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Renováveis, turismo e agricultura sinalizam novo ciclo de desenvolvimento no Nordeste
Porto do Mucuripe, um dos símbolos da energia eólica no Nordeste: energia sustentável em progresso (Foto Adriano Rosa)

Renováveis, turismo e agricultura sinalizam novo ciclo de desenvolvimento no Nordeste

Campinas, 30 de junho de 2026

Por José Pedro Soares Martins

Investimentos que tornaram a região o principal polo de energia solar e eólica do Brasil, instalação de datacenters e campus avançados do ITA e IMPA Tech, proliferação de projetos de logística, salto na produção agrícola familiar e do grande agronegócio, expansão do turismo, associado à riqueza do patrimônio histórico e cultura local. Ao mesmo tempo, ampliação da rede de Universidades públicas estaduais e federais, com a consequente evolução no acesso ao ensino superior.

O Nordeste passa por um dos seus mais importantes períodos de desenvolvimento, com uma robusta dinâmica econômica e social em múltiplas áreas, resultando em um panorama favorável à superação de diferentes desafios e de uma visão estereotipada sobre a região, construída historicamente. Este é o olhar de diferentes especialistas, de diversas áreas, consultados pela Agência Social de Notícias.

A perspectiva geral é a de que o Nordeste vivencia, pela soma de vários fatores, uma oportunidade histórica em termos de protagonismo e desenvolvimento sustentável. A região foi o centro econômico e político do Brasil nos séculos iniciais do período colonial, tendo inclusive a primeira capital do país, Salvador (BA), por quase dois séculos. Agora é a hora de uma virada de página, com a escrita, por múltiplas mãos, de um roteiro novo para a região que é o lar de 54,6 milhões de brasileiros, de acordo com o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O Nordeste tem 27% da população brasileira, mas soma 13% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. A pobreza crônica atinge 48% da população, mas há importantes sinais de avanços, em alguns indicadores, justamente pelo novo ciclo de desenvolvimento vivenciado pela região. Em 1960, o PIB per capita do Nordeste era somente de 25% do que era encontrado na Região Sudeste. Em 2020, já era de 42%. O Índice Gini, que mede a desigualdade econômica, era de 0,546 em 2012, subindo para 0,556 em 2021, mas já melhorou para 0,517 em 2022. O Índice Gini varia de 0 a 1 e quanto mais perto de 1, maior a desigualdade.

“O crescimento projetado para o Nordeste, de 3,4% ao ano entre 2026 e 2034 — acima da média nacional — não é conjuntural: é o reflexo de uma vantagem comparativa que a transição energética global transformou em vantagem competitiva estrutural”, afirma o presidente do IBGE, Márcio Pochmann.

“Na sequência, a camada dessa transformação se apresenta como logística e geoeconômica. O deslocamento da produção brasileira para o interior como o Matopiba, o Cerrado nordestino, cria uma demanda de escoamento que aponta diretamente para os portos do Nordeste”, continua Pochmann, citando três das áreas de dinamismo acelerado de crescimento na região, a das energias renováveis, do agronegócio e da logística.

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Energias renováveis desenham nova paisagem no Nordeste

Durante muito tempo, a condição de o Nordeste estar situado em grande parte em uma território semiárido foi apontada, em uma visão primária e superficial, como um empecilho ao pleno desenvolvimento da região. Pois, nos últimos anos, justamente os recursos naturais nordestinos têm sido confirmados como alguns dos elementos responsáveis pelo impulso ao desenvolvimento sustentável regional. No caso, a própria natureza é a base da matriz energética renovável que foi estruturada no Nordeste.

“O Nordeste brasileiro vive uma inflexão histórica sem precedentes. Depois de muito tempo, os seus ativos naturais  (irradiação solar, ventos, posição atlântica) coincidem com uma demanda global estrutural por energia limpa. A região já responde por 91% da energia eólica e 50% da solar do país, e essa base serve de plataforma para os maiores projetos de hidrogênio verde do hemisfério sul, com corredores verdes estabelecidos com (o porto de) Rotterdam e em negociação com mercados asiáticos”, diz Márcio Pochmann.

