanto feminicídio. O homem vê nela o espelho. Este espelho revela a mentira que sustentou séculos de patriarcado injustamente. O homem fica entre assumir o seu reflexo, amar-se frágil, expor carências, pedir ajuda, chorar de desespero, pedir socorro, aceitar fraquezas; ou quebrar o espelho. E às vezes a relação acaba no mundo físico, por isso, mas ainda existe a relação mental: o espelho segue lá. Essa trama acaba estimulando as medidas mais desmedidas, tantas vezes. Algo como a morte do outro; da outra. Algo absurdo e que, afinal, nada adianta pois: aquele outro está no eu.</p>
<p align="justify">O espelho não se quebra; porque ele é nosso. Está em nós. O que vemos no outro é só o reflexo do nosso próprio espelho em outro espelho, de alguém. Por isso Aldir Blanc – que a Poesia lhe tenha num bom lugar – foi tão preciso em “A nível de&#8230;”, outra de suas tantas parcerias com João Bosco. Não adianta culpar os homens por tudo; e se relacionar só com mulheres. Nem o contrário disso adiantaria. Não adianta negar os pobres, as que não têm faculdade, carteira assinada, os que já têm filhos, as divorciadas, os mais novos, as católicas, os que não acreditam em astrologia, as de capricórnio, os corintianos, as que bebem e caem, o Pedro, a Virgínia, a Yolanda, o Odilon. Não adianta pois seremos sempre nós a nossa própria questão.</p>
<p align="justify">Eu preciso estar bem comigo, para poder estar bem com outro. Eu preciso estar bem com outro, para podermos estarmos bem. Aquela coisa de ego, alter&#8230; nobis. Necessariamente nesta ordem. Portanto essa paixão louca, a atração por alguém: nos levam num primeiro passo ao sentido do universo&#8230; desse nós maior. A um outro amor ainda maior que esse, transcendido&#8230; sentido de uma real idéia de religião; algo que nos leve até as estrelas na mútua atração de nossos minerais. Esta viagem longuíssima&#8230; em que no entanto fracassamos já: logo no primeiro passo para além de si.</p>
<p align="justify">Fiquei pensando ontem que, talvez, o beijo na boca da maioria das pessoas piore com o tempo. Ao invés de melhorar, como as mãos da artesã, os beijos pioram. Isso deve ter alguma coisa a ver com o Leminski dizendo do quanto é fácil ser-se um poeta adolescente; mas difícil o seguir sendo aos 22, 25&#8230; 40 anos.</p>
<p align="justify">Eu mesmo me desencantei muito pela vida. Algo que não sei o quê, secou minhas lágrimas. Não acho mais o menino chorão que fui&#8230; nos filmes, novelas de mãe, subidas do tom nas canções da Disney; nos pagodes da 105. Eu que já fiz tanto malabarismo nas paixões&#8230; fui parando de escrever minhas cartas, de espalhar bilhetes pela casa, de encantar detalhes, fazendo as pequenas magias que tornam a vida grande.</p>
<p align="justify">Acho que fiquei consciente o bastante deste espelho meu&#8230; a ponto de ter muito trabalho comigo mesmo; e de não mais culpar o espelho em ninguém. E isso cansa. Ao mesmo tempo, sinto que não é tão simples achar quem partilhe essas coisas nesse nível. Não importando se Adelina está com Odilon; ou com Yolanda.</p>
<p align="justify">E também eu devo ser um namorado chato pra Carvalho&#8230; me perdoem o trocadilho. Mas vocês não têm paciência de ler um texto por semana meu, com esse monte de ponto com nó, que eu dou, costurando os retalhos em tudo e é rede é ponte é no entanto&#8230; agora pensem conviver com um cara assim o tempo todo. Eu pareço um velho desde os meus três anos. Ou menos. Fora o utópico, louco; tudo&#8230;</p>
<p align="justify">No entanto não estou aqui para falar de mim, mas de nós. Apesar de que, vejam: tudo o que disse até agora demonstra o quanto acredito na importância de falar de si pra se chegar ao outro e, conseguintemente&#8230; a nós.</p>
<p align="justify">Mesmo assim: é dia dos namorados.</p>
<p align="justify">E se você tá até uma hora dessas procurando pelo título do texto, saiba que é apenas isto. Ando um pouco cansado deste masculino se sobressaltando em tudo: nós, os homens, também podemos estar representados no plural feminino. Assim: namoradas somos todas. E também porque o amor humano, o romance, a paixão: não deve ser só normativo. O amor pode ser tudo, por dever ser livre. Até pra se prender, se quiser. Como fazem aqueles casais com os cadeados pelas pontes.</p>
<p align="justify">Eu não acho graça nisso; nessas alianças&#8230; E não tenho o menor apego a essas datas. Talvez aqui, mais uma chatice minha. Mas sintam comigo: o amor pode ser tudo, menos uma coisa. O amor só não pode ser o desamor. E este é o grande mistério de Aldir, João, Vanderley, Odilon, Yolanda, Adelina – e de nós todos – em “A nível de&#8230;”.</p>
<p align="justify">Agora voltando a falar um pouco de mim, pra ver se consigo refletir alguma coisa; pra ver se alcanço algo de nós: sou libriano – e muitas pessoas já não quiseram namorar comigo por conta disso – e como tal, tenho um certo gosto em namorar com tudo. Se já fiz muita merda por causa disso? Opa se já. Mas as merdas fazem parte. Muito embora isso não queira dizer que devamos ser irresponsáveis e inconsequentes com as pessoas. Nem que não devamos assumir as merdas que fazemos. É todo o contrário. Precisamos assumir sim; e aceitar. Afinal, o caminhar humano se faz disso. Por isso talvez estejamos há milênios empacados no primeiro passo: não aceitamos nossa humanidade; logo, sendo humanos, temos problemas ao lidar com espelhos; e tendo problemas com esses espelhos – sejam no eu ou no outro – não conseguimos amá-los; não amando-os, o que se reflete&#8230; é o desamor. Pronto: está armado o barraco. Ou: tá formada a quadrilha&#8230; pra lembrar deste junho pandêmico sem festa junina, quermesse; e também do querido Drummond.</p>
<p align="justify">Mas por falar de novo em pandemia, por isso achei importante um texto de dia dos namorados nesta quarentena. Estamos muito sós. Sós em vários sentidos. Mas como estamos juntos nisso de alguma forma – reunidos nesta experiência da nossa solidão&#8230; talvez haja aqui alguma oportunidade.</p>
<p align="justify">Logo, o que quero dizer é: não importa se você é libriana ou não; se acredita em astrologia ou não; se já fez muita merda na vida ou não (embora eu duvide ser possível aqui o: ou não); e mesmo que você já se tenha magoado muito também com o amor, as paixões, os romances (quem não?); estando sozinho ou acompanhado; seja com Vanderley ou Yolanda (ou com quem for); tendo você 15, 22, 25 ou 40 anos (ou mais&#8230; ou menos)&#8230; digo: seja você quem for e não importando nada mais que isso: Namore.</p>
<p align="justify">Namore muito. Tudo que puder. Paquere. Curta-se, compartilhe-se&#8230; mas sem a demanda de negar seus espelhos pra isso. Faça as coisas de verdade. Tenha a pachorra de lavar um raminho de alecrim para enfeitar o prato requentado de anteontem, a comida congelada da semana. Dê uma dançadinha nos trajetos quintal-cozinha, cozinha-quintal, ao longo dos dias; das tarefas. Cante no banho; toque-se no banho. Flerte com a caneca do chá, àquela blusa velha gostosa, o sofá que tem a forma do corpo. Enfim&#8230; a lista que um poeta pode dar aqui seria imensa. Mas esqueçamos das listas. Faça suas próprias coisas, com seu próprios jeitos, traquejos. Ame-se. E tente se apaixonar por hoje, pelas suas possibilidades no hoje. Daí, se estiver com alguém então: partilhe disso.</p>
<p align="justify">Os espelhos sempre vão mostrar também as feiuras: pois somos também feios. Estamos neste mundo dual, somos humanos&#8230; maravilhosos e terríveis. Ame as feiuras. Suas e do outro. Brigue com elas – às do outro mas, principalmente, às suas – mas brigue com dignidade. Não quebre os espelhos, ame-os – os seus e os dos outros. Não se afogue na lagoa de Narciso – isto já seria outra coisa; não confunda. Mergulhe antes fundo em si mesmo. Encontre-se lá com tudo. Aprenda a nadar, não se afogue. Nem se afobe, não&#8230; pra lembrar Chico&#8230; que os amores: serão sempre amáveis.</p>
<p align="justify">Sejamos nós. Além dos nós, dos outros&#8230;</p>
<p align="justify">Mas os conflitos também serão sempre conflitantes. Devemos estar íntimos deste processo. Você terá problemas com Vanderley, com Adelina, com o que seja&#8230; um pet, um pai, a mãe, algum perfil de rede social, uma idéia&#8230; qualquer coisa. Pois em suma: você tem problemas com você.</p>
<p align="justify">Contudo estamos aqui. Numa experiência única: pessoal e totalmente coletiva. Como sempre, esses meus textos, não resolvem muita coisa. Entretanto, só pra não deixar passar, assim&#8230; “a nível de proposta”: não aceite as flores da barbárie e da selvageria deste estágio perverso do capitalismo: ele só quer nos comer.</p>
<p align="justify">E principalmente: namore-se. Se você estiver solteira agora, esta é melhor coisa que você pode fazer por você. Se estiver com alguém: esta é melhor coisa que você pode fazer por vocês. E se estiver neste mundo, como eu: não há nada melhor ou mais urgente que isso: pessoas se amando, para poderem amar a outras; formando nós que podem amar a outros, todos eles, até sermos todas nós.</p>
<p align="justify">Imaginem o que podemos refletir, juntando tudo isso&#8230;</p>
<p align="justify">Feliz dia das namoradas!</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>PROTEGER A ESPERANÇA</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Jun 2020 20:22:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Rafa Carvalho]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Rafa Carvalho Depois de uma série de cartas escritas aqui, para nomes populares de vivos quase inalcançáveis como o Papa Francisco e Lula, de mortos importantes como Hilda Hilst e Friedrich Nietzsche, de anônimos mais ou menos tangíveis como sua mãe, todos seus amores dessa vida reunidos ou um bebê polonês de apenas um ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Rafa Carvalho</strong></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif"><i>Depois de uma série de cartas escritas aqui, para nomes populares de vivos quase inalcançáveis como o Papa Francisco e Lula, de mortos importantes como Hilda Hilst e Friedrich Nietzsche, de anônimos mais ou menos tangíveis como sua mãe, todos seus amores dessa vida reunidos ou um bebê polonês de apenas um ano que assiste de lá, nas margens do Báltico, aos vídeos musicais de Rafa, nosso colunista retorna hoje aos seus quase ensaios; um tipo de texto difícil de definir em que nos fala de tempo, pressa, dificuldades&#8230; e da urgência de, neste momento e sempre: protegermos a esperança. Neste tipo de texto de Rafa que, pensando bem: é sempre um pouco uma carta pra si mesmo; ao mesmo tempo em que é uma carta a cada uma das pessoas leitoras.</i></span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif"></p>
