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	<title>Agência Social de Notícias &#187; Moçambique</title>
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		<title>Embrapa faz mapeamento de recursos naturais de Moçambique</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Mar 2015 13:33:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[ASN]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Nova Economia]]></category>
		<category><![CDATA[RMC - Região Metropolitana de Campinas]]></category>
		<category><![CDATA[Embrapa Monitoramento por Satélite]]></category>
		<category><![CDATA[Moçambique]]></category>
		<category><![CDATA[Projeto Embrapa-Moçambique]]></category>
		<category><![CDATA[Projeto Paralelos]]></category>

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		<description><![CDATA[Um dos aspectos centrais da atual política externa do Brasil é o relacionamento mais forte com a África. Neste cenário destaca-se o Projeto Embrapa-Moçambique, que tem entre outros propósitos o mapeamento dos recursos naturais e zoneamento agroecológico do país africano, de modo que os moçambicanos possam planejar o uso da terra como uma das ferramentas de desenvolvimento, superando os ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Um dos aspectos centrais da atual política externa do Brasil é o relacionamento mais forte com a África. Neste cenário destaca-se o Projeto Embrapa-Moçambique, que tem entre outros propósitos o mapeamento dos recursos naturais e zoneamento agroecológico do país africano, de modo que os moçambicanos possam planejar o uso da terra como uma das ferramentas de desenvolvimento, superando os desafios incrementados por uma guerra civil que deixou marcas profundas. A Embrapa Monitoramento por Satélite, de Campinas, é peça fundamental desse exemplo de cooperação internacional do Brasil.</p>
<p>A Embrapa Satélite participa diretamente do Projeto Paralelos, uma das ações do Projeto Embrapa-Moçambique, como ficou conhecido o Projeto de Cooperação Técnica de Apoio à Plataforma de Inovação Agrária de Moçambique. Esse Projeto maior é fruto da parceria entre a Embrapa, o Instituto de Investigação Agrária de Moçambique (IIAM) e a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID). O Projeto Paralelos, especificamente, integra o Componente II do Projeto Embrapa-Moçambique, denominado Fortalecimento de Capacidades Estratégicas Transversais: Gestão de Recursos Naturais para a Agricultura, coordenado pela Secretaria de Relações Internacionais da Embrapa e que tem o apoio da Embrapa Solos e Embrapa Cerrado.</p>
<p>O Projeto Paralelos, explica o chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Monitoramento por Satélite, Édson Luís Bolfe, implica no uso de satélites e outros recursos tecnológicos como elementos estratégicos para o levantamento de solos, mapeamento de uso e cobertura das terras, zoneamento agroecológico, avaliação de impacto ambiental, melhoria de processos produtivos, monitoramento da intensificação da agropecuária e da degradação das terras, entre outras ações.</p>
<p>&#8220;Conhecendo melhor o seu território, os seus recursos naturais, Moçambique pode planejar melhor o seu futuro&#8221;, diz Bolfe. De modo específico, ele explica, o objetivo da atuação da Embrapa Monitoramento por Satélite é mapear as potencialidades dos recursos naturais de Moçambique em termos de produção agrícola e pecuária, indicando-se por exemplo as áreas mais adequadas para cultivos anuais, perenes e criações. A capacitação e recursos humanos em tecnologia de geoprocessamento no Brasil e em Moçambique é outro propósito.</p>