De fato, nas últimas décadas, o Nordeste passou a sediar o mais importante polo de energia solar e eólica no Brasil, com projetos que desenharam uma nova paisagem para a região. As fazendas de energia solar, espalhadas por vários estados, e as unidades de energia eólica, pontilhando o belo litoral nordestino, são a materialização de investimentos em uma área crucial não só para o Brasil, mas para todo o planeta, o da urgência de enfrentamento das mudanças climáticas, tendo a transição energética como uma plataforma essencial.

Segundo o Anuário Estatístico de Energia Elétrica 2025, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), ao final de 2024 o Brasil tinha 236 gigawatts de energia elétrica instalada, com as fontes hidráulicas gerando 56% da eletricidade no país. O maior crescimento foi das plantas de geração solar fotovoltaica, com aumento de sua capacidade instalada em 28% em relação a 2023, alcançando um total de 48.468 MW, ultrapassando a potência instalada das termelétricas (UTEs).

Em 2025, de janeiro a novembro, a potência de geração de energia elétrica no Brasil foi ampliada em 6.751,03 megawatts (MW), com 118 novas usinas, novamente com destaque para a energia solar. Foram 53 novas centrais solares fotovoltaicas (2.464,04 MW) e 37 eólicas (1.537,90 MW). A maior parte dos novos projetos de energia solar e eólica foi instalada no Nordeste.

Os estudos para a consolidação do polo de energia solar e eólica no Nordeste não param. No final de maio de 2026 foi lançado o estudo de viabilidade de um projeto inédito no Brasil, de uma planta piloto de energia solar concentrada (CSP), prevista para operar no Piauí. O projeto, especificamente para Brejo do Piauí, a 400 km de Teresina, é fruto da parceria entre SENAI, Piauí Instituto de Tecnologia (PIT) e CGN Brasil.

“O Piauí já é referência em geração de energia renovável e, agora, queremos nos tornar referência também no contexto da usina solar concentrada e da pesquisa aplicada”, assinala Rafael Jales, diretor-presidente do PIT.

De modo diverso dos sistemas fotovoltaicos tradicionais, a energia solar concentrada emprega calhas parabólicas para concentrar a luz solar e gerar calor. Com isso, é possível a conversão contínua de energia térmica em eletricidade mesmo durante a noite, ou mesmo em horas de baixa incidência da luz solar.

Um dos elementos-chave na expansão dos parques solar e eólico na região foram os investimentos por parte do Banco do Nordeste (BNB). Somente no período 2019-2022, o BNB investiu R$ 25 bilhões em projetos de energia solar e eólica em sua área de abrangência, sendo R$ 5,9 bilhões contratados apenas em 2022.

Uma das áreas promissoras é da geração eólica offshore. Logo serão instalados os primeiros aerogeradores no mar, o que já motiva várias iniciativas, como a da preparação de profissionais para o setor, por parte do Serviço Nacional da Indústria (SENAI) do Rio Grande do Norte.

“O offshore é a próxima fronteira brasileira para a geração de energia. Temos aí um novo horizonte, um novo mercado, uma oportunidade para o país com as melhores condições de vento do mundo, e as pessoas precisam estar preparadas para o que irá surgir”, observa o diretor regional do SENAI-RN, Rodrigo Mello.

