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Cultura próxima da Natura em Campinas
Parque Ecológico Prof. Hermógenes de Freitas Leitão Filho. (Foto: Facebook/@parqueprofhermogenes)

Cultura próxima da Natura em Campinas

Por José Pedro Martins

Uma das principais causas da dramática crise socioambiental no planeta é o divórcio entre a natureza e a cultura. A Natura distante da Cultura, em função de um modo de vida (?) que privilegia o material, o físico, o ganhar a qualquer preço, seja dinheiro ou qualquer outra coisa. O meio ambiente ficando em segundo plano e a cultura, considerada como o modo de viver de um povo, de uma comunidade, em outra dimensão.

           Mas são múltiplos os sinais, em várias partes da Terra Nave Mãe, de que há pessoas, grupos e comunidades pensando diferente, inserindo a natureza, o respeito aos recursos naturais, em seu modo de vida. Como já fazem geralmente os povos tradicionais ou já faziam as culturas ancestrais, muitas delas destruídas justamente por um outro estilo de vida (?) que se impôs, pelas armas ou outras formas de violência.

       A pandemia de Covid-19 parece ter acelerado este processo. Muita gente constatando que viver naquela correria, naquela alucinação, típica da sociedade contemporânea, não faz nenhum sentido. É quando ocorre a redescoberta da natureza, é quando a Cultura se aproxima da Natura.

          Acompanhando a questão socioambiental há 45 anos, em toda a minha trajetória como jornalista e escritor, verifico que este fenômeno pode ser observado por exemplo aqui em  Campinas. A cidade tem casos históricos de mobilização socioambiental, mas até há poucos anos eram poucas as pessoas ou grupos de fato envolvidos e comprometidos com ações determinadas em defesa dos recursos naturais. Os chamados ambientalistas ou ecologistas de corpo e alma e, também, muitos cientistas, nodatamente professores e pesquisadores da Unicamp, como um Mohamed Habib (referência na luta contra o excesso do uso de agrotóxicos) ou um Oswaldo Sevá (referência em movimentos questionando grandes hidrelétricas ou termelétricas).

         Entre as organizações e movimentos históricos, podem ser citados a Sociedade Protetora da Diversidade das Espécies (Proesp), a Associação Campineira de Ação Ecológica, a Jaguatibaia e o Movimento Reviva o Rio Atibaia. E também o grupo Febre Amarela, que teve o arquiteto e ex-prefeito Antônio da Costa Santos, o Toninho, como um de seus fundadores.

Fórum Socioambiental de Campinas e seus parceiros, como brigadas florestais voluntárias e movimentos populares, promovem a festa (Divulgação/Samuel Lorenzetti)

Fórum Socioambiental de Campinas e seus parceiros, como brigadas florestais voluntárias e movimentos populares, promovem a festa (Divulgação/Samuel Lorenzetti)

        Mais recentemente, inclusive pelo agravamento da crise socioambiental,  como no caso da emergência climática e erosão da biodiversidade, proliferam novos grupos e movimentos, em diversas regiões de Campinas. Muitos deles estão reunidos no Fórum Socioambiental de Campinas.

        Entre outros, podem ser citados, como indicadores deste momento novo planetário, de aproximação cada vez maior de Cultura e Natura, de preocupação com o meio ambiente como parte fundamental do modo de vida das pessoas: Comissão Popular da Água e do Clima, Coletivo Campo Grande, Coletivo Saúde Marielle, MOPS – Movimento Popular de Saúde de Campinas, Aldeia Periférica de Campinas, Associação Todo Bicho Bom, Coletivo Andorinhas, Núcleo Socioambiental Jd. Nova Europa, Ecorresistência Campinas, As Marielles, Movimento de Resistência Miguel Machado, Agulhas Solidárias, Coletivo Todos pelo Jardim Bassoli, Brigada Popular Cachorro-do-Mato, Brigada Saruê, Brigada Florestal Manacá-da-Serra.

       Pois todos estes grupos e movimentos estarão representados na 2ª Festa Julina do Fórum Socioambiental no dia 11 de julho, em um encontro na Estação Cultura, das 12 às 22 horas, com entrada gratuita, para celebrar a cultura popular brasileira e fortalecer iniciativas voltadas à sustentabilidade, à economia solidária e ao engajamento comunitário. A iniciativa conta com apoio da Secretaria de Cultura e Turismo de Campinas. 

         A programação contempla as apresentações musicais do Trio Curiá, que leva o forró para o arraiá; das Caixeirosas, tradicional bloco da cidade; e também da cantora Ana Person, com composições que dialogam com a proteção ambiental das áreas da região.

        A Festa Julina será realizada dentro do conceito “Lixo Zero”, buscando reduzir ao máximo a geração de resíduos durante o evento. Por isso, o público é convidado a levar seu próprio copo ou caneca reutilizável, contribuindo para diminuir o consumo de descartáveis e incentivando práticas mais sustentáveis.

           Cultura e Natureza juntas, celebrando a vida, dançando a vida, mas também manifestando preocupação, inquietação e indignação pelos rumos que o planeta está tomando. No fundo, a esperança de que ainda é possível mudar, fazer diferente. Somente movimentos assim, alcançando uma escala planetária, global a partir do local, é possível deter a lógica do crescimento e consequente destruição sem limites. 

         Campinas tem seus plantadores de florestas. Como um Hermes Moreira de Souza que atuou por décadas no Instituto Agronômico e plantou a Mata da Fazenda Santa Elisa (e também um mini-bosque próximo de sua casa, perto da Avenida Norte-Sul). Um Hermógenes de Freitas Leitão, professor da Unicamp que hoje dá nome a um parque botânico próximo à Universidade. Um Wolfgang Schmidt, que pelo seu trabalho recebeu o Prêmio Global 500 da ONU. Um Padre Luiz Roberto Di Lascio, que liderou o Projeto Vamos Florir Nossos Jardins, responsável pelo plantio de milhares de árvores na Região dos Amarais, quando estava à frente de São Marcos, o Evangelista.

         Agora temos outros semeadores, de árvores e também de esperança. Unindo Cultura e Natura, pelo bem do planeta e da humanidade.

 

(Publicado originalmente no Portal Hora Campinas)

 

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