<div id="attachment_2629" style="width: 628px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://agenciasn.com.br/wp-content/uploads/2015/03/Moçambique.jpg"><img class="size-large wp-image-2629" src="http://agenciasn.com.br/wp-content/uploads/2015/03/Moçambique-997x1024.jpg" alt="Corredor de Nacala, área inicial de trabalho da Embrapa Monitoramento por Satélite (Com composição de imagens do Satélite Spot, no livro &quot;Paralelos - Corredor de Nacala&quot;)" width="618" height="635" /></a><p class="wp-caption-text">Corredor de Nacala, área inicial de trabalho da Embrapa Monitoramento por Satélite (Com composição de imagens do Satélite Spot, no livro &#8220;Paralelos &#8211; Corredor de Nacala&#8221;)</p></div>
<p><strong>Corredor de Nacala</strong> &#8211;  As pesquisas em Moçambique começaram no chamado Corredor de Nacala, uma área situada entre os paralelos 13ºS e 17ºS, praticamente na mesma altura geográfica dos Cerrados brasileiros, hoje altamente produtivos. A intenção é verificar se esta zona de Moçambique também apresenta potencial produtivo na agricultura e pecuária.</p>
<p>Muitas informações já foram levantadas, com diversas visitas à África de pesquisadores brasileiros. Os dados já analisados foram reunidos no livro &#8220;Paralelos &#8211; Corredor de Nacala&#8221;, que tem o chefe geral da Embrapa Satélite, Mateus Batistella, e o próprio Édson Bolfe como organizadores.</p>
<p>O trabalho dos pesquisadores da Embrapa partiu, de fato, da constatação de 68% do território moçambicano (cerca de 540 mil quilômetros quadrados) são cobertos por savanas tropicais, similares às terras da região de savana da África subsaariana, igualmente denominada Savana da Guiné, que tem características muito semelhantes ao Cerrado brasileiro.</p>
<p>Com uma população de 21,4 milhões, 14,3 milhões destes ainda vivendo na zona rural, Moçambique depende especialmente do setor primário. O país conta com reservas estratégicas de gás, carvão e outros minerais, e sua pauta de exportações é composta basicamente de alumínio (55%) e eletricidade e gás natural (14%).</p>
<p>A agricultura é de subsistência, sendo praticada principalmente por mulheres, e é nesse aspecto que a tecnologia brasileira, desenvolvida por organizações como a Embrapa, pode contribuir muito. Cerca de 90% das 3,6 milhões de famílias que vivem na zona rural são pequenos produtores, cultivando áreas de aproximadamente 1,3 hectare com lavouras e criação de pequenos animais.</p>
<p>Mandioca e milho somam 41% do valor total da produção rural, vindo em seguida sorgo e arroz, cultivados sobretudo para consumo familiar. Segundo o Inventário Florestal Nacional, Moçambique tem 51% de suas áreas cobertas com florestas. O país já registrou mais de 5,5 mil espécies vegetais, sendo pelo menos 250 endêmicas.</p>
<p>As mulheres são, efetivamente, o pilar da agricultura em Moçambique, trabalhando duro nas <em>machambas</em>, como são conhecidas as áreas de produção familiar. Assim, nota Édson Luís Bolfe, qualquer proposta de desenvolvimento agrícola no país deve considerar o papel da mulher na estrutura produtiva.</p>
<p><strong>Corredores de desenvolvimento</strong> &#8211; Nacala, o território onde a Embrapa tem atuado diretamente, está localizado na região Norte e é um dos três corredores de desenvolvimento de Moçambique, ao lado de Maputo (região Sul, onde está a capital do mesmo nome) e Beira (região central).</p>
<p>A região é o foco de um programa de desenvolvimento agrícola e rural denominado ProSAVANA, do governo moçambicano. Atualmente, são explorados somente 30% dos 4,6 milhões de terras agricultáveis da província de Nampula, onde está o Corredor de Nacala. A expansão e intensificação da agropecuária nas áreas restantes depende do efetivo conhecimento do potencial agronômico dos seus recursos naturais, e é nesse sentido que a Embrapa está contribuindo.</p>