Com efeito, a FAETI – Faculdade de Energias Renováveis e Tecnologias Industriais do SENAI-RN abriu em 2026 um programa de pós-graduação pioneiro no país. O curso contempla uma especialização lato sensu com 40 vagas e duração de 14 meses. O novo curso antecipa o atendimento a uma demanda por profissionais na área de energia eólica offshore que é uma das mais promissoras no setor.
A licença prévia para o primeiro projeto de energia eólica offshore no Brasil foi emitida em 2026 pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), para o Rio Grande do Norte. O projeto, uma planta-piloto ou sítio de testes para estudos com foco na atividade, foi concebido pelo SENAI-RN, por meio do Instituto SENAI de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER).
“A criação da FAETI, a especialização em eólica offshore e as outras formações que temos agora ou nos planos não foram, portanto, uma decisão de virada de chave. Não foram uma mera oportunidade de mercado. Mas, sim, a busca por atender a mais uma demanda industrial, aproveitando a competência que desenvolvemos ao longo dos últimos 20 anos de trabalhos que têm envolvido as energias renováveis nos nossos centros e a infraestrutura de ponta que construímos para esse fim”, ratificou Rodrigo Mello, do SENAI-RN.
Hidrogênio verde e etanol são outras vertentes de renováveis no Nordeste
Mas não são apenas as fontes eólica e solar que indicam um protagonismo cada vez maior do Nordeste. Também são os casos do etanol, em que a região já tem uma forte presença, e a do hidrogênio verde, por exemplo no caso dos projetos anunciados para o Complexo Industrial e Portuário do Pecém no Ceará. No caso do etanol, não há perspectivas somente para o segmento da cana-de-açúcar, mas de outras vertentes, como o etanol do agave, que também é tradicional em território nordestino.
Planta originária do México, mas que se adaptou muito bem no semiárido e outras regiões do Brasil, o agave pode vir a ser mais uma importante opção no cardápio de alternativas para a produção do etanol no país. O agave é uma planta que está na origem da fabricação tanto da tequila quanto das fibras de sisal e que está no centro de linhas de pesquisa envolvendo duas das principais instituições científicas paulistas, ambas sediadas em Campinas, a Unicamp e o Instituto Agronômico.
A Unicamp é uma das parceiras, ao lado da Shell e do Senai Cimatec, da Bahia, entre outras instituições, do Programa Brave – Brazil Agave Development, lançado em novembro de 2022 e que contempla a construção de uma biorrefinaria de etanol a partir do agave na caatinga baiana. O Brave, que também envolve USP, Unesp e Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), abrange o trabalho de dezenas de pesquisadores, empenhados na viabilização do uso do agave para a produção de etanol.
“O potencial do agave para a transição energética é imenso”, afirma Fabio Raya, pesquisador do Laboratório de Genômica e bioEnergia (LGE) do Instituto de Biologia da Unicamp.
Ele nota que, perfeitamente adaptado ao semiárido, o agave, entre outros diferenciais, precisa de um volume de chuvas de 300 a 800 milímetros por ano, por hectare, enquanto a cana-de-açúcar demanda um volume de 1.200 a 1.800 milímetros de chuvas anuais, por hectare.
Além do mais, o agave consegue resistir a longos períodos sem chuva. Raya lembra também que o rendimento do agave por hectare pode chegar a 880 toneladas de alta densidade energética, proporcionando ainda o armazenamento de 617,7 toneladas de água e a captura de 385,4 toneladas de carbono.
Outro dado que ratifica as enormes perspectivas abertas pelo uso do agave para a produção do etanol é que ele pode ser cultivado em toda a extensão da caatinga, que soma 84 milhões de hectares entre a Região Nordeste e o norte de Minas Gerais, enquanto a atual produção de cana-de-açúcar abrange cerca de 8 milhões de hectares, entre o interior de São Paulo, regiões do Centro-Oeste e áreas de estados nordestinos próximas ao litoral.
Em função de todos esses elementos é que um conjunto de instituições públicas e privadas se reuniu no Brave, que já tem resultados relevantes. Foi no âmbito do programa que cientistas do LGE-IB da Unicamp aplicaram engenharia genética para desenvolver uma cepa geneticamente modificada da levedura Saccharomyces cerevisiae, que tem a capacidade de digerir o principal carboidrato presente no agave.
A cepa desenvolvida pelos pesquisadores da Unicamp, que gerou um pedido de patente encaminhado ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), contribui para o processo de produção do etanol a partir do agave. As pesquisas na Unicamp sobre agave utilizaram variedades na coleção do Instituto Agronômico de Campinas.
De modo vinculado ao cenário das energias renováveis, o Nordeste também conta com grande potencial para exploração das terras raras, consideradas essenciais para a transição energética global, entre outros usos em tecnologia de ponta. A Bahia já representa 33% d0s requerimentos de pesquisa de terras raras no Brasil, sendo o estado líder neste ranking, com mais de 1.000 áreas já autorizadas. No extremo sul baiano, a canadense Energy Fuels Brasil desenvolve um projeto de exploração de terras raras, com investimento de mais de R$ 130 milhões, enquanto, no Recôncavo Baiano, a Brazilian Rare Earths (BRE) desenvolve o Projeto Monte Alto, através da Borborema Recursos Estratégicos.
Por outro lado, também crescem no Nordeste os investimento no setor de combustíveis fósseis. A Petrobras anunciou em maio de 2025 um investimento de mais de R$ 70 bilhões, em grande parte para o Projeto Sergipe Águas Profundas, o que representará a duplicação da contribuição do Nordeste na produção do gás natural no país, dos atuais 16% para 31% em 2025. O projeto contempla a construção de duas novas plataformas pela SBM Offshore, além da reabertura da fábrica de fertilizantes nitrogenados (Fafen) em Laranjeiras.
 