<p>A sexta-feira desperta sem calças sob as cobertas; como quem conseguiu fazer amor na madrugada mas não teve forças pra se revestir. O relógio faz com o que levantar seja abrupto – pra não acordar o bebê; enquanto lá fora o Sol ainda vai se levantando de um modo muito mais lógico e coerente que esse meu. No entanto, parece não será um dia fácil para o Sol&#8230; tão pouco. Não dá tempo de fazer um chá. E preciso vestir branco. É sexta-feira. Há liturgias importantes atrasando na semana. Devo regar a horta, o jardim. Precisamos colher essas verduras pra comermos. Precisamos da beleza da colônia e do crisântemo; da flor e do sumo do boldo. E ainda hoje, sem falta, plantar este agrião; mexer na compostagem; checar o que anda carcomendo o basilicão.</span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif">Trato com vinagre os caquis que ganhamos ontem, quando fomos doar agasalhos. Trouxemos também mudas de mirra; e de malva. O filho ainda dorme: pausa para admirar sua ternura. Aquilo é o café da manhã que ainda não pude. Tenho fome. É que ando jejuando às segundas e quintas: faço isto para pôr-me à prova, treinar o foco, a disciplina; e também economizar o alimento da dispensa. Acordo faminto nas terças e sextas depois. É preciso dominar o exagero. De fome, tristeza; e do desespero.</span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif">É dia de minha coluna na ASN. Não tenho nada pronto nem pensado. Estas últimas semanas voaram depressa. Às dez preciso levar cuidados à minha mãe. Precisamos passar nos correios antes, dedicar e embalar os livros. Escrever impresso normal registro módico fechamento autorizado pode ser aberto pela ECT uns pares de vezes. Concentrar no CEP que erro tanto.</span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif">A criança acorda.</span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif">Agora devo preparar o leite, abraçá-lo muito – é corriqueiro acordar cheio de saudades, mesmo que durmamos lado a lado. Quero debulhar a romã que colhi pra ele, mas demora. Penso em Miguel. Escreveria uma carta pra ele, nesta série – que talvez se interrompa hoje, pois: não consigo. De um tempo pra cá, comecei a dizer o nome dos mortos recentes&#8230; Olga, Aldir, João Pedro, George e tantos outros&#8230; como acabei de pronunciá-lo por último: Miguel. Não tinha este costume: acho que, se os chamamos, eles ficam confusos entre o olhar pra trás, pra nós; e o seguir em frente&#8230; para seja lá o que for que, espero, seja melhor que isso aqui.</span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif">Mas estas mortes têm me pego de surpresa. Não que o fascismo me surpreenda ainda existindo e tão multiplicado; não que o panorama político atual do país apresente qualquer novidade; nem que o sistema econômico que nos rege cause ainda algum susto quanto à crueldade – nossa – que ele atiça. Só que estou cansado&#8230; Desse joelho na garganta, dessas balas; dessa queda nada livre a que constantemente alguns humanos submetem os humanos.</span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif">Escreverei então uma carta à Sarí Gaspar Côrte Real, assassina de Miguel e representante de uma classe responsável por milhões de assassinatos pelo mundo – para não dizer que, direta ou indiretamente: todos. Mas também não. Por mais que nos despertem raiva, ainda sinto pena dessa gente que ainda por cima não ouve. Não há fiança que liberte alguém de apoiar a cabeça em qualquer travesseiro, com a certeza de se ter matado uma criança. De propósito; por pouco caso e distrato. Tenho pena do futuro dessas almas nesse mundo que dá voltas. E de como somos tão facilmente enganados; por ganâncias, falsos méritos e a ilusão de não sermos uma raça e família únicas. De, no limite: sermos parte de uma única Vida.</span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif">Ainda essas mortes incontáveis, a esta altura fatalmente mais de 35 mil. Lembrando que esse número oficial não chega perto do que devam ser os reais números de um país em tanto desgoverno. Mortes inomináveis pela quantidade absurda, mas não por cada uma dessas pessoas mortas não terem nome, história e família. Escreveria uma carta a cada uma delas, cada parente, cada amigo. Mas também não. Não posso. Não dá.</span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif">E se eu fizer então silêncio, como o do #blackouttueday, e não postar nada na coluna hoje? Também não; prometi pra mim mesmo não perder mais uma sexta e, ainda: precisamos seguir posicionados. Mesmo que ninguém veja; que não haja tempo para ler.</span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif">Meu filho chora. Ele quer presença. Que passeemos juntos pela quadra; ver o galo, os gatos, passarinhos. Quer ver as flores e cheirar a pimenta-da-jamaica. Ele quer tomar a bença da santa no quadro ao corredor, botando a mãozinha no coração dela como sempre faz. Quer bater comigo o tambor, cantar o xirê que ainda não cantamos hoje.</span></span></p>
<p align="justify">Também eu quero tudo isso. Vê-lo crescendo antes que seja tarde demais – vai tudo tão rápido. Quero ver os filmes de minha lista com Sa; ler os livros duma pilha empacada que tenho das próximas leituras tantas. Tenho que fazer exercícios a manter minha lombar sadia, limpar a caixa d’água; comprar uma resistência reserva pro chuveiro – é péssimo quando a resistência queima nessas épocas.</p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif">Falta tratar aquelas fotos, cortas as pontas dos cabelos, ajeitar a barba. Mandar o conto pra revista, responder a umas 60 mensagens de whatsapp, atualizar uns 15 grupos, mais sei lá quantos e-mails importantes e o messenger do Facebook. Tem que manter as redes ativas, aprovar o vídeo, retomar aquele projeto de identidade, encaminhar o disco, o CADúnico da mãe, o benefício do irmão; fazer as contas para o mês – recalcular as médias e saber quantos meses ainda temos de sobrevida. Torcer pras abóboras crescerem antes. Insistir na venda dos livros. Escapar daquele golpe pelo celular.</span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif">As roupas no varal: dizem que pode chover. Mais fraldas pra lavar, ligar pra tia, lembrar do aniversário de Toinho. Responder o pai, acompanhar as pessoas da comunidade, lembrar de manter a postura, beber água, ler as matérias pendentes, dar aquele feedback pro Will, ver a live sobre curadoria de arte contemporânea e umas três outras de artistas queridos que passaram com pressa demais: fazer carinho na barriga da mulher; cantar para a nova criança.</span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif">Não assistir o jornal. Não ler as matérias. Não ler as postagens. Sair por um tempo das redes sociais. Mas tem que arranjar algum trabalho. Seguir com os planos, o desenvolvimento das coisas, da carreira. Encomendar a cesta dos pequenos produtores, as compras para retirar no mercado. Meu Deus tá tudo tão caro e não tem dinheiro entrando. Desvendar como fazer que a partilha chegue, atingir as pessoas; sentir que este papel social de artista, educador, pensante: faz qualquer sentido&#8230; que possa fazer a diferença. Ainda crer que vale a pena, lembrar de Orionas, das mensagens que às vezes chegam; das pessoas a quem estes caminhos se fazem importantes. Das cartas – bem poucas – que chegam ao seus destinos; daquelas – bem menos ainda – que voltam com o mesmo amor.</span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif">E não desistir. Enquanto vivo, não desistir. E mesmo morto, seguir resistindo: reexistência. Não abandonar o mundo. Proteger a esperança, Rafa: não deixe nunca de proteger a esperança. É hipocrisia gerar mais essa criança se sua fé acabar. Olhe pro Fé aí, nascido, acordado&#8230; com sede de mundo. Lembre de quem você era, com um ano. Lembre de quem veio antes de si, do que foram; do que você vem tentando ser: e de tudo que seu filho pode ainda. De tudo o que podem as crianças. Que precisamos proteger. Pra que não sejam mortas, assassinadas. Pra que não seja morta e assassinada a esperança.</span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif">Os ipês não desistiram de nós. Não desistamos ainda. Queiramos justiça sim. Uma justiça profunda, sobre-humana. E dos humanos desejemos consciência; vamos sonhar com sermos coerentes e, pela coerência, vamos trazer nossos sonhos às práticas&#8230; com tentativas, com erros: mas sem mentiras.</span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif">Volta e meia me ocupo em casa do que vamos comer daqui um tempo. E ainda hoje me dói o pensamento – sem solução completa – naqueles que já agora não têm do que se alimentar, ou agasalho, teto, toda forma mínima de sustento, direito humano a decência; e a dignidade. Muito também me angustia pensar na saúde mental de todas nós. Um nós total: que envolva quem de nós sofre com o assassinato da criança; e quem de nós a assassina. Quem entra com o pescoço; e quem entra com o joelho. Quem aperta o gatilho. E quem explode o coração&#8230; nesta destorcida e turva história humana até então.</span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif">Somos tantos cegos, tantos surdos; tantos mudos. Tantos impedidos de sentir o sabor das coisas; o tato: tantos mortos. Tantos&#8230; que vivos, têm aberto mão da Vida. Tantas vezes em troca de coisas tão vis&#8230;</p>
<p>Meu filho chora. Não faz mas sentido eu sentar aqui para escrever. Não posso me concentrar. É sexta-feira e há muito pra fazer. Meu filho chora. Visto branco. Meu papel de artista precisa começar com meu esforço para ser no mundo. Com coerência, consciente e: protegendo a esperança.</p>
<p>Há beleza no mundo, gente. Nós podemos.</span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif">Talvez o texto não tenha ficado bom, talvez contenha erros; não vai dar pra revisar&#8230; de novo. Mas prefiro assim: que seja um texto real, feito por humano real, num dia real de um tempo real que mais se parece a um surrealismo terrível&#8230; desse mundo real que ainda pode estar grávido de outro, tão real quanto, mas&#8230; que como Fé, meu filho: tenha o dom de carregar consigo todos os idealismos e utopias&#8230; até muito mais que um poeta muito dedicado pôde imaginar.</span></span></p>