<p>O Projeto Paralelos já identificou, por exemplo, o enorme potencial do Porto de Nacala, que foi considerado o porto menos poluído da região austral da África pela BM Trade Certification, organização responsável pela certificação internacional dos Sistemas de Gestão Ambiental (SGA). Com 800 metros de largura e 60 metros de profundidade, o Porto de Nacala é considerado o melhor porto de águas profundas da África Oriental, viabilizando o acesso irrestrito a qualquer tipo de navio.</p>
<p>Por suas características de solo e clima, entre outras, o Corredor de Nacala é apontado como a região com maior potencial par ao desenvolvimento agrícola na África Austral. A expectativa é a de que as tecnologias desenvolvidas no Cerrado brasileiro, que tornaram a região altamente produtiva, possam ser adaptadas para a área de savanas em Nacala. São biomas muito similares, lembrando que foram separados no momento de formação dos continentes.</p>
<p>Entre as potencialidades já verificadas no âmbito do Projeto Embraça-Moçambique, já foi identificada por exemplo a aptidão da região de Nampula, no Corredor de Nacala, para o cultivo do cajueiro. O uso de novas tecnologias pode levar à estruturação de mini unidades de processamento da castanha, de pequenas unidades de produção de suco de caju e uso do caju na alimentação animal, além da introdução de espécies de cajueiro-anão, precoces, de porte baixo e alto potencial produtivo.</p>
<p>Também no Corredor de Nacala, a região de Namialo tem alto potencial para ampliar sua produção de algodão. De novo a referência ao Cerrado brasileiro é inevitável. O Mato Grosso, localizado em latitudes similares ao Corredor de Nacala, é o maior produtos brasileiro de algodão. Algumas tecnologias usadas no Brasil podem ser então adaptadas ao contexto moçambicano, como cultivares modernas, sistemas de produção sustentáveis, o processamento de subprodutos do algodoeiro e o processamento mínimo da cultura na propriedade: pequenas unidades descaroçadoras e enfardadoras da fibra poderiam agregar valor ao produto agrícola e aumentar a rentabilidade do produtor.</p>
<p>Já a região de Lichinga, outra do Corredor de Nacala, tem grande potencial para fortalecer a produção de milho e soja. A região de Mecanhelas, por sua vez, pode incrementar sua produção de arroz.</p>
<p>O território do Corredor de Nacala está situado na mesma latitude onde se encontram Cuiabá, Goiânia e a capital brasileira, Brasília. O Projeto Paralelos, como parte do Projeto Embrapa-Moçambique,  é uma das plataformas de possível e importante cooperação entre os dois país com laços históricos, com raízes culturais comuns, e que agora têm a oportunidade de estar cada vez mais próximos. (<strong>Por José Pedro Martins</strong>)</p>
<div id="attachment_2630" style="width: 628px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://agenciasn.com.br/wp-content/uploads/2015/03/Moçambique2.jpg"><img class="size-large wp-image-2630" src="http://agenciasn.com.br/wp-content/uploads/2015/03/Moçambique2-997x1024.jpg" alt="A mulher é a base da agricultura de Moçambique (Fotos do livro &quot;Paralelos - Corredor de Nacala)" width="618" height="635" /></a><p class="wp-caption-text">A mulher é a base da agricultura de Moçambique (Fotos do livro &#8220;Paralelos &#8211; Corredor de Nacala)</p></div>
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		<title>Em Campinas, realizadora moçambicana conta como é fazer cinema na África da dor e da beleza</title>
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		<pubDate>Sun, 09 Nov 2014 18:14:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[José Pedro Soares Martins]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura Viva]]></category>
		<category><![CDATA[Isabel Noronha]]></category>
		<category><![CDATA[Moçambique]]></category>

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		<description><![CDATA[Por José Pedro Martins Encontramos a cineasta moçambicana Isabel Noronha em uma mesa da lanchonete próxima ao Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Unicamp, em Campinas, onde ela faz um doutorado. Manejando um laptop, ela estava feliz por compartilhar tempo e espaço com a juventude que ia e vinha dos institutos e faculdades, mas muito preocupada ...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por José Pedro Martins</strong></p>