Agricultura, cada vez maior forte no Nordeste 
      De forma muito próxima à contribuição da região para a transição energética, uma demanda que é global, o Nordeste também tem uma produção agrícola cada vez mais forte. E não somente em termos do grande agronegócio, centrado em commodities para exportação, mas também no caso da agricultura familiar, que de qualquer modo necessita de maior apoio para consolidação e expansão.
       Um indicador sinalizando o avanço da agricultura na região é o fato de que o PIB agrícola per capita do Nordeste, em 1960, era de 71% em relação ao do Sudeste. Em 2020, já era de 141% em relação ao do Sudeste, com uma clara contribuição da expansão da agricultura de alta intensidade tecnológica no Matopiba, mas com a dilatação do setor também no território conhecido como SEALBA, formado pelos estados do Sergipe, Alagoas e Bahia. Uma das explicações para o crescimento agrícola expressivo no SEALBA é que, enquanto na maior parte do país o plantio das culturas agrícolas ocorre entre setembro e dezembro, no conjunto dos três estados ocorre geralmente entre abril e junho.
        Com uma colheita na entressafra nacional, os preços se tornam mais atrativos. Além disso, o terreno em boa parte do SEALBA tem uma suave ondulação, com uma declividade entre 3% e 8%, considerada ideal para a mecanização agrícola. E, além do mais, o SEALBA está localizado nas cercanias de três saídas estratégicas: Salvador e os portos de Barra dos Coqueiros (SE) e Maceió (ALA), o que representa menor custo de transporte e competitividade para os produtos da região.
        Mas realmente, por sua magnitude, chama mais atenção o vigor do agronegócio no Matopiba, a região formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. O Oeste baiano, tendo como epicentro os municípios de Luis Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério, é uma das grandes estrelas mais ou menos recentes do agro nacional, ao lado da Região Centro-Oeste. A área coberta por pivôs centrais no extremo-oeste baiano, somando mais de 330 mil hectares irrigados, é uma das faces da alta intensidade tecnológica na agricultura da região.
Matopiba
                                                                           Mapa do Matopiba (Embrapa Territorial)
        O Matopiba reúne 337 municípios e abrange uma área de cerca de 73 milhões de hectares. Engloba mais de 324 mil estabelecimentos agrícolas, 46 unidades de conservação, 35 terras indígenas e 781 assentamentos de reforma agrária, segundo levantamento feito pelo Grupo de Inteligência Estratégica (GITE) da Embrapa.
      Com base nos dados da Embrapa Territorial, que usa sensoriamento remoto por satélite, entre outras tecnologias,  a região Matopiba foi oficialmente estabelecida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) por meio da Portaria Nº 244, datada de 12 de novembro de 2015, e publicada no Diário Oficial da União. Muito antes, porém, a região como um todo já vinha se destacando pela produção intensiva em produtos como soja e milho.
        A produção de soja, de fato, tem sido particularmente expressiva na região. Em 2013, a produção total era de 6.818.375 toneladas e, já em 2018, chegou  a 14.012.453 toneladas, representando um aumento de mais de 100% em seis anos. Grande parte da produção é exportada, tendo a China como cliente especial. Entre 2012 e 2017, as exportações de soja do Matopiba para a China evoluíram 176%, chegando a US$1,85 bilhão. Hoje o Matopiba reponde por 19% da produção de soja no Brasil.
        Em maio de 2026, o Porto de Itaqui, em São Luis (MA), por onde é escoada grande parte da produção do Matopiba, bateu um recorde histórico de movimentação. Foram 2,76 milhões de toneladas de granéis sólidos transportadas através do Porto, o maior volume já registrado por Itaqui em um único mês. Somente a soja respondeu por 2,18 milhões de toneladas, o que representa novo recorde para a commodity e superando a marca anterior de 2,15 milhões de toneladas. No total, o Porto movimentou 16 milhões de toneladas de grãos em 2025 e somente nos primeiros cinco meses de 2026 foram 13 milhões de toneladas. Números que confirmam o vigor do potencial econômico do Matopiba.
      “A região do Matopiba, delimitada por estudos da Embrapa Territorial, representa uma importante fronteira agrícola no Nordeste, com forte expansão da produção de grãos como soja, milho e algodão em áreas de Cerrado. Os trabalhos do projeto Matopiba destacam o dinamismo produtivo impulsionado por tecnologias e mecanização, que elevaram significativamente a produção regional nas últimas décadas”, assinala o chefe da Embrapa Territorial, sediado em Campinas (SP), Gustavo Spadotti.
       A agricultura familiar também evolui no Nordeste, embora permaneçam desafios importantes. Agricultores familiares da região  participaram por exemplo da Anuga 2025, a maior feira internacional de alimentos e bebidas, realizada em outubro de 2025 em Colônia, na Alemanha. Mel da Caatinga, amêndoas de castanha de caju, farinha de babaçu e cajuína foram alguns produtos nordestinos, fabricados pela agricultura familiar, apresentados na grande vitrine global de alimentos e bebidas, ratificando um novo momento para o segmento.
O avanço da pesquisa é outro sinal do crescimento da agricultura no Nordeste. É o caso do centro de pesquisa da multinacional argentina GDM em Petrolina (PE), que foi recentemente ampliado de 200 para 450 hectares, para a intensificação dos estudos em trigo, girassol, sorgo, milho e soja. Este hub de pesquisa recebeu o berçário de soja da empresa que funcionava no Tocantins e a previsão da GDM é tornar o polo de Petrolina em uma estação multicultura de inovação agrícola.
 