<p align="justify"><span style="color: #000000"><span style="font-family: 'Liberation Serif', serif">Falta a foto. Vou pro quintal agora e bater uma do céu como ele está. Talvez não saia o Sol. Mas, nesta sexta, fundamental também será não esquecer: há de brilhar mais uma vez.</span></span></p>
<div class="yj6qo ajU"></div>
<p align="justify">
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Carta #07</title>
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		<pubDate>Fri, 29 May 2020 19:23:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Rafa Carvalho]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Rafa Carvalho Orionas, querido. É a primeira vez que revelo o nome do destinatário, nesta série de cartas que escrevo, assim: tão depressa. Porém, ninguém que porventura leia esta carta – que é sua, mas também aberta, pública – saberá quem você é. A menos que contemos. Queria hoje lhe escrever uma carta cheia ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Rafa Carvalho</strong></p>
<p align="justify">Orionas, querido. É a primeira vez que revelo o nome do destinatário, nesta série de cartas que escrevo, assim: tão depressa. Porém, ninguém que porventura leia esta carta – que é sua, mas também aberta, pública – saberá quem você é. A menos que contemos.</p>
<p align="justify">Queria hoje lhe escrever uma carta cheia de futuro&#8230; ou mesmo: de presente. Mas devo fracassar, meu querido. Em poucos dias estaríamos nos conhecendo pessoalmente se não fosse a quarentena, a pandemia. Há poucos dias, a polícia assassinou uma criança aqui no Brasil. Negra; linda. Seu nome, Orionas, era e é: João Pedro. Ele estava já bem maior do que você, sabe? Mas ainda era só um menino&#8230; Outra criança.</p>
<p align="justify">Há menos dias o ex-curador de um prêmio literário nacional – que é tido como o mais importante – negaceou as tantas mortes por Covid-19 em nosso país. Ele também debochava das pessoas na fila para um auxílio emergencial do governo neste momento, Orionas, de 600 reais a cada uma&#8230; mais ou menos 450 <span style="color: #222222">Złotys. E falava sobre um outro abuso: exibindo seu poder de dizer sim ou não para livros e escritores, escritoras&#8230; de um jeito parcial demais. Sabe? Projetando sua pessoa acima de outras&#8230;</span></p>
<p align="justify">E há menos dias ainda, Orionas, a polícia americana assassinou George Floyd. Um homem lindo; negro como o João Pedro. O policial ficou por cima dele, apertando seu pescoço com o joelho até à morte. Pessoas em Mineápolis, sua cidade, estão queimando muitas construções; em protestos. Na cidade de João Pedro, porém, nada se queimou ainda.</p>
<p align="justify">Lamento que fatos assim manchem esta carta, querido. Mas confesso que quase deixei de lhe escrever esta semana, por conta destes dentre outros fatos. Sinto ser – provavelmente – o primeiro a lhe informar que&#8230; nosso mundo não é perfeito. Ironicamente, isso gera coisas ótimas, às vezes&#8230; como o cinema vívido de seu país. Contudo – é triste: injustiças, como as três que lhe conto, são produzidas em muito maior velocidade – e eficiência – que as artes que possamos desenvolver no contraponto.</p>
<p align="justify">A polícia, Orionas, em qualquer lugar do mundo&#8230; deveria servir à comunidade. Mas estranhamente, em tantos lugares, parece persegui-la e estar em guerra com ela. Os livros, meu querido, deveriam ser lidos. Só que tantas vezes: não são. Tão pouco são julgados pela capa – o que sem deixar de ser injusto, já seria alguma coisa. Depois que um francês inventou um troço chamado cartesianismo, muitas pessoas morreram ou ficaram presas dentro disso. Queremos que seja isto: ou aquilo. Sempre. Pensamos que a arte é boa, que os artistas talentosos têm bom coração; são humanos. Mas não, Orionas. Nenhum ofício nos garante isso. Tente se lembrar, amanhã: excelência técnica, virtuosismo; marketing&#8230; não têm nada a ver com alma; necessariamente.</p>
<p align="justify">Vivemos em tramas complexas, querido. Você nasceu homem. Loiro; branquinho. Aqui no Brasil, você alcançaria a idade de João Pedro; e a ultrapassaria. Ali nos EUA, você alcançaria o tempo de George Floyd; e a ultrapassaria. Muito possivelmente. Saiba disso, Orionas. É importante. Mesmo que agora não faça sentido. Ainda que hoje não saiba porquê.</p>
<p align="justify">Ter nascido com um pipi ou com uma cor: podem fazer toda a diferença.</p>
<p align="justify">Sabe o que acontece com esses policiais assassinos? Nada; na maioria das vezes. E quando acontece, não quer dizer que chegamos ainda às raízes: esses policiais são como cães; não seus donos que os adestram. Aliás, todos nós somos tratados assim, Orionas&#8230; você tem um cachorrinho? Somos treinados para achar esta cor melhor que aquela; este pipi melhor que aquela – e ainda que todos os outros pipis de todo o mundo; este país, melhor que o outro&#8230; maior, soberano. Nos educam: para acharmos normal. Um tiro nas costas, um estrangulamento no meio do dia, um insulto aos pobres&#8230; Para acharmos esta escritora má, sem jamais lê-la; e aquela outra ótima, mas também sem uma leitura&#8230; Quando alguém é bom: tudo que vem dele deve ser bom, entende? E se um algum outro qualquer não tiver este selo, do bom, estampado por listas, jornais, prêmios e universidades&#8230; por que perder tempo com ele?</p>
<p align="justify">Aqui as coisas ficam ruins para você, Orionas&#8230; sinto muito. Mas, você vê? Seus pais são artistas porém não são ricos, nem famosos, nem têm parentes importantes nalguns termos; não são mega conhecidos, reconhecidos, valorizados; não cultivaram as amizades de interesse ideais. Isso não lhe dará, digamos assim: a facilidade com que um filho de Bruce Lee teria para gravar um filme de luta. Entende? Você será o novo, querido. E uma parte do mundo – a que adestra os humanos; que nem lembra mais o que é ser&#8230; humano; essa que não larga o osso – não quer saber disso: o novo.</p>
<p align="justify">Apesar de tanto, finge-se bem. Basta olhar para a expressiva maioria de chefes de estado nas democracias representativas do globo. A imagem das polícias nos filmes populares. O chamado para a inscrição nesses prêmios literários – quase no valor de um auxílio daqueles, lembra? Hoje lamentam o roubo de um Van Gogh&#8230; mas deixou-se o artista morrer como um cão de rua abandonado; como um cão na fila dos 600. Dizem do imenso prejuízo ao patrimônio cultural da humanidade mas: qual parcela real da humanidade tem acesso a isso? Não foi um prejuízo maior distratar o artista enquanto vivo? Não o é fazendo-se o mesmo ainda, com os vivos da vez? Estivesse ativa, a alma de Vincent: ele estaria com o sistema, ou com o ladrão?</p>
<p align="justify">O mundo vai doer, Orionas. Perdoe se lhe digo. Aquele ex-curador do prêmio mostrava um suposto cachorro na fila do auxílio. Uma fila que parecia desesperada. Mesma fila onde minha mãe, empregada doméstica e meu irmão, com dezenas de microlesões cerebrais, dislexia severa, agenesia do corpo caloso, com érneas operadas, sem vesícula e amígdalas: esperam até hoje, sem sucesso. Zero reais pra eles, Orionas. Zero reais até agora&#8230; mais ou menos zero Złotys.</p>
<p align="justify">Talvez Van Gogh estivesse ali. Caso fosse brasileiro, contemporâneo. Como grandes pintores que conheço estão. Como estariam muitos dos hoje cânones de nossa literatura. Vê? Esta Terra está cheia de padrões impostos pela raça humana, querido. Padrões desumanos. Como se estivéssemos subdivididos em sub-raças, além da nossa: única; como se não corresse os sangues mais imprevisíveis nestas suas arteriasinhas sob a pele branca; como se não fôssemos todos vira-latas e como se houvesse um único homem – com seu pipi em riste – que seja deveras melhor que sua mãe. Como se só pudessem existir os ricos no planeta&#8230; ou como se o dinheiro fizesse, realmente, alguém mais importante do que é. Como se lastros e fronteiras não fossem rudes mentiras. Como se vocês, crianças, não soubessem mesmo de nada.</p>
<p align="justify">Sabe, Orionas&#8230; pessoas como nós são mortas todos os dias, injustamente. Às vezes por completo, como foi com João Pedro e George Floyd. Mas em muitas e muitas outras: apenas parcial&#8230; como a pessoa que volta pra casa, da Caixa, sem seu auxílio nas mãos, cabisbaixa&#8230; sentindo-se pior que um cachorro de rua, abandonada por seus responsáveis. Embora parciais, estas também são muito sofridas&#8230; vive-se por inércia, se arrastando; uma sobrevida já um tanto agonizante.</p>
<p align="justify">Funciona assim: se você escreve um bom texto, mas sua minibiografia não está cheia de títulos, menções, medalhas&#8230; os tais prêmios consagrados&#8230; você não será lido. Mas se sua minibiografia contiver tudo isso, ou a do seu pai, avô&#8230; ou se você se enquadrar no novo fetiche do mercado, no escopo dos atravessadores; se seu uso fizer sentido estratégico pra eles&#8230; seu texto pode até vir a ser. E se for, as pessoas não se sentirão no direito de não amá-lo. Entende? Ou ainda, se quiserem tomar o seu posto: terão, ao invés, o dever de odiá-lo, mesmo se gostando – pior: nem lendo – pela simples tática baixa da deposição. Cada vez mais, porém, é provável que nem assim lhe leiam, querido&#8230; de um jeito ou de outro. Mas: emitindo você qualquer sinal de status relevante, saiba que interagirão constantemente, fazendo cenas&#8230; dá mesma forma que muitos pseudo-cinéfilos esbanjam críticas e considerações sobre o cinema do seu país, não raro sem nunca terem visto uma película sequer.</p>
<p align="justify">Aparece um rico qualquer, bem sucedido na carreira, que diz: começar a divulgar literatura. Este homem ganha espaço numa velocidade alucinante, vira pop mas&#8230; até que ponto ele divulga a literatura, trabalha por ela de fato? Até que ponto trabalha pra si, divulgando-se apenas a ele próprio? Até que ponto seu serviço é o mesmo velho esforço perverso e suave da manutenção de classes? Até que ponto ele só sabe valorizar um pobre, se este já estiver morto? E os pobres: não podem fazer boa literatura?</p>
<p align="justify">Como vê, meu querido Orionas, esta não é uma carta tranquila. O ex-curador renunciou: mas virão outros. João Pedro e George Floyd: não virão mais&#8230; O auxílio de tanta gente como minha mãe talvez não venha a tempo e, depois desta pandemia: ninguém sabe o que virá&#8230;</p>