<p>Encontramos a cineasta moçambicana Isabel Noronha em uma mesa da lanchonete próxima ao Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Unicamp, em Campinas, onde ela faz um doutorado. Manejando um laptop, ela estava feliz por compartilhar tempo e espaço com a juventude que ia e vinha dos institutos e faculdades, mas muito preocupada com dois processos eleitorais, que tomaram a sua atenção em outubro. Foram as eleições brasileiras e moçambicanas, ambas ganhas pelo partido do governo, PT no Brasil e FRELIMO em Moçambique.</p>
<p>Nas duas situações os resultados continuam repercutindo, com trocas de acusações e conflitos entre os partidos e projetos oponentes. A Renamo, o partido vencido em Moçambique, está pedindo oficialmente a anulação das eleições. Temendo seriamente pelo futuro da sua terra natal, Isabel contou com exclusividade para a Agência Social de Notícias a sua trajetória, uma síntese da beleza e das dificuldades em fazer cinema na África. No caso dela, apesar da segregação, da guerra e dos preconceitos.</p>
<p><strong>Segregação</strong> &#8211; Isabel nasceu em Maputo, a capital moçambicana, que na época, ainda sob o domínio português, se chamava Lourenço Marques. O seu pai, médico, era natural de Goa, a cidade-estado que também estava sob o controle colonial de Lisboa até 1961, quando foi ocupada pelo Exército da Índia, onde está localizada. A mãe era moçambicana, atuando na área de Serviço Social.</p>
<p>Desde cedo Isabel soube o que era viver em uma sociedade segregada. &#8220;Se Moçambique não vivia em um apartheid declarado, era de qualquer modo uma situação clara de estratificação social, com a divisão geográfica e social por raças&#8221;, ela lembra. Perto da bela orla marítima viviam os brancos, de ascendência portuguesa. Depois vinham os mestiços, como os portugueses-indianos de Goa. Em seguida vinham os estrangeiros que não procediam de colônias portuguesas e, finalmente, os mulatos e negros, a maioria em situação de extrema pobreza &#8211; quadro que melhorou, mas não foi totalmente modificado, pois metade da população vive abaixo da linha da pobreza, segundo dados oficiais e das Nações Unidas.</p>
<p>Filha de um cidadão originário da Índia, Isabel diz que sentia nitidamente a força da discriminação. Além deste legado do colonialismo, ela conviveu com o agravamento da conjuntura política ao longo da década de 1960 e início da década de 1970, em função da luta das forças governamentais contra o avanço das forças revolucionárias da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), liderada por Samora Machel.  Fundada na Tanzânia, em 1962, a FRELIMO era resultado da união de três grupos nacionalistas moçambicanos que estavam no exílio e cada vez mais assumiu um perfil socialista. A luta não era mais somente contra o domínio português, mas para a instalação de uma sociedade socialista em Moçambique.</p>
<div id="attachment_1111" style="width: 628px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://agenciasn.com.br/wp-content/uploads/2014/11/Mo-ºambique_0114.jpg"><img class="size-large wp-image-1111" src="http://agenciasn.com.br/wp-content/uploads/2014/11/Mo-ºambique_0114-1024x682.jpg" alt="Ela sabe o que é fazer cinema no meio da exclusão e da guerra" width="618" height="411" /></a><p class="wp-caption-text">Ela sabe o que é fazer cinema no meio da exclusão e da guerra</p></div>