Indústria também avança
Muitos investimentos também estão alicerçando a indústria no Nordeste. Um caso expressivo é o da fábrica da montadora chinesa BYD em Camaçari (BA), em uma antiga unidade da Ford, que está ampliando sua capacidade instalada de produção de 150 mil para 300 mil veículos por ano. A fábrica tem produzido cerca de 800 automóveis por dia, em um ritmo alucinante, visando, entre outras frentes, ampliar as vendas internas e, também, as exportações para países como Argentina e México.
O setor de comércio está igualmente em ebulição no Nordeste. A região já conta, por exemplo, com o terceiro maior varejista do Brasil em faturamento, depois de Carrefour e Assaí. É o Grupo Mateus, que opera no Nordeste, Norte e Centro-Oeste, e ficou maior, com a fusão com o Novo Atacarejo, de Pernambuco, em operação aprovada em julho de 2025 pelo Cade. O Grupo Mateus é um gigante, pouco conhecido fora de seus domínios, somando mais de 270 lojas.
 
Logística conta com projetos estratégicos
Para escoar a produção agrícola e industrial, é fundamental melhorar a logística do Nordeste. E, nos últimos anos, são vários os projetos e investimentos apontando para a consolidação desse segmento na região, em diversas frentes e modais de transporte.
Um claro exemplo é o da Ferrovia Transnordestina. A ferrovia ligará Eliseu Martins (PI) ao Porto do Pecém (CE), passando por 53 municípios e somando 1.206 quilômetros de extensão. Considerada a maior obra linear em execução no Brasil, a ferrovia foi planejada para ampliar o escoamento de grãos, fertilizantes, combustíveis, cimento e minério, fortalecendo a logística e o desenvolvimento econômico do Nordeste.
A primeira fase da Transnordestina está com cerca de 81% de execução e a previsão é de conclusão da etapa em 2027. De um orçamento previsto de R$ 15 bilhões, o empreendimento já recebeu R$ 9,8 bilhões em investimentos. Os recursos são derivados do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE), administrado pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), vinculada ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional (MIDR).
“A Transnordestina, que realizou sua primeira viagem comissionada em 2025, e a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL), conectada ao porto de Ilhéus, são os elos que podem fazer do Nordeste o nó atlântico de uma rota bioceânica Brasil-Peru-Pacífico. Nesse cenário, Pecém e Suape não são apenas portos regionais, mas potenciais plataformas de conexão entre o interior produtivo brasileiro e os mercados asiáticos, competindo com o corredor sul via Porto Murtinho e Chancay”, observa o presidente do IBGE, Márcio Pochmann.
Mas há muito mais em processo. A Ponte Salvador-Itaparica, uma obra esperada há décadas, e orçada em cerca de R$ 10 bilhões, está em em plena execução. No Rio Grande do Norte, estão em pleno desenvolvimento os estudos e tratativas para estruturação do Porto-Indústria Verde, destinado à exportação de produtos da energia renovável no estado, incluindo os projetos para hidrogênio e amônia verde, e-metanol e combustíveis sustentáveis de aviação (SAF). O governo do Rio Grande do Norte já deu sinal verde para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) estruturar o projeto, previsto para funcionar em Caiçara do Norte.
 