<p align="justify">No entanto, crianças sempre me salvaram. No Japão, quando não podia tocar ninguém – nem sequer um aperto de mão – e, de repente, estava soterrado bem embaixo do abraço de cem delas numa escola onde cheguei pra trabalhar. Na Dinamarca, quando crianças loirinhas como você eram as únicas pessoas que me tiravam a sensação de estar invisível na calçada. Em Cuba quando jogávamos bola na rua, na Eslováquia quando pacientemente me ensinavam com os patins – ou a esquiar; e em Angola, quando dançavam comigo. Crianças me salvaram muito neste Brasil donde lhe escrevo, Orionas. Num determinado momento, porém, foi preciso que minha própria criança interior me salvasse. E ainda depois: eu tive um filho, sabe? O Fé, que tem exatamente a sua idade&#8230; que parece ter vindo para salvar o que nem eu mesmo, menino, poderia fazer por mim. E assim fui vindo com elas sempre salvando. E assim também, Orionas querido: você me salvou.</p>
<p align="justify">Precisamos contar aqui – pela abertura da carta – que você é um bebê polonês, de um ano e quatro meses de vida. E que seus pais me enviaram esta semana um vídeo seu, ouvindo uma canção que gravei – simples de tudo, à capela, sem quaisquer elaborações – num vídeo feito aqui em casa. Você que nem domina a língua polonesa ainda&#8230; não faz idéia do que diz a letra. Como não faz idéia do que escrevo aqui; nem de que agora dizem ser errado acentuar a idéia – mas eu continuo fazendo, sem fim.</p>
<p align="justify">Mesmo assim, Orionas, você gosta. Você gosta porque você sente. Sempre achei estranho que às vezes eu não gostasse de uma voz que todo mundo dizia linda, super técnica&#8230; e ia me encantar por outra, suficientemente desafinada, semitonando, mas que cantava cheia de sentido. Mas depois eu acho que entendi. Por trás de um vídeo, de um livro, de 600 reais, querido&#8230; 450 Złotys&#8230; há pessoas. Com ou sem heranças; também nas editoras pequenas e publicações independentes; sem parentes importantes, dinheiro no banco, na informalidade absoluta; entre anônimos, sob qualquer tom de pele, com ou sem pipi e por qualquer país do mundo&#8230; com qualquer idade: pessoas. E até os cães tem alma.</p>
<p align="justify">Você me salvou esta semana, querido. Pessoas pequenas – ou apequenadas – têm medo. Um político rouba à vontade. Ele tem grana, advogados, recorrências das decisões, habeas corpus, sei lá quantas instâncias. Isso lhe dá o direito – entenda desde já o quanto os sentidos das palavras, em qualquer idioma, são relativos – de roubar 1 milhão de litros de leite; sem crise nenhuma. A mãe preta que rouba a bagatela de 1 caixinha num mercado&#8230; pra dar de beber a um filho faminto: não tem. Não tem essa paz, esse sossego, garantia; essas costas quentes&#8230; pode passar anos na cadeia por isso. Pode morrer como o George Floyd. E o seu filho como o João Pedro.</p>
<p align="justify">Nós estamos muito totalitaristas, Orionas. Espero que você cresça e não tenha pela frente, um mundo completamente afetado por isso&#8230; que seja ali, então, uma fase já passada. Que você veja além das cores, das peles. Ou melhor: que veja também elas&#8230; e o quanto a diversidade nos faz tão mais lindos, em cada singularidade. Que veja os cães e todos os outros animais, as plantas, a vida elementar em cada gesto do planeta&#8230;</p>
<p align="justify">E por fim&#8230; espero que você cresça: e me escreva você uma carta-resposta; cheia de futuro.</p>
<p align="justify">Presente&#8230; Prometo seguir cantando, querido. Por você. Por João Pedro, pelo George Floyd. Por minha mãe na fila que o ex-curador debocha. Pela mãe preta que rouba o leite. Pelo meu filho e todas crianças que me salvaram&#8230; e que ainda podem se salvar. Prometo seguir escrevendo&#8230; sem ligar definitivamente pros títulos, prêmios e medalhas – não que eu os negaria, um dia. Mas sem por as coisas na frente das pessoas; as críticas na frente das leituras; a disputa à frente do humanismo; ou o humano, acima da vida plena desta Terra. Prometo cultivar as amizades pelas amizades simplesmente – como esta nossa, amiguinho. Morrer um pouco a cada não&#8230; Mas voltar mais íntegro ainda, teimoso: seguindo cantando, mantendo a escrita. Porque&#8230; mesmo que um curador deboche de você, querido; ainda que a corda tenda a arrebentar do seu lado, junto com seu povo, sua gente; e que pareça invisível&#8230; que lhe doa ver a rasgação de seda, a passação de pano; esse baile das solidões gesticulantes&#8230; ainda que sua sensibilidade alcance assim as mentiras das redes e a angústia profunda das pessoas nas noites de sono ou sem ele; e que tanta coisa mais aconteça&#8230; sempre haverá uma criança num país distante, querido. Sem que você faça qualquer idéia disso. Sempre haverá alguém que pode ganhar o dia com uma arte que se aterrou no mundo pela via de seu corpo&#8230; lhe atravessando para se dispor no plano; e assim poder atravessar aos demais. Sempre haverá alguém que fará valer a pena, Orionas: um sorriso, acalanto; o bem-estar de uma criança&#8230; valem mais que qualquer resenha, menção ou barganha.</p>
<p align="justify">E mesmo que você perder, de si, esta criança que é hoje&#8230; Um dia vai poder reencontrá-la, querido. Eu lhe garanto. Espero contudo que esta sua geração nem sequer perca, mas&#8230; se acontecer: tenho vivido a solidariedade de muitos adultos, sabia? Muitos muito mais velhos que eu. Há esperança, querido. Seja bem-vindo a este mundo&#8230; em que ainda há esperança, sim. Seja parte dela, Orionas. Com Fé. E com todas.</p>
<p align="justify">Mas pensando bem: talvez não seja este mundo o que lhes espera. Por falar em pessoas mais velhas&#8230; minha avó&#8230; sempre me dizia isto: que o mundo já havia acabado uma vez, há muito tempo atrás, com água. E que, já já, acabaria de novo; uma outra. Só que desta vez: em fogo. Olhando esta foto que hoje lhe envio com a carta, Orionas&#8230; eu vejo que sim.</p>
<p align="justify">Vê? O fogo não é bom, nem mau – lembra&#8230; aquele tal cartesianismo? Tem o fogo que queimou mulheres na inquisição, quilombos e aldeias; e favelas até hoje. Tem o fogo da arma de fogo que matou João Pedro. Tem o fogo simbólico que editais e instituições e prêmios, com seus curadores, tacam nos que estão por baixo – não significando que sejam inferiores. O fogo do banho-maria em que o mercado mantém os seus fantoches, fetiches&#8230; as bolas da vez. E tem esse fogo em Mineápolis&#8230; o fogo que talvez devesse pegar no Rio de João Pedro; nos fascismos todos pelo mundo.</p>
<p align="justify"><span style="color: #222222">Desde pequeno nos ensinam que quem mexe com fogo, Orionas, faz xixi na cama. Não ligue. Apenas aprenda a respeitá-lo, querido. Proteja-se enquanto lhe ensina. Faz dele seu mestre, querido. Forje ali a paixão das suas palavras. Faz de si um mestre. Há vários lugares não-convencionados no mundo onde é importante </span><span style="color: #222222">se </span><span style="color: #222222">mijar. E o mesmo valerá ao fogo.</span></p>
<p align="justify"><span style="color: #222222">Guarde esta foto para </span><span style="color: #222222">que se lembre.</span></p>
<p align="justify">Com Amor,</p>
<p align="justify">Rafa</p>
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		<title>Carta #06</title>
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		<pubDate>Fri, 22 May 2020 20:41:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Rafa Carvalho]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Rafa Carvalho Companheiro – chamo-lhe assim pois é isso que todas somos: companhias de mundo mesmo; humano, contemporâneo, independente de quem sejamos, do que cremos, agimos; de nos amarmos, ou não; dos santos baterem, enfim&#8230; Como vai? Escrever-lhe uma carta a esta altura é um tiro no pé. Quem lhe ama, pode me odiar. ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Rafa Carvalho</strong></p>
<p align="justify">Companheiro – chamo-lhe assim pois é isso que todas somos: companhias de mundo mesmo; humano, contemporâneo, independente de quem sejamos, do que cremos, agimos; de nos amarmos, ou não; dos santos baterem, enfim&#8230; Como vai?</p>
<p align="justify">Escrever-lhe uma carta a esta altura é um tiro no pé. Quem lhe ama, pode me odiar. Quem lhe odeia, pode me odiar. Mas, fazer o quê? A vida tem dessas coisas&#8230; a vida tem ódio, ou melhor, nós o mantemos na vida. Vai ano, vem ano, presidente entra, presidente sai; e o ódio segue aí: lembra um pouco esses deputados eternos, coronéis, capitães hereditários decrépitos, os meritocratas, essa turma.</p>
<p align="justify">Você não me conhece. Sou só mais um&#8230; como você já foi. Mas agora já faz tempo que você não é. Não é? Na minha história tem nordeste, tem sul, tem o país inteiro e ainda outros; tem indígenas que por aqui já estavam antes do país ser país, tem negro, tem branco, tem bruxo, crente, analfabeto, operário, peão; tem boia-fria, lavadeira, passadeira, empregada; tem líder popular, assassinado, tem louco, tem louca, tem tudo. Miséria, tragédia, pobreza. Tem luta; resistência. Engajamento. Fé. Esperança.</p>
<p align="justify">Eu nasci graças a um shopping center em – veja só você – São Bernardo do Campo. Painho era chapeiro de lanchonete. Mamãe, caixa de supermercado. Daí eu nasci; assim&#8230; como tantas de nós; como tantos no mundo.</p>
<p align="justify">Minha mãe simpatizava com o partido dos trabalhadores. Aprendi essa simpatia do mesmo jeito em que aprendi minha crença no Cristo. Como aprendi a gostar de banana junto, no prato fundo de comida – sempre com colher. Vi um bocado de coisa&#8230; mulher sendo internada em manicômio só por ser feliz; marajá fugindo pros States largando funcionários cheios de salários atrasados, dando golpe na receita e o escambau; vi traficante narrando com gosto como matou aquele jornalista no morro, contando como funciona o acordo com a polícia; gente morrendo no paredão por dívida não paga com o tráfico, acertos de conta; vi cabeça pendurada no bairro nos tempos mais duros; uma baiana sendo presa por matar o ex-marido em legítima defesa depois de registrar 17 boletins de ocorrência por ameaça na delegacia da mulher; vi uma mãe esfregando a cara da filhinha de 2 anos no chapiscado do muro na viela. E por aí vai&#8230; amigo levando tapa de polícia por ser preto, menino levando tiro nas costas da polícia enquanto brincava por ser pobre – e por ser preto. Caminhoneiro adulterando tacógrafo, velocímetro, pegando 160 na ladeira carregado de feijão pra não perder o frete, o dólar, com 4 noites de rebite na cabeça. Senhora se prostituindo no posto de gasolina, no trevo, na beira da estrada, confessando a vergonha de contar ao filho e pro neto o que fazia, de verdade, pra sobreviver. Gente com fome. Muita gente desesperada. Vi&#8230; muita coisa que não gostei de ver.</p>