<p><strong>A revolução</strong> <strong>e a guerra civil </strong> &#8211;  Os combates, que eram permanentes no interior, se aproximavam progressivamente dos limites de Maputo, e a conquista da independência se precipitou com a Revolução dos Cravos em Portugal, a 25 de abril de 1974. Os revolucionários vitoriosos logo iniciaram tratativas para a independência das colônias e a 7 de setembro de 1974 foi assinado o Acordo de Lusaka, entre o governo provisório português e a FRELIMO. Desde então, 7 de setembro se tornou a data nacional de Moçambique, &#8220;mais uma grande coincidência com o Brasil&#8221;, observa Isabel. No final de 1974, quase todos os 200 mil portugueses que viviam no país já tinham regressado a Lisboa.</p>
<p>Isabel Noronha relata momentos de muita tensão, antes da efetiva tomada do poder pela FRELIMO. Fortes combates aconteciam nos subúrbios, Maputo ficou sitiada por três dias, período em que o pai, médico, continuava o seu trabalho e tinha que atravessar várias barreiras policiais, sem nenhuma garantia de que não seria golpeado por algum disparo.</p>
<p>Em 1975 Samora Machel se tornou o primeiro presidente moçambicano após a independência, mas o país ainda não alcançaria a paz. Não demorou para ter início a guerra civil, com os combates entre as forças governamentais da FRELIMO e as fileiras da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), uma organização anticomunista criada com o apoio do governo da Rodésia, que tinha muita similaridade com o regime do apartheid sul-africano.</p>
<p><strong>Na clandestinidade</strong> &#8211; Com a FRELIMO no poder, todos os serviços foram estatizados. As casas que pertenciam aos portugueses ricos, e que deixaram o país, foram repassadas a funcionários do governo. Foi instalado um sistema de racionamento de alimentos. O Estado passou a orientar as funções dos cidadãos e Isabel Noronha tornou-se, por muitos anos, professora do que corresponderia no Brasil hoje ao ensino fundamental.</p>
<p>O ideário socialista era fortalecido no discurso da FRELIMO, apesar das dissidências e conflitos internos. &#8220;Os movimentos nunca são homogêneos&#8221;, lembra Isabel. Ela admite que este período deixou marcas profundas no pensamento, na cultura e no comportamento de gerações de moçambicanos. &#8220;Fomos formados na ideia de que não existimos como indivíduo, temos que ser úteis ao país&#8221;, destaca.</p>
<p>Com o agravamento da guerra civil, as posições políticas também se acirravam. Existiam praticamente três opções na época. Servir o Exército, atuar em uma profissão indicada pelo Estado ou servir nos chamados &#8220;campos de reeducação&#8221;, para quem não queria optar pelas duas primeiras alternativas. Os candidatos aos &#8220;campos de reeducação&#8221; eram os rebeldes, os considerados &#8220;improdutivos&#8221;, segundo Isabel Noronha.</p>
<p>Ela não chegou a ir trabalhar em um desses campos, porque &#8220;não foi apanhada&#8221;. Ou seja, passou a viver praticamente na clandestinidade, por um razoável período. Durante muitos meses morou longe dos pais e irmãos, em uma casa que permanecia fechada o dia todo. Ela não acendia luzes e saia durante curtos momentos para conseguir comida.</p>
<p><strong>Fazendo cinema</strong> &#8211; A trajetória de Isabel Noronha mudaria em um dia, no início da década de 1980, quando encontrou na rua um grupo que estava envolvido na produção de &#8220;O tempo dos leopardos&#8221;, primeiro longa-metragem moçambicano, em co-produção com a Iugoslávia. Estavam juntos o cineasta Camilo de Sousa (seu futuro companheiro), o jornalista Machado da Graça e Luis Patriquim, que assinaria o roteiro.</p>
<p>Do encontro surgiu o convite para Isabel participar da produção, mas havia uma grande barreira. Ela era uma &#8220;improdutiva&#8221;, e não conseguiria o emprego, a menos que aceitasse uma condição: teria que obter um laudo psicológico indicando que tinha sofrido um esgotamento nervoso, e por isso não pôde trabalhar anteriormente. Assim foi feito e ela se tornou assistente de logística da produção moçambicano-iugoslava, que teve direção geral de Zdravko Velimorovic.</p>