Novos polos tecnológicos e universidades públicas
Todo o avanço econômico do Nordeste, em energias renováveis, agricultura e indústria, é alicerçado na ampliação dos polos de pesquisa. Caso do Parque Tec UFPE, que será instalado no Edifício Celso Furtado, em Recife, onde funcionava a sede da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). As obras já estão em licitação, com recursos assegurados pela Finep.
O novo parque tecnológico da Universidade Federal de Pernambuco contará com projetos, em parceria com instituições como o Hospital das Clínicas da UFPE, e também com startups, como as já graduadas BioredOX, Matech Solution, Move´s Brasil e Arquea TEC.
Abertura de campus do ITA no Ceará ratifica momento novo do ensino superior no Nordeste (Foto Arquivo ITA)

Abertura de campus do ITA no Ceará ratifica momento novo do ensino superior no Nordeste (Foto Arquivo ITA)

Mas existem outros indicadores da expansão de projetos de alta tecnologia na região. No último dia 1º de abril, o Ministério da Educação inaugurou o alojamento estudantil do novo campus do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no Ceará, referente à primeira etapa de obras. Os investimentos dessa etapa somam R$ 75,8 milhões, valor repassado pelo MEC ao Governo do Ceará para a execução das obras do alojamento e dos prédios acadêmicos das engenharias.
Contemplando todas as etapas de implantação do novo campus, o investimento total do MEC no ITA Ceará poderá ultrapassar R$ 445,4 milhões. Desse valor, segundo o Ministério da Educação, R$ 353,9 milhões são destinados para as obras de construção e expansão da infraestrutura, e R$ 91,2 milhões são voltados à aquisição de equipamentos de laboratório, mobiliário e estrutura operacional necessária para o funcionamento acadêmico da instituição.
De certa forma, o ITA está “voltando à casa”. O Instituto foi fundado por um cearense, o Marechal do Ar Casimiro Montenegro Filho. O ITA foi responsável pela formação do primeiro mestre em Engenharia no Brasil, em 1963, e o primeiro doutor, em 1970. O vestibular do ITA é reconhecido como um dos mais difíceis do país. A implantação do ITA no Ceará deriva de processo desencadeado em 2023, fruto da cooperação entre os ministérios da Educação e da Defesa, em parceria com o Governo do Ceará, para ampliar a formação de engenheiros de excelência no país.
Também  está em curso a estruturação do IMPA Tech Nordeste, com campus em Teresina, no Piauí. Lançado em 2024 no Rio de Janeiro, o IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) Tech tem foco na formação profissional voltada a áreas como tecnologia, ciência de dados e inteligência artificial, atendendo principalmente estudantes com histórico de destaque em olimpíadas científicas. Já o IMPA Tech Nordeste, com calendário a ser definido, ofertará até 50 vagas por ano e apoio integral aos estudantes, incluindo moradia e auxílio para subsistência.
“A ideia foi aproveitar os talentos que nós temos de jovens estudantes no Brasil para se aperfeiçoarem na área da engenharia, da matemática, da ciência de dados, da robótica, da inteligência artificial. Eu acredito que [o IMPA Tech Nordeste] será um grande e importante equipamento, que vai formar grandes profissionais no Nordeste”, afirmou o ministro da Educação, Camilo Santana, no ato de anúncio da instalação do IMPA Tech Nordeste.
A nova unidade do IMPA Tech será instalada no antigo prédio do Centro de Formação Antonino Freire, direcionado à formação de talentos da Região Nordeste em matemática, ciência de dados, robótica, inteligência artificial e ciência da computação. No mesmo ato de anúncio do IMPA Tech  Nordeste, o ministro da Educação também assinou a autorização para a oferta do curso de medicina da Universidade Federal do Piauí (UFPI) no campus Amílcar Ferreira Sobral, em Floriano (PI).
A instalação de unidades do ITA e do IMPA no Nordeste acompanha o processo de dilatação da rede de Universidades públicas na região, reforçando o salto no desenvolvimento. No Brasil, a média de população com ensino superior é de 16,75%. No Nordeste, a média é inferior em todos os estados: Rio Grande do Norte (13,61%), Sergipe (13,35%), Paraíba (13,16%), Pernambuco (12,62%), Piauí (12,54%), Alagoas (11,85%), Ceará (11,51%), Bahia (10,77%), e Maranhão (9,86%).
Marcelo Bizerril: uma nova malha de Universidades como indutor do desenvolvimento no Nordeste (Foto Arquivo Pessoal)