<p align="justify">Mesmo assim, sei que não vi nada. Sei que a gente, o povo, vê muito pouco. Vi dois impeachments neste país. O primeiro, de Collor, vi muito menino, não entendendo nada; mas me lembro de um caos financeiro, do desespero em minha casa, de uns preços malucos, aventuras nos mercados, angústias; de aprender a palavra: inflação&#8230; E o segundo, da até aqui única presidenta que tivemos, já um pouco mais consciente da vida, achei injusto: por ser arbitrário e parcial. Eu volto nisso já já, mas&#8230; seguindo aqui com as vistas: também vi Cuba – quando estavam mandando a gente pra lá, sabe? Achei importante ir; ver. E acho importante contar: que ali, vi coisas maravilhosas; e também coisas terríveis.</p>
<p align="justify">A vida é assim: 8 e 80, quase sempre. 13, 45&#8230; 17. Eu não acho você santo, não. E sim, é um achismo meu. Não tenho base nenhuma pra ter certeza. Aliás, ninguém tem. Ainda assim, pessoas têm se violentado barbaramente nos últimos idos dos dias, e anos, bem pelas falsas ideias polares que assumem. Várias figuras do partido sempre me pareceram problemáticas; algumas bem influentes. Não conseguia intuir nenhum amor nelas, nada suficientemente coletivo. E o que pode uma pessoa dentro de um partido? O que pode um presidente dentro de um país? Tantos poderes, tantas instâncias. A grana fala mais alto: quem tem recorre, ganha tempo, se beneficia das brechas, não divide cela superlotada, sem qualquer condição humana: cava e compra privilégios; quem não tem, se lasca; se dana. Recentemente quando preso, você já não era mais um. Passou por tudo isso como quem tem; apesar dos tantos pesares, consideremos isso: podia ser muito pior. Como é, diariamente, pra muitos companheiros; e companheiras.</p>
<p align="justify">Os patrocinadores das últimas eleições todas eram sempre os mesmos pra cada candidato; ao menos entre os mais cotados. São as cifras por cima da direita e da esquerda&#8230; o mesmo malote financiando os uniformes vermelhos, os azuis&#8230; e os amarelo e verde. Que diferença faz? Que diferença fez? Vi minha quebrada mudar – pra melhor – com você; com a sua presidência. Vi um país mais querido lá fora e, aqui dentro, vi familiares saindo do barraco pra alvenaria na grande São Paulo; a energia chegando na caatinga, o aprimorar dos paus-a-pique; vi outros primos e primas, além de mim, chegando à universidade; a negritude do meu bairro também&#8230; e assim eu, que dos 100 ingressos na turma de 2003 era o único advindo da escola pública, vi este número se equilibrar cada vez mais, ano após ano. Vi a fome baixar em seus índices; senti a miséria menor. Um tanto de coisa mais e&#8230; sou grato, por tudo isso.</p>
<p align="justify">Mas confesso que fiquei apreensivo quando vi a galera chegando de civic 0 da concessionária, equipando tudo naquela ostentação do 0 IPI. Não que eu não entenda; eu entendo. Não que eu também não quisesse; eu quis. E nem que eu ache injusto: por mim, os porteiros e as domésticas devem sim poder ir pra Miami se quiserem; Disney, tanto faz. Mas eu sentia o imperialismo ainda imperando naquilo: ainda servíamos ao mesmo senhor; e isso me incomodava. Melhorou a cultura, melhorou a educação&#8230; mas não estávamos conseguindo construir autonomia. Não havia formação profunda; transformação real. E os novos ricos pisaram nos pobres, do mesmo jeito em que foram pisados antes. E a classe média caindo na mesma cilada de sempre. O Brasil continuou sendo terra de boi e boiada.</p>
<p align="justify">Eu sei que leva tempo&#8230; que quinze anos é nada pra cinco séculos de peia; pra trama tão bem tecida do capitalismo no mundo pós-moderno, globalizado. Eu sei. Mas é sempre um risco não querermos perder o gado&#8230; me entende? Se sou contra o capitalismo? Não, não sou. Sou contra a doença. Se sou comunista? Não, tão pouco. Pelo menos não do que senti acontecendo no mundo neste aspecto até hoje. Socialista&#8230; anarquista&#8230; não gosto dos rótulos. Cristão, macumbeiro, budista. Reformista, fascista, progressista: isto-ista, aquilo-ista. Dizer qual o estilo da sua música, sua corrente literária. Quando você não é nem branco, nem preto, nem índio; e nem pardo. Quando não é binário, mas também não é óbvio. Se é tão raro mas, ao mesmo tempo, tão prazerosamente piegas&#8230; e clichê. Vê, no meio desta confusão toda, eu acho que estamos nos perdendo, companheiro. Pessoas acham você e seu partido comunistas, por exemplo. Eu sinto que, pelas práticas apresentadas, não têm nada a ver. Talvez estejamos num tempo em que todos se sintam no direito de achar demais&#8230; e isto não nos tem ajudado a, de fato: encontrarmos.</p>
<p align="justify">Tomaria feliz uma cachaça consigo. Bateria uma bolinha, assaria uma carne quem sabe; aquele frango com linguiça. Achei sua prisão parcial e arbitrária. Como o impeachment da Dilma. Isso não quer dizer que eu defenda sua inocência soberana. Intuitivamente, defenderia mais a Dilma nestes termos. Mas, no fundo&#8230; nem a ela. Para a minha sensação, nos dois casos a parcialidade e o arbitrário se mostraram muitas vezes na punição do que em tantas outras passou impunemente em casos semelhantes, mas alheios; em olhar-se com tanta minúcia e acuidade pra coisas a que antes se fazia descaradamente vista grossa – antes e durante; e ainda depois, até hoje. Foi feio pois projetaram todos os holofotes em áreas que viviam nas completas sombras. Foi enfim sujo, como as coisas têm sido neste país desde 1500. Mas não quer dizer que tenha sido injusto, no sentido mais pleno de justiça, entende? Talvez injusto, assim, tenha sido toda a impunidade, toda essa sombra nas coisas públicas por todo esse tempo, toda exclusão popular, todo egoísmo e presunção dos nossos líderes até aqui, independente das bandeiras; o poder subido à cabeça; toda a politicagem, essa má política, o toma lá dá cá; todo o não enfrentamento de quem dá as cartas, se o jogo afinal: é injusto. Talvez impróprio tenha sido isto, companheiro: jogar esse jogo. Entende? Eu vivi num país onde uma ministra foi deposta por comprar um chocolatinho simples no cartão corporativo que não lhe dava direito à sobremesa.</p>
<p align="justify">Mas, sobre a gestão partidária do seu partido – e dos outros –; suas presidências – e das outras –; o que se pode dizer realmente? Quantas coisas nós, o povo, não pudemos ver? Nossos números não fazem sentido, companheiro. Nunca fizeram. Um café da manhã em Brasília, com aquele preço por cabeça, num país onde a fome, no curto tempo em que se extinguia, era ainda assim em muitos lugares às custas de farinha descendo a seco na goela da gente?; um auxílio financeiro desses, pra juiz pagar a educação dos filhos, com o salário que um magistrado tem?; e se eu pergunto tudo aqui, você sabe&#8230; esta carta não tem fim. A corrupção no país é suprapartidária; transpartidária. Quem eu senti não dando, nem um pouco, o braço a torcer neste jogo: tá morto. Foi morto. Aqui em Campinas, no Rio, no meio da caatinga baiana, da floresta amazônica&#8230; mortos.</p>
<p align="justify">Não acredito em nossa democracia. Não acredito nesse modelo de representação. Mas acredito ainda menos em um movimento que negue explicitamente o conceito democrático, como temos visto ser pedido por alguns atualmente. Tão pouco acredito em governo; acho. Tudo anda tão confuso&#8230; parecendo tão sem saída&#8230; Queria não acreditar neste atual presidente também, mas acredito. Acredito sim; infelizmente. Aliás, não tenho bem certeza mas&#8230; penso que minha mãe votou nele inclusive. Ela que me ensinou a simpatia dos proletariados. Ela e meus parentes todos, que saíram do barraco ou do pau-a-pique para a alvenaria, que acessaram a universidade e compraram civic’s. Esse cara é, com tristeza, um retrato do Brasil. Não geral, nem generalizando – nada é generalizado nesse mundo&#8230; Mas é. Ele é muito parecido com meu pai e com os pais da minha geração. Ele é muito parecido com você, você não acha? São tênues as linhas&#8230; elas sempre são. A que separa o romântico do cafajeste, o sensível do sem-coração; o gênio humanista do psicopata.</p>
<p align="justify">No fim, não estou dizendo que vocês são iguais, entenda. Com ele, por exemplo, não sinto vontade de tomar nem uma tubaína. Mas vocês dois são espectros do tal povo brasileiro, paradigmas, fantasmas disso. Mais ou menos como um rapper que sai da favela pro alphaville fica sendo uma ideia muito vaga de favelado ainda. Eu sei o quanto isso é complicado; o quanto deixa margens às más interpretações. Mas a vida é isso: tudo cercado por margens. Pra onde podemos fugir? Se não pra dentro, profundo?</p>
<p align="justify">Talvez a diferença principal entre vocês seja esta: ele é mais gado. Um boi que ascendeu a vaqueiro, latifundiário; mais ou menos como o orangotango de Kafka. Você é mais bravio, de fato, mais arredio às normas; mais cangaço. Todavia, o que dizer do cangaço? Foi bom, foi ruim? Foi totalmente certo, justo? E se dentro do cangaço também houvesse gado? Pois eu sinto que havia, companheiro&#8230; Que em alguma medida todos ainda devemos ser – um tanto de gados, um quanto guiados assim, no fluxo do bando, a ferro e fogo, no laço, berrante: chicote e estalo; mesmo os mais emancipados de nós. E o cangaço não foi bom, afinal. A revolução cubana não foi boa. Nada humano conseguiu ser bom totalmente ainda&#8230; e talvez nem consiga. Em tudo há maldade em qualquer proporção. Por outro lado, sempre há de haver um pouco de amor, dos bons intentos ainda&#8230; até neste que aí está – eu sei; é difícil conceber. E diante das dificuldades, do complexo momento a que chegamos, como humanidade, escolhemos preconceber as coisas, ao invés. Não estamos todos sendo um pouco totalitaristas em nossas abordagens? Nossas falas não têm trazido pequenas sementes de algum genocídio, mesmo quando disfarçadas de defensoras dos direitos humanos e pacifistas? Não há sempre um grupo de “outros” na mira das nossas sentenças mortíferas atuais?</p>