<p>Era 1985, o auge da guerra civil, comida, roupa e outros objetos de uso cotidiano estavam extremamente racionados, e Isabel tinha que se virar para encontrar o que a produção demandava. Uma dificuldade adicional, mas não menos relevante, as filmagens foram feitas na Ilha de Inhaca, um paraíso tropical, mas onde os recursos eram ainda mais escassos que na capital. As peças de roupas militares eram obtidas junto à população, em troca de cigarro. Detalhe: a equipe ficou hospedada em um local que havia servido de prisão colonial.</p>
<p>Isabel conta que faltava comida algumas vezes, e a fome era saciada com o consumo de Xidiba Ndota, um aguardente cujo nome pode ser traduzido como &#8220;o que derruba o homem&#8221;. &#8220;As garrafas ficavam em meu quarto&#8221;, lembra ela, que chegou a ser expulsa da produção, quando, um dia, conseguiu viajar em um helicóptero das Forças Armadas para uma festa em Maputo. Mas acabou reintegrada, quando pediu desculpas aos superiores.</p>
<p>&#8220;O tempo dos leopardos&#8221;, admite Isabel, foi a &#8220;escola da vida do cinema&#8221; para ela. Como auxiliar de logística, aprendeu muito. Depois dessa experiência, mergulhou de vez no cinema. Samora Machel morreu em 1986, novos momentos de instabilidade, mas veio finalmente o Acordo Geral de Paz, assinado a 4 de outubro de 1992, em Roma, pelo presidente moçambicano Joaquim Chissano, o líder da Renamo Afonso Dhlakama e representantes dos mediadores. A Renamo tornou-se um partido a partir daí, participando das eleições.</p>
<p><strong>Filmes de Isabel Noronha</strong> &#8211;  Além de atuar no Instituto Nacional de Cinema (INC), Isabel foi uma das fundadoras da primeira cooperativa independente de Video ( “Coopimagem”) e da Associação Moçambicana de Cineastas. Além do cinema, dedicou-se à academia, tornando-se licenciada em Psicologia Clínica e Aconselhamento pelo Instituto Superior Politécnico Universitário (ISPU), onde deu aulas em Psicanálise, Psicologia Social, Orientação Vocacional, Psicologia das Emoções, Psicologia da Personalidade, Psicologia da Comunicação.  É mestre em Saúde Mental e Clínica Social pela Universidade de Léon, na Espanha, e atualmente faz um doutorado em Antropologia na Unicamp, em Campinas.<br />
Como cineasta assinou os documentários “Assim na cidade”, “Sonhos guardados” e “ Ngwenya, o crocodilo” (eleito o melhor documentário de África, Ásia e América Latina pelo Festival de Milão), os três com temas associados à construção social e da identidade moçambicana.<br />
Em 2008 começou uma nova linha de pesquisa cinematográfica, com filmes sobre temáticas sociais, como a “Trilogia das Novas Famílias” ( Prémio Kuxa –Kanema, melhor filme moçambicano de 2007). A partir daquele ano atuou, junto com a brasileira Vivian Altman ( realizadora de animação), em trabalho de pesquisa mesclando filme e animação, o que resultou nas obras:  “Mãe dos Netos,” ( 2008), “Salani” (2010) e “ Meninos de Parte Nenhuma” ( 2011).  Em 2010 dirigiu “Maciene, para além do sonho”, um documentário sobre um projeto comunitário de produção de artesanato com base em recursos naturais<br />
Em 20011, co-realizou com Vivian Altman, Firouzeh Khosrovani ( Irã) e Irene Cardona ( Espanha) o documentário/animação “ Espelho Meu”, sobre a auto-imagem de mulheres de diferentes culturas, nos quatro continentes, que ganhou o primeiro prêmio no festival DocumentaMadrid 2011 e Mujerdoc 2012.</p>
<div id="attachment_1115" style="width: 628px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://agenciasn.com.br/wp-content/uploads/2014/11/Mo-ºambique_0007.jpg"><img class="size-large wp-image-1115" src="http://agenciasn.com.br/wp-content/uploads/2014/11/Mo-ºambique_0007-1024x682.jpg" alt="Isabel: filmes sobre a AIDS e novos arranjos familiares" width="618" height="411" /></a><p class="wp-caption-text">Isabel: filmes sobre a AIDS e novos arranjos familiares</p></div>