Marcelo Bizerril: uma nova malha de Universidades como indutor do desenvolvimento no Nordeste (Foto Arquivo Pessoal)

Várias ações estão sendo tomadas para mudar este panorama e os resultados estão sendo colhidos. Entre 2023 e 2024, segundo o Mapa do Ensino Superior, do Semesp, o número de matrículas no ensino superior no Brasil cresceu 2,5%, atingindo 10,2 milhões de matrículas. No Nordeste, o número de matrículas cresceu 3,2%, chegando a 2,1 milhões de matrículas, o segundo maior número regional absoluto no país, atrás da Região Sudeste, com 4,5 milhões de matrículas. Este crescimento em todo país se refere às matrículas presenciais e por Ensino à Distância (EAD).

Uma das razões para o incremento do acesso ao ensino superior no Nordeste é a abertura de novos campus e também de novas Universidades públicas, sobretudo no interior. Esta foi a constatação de Marcelo Ximenes Aguiar Bizerril, professor da Universidade de Brasília (UnB), que fez um estudo sobre o avanço das universidades federais no país desde o início do século 21: “O processo de expansão e interiorização das Universidades Federais brasileiras e seus desdobramentos”. Ele lembra que o estudo abrangeu somente as Universidades Federais, pois também houve processos semelhantes nas Universidades estaduais, além das instituições de ensino superior particulares.

Doutor em Ecologia, ele nota que algumas das mais antigas instituições de ensino superior no Brasil foram criadas no Nordeste, casos das Faculdades de Medicina de Salvador (primeira capital brasileira), em 1808, e de Direito, do Recife, de 1827. Nos séculos seguintes, entretanto, houve o deslocamento cada vez maior do poder econômico e político para o Sudeste, tendo como uma das consequências o menor número de instituições de ensino superior no Nordeste, e todas basicamente nas capitais estaduais.

A modificação desta dinâmica acontece a partir  do lançamento pelo Ministério da Educação, através do Decreto 6096/2007, do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). O Programa contemplou a criação de novos campi e Universidades Federais, além da abertura de novos cursos e vagas nas instituições já existentes.

Marcelo Bizerril destaca em especial as Universidades e novos campi instalados no interior dos estados, citando por exemplo a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), a Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), a Universidade Federal do Cariri (UFCA), a Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) e a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Desde o início do Reuni até 2020, a malha de Universidades Federais no Nordeste somou 18 instituições, com 75 campi (maior número de campi em federais no país).

Marcelo Bizerril também evidencia um caso especial, o da criação da Universidade de Integração Internacional de
Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), instalada no Ceará, com importante atuação no panorama dos países de língua portuguesa e outros da África. “Uma instituição diferenciada, com uma visão bem cosmopolita”, ele complementa.

Uma perspectiva semelhante é a de Robert Evan Verhine, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Nascido e criado na Califórnia, Estados Unidos, Bob Verhine, como é conhecido, concluiu o bacharelado em Economia pela Universidade da Califórnia. Tem mestrado em Estudos Latinoamericanos pela mesma Universidade e doutorado pela Universidade de Hamburgo, Alemanha. Professor visitante de várias Universidades, foi diretor de 1998 a 2007 do Centro de Estudos Interdisciplinares do Setor Público (ISP), ligado à UFBA, onde trabalha desde 1977.