<p align="justify">Doeu, sabe? Ver a Paulista cheia de gente de vermelho&#8230; e na quebrada nada – ou quase nada, pra não ser sensacionalista. Dói em mim essa ideia sobre política que ainda reina nos botecos, igrejinhas de bairro, áreas públicas e peladas de fim de semana. Se acho que foi culpa sua? Não, de forma alguma. Nem acho que foi do partido. Bem dizer, eu nem acredito em culpa. Mas sinto que você tem responsabilidade nisso. O partido, ou melhor, pessoas do partido&#8230; também. Como sinto ter eu mesmo minha parte em tudo. Sou responsável; todos somos.</p>
<p align="justify">Mas eu não escreveria uma carta ao atual presidente. Não que não haja o que dizer senão que não há chances de diálogo. Esse é um erro e um perigo eminente que não aconteceram nas gestões suas e de seu partido; pelo menos não a este nível. Lembro quando nas últimas eleições, Brown – outro mano que muito respeito e pra quem escreveria uma dessas – lhe fez uma crítica, que depois foi usada pelo atual presidente – que parece ter esse costume com sua turma de usar muitas coisas com mé fé. A resolução então de vocês, Brown e companheiro, foi precisa: uma relação saudável, de boa fé afinal, crédito, esperança e apoio; onde era possível concordar, discordar, trocar idéias – e aqui eu volto a acentuar a palavra – e enfim: vadiar a boa ginga da convivência sendo dialógico; e dialético. E eu acredito nisso. Acredito que com você ainda tenha conversa, espaço: abertura. Acredito que você não se considere um homem pronto, infalível, sem o direito de errar; mas que ao mesmo tempo tenha um compromisso com o acerto. Acredito que mesmo você não sendo só mais um, como eu&#8230; poderia um dia responder a carta de alguém assim.</p>
<p align="justify">Você andava ligeiramente sumido em comparação com um passado recente, quando saiu da prisão; e eu tive a vontade de lhe escrever aqui. Comecei lentamente, nos tempos de soneca do bebê, nas raras brechas desta quarentena e&#8230; de repente: você disse “ainda bem” pro advento do corona vírus, nessa sua versão pandêmica de covid-19. Pronto: você ficou super presente de novo. Quem lhe odeia, está à solta, babando; roendo-lhe os calcanhares. Quem lhe ama, está cansado lhe defendendo ainda; contra-atacando. Todos podem me odiar aqui, pelo que lhe escrevo numa carta pública e, além disso, posso ser odiado também por soar oportunista. Fazer o quê? A vida é assim&#8230; E quem é que decifra, sem falha, o que a vida é?</p>
<p align="justify">Pra piorar, sabe que, infelizmente, não discordo tanto de você? É terrível pensar em cada morte causada por esta pandemia&#8230; como é terrível pensar em cada morte que, idealmente, não seria natural, nem necessária. A morte de João Pedro e de tantas crianças pretas; a morte de Marielle – e de tantas mulheres; entre elas, tantas pretas –; de tantas lideranças indígenas recentemente e desde o início; a morte de trabalhadores, gente ordinária, pessoas simples, números, índices; às vezes nem isso. Mas a natureza é sábia sim, meu companheiro. E nesse mundo, só quem dá ponto sem nó, somos nós: os humanos. É triste demais mas, talvez, tudo isso aconteça mesmo pra vermos o que não demos conta de ver por um meio mais&#8230; suave. Sinceramente porém, não acho que a mãe Terra esteja muito preocupada com os Estados&#8230; principalmente esses, cheios de homens-padrão, patriarcais, brancos, ricos, plenos de privilégios. Talvez ela esteja simplesmente se ocupando do estado de saúde da Vida em si; no planeta. Uma Vida que é maior que nós, entende? Mas de que somos parte, ao mesmo tempo.</p>
<p align="justify">Eu diria: que péssimo&#8230; que precisamos chegar a isto, neste ponto; mas que bom sim, que ainda temos essa chance: ainda bem. No entanto dizer que tudo ocorre em função da importância do Estado é tão rude quanto a ganância privada. Tanto cruel quanto. E é um antropocentrismo besta, aliás. O mundo viveu bem sem a gente por muito, muito tempo. E assim seria de novo, se sumíssemos agora, de repente. Simples assim. A questão é que nós: não queremos sumir. Não é?</p>
<p align="justify">E aqui mora o meu lamento principal: quem lhe odeia quer que você suma; quem lhe ama, quer que sumam todos que se opõem a você; lembrando que os primeiros também querem o sumiço dos seus seguidores. O drama é que quando você some: sumo um pouco de mim; independendo do que eu pense de você. Não há entre nós mais quase nenhum radical. Ninguém a fim de ir às raízes. Estamos extremos, entretanto. Polares, superficiais. E vamos sumindo ao tentar totalizar, desaparecer com o mistério das dualidades. Todos vocês que botaram a faixa no peito: foram culpados e inocentes. Todos nós, que não botamos: também. Isso, se eu acreditasse em culpa; se a nós, humanos já rodados pelo mundo, ainda fosse possível qualquer tipo de inocência.</p>
<p align="justify">Papo reto? Não tem revolução real, se ela não nascer de cada coração presente. Enquanto for preciso prender, exilar, extinguir&#8230; não teremos conseguido. Talvez estejamos preocupados demais com os termos. Se sou contra o Estado? Não. Sou contra as privatizações. Sou contra a doença, como já disse e, para haver saúde no Brasil: precisamos do SUS, por exemplo. E de um SUS saudável, pleno, público. Precisamos assim de um Estado presente, ativo, sem dúvidas. Não entregando o cuidado dos seus a qualquer grupo de acionistas que só enxerga planilhas e rendimentos diante dos próprios narizes. Mas ao mesmo tempo, sou sim contra os Estados&#8230; entenda minha aparente – e real – contradição. Afinal, por que na Europa os Estados são diferentes do nosso, aqui, se o lastro de ouro dos seus bancos nacionais, tem ouro nosso? Se o sangue nessa posse, agora deles, é ainda o sangue nosso? Por que somos tão pretensiosos? Por que pré-sal? Por que sangrar tanto a nossa mãe assim? Por que só lembrarmos quando perdemos? E onde vamos chorar a morte de nossa mãe, quando não houver mais Terra, pra pisar?</p>
<p align="justify">Eu não sou brasileiro, companheiro. Sou terráqueo. Meu corpo não aceita menos que isso. E no fundo, somos mais. Os minérios fundadores das estrelas estão distribuídos por dentro de nós. Somos universais; companheiro. Minha raiz é nômada, cigana&#8230; e eu não engulo essas linhazinhas traçadas à mão nos nossos mapas. Não engulo um irmão haitiano sendo ofendido dentro de um trem em São Paulo; nem engulo ser ofendido aonde quer que eu chegue nessa Terra. É tudo nosso, companheiro. Tudo deveria ser&#8230; nosso. Ninguém devia ficar fora disso. Ao mesmo tempo, ninguém devia ser indiferente a isso; se irresponsabilizar por isso.</p>
<p align="justify">Vê, não tem direita sem esquerda. E vice-versa. Alguns fundamentos vão sumindo e&#8230; vamos ficando cada vez mais mancos, arrastados. Não sei o que acho do Nobel, mas de todo modo, não via sentido prum Nobel da Paz, pra você. Estamos em guerra civil, companheiro. E você percebe o quanto somos responsáveis por isso? Estamos numa guerra fria, violenta e covarde, sem coragem de dar a cara a tapa. Ainda assim, estamos nos esbofetando. Não houve paz ainda. Você não é um herói. Nós não precisamos de heróis. Nem de você, nem dele. Nós não precisamos de pastor pra tocar o gado; rebanho. Também não precisamos de lobo em pele de cordeiro; bode expiatório&#8230; O que nós precisamos mesmo é nos humanizarmos enfim. Temos que nos libertar. E depois, libertar aos bois, os rios, os lobos; a Mãe.</p>
<p align="justify">Tá difícil hoje, sabe? Um gato que a gente resgatou do lixo me mordeu fundo no braço. Só porque eu fui tirar ele do nosso lixo da pia, pra não virar bagunça – não passa necessidade, o bichano; pegou na veia o dente e agora querem furar minha barriga com antirrábica, fazer tomar antibiótico&#8230; A semana tá tensa; manter uma família não é fácil – nem sobre o pão, nem sobre afeto&#8230; Tá complicado ver os que estão muito mais precisados que eu, companheiro; dolorido mesmo&#8230; E por aqui, tudo cancelado; nada de trabalho remunerado à vista&#8230; tem mais uma criança vindo aí; a gente tá tentando diminuir as contas, o mercado, começamos a plantar comida em casa, mas&#8230; ainda não tem nada pra colher&#8230; essas coisas levam seu tempo, né? No meio disso tudo eu parei de comer dois dias na semana: como cinco e, na segunda e na quinta, só assisto a família comer. Isso me faz pensar no meu vô, baiano: ele comia o que sobrava, companheiro; quando sobrava&#8230; e isso só quando tinha, porque às vezes&#8230; não tinha pra ninguém. Nós aqui ainda temos, felizmente&#8230; mas eu quis sentir esse vazio, sabe? Quis lembrar o que é estar privado neste nível. A maré baixa é perigosa, companheiro. Enrosca o barco que não tem os costumes. A vaca magra&#8230; tem nem brejo aonde ir.</p>
<p align="justify">Sei lá, Lula&#8230; nunca foi tão difícil amar, como é hoje. Estamos todos exaustos. Mas é justamente por isso, que nunca foi tão importante nos amarmos. E eu amo você. Sou grato a você, sou crítico a você. Sou incerto a você; como a todos e a tudo. Só sei que sonho com você sendo apenas mais um&#8230; de novo. Talvez quando nosso estado for diverso e único. Talvez no fim das mortes que não sejam naturais nem necessárias. Talvez quando não houver bandeira pra jurar&#8230; quando vamos todos jurar a terra, a água e o ar&#8230; os minérios, os bichos e as plantas e&#8230; nós. Talvez quando todas as cores forem nossas; bem como todas as direções. Quando tudo for político e público no mais essencial sentido do: comum. Talvez quando chegar a utopia dos anarquistas mais sensatos. Talvez, quem sabe, sem precisarmos de outra dessas. Não é?</p>
<p align="justify">Não quero ser pessimista. Nem otimista demais. Simplesmente: ainda bem&#8230; Que temos uma cachaça possível pra tomar. E aquela bolinha ainda&#8230; pra bater.</p>
<p align="justify">Num abraço,</p>
<p align="justify">Rafa</p>
<div class="yj6qo"></div>
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		<title>Carta #05</title>
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		<pubDate>Fri, 15 May 2020 14:39:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Rafa Carvalho]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Rafa Carvalho À sua bença. Sempre. Passou, este domingo, o dia destinado a vocês. Cê sabe que eu sou péssimo com esse negócio de datas. Sabe também que discordo delas; quer dizer&#8230; acho importância nos marcos, penso que ainda é preciso, muitas vezes; mas ao mesmo tempo, utópico absurdo, sinto que deveríamos fazer de ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Rafa Carvalho</strong></p>