<p><strong>Inquietação</strong> &#8211; Com esta densa contribuição ao cinema moçambicano e africano, Isabel Noronha se firmou como uma das grandes realizadoras do continente. E ela está muito preocupada com o futuro do país e da África.</p>
<p>Ela sabia que, qualquer que fosse o vencedor, o vencido não receberia muito bem os resultados das eleições moçambicanas. E não deu outra: a Renamo, o partido formado na oposição armada à FRELIMO, contestou o pleito, que deu a vitória ao candidato da situação, Filipe Nyusi, atual ministro da Defesa, com cerca de 57% dos votos. Afonso Dhlakama, da Remano, teve cerca de 36% dos votos e Daviz Simango, do Movimento Democrático de Moçambique, aproximadamente 7%.</p>
<p>Não se sabe se haverá conflitos armados, mas de qualquer modo Isabel está inquieta. Ela entende que o país transitou para a direita, com o avanço de teses neoliberais e consequentes privatizações e enriquecimento de poucos.</p>
<p>A AIDS continua um grande desafio. São 1,5 milhão de infectados, em uma população de 22 milhões de pessoas. Estima-se que 85 crianças nasçam diariamente com o vírus HIV no país, onde a taxa de prevalência é de 11,5%, contra 0,5% no Brasil.</p>
<p>A &#8220;Trilogia das novas famílias&#8221; é o retrato desse enorme drama. Os filmes de Isabel mostram a realidade dos novos arranjos familiares criados a partir da tragédia da AIDS. O corpo político e biológico dominado por um novo tipo de imperialismo, o da doença ligada à miséria e ao estigma.</p>
<p><strong>Papel do Brasil</strong> &#8211; Inquietação também como futuro da África, vítima de nova onda mundial de preconceito, na esteira do Ebola e outros fatores. &#8220;O Ebola não pode ser motivo para alimentar a xenofobia&#8221;, adverte a cineasta.</p>
<p>Para ela o Brasil, por sua ligação histórica com a África e presença cada vez maior no continente, tem um grande papel no futuro hemisférico. O Brasil é parceiro de Moçambique, acaba de enviar para este país, por exemplo, uma máquina para produzir antirretrovirais (a única na África).</p>
<p>Mas Isabel lamenta que a imagem brasileira tenha sido afetada, em parte, por mudanças econômicas e geopolíticas nos últimos anos. &#8220;As festas durante os períodos mais críticos tinham muita música brasileira, muitos intelectuais brasileiros foram para Moçambique durante a ditadura, nós líamos os ´Subterrâneos da Liberdade´ de Jorge Amado com voracidade, a feijoada é muito conhecida&#8221;, lembra a cineasta.</p>
<p>Mas hoje essa imagem positiva mudou um pouco, ela nota, pela forte presença de empresas brasileiras no país e no continente, com uma postura agressiva de exploração, principalmente na área da mineração, apontando para uma espécie de neocolonialismo.</p>
<p>O racismo é um dos grandes males do século 21, entende Isabel Noronha. É neste panorama que ela defende uma postura cada vez mais vibrante e de liderança do Brasil contra a intolerância e a favor da cultura da paz e da diversidade.</p>
<p>Em Campinas, desejando o melhor para o seu sofrido país, e também para o Brasil onde vive no momento, com saudade do marido e da família, Isabel Noronha continua projetando sonhos.</p>
<div id="attachment_1112" style="width: 628px" class="wp-caption alignnone"><a href="http://agenciasn.com.br/wp-content/uploads/2014/11/Mo-ºambique_0076.jpg"><img class="size-large wp-image-1112" src="http://agenciasn.com.br/wp-content/uploads/2014/11/Mo-ºambique_0076-1024x682.jpg" alt="Isabel: Brasil tem papel histórico e cultural muito importante na África, e deve ter cuidado com postura neocolonial" width="618" height="411" /></a><p class="wp-caption-text">Isabel: Brasil tem papel histórico e cultural muito importante na África, e deve ter cuidado com postura neocolonial</p></div>
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