Com um amplo conhecimento, portanto, da realidade educacional do Nordeste, e em particular da Bahia, Bob Verhine assinala que a região de fato está em uma situação muito melhor em termo de ensino superior, com destaque para o fenômeno da interiorização das instituições públicas, federais e estaduais. “Na Bahia temos por exemplo um número de alunos de pós-graduação fora de Salvador muito maior hoje do que no passado, em função da forte interiorização das instituições”, diz ele.

Bob Verhine destaca, por outro lado, que o avanço do ensino superior no Nordeste foi igualmente impacto pelas ações afirmativas em curso nas universidades brasileiras, sobretudo nas públicas. Houve iniciativas anteriores, mas com a Lei 12.711, de 2012, a ação afirmativa tornou-se obrigatória nas instituições federais de ensino, com a padronização dos critérios. “As cotas oferecidas pelas Universidades públicas, federais e estaduais, abriram as portas das instituições para muitos alunos, em situação de pobreza ou negros, que antes não tinham acesso ao ensino superior”, comenta o professor da UFBA.

Efetivamente, houve um expressivo aumento no número de estudantes negros em universidades federais do Brasil, crescendo de 17% para 49% em 13 anos. Em 2009, o contingente de estudantes negros era de 135,1 mil, evoluindo para 515,7 mil em 2022. Os dados são de pesquisadores do SoU Ciência (Centro de Estudos, Sociedade, Universidade e Ciência), vinculado à Unifesp – Universidade Federal de São Paulo. Grande parte dos estudantes que tiveram acesso através das cotas são do Nordeste.

O professor Bob Verhine nota que o avanço do ensino superior no Nordeste também deriva da expansão do Ensino à Distância (EaD). “Nem sempre se trata de uma coisa positiva, porque muito estudante à distância não tem este acesso com qualidade”, comenta o especialista. De acordo com o Mapa do Ensino Superior, do Semesp, em  2024, das 2,1 milhões de matrículas no ensino superior no Nordeste, 44% foram na modalidade de EaD.

De qualquer modo, a expansão do acesso ao ensino superior é um elemento crucial para sustentar o salto de desenvolvimento no Nordeste, onde já está em curso, se fato, um novo panorama nos empreendimentos de ciência, tecnologia e inovação. Um fato notável é a proliferação de datacenters na região, como no caso do Mega Lobstere, localizado na Praia do Futuro, em Fortaleza (CE). O datacenter está em operação desde outubro de 2025, com três megawatts (MW) de capacidade de TI instalada.

Fortaleza é considerada uma porta de entrada de dados da América Latina por sua posição estratégica no ecossistema digital, impulsionada pela alta concentração de cabos submarinos internacionais, que conectam o Brasil à América do Norte, à Europa e à África. O datacenter Mega Lobster está recebendo um investimento de R$ 230 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), gerido pelo Ministério das Comunicações, para expansão.

No Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), a 60 quilômetros de Fortaleza (CE), está em construção o primeiro datacenter na América Latina da chinesa ByteDance, dona do TikTok. Trata-se de um investimento bilionário, construído em parceria Omnia e com a energia fornecida pela Casa dos Ventos, que atua em energia eólica. “O data center é um investimento histórico que inaugura um novo capítulo na infraestrutura tecnológica do TikTok no Brasil”, comenta o gerente de Políticas Públicas do TikTok no Brasil, Fabiano Barreto.

A força criativa do Nordeste na base do processo de desenvolvimento

Para os especialistas ouvidos pela Agência Social de Notícias, a cultura do Nordeste é a força motriz do processo de desenvolvimento da região. São dimensões indissociáveis, como acentuava o economista Celso Furtado (ver box abaixo). Pois a economia criativa nordestina também tem sido um fator de geração de muito trabalho e renda, como no caso das Festas Juninas que atraem cada vez mais turistas, seduzidos pela disputa saudável entre, por exemplo, as cidades de Caruaru (PE) e Campina Grande (PB).

Também há o Carnaval, outra expressão reluzente da economia criativa do Nordeste. Olinda e Recife, em Pernambuco, e Salvador, na Bahia, fazem as festas mais badaladas, mas o circuito carnavalesco também se espalha por muitas outras cidades da região.

Estes são os grandes eventos, mas a cultura nordestina é muito mais. É o coco-de-roda que se irradia pelo sertão e pelo litoral, o forró (que um dos maiores folcloristas brasileiros, o potiguar Luis da Câmara