<p align="justify">À sua bença. Sempre.</p>
<p align="justify">Passou, este domingo, o dia destinado a vocês. Cê sabe que eu sou péssimo com esse negócio de datas. Sabe também que discordo delas; quer dizer&#8230; acho importância nos marcos, penso que ainda é preciso, muitas vezes; mas ao mesmo tempo, utópico absurdo, sinto que deveríamos fazer de todo dia: dia. Ainda que eu me sinta, em pessoa, tão distante disso&#8230; dessa habilidade pra viver como se deve.</p>
<p align="justify">Devo minha vida a você. E, não sei se já sabe – sei que é difícil entender o que eu faço pra sobreviver, este ofício, a maluquice – mas, estou escrevendo uma série de cartas. Pensei em terminá-la, a série, semana passada quando escrevi uma carta de amor, que me faz lembrar de mulheres muito importantes pra mim, a quem sou muito grato, para sempre. Mas não faria sentido não escrever também a você, desde sempre: minha rainha. Embora seja impossível&#8230; a música que o Milton Nascimento fez à sua mãe, Lília, não tem letra, sabia? São só sensações&#8230; é o mais perto que dá pra chegar deste infinito. Palavras não cabem, mas&#8230; cê sabe a minha teimosia.</p>
<p align="justify">Se você soubesse do tanto que me arrependo de ter lhe dito tanta coisa&#8230; Neste ponto, seria bom não ser teimoso, ter ficado quieto e não deixado palavras mancharem nossa história. Mas me arrependo também de coisas que não disse e quis dizer&#8230; devia. De coisas que fiz, que não fiz; que pensei. Como a gente erra, né? Sou feliz que pudemos já falar de tudo isso, pelo menos por cima. Você sempre foi maravilhosa em limpar tudo, tirar manchas&#8230; ainda não chego aos seus pés. Mas sei que já quaramos todos os nossos anos numa luz imensa. Ficamos curados. E hoje, temos a cada dia, uma chance do nosso melhor momento.</p>
<p align="justify">Eu fico triste às vezes&#8230; com o mundo; com como me sinto nele. Com como sinto que o mundo me sente&#8230; ou: não sente. Mas aí eu penso no que poderia ser mesmo essencial para alguém e&#8230; eu só posso agradecer. Ainda tem tanto que não me alcança; que não alcanço&#8230; Mas puxa&#8230; cada gemada sua. Cada colo, carinho, cada banho de tanque. Cada geladinho, os sucos de vinho; nossas rodas de abacate com limão e açúcar. Seu despertar calmo nas manhãs de escola, suas ninas, cada noite desperta por minhas febres, pesadelos. As romãs do quintal da tia Maria, que você pacientemente ajeitava numa tigelinha pra eu comer de colher. Seus bolos&#8230; gelado, de cenoura; seu pudim. O macarrão com salsicha. O cheiro de seu café&#8230; doce, doce. Chás de hortelã, xaropes de guaco. Seu véu de cabelos, sua pele ancestral. As cantigas&#8230;</p>
<p align="justify">Cada história que me contava. Minha dor de saber da fome em sua infância. Meu choro com seu trabalho infantil. E tudo em que você protegeu, a mim, pra que não repetissem comigo. Sua paciência ao meu sonambulismo, minhas ameaças de fuga, meus argumentos presunçosos, minha língua sem papas, minha arrogância de criança birrenta, depois de adolescente infundado, depois de jovem convencido, depois de adulto ainda capenga&#8230; sua paciência infinita até hoje.</p>
<p align="justify">Todas as noites que perdeu por eu não estar em casa. Ah, como eu não queria ter brigado quando ligou pra saber se eu estava bem, na estrada, naquela chuva, naquele acampamento. Você tinha todo o direito, mãe. Eu: tenho todo o dever. Pensar que eu saía dizendo: “Mãe, bença! Vou ali no Ceasa pegar uma carona num caminhão não sei pra onde. Volto não sei quando, tô sem telefone, mas vou ficar bem, tá? E um dia vou voltar, prometo&#8230;”. Quanto cê sofreu comigo, hã? Quanta coisa deve ter vivido quieta, chorado quieta, suportando quieta todo este fardo&#8230; de ser mulher, ser pobre, preta, índia&#8230; mãe. De ser assim, tão fundamental&#8230; num mundo tão sem fundamento.</p>
<p align="justify">Olho pra sua mãe, lembro da mãe da sua mãe&#8230; E como são mulheres fortes, vocês todas. Que linhagem. E que semelhança há entre tantas linhagens outras, que encontrei. Mães que também me receberam, por aí&#8230; que me cuidaram neste grande círculo sagrado. A Terra é mãe, o mar é mãe&#8230; E até Deus: só pode ser Deus, se tiver uma mãe&#8230; se for: uma mãe.</p>
<p align="justify">Ser bastante feminino desde a infância, usar seus saltos, passar seu batom, ter uma delicadeza rara pra quebrada em que vivemos, pro tempo onde eu cresci à homarada desse mundo&#8230; ter usado saia no colégio, beijado outros homens como o Gilberto Gil&#8230; nada disso me livrou de meus erros. Nada disso me tirou os privilégios. Hoje rememoro tudo. Penso em você em nossa casa, com três homens. Penso em mim, na Terra com tantas mulheres conviventes. No quanto errei, até entender que errava. No quanto ainda falta errar, mesmo que não queira.</p>
<p align="justify">Você me ensinou a ler, a escrever&#8230; me ensinou a cantar&#8230; amar as artes. Uma mestra entre minhas maiores; sem cadeira, nem cátedra, chancelas, crachás&#8230; com todos os clichês da gente simples. Do populacho de onde viemos. Uma doméstica, lavadeira, passadeira, cozinheira, filha e neta de mulheres tais. Uma Carolina Maria de Jesus. Tenho até hoje aquela caixinha de música que você trouxe do lixo pra mim. É meu amuleto, patuá; um talismã. Não lhe vi conversar com as plantas, como via a vó&#8230; mas testemunhei você ressuscitando várias delas&#8230; trazidas também dos lixos, enchendo seu quintal verde de mais verde. Minha referência de cristã, cigana, bruxa, erveira, benzedeira, de força, fé e esperança. E resistência.</p>
<p align="justify">É um fato&#8230; como a bisa acabou seus dias por aqui. É um fato também como a vó encaminha esse mesmo fim. São os fatos, das histórias que se repetem, dos padrões&#8230; o sofrimento que transparece lá na frente, revelando finalmente as suas marcas nos sulcos da memória. Eu rezo todo santo dia, mãe, pra você ser a primeira&#8230; a primeira geração a quebrar o encanto. E eu sei que você vai. Assim, se lhe der uma neta, ela já nascerá livre&#8230; graças a você. Carregará todo o legado seu e das mais velhas numa mão; mas na outra: toda a chave que elas não tinham&#8230; e que você tá achando, mãe&#8230; nesse mundo que me dá mais jeito pra sonhar: porque você tá nele.</p>
<p align="justify">Cê ressuscita flores, mãe. Você&#8230; tem o poder de se ressuscitar. Todas as santas no meu altar intercedem por si, mãezinha. Todo o seu trajeto de vida é um altar para mim&#8230; rainha. Sem sua bença eu nunca pude nada. Sorte minha ter sua bença em tudo.</p>
<p align="justify">Onde eu vou mãezinha, cê tá junto. Onde eu chego, minha mãe, eu chego graças ao seu fubá. Que não tive nada fácil até aqui, cê sabe&#8230; mas não faltou sustância, mãe. Não faltou guarda, de tanto anjo que cê me ensinou a pedir perto, o tempo todo. E também não faltou exemplo, mãe.</p>
<p align="justify">Posso terminar aqui, posso escrever mais duzentas páginas&#8230; nunca vai caber você, mãezinha. Um metro e sessenta de pura galáxia. Sou só um pontinho disso. E não sou o final&#8230;</p>
<p align="justify">A verdade é que nem todos os dias lhe seria o bastante, mãe. Como não seria a qualquer mãe, que seja mesmo: mãe. O lugar de vocês é na eternidade, no infinito. E o que é digno dizê-las&#8230; simplesmente não pertence aos idiomas conhecidos.</p>
<p align="justify">Quem sabe eu faça uma canção como aquela, do Bituca. Já a voz sobre-humana dele, mãe, sinto muito mas&#8230; não sei se posso um dia dar conta. De cantar assim tão lindo pra você. Mas eu sim sei que pra mãe isso não importa. Que você nunca se importou com meus tons impróprios, desafinos. Sei o que mãe costuma sentir&#8230; vendo sempre o melhor da gente, né? Não importa o quanto sejamos ruins. Se pelo menos esse mundo, humano, soubesse honrar as mães que tem&#8230;</p>
<p align="justify">Se pudéssemos ver com seus olhos, mãe. E aguentar com seu peito. Retribuir à vida com um colo como o seu. Aí, eu sei, não haveria um dia só no ano. E muito provavelmente sequer esta carta deveria haver.</p>
<p align="justify">Amo você como tudo que brota.</p>
<p align="justify">Debaixo do seu manto,</p>
<p align="justify">Rafa</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Carta #04</title>
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		<pubDate>Fri, 08 May 2020 18:23:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Rafa Carvalho]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por Rafa Carvalho Esta é a carta mais difícil que escrevo. Não necessariamente pelo conteúdo – que contudo não é fácil – mas pelo seu destino. Eu comecei minha história nas cartas, pelas cartas de amor. E de repente retorno a isto. No entanto por um novo prisma. Afinal, o amor é imenso e nos ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p align="justify"><strong>Por Rafa Carvalho</strong></p>
<p align="justify">Esta é a carta mais difícil que escrevo.</p>
<p align="justify">Não necessariamente pelo conteúdo – que contudo não é fácil – mas pelo seu destino. Eu comecei minha história nas cartas, pelas cartas de amor. E de repente retorno a isto. No entanto por um novo prisma. Afinal, o amor é imenso e nos permite incontáveis ângulos. Pontos de vista.</p>
<p align="justify">Há uma diferença entre o amor e a atração; a sedução, o envolvimento. Às vezes, uma coisa leva à outra&#8230; às vezes. Quando monge eu aprendi que este amor nominal, privado, íntimo, mora mesmo no coração da gente, do jeito que desenhamos quando infantes; podendo também ativar condições residentes mais embaixo; na base da coluna, no fundo do umbigo, no plexo solar. O ódio, que é uma forma madura do desamor, também mora lá, no peito; e irradia suas consequências pelo mesmo trajeto. Daí é que saem então, todos os crimes passionais; do coração da gente: ponto em que somos humanos realmente; e lidamos com a dualidade do mundo. Do peito pra baixo ainda somos mais bicho; pra cima dele, algo um pouco já além.</p>
<p align="justify">Assim, o amor maior, que começa a merecer um A maiúsculo na nomenclatura, que existe por todas as pessoas e vidas e mistérios, e que condiciona cada vez menos sua existência, por sua vez: mora nas gargantas. Essas que inflamam, contrariadas, habitantes de nossos maus hálitos. Bem essa onde o corona vírus se gruda, como metal num ímã. Dada dizia que ali, no pescoço, vive também nossa capacidade de transmutação: todo veneno pode ser transformado em néctar; todo o contrário, também.</p>
