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Semana da Educação, a Campinas que brilha
Teatro do Centro de Convivência Cultural ficou lotado na abertura da Semana da Educação de Campinas de 2026 (Foto José Pedro Soares Martins)

Semana da Educação, a Campinas que brilha

Por José Pedro Martins

Começou nesta quarta-feira, dia 10 de junho, a 16ª Semana da Educação de Campinas, com um encontro aberto ao público a partir das 13 horas, no Centro de Convivência Cultural.  A atividade foi planejada para o debate do tema “Da escuta ao diálogo: tecendo redes de afeto e aprendizado”. A proposta, segundo o Movimento Educação Sempre, que promove a Semana neste ano, foi reunir especialistas de diferentes áreas, em formato de talk show, para abordagem sobre os caminhos possíveis para uma educação mais acolhedora: conectada ao afeto, ao pertencimento e à construção coletiva do aprendizado.

A 16ª Semana da Educação de Campinas tem os apoios da Fundação Educar, Fundação FEAC, Secretaria Municipal da Educação e Diretorias Regionais de Ensino e também terá uma atividade na sexta-feira, dia 12, no Espaço de Eventos da Secretaria de Educação de Campinas, no Jardim do Vovô.

A programação também marca o lançamento do guia “Escutar para vivenciar e transformar: caminhos para a escuta ativa com presença e compreensão”, voltado à escuta ativa de adultos e pensado como ferramenta de apoio para fortalecer o diálogo nos espaços educativos.

A Semana da Educação, que chega em 2026 à sua 16ª edição, se consolidou como um dos principais eventos do setor em Campinas. Começou de forma associada ao Compromisso Campinas pela Educação, lançado em 2007 pela Fundação FEAC, como um núcleo local do Movimento Todos pela Educação. Desde o início, a Semana da Educação tem sido estruturada com grande apoio da Fundação Educar e da própria FEAC, em parcerias como a da Secretaria Municipal da Educação e Diretorias de Ensino da rede estadual.

A Semana da Educação já trouxe alguns dos principais pensadores da área no cenário do Brasil e América Latina em geral, como o filósofo e educador colombiano Bernardo Toro, que fez a palestra de abertura da 5ª edição, em 2014. Para Bernardo Toro, o Brasil “tem enorme responsabilidade em termos de educação porque ele dá exemplo para toda América Latina”. Ele defendeu mudanças de paradigmas, para que a educação tenha melhor qualidade no país e no continente. “Se não mudamos paradigmas, não mudamos nossas percepções e sentimentos e, com isso, a educação e nada muda”, observou.

Momento de encontro dos mais de 400 educadores que foram ao teatro do Centro de Convivência participar da abertura da Semana que discute a temática da escuta (Foto José Pedro Soares Martins)

Momento de encontro dos mais de 400 educadores que foram ao teatro do Centro de Convivência participar da abertura da Semana que discute a temática da escuta (Foto José Pedro Soares Martins)

São quatro principais paradigmas que, na sua opinião, devem ser modificados na área educacional no cenário latinoamericano. Em primeiro lugar, “não é possível aceitar como normal a existência de dois sistemas educativos de diferente qualidade, um estatal e um privado”.

“É preciso mudar o desenho da educação, no sentido de uma verdadeira educação pública, senão os esforços de uma educação de qualidade para todos não serão viáveis”, advertiu o colombiano, para quem a educação deve ser vista, então, como “um bem público”.

Um segundo paradigma a ser modificado é o de “definir o educador como docente”. Para Toro, “a educação inclusiva requer uma nova definição de educador, como profissionais da aprendizagem, e que prestem contas à sociedade sobre seu trabalho”. Dar prevalência às abordagens pedagógicas de natureza frontal e magistral é o terceiro paradigma a ser transformado, frisou Bernardo Toro. Para ele, “ a educação inclusiva pede que os enfoques pedagógicos dos sistemas educativos passem dos modelos pedagógicos frontais e magistrais para modelos de aprendizagem colaborativa e cooperativa em grupo”.

E o quarto paradigma a ser superado, acrescentou, é aquele que considera “a valorização da inteligência como um bem privado, individual e que tem supremacia sobre os outros”. O filósofo e educador colombiano, um dos mais respeitados nomes na Educação na América Latina, entende que “uma educação inclusiva supõe renunciar ao princípio guerreiro da inteligência como força intelectual para passar ao altruísmo cognitivo”. E o altruísmo cognitivo, concluiu, “supõe entender o cuidado do intelecto sob condições de aceitação da debilidade e a cooperação humana”.

Também participaram da semana o filósofo Mário Sergio Cortella e a educadora Maria Alice (Neca) Setúbal, entre outros. Neca Setúbal participou da abertura da 6ª Semana da Educação, com o tema “Escola, Cultura e Cidadania: a Escola como espaço de convivência, diálogo, renovação e criatividade”. Neca foi coordenadora de Educação para América Latina e Caribe pelo Unicef e é idealizadora e dirigente do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (CENPEC).

A Semana da Educação representa, portanto, um grande esforço por parte dos idealizadores e daqueles que deram sequência à proposta, no sentido de qualificar o sistema educacional em Campinas, sobretudo no ensino fundamental e médio. É preciso reconhecer a história, as raízes, para que haja consistência em ações futuras.

A trajetória da Fundação Educar e da Fundação Educar na esfera educacional é intensa. Em 1995, quando a FEAC tinha Luis Norberto Pascoal (idealizador da Fundação Educar) na presidência e Darcy Paz de Pádua na vice-presidência da Área Social, um seminário interno indicou a educação como prioridade para a instituição nos anos seguintes.

A FEAC encomendou então um documento com análises e propostas para o educador Antonio Carlos Gomes da Costa, profissional que havia sido fundamental no processo que resultou na garantia dos direitos das crianças e adolescentes na Constituição de 1988 e que tinha sido um dos idealizadores do Pacto de Minas pela Educação. Gomes da Costa apresentou o estudo “Infância, Juventude, Estado e Sociedade no Brasil – na Antessala do ano 2000”, que foi muito discutido na FEAC e em seus parceiros. Um dos pontos essenciais era que Gomes da Costa enfatizava o imperativo do envolvimento integral das comunidades em um projeto de fomento de Educação de qualidade para todos.

As discussões se aprofundaram e a FEAC articulou a criação da Aliança de Campinas pela Educação, sempre com apoio da Fundação Educar. Um seminário realizado nos dias 6 e 7 de outubro de 1995, com a participação de representantes de todos os segmentos sociais do município, selou o lançamento da Aliança, que resultou em vários projetos concretos,

Em 27 de novembro de 2007 aconteceu o lançamento do Compromisso Campinas pela Educação, versão local do Movimento Todos pela Educação. Novamente o esforço por mobilização da comunidade pela educação de qualidade para todos.

Ligado ao Compromisso, foi criado o Observatório da Educação, com a participação de alguns dos nomes mais importantes do setor no Brasil e representantes das universidades de Campinas e outras instituições. Desde 2010, a Fundação FEAC, em parceria com a Fundação Educar e apoio de vários parceiros, realiza a Semana da Educação, que já discutiu temas fundamentais para o setor e trouxe a Campinas especialistas de renome internacional.

Campinas é reconhecida por seu polo científico e tecnológico, tem universidades de excelência, mas ainda tem muitos desafios no ensino fundamental e médio. A Semana da Educação é um claro exemplo da Campinas que brilha quando é corajosa, ousada, pensa o futuro. No caso, com os olhares diferenciados de profissionais que pensam a Educação e sabem que ela é a grande, talvez a única, plataforma de transformação social de fato.

 

 

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