<p align="justify">Talvez nós nasçamos num misto de ainda muito bicho, com traços de instintos por sobrevivência e seus comportamentos automáticos; e amor. Puro amor. Um amor advindo da inocência, quem sabe. Que faz das crianças: seres inseparáveis do amor. Mas isto, só até certo ponto. Dependendo da cultura onde mergulhamos – inclusive antes de nascermos, ainda na barriga, dependendo dos estímulos a que somos expostos; vamos perdendo, tanto os resquícios mais previamente animais do nascimento, quanto esse amor mais inocente e, por isso, puro.</p>
<p align="justify">Eu mantive uma certa inocência por um tempo até; que logo se tornou ingenuidade; e que mais tarde: era já estupidez. Às vezes quero acreditar que o momento dessa estupidez acabou, mas a verdade é que não posso vacilar 5 minutos. E daí, quem não vacila? Mas tudo isso também me permitiu experimentar o amor de um jeito&#8230; não sei se raro, mas: importante.</p>
<p align="justify">Tanto que minha primeira desilusão amorosa veio ali aos 4 anos. Certamente eu lhe contei esta história: comprei uma maria-mole e levei o anel azul de prenda pra ela. No recreio do jardim, dei-lhe a joia e pedi que casasse comigo. Sabe que hoje não consigo mais saber se ela me disse não, ou se só virou as costas&#8230; e foi embora. O corredor pequeno daquela escola assistencial evangélica ficou imenso enquanto se afastava. Levei uma bronca enorme por estar contra os desígnios de Deus.</p>
<p align="justify">Como se Deus fosse contra o amor.</p>
<p align="justify">E enfim, quando me distraía dele, do amor, é que qualquer coisa acontecia. Atraía as mulheres mais velhas da rua; nas festas do cortiço, na viela; nas pequenas viagens que fazíamos em visita aos parentes; nas viagens mais longas; na caatinga baiana; pelo mar de Santa Catarina; na outra escola depois, estadual, com as alunas das séries maiores. É como se eu seduzisse involuntariamente, sempre quando estava distraído de mim, sem esperança de amar.</p>
<p align="justify">Foi assim que uma mulher me prendeu em seu quarto, trancando-nos com chave, e despiu-se. Ela com 19 e eu com 7. Foi assim que com 16, estúpido, eu não entendia os sinais daquela que com 6 a mais me queria tanto, pra tanto. Eu gostava muito de ouvir à vitrola, quando criança, a voz e o francês de Gainsbourg, numa faixa única do lado B da coletânea com capa sexy e temas eróticos que meus os pais tinham. Não sabia seu nome, sua cara, muito menos sua história. Nem entendia as coisas que falava. Mas talvez tivéssemos nossa semelhança&#8230; talvez eu fosse um tanto parecido com Serge: só que com menos esforço consciente, quase nada de malícia; e detestando cigarros mais outros sinais da vida adulta.</p>
<p align="justify">Fora da distração, quando o amor me estalava dentro forte, súbito, e eu ganhava aí um foco, uma luz: só me dava mal. Sentia aquelas palpitações e tremeliques todos, as ansiedades do sentimento, suas pancadas hormonais, o coração saindo do peito, a boca seca, gaga, a barriga fria, doendo&#8230; credo: era terrível. Não sabia o que fazer, fazia tudo errado. Escrevia cartas, que depois viravam objetos de chacota; provas físicas da estupidez humana&#8230; da minha estupidez, unicamente. Via os corpos se atracando nos recreios, trás do muro, na viela&#8230; pensava que tudo aquilo fosse amor. Tentava também amar e não podia, mas: quando distraído, estava lá com a mão nalguma coxa adolescente de colega da sala; uma menina erguia a blusa pra mim, escondida; deitava com a amiga do bairro pra ver um filme embaixo do mesmo cobertor com as mãos confusas.</p>
<p align="justify">Sei lá&#8230; eu cheguei a lhe pedir em namoro antes mesmo de ficarmos, darmos um primeiro beijo. Como se eu tivesse nascido em 1885 e não um século mais tarde. Fui crescendo, ganhando novas atividades internas, hormônios decisivos; entendendo um pouco mais do mundo, então; perdendo enfim algumas ingenuidades, assimilando melhor as atrações, as seduções, envolvimentos. E a confusão só aumentava: esta é a verdade. Talvez parecesse que não, mas lá estava eu&#8230; estúpido.</p>
<p align="justify">Tentei juntar tudo para finalmente amar. No começo propus aliança de compromisso, depois propunha as utopias mais loucas: subir no observatório para olhar a lua com aquela garrafa de vinho e a nossa nudez; rodar a América Latina com palhaçaria, a caminhonete e um teatro de bonecos; comprar aquele pequeno veleiro de Sifnos por 3 mil euros; fazer dois empréstimos no banco e fugirmos pra Indonésia. Percebi que por meus caminhos – não os de Gainsbourg – terminei poeta. Percebi depois que, sensivelmente, amar ainda doía; e que poetas são tão passíveis de estupidez quanto qualquer humano – se não forem mais. Resolvi abandonar o amor e virar um cafajeste duma vez. Perdi-me num réveillon da Eslováquia, nevasca, vilarejo à meia-montanha, menos 17, 6 doses de slivovitz. Fui um putão exímio mas no dia seguinte já me apaixonei de novo, perdidamente, por ela.</p>
<p align="justify">Afinal, nunca consegui deixar de amar. E amar do melhor jeito. O pior jeito. Meu amor não cabia no meu tempo, não cabia na minha roupa, minha carteira, nem na minha geografia, meu mundo, meu modus operandi, não cabia na minha fala, meus poemas, nos silêncios&#8230; minhas cartas. Meu amor não cabia em mim. Não cabia em nós.</p>
<p align="justify">Descobrir que eu não conseguia amar a uma só de minha espécie, como um pinguim ou um joão-de-barro simplesmente foi um pavor, ao mesmo tempo em que foi uma delícia. E as confusões sempre me rondando. Deixei ela ir embora por achar que deveria ser um monge, que era preciso dedicar-me ao celibato, acabar com aquelas dores, aqueles problemas, na raiz. Fiz isso por amores passados quando estávamos tão bem. Chorei com as fotos do seu casamento anos mais tarde, de saudade, desespero; e de alegria: ela parecia feliz. Achei que ela fosse demorar mais pra voltar da China aquele dia, e de ansiedade, tomei um vinho pelo centro&#8230; cheguei atrasado. Não soube me fazer mais perto depois da nossa primeira vez, ainda que extasiado com tudo o que vivíamos. Fiquei com remorso do tinto que derrubei no tapete; de estar de pijamas com você em sua sala, bem num dia de preceito; de não acompanhar seu raciocínio por ter aceito aquele trago. Eu fui com muita sede ao pote. Era jovem demais e não soube lidar com aquele nome na parede. Aquela tatuagem, confesso&#8230; me estraçalhou. Seus pais foram os primeiros sogros que me detestavam. Queria que aquele voo tivesse umas 12 horas a mais&#8230; ter dito sim no restaurante japonês. Aquele ano foi um caos, um turbilhão. Não disse que a canção era pra você, apenas que tinha seu nome. Saí mesmo de mim, naquele tempo&#8230; cheguei ao auge das inconsequências, fui rude. Não fui até a sua casa pois tive vergonha. Por que você tinha que sair pra dar aula bem naquele horário? Você não me disse nada sobre as suas expectativas. Não consegui segurar. Enfim, eu era muito imaturo&#8230; Estúpido.</p>
<p align="justify">Lembra daquele beliche? Da lua cheia, a tempestade de estrelas cadentes? A nossa mão, o lago? O arco-íris, os espelhos e depois ainda o retrovisor? Lembra dos choques, tremores? Todo mundo no vizinho, o show da virada, e a gente no colchão, na sala? Lembra do cinema, da bolha em que nos enfiamos depois da meditação? Da piscina, do banho? Do rio? Lembra da laje? Do frio naquela noite na universidade? Da cara do segurança olhando a gente sem roupa ouvindo Dave Matthews? Da ponta do Atlântico e aquela madrugada de Lisboa? Lembra o por do Sol? A pizza? E que pinotage sul-africano? Aquela venda nos olhos? A noite de lado, aquele baile? Da casinha do fundo? O cartaz no aeroporto, aquele cheiro de madeira, o farol? Lembra da espera no cais de Heraclião, da parada súbita no Cambuí? Lembra a sua música? Aquela dança? No seu aniversário? Do experimento culinário? A muda de peroba rosa, o sorvete de amora, o cappuccino? Lembra do fusca amassando na pilastra, aquele gato, cavalo, aquela varanda? Lembra a chuva? A neve? A festa? A rede&#8230; O mar?</p>
<p align="justify">Eu sofri muito com isso de ter peito e garganta, sabe? E memória. Sei que pode ser ruim de acreditar. Sofri muito com o tanto de impressão que tive, de ter feito tanta gente sofrer também&#8230; junto; não mais junto. De um jeito ou de outro. Ela&#8230; Você. Eu sofro com as distâncias; às saudades, com a falta de paz, às vezes. Quem sabe se tivéssemos todos os perdões. Se olhássemos pros encontros e víssemos a trama da vida trançada nos destinos nossos. Os caprichos do universo. Se sentíssemos essa gratidão. Pelos voos, as quedas, cada outono, inverno, primavera&#8230; verão. Se esse nó do pescoço dissolvesse. O oco em nosso tronco desfizesse e amaciasse. Se eu tivesse mais&#8230; pra dar.</p>
<p align="justify">E no fim: amar, amei. Não teve jeito. Mesmo poeta. Mesmo que estúpido. O amor não tem hora; não espera. Ou vai ver que seria só besteira esperar&#8230; viver é tão breve. Machuquei, mas nunca quis machucar. Me fodi – mas nunca quis isso, no sentido mau do termo. Não que isso deva servir pra absolver ninguém&#8230; sou culpado e responsável, sim. Nasci num tempo determinado, nasci homem nesse tempo. Tive e tenho cá meus privilégios; meus pontos cegos, minha insensatez. Ainda me cabe o conflito de não saber exatamente se posso me arrepender de algo. Tão pouco sei se devo ou não me orgulhar por qualquer coisa.</p>
<p align="justify">Mas queria que tivéssemos um comum acordo no entender o que pedir perdão signifique. Queria que coubesse falar que ainda lhe amo. Que lhe desejo toda a alegria desse mundo. E força. E firmeza. Pra lidar com toda a tristeza do mundo também. Que apesar do jogo existir&#8230; apesar das transgressões em sua beleza: este mundo pra nós é trabalho. Como amar nos deu: trabalho. E como ainda dá. Queria que coubesse toda a gratidão. Que coubesse essa dança suave nesses ritmos-mistérios. Que coubéssemos ainda. Conscientemente. Transcendentalmente.</p>
<p align="justify">Só que nada disso caberia ainda, é provável. Não cabemos. O amor&#8230; não cabe.</p>
<p align="justify">Queria apenas enfim que cê soubesse: eu só queria que bastasse&#8230;</p>
<p align="justify">Eu, você, nós dois, nós todas. Esta vida.</p>
<p align="justify">Mas não basta. Para sempre,</p>
<p align="justify">Rafa</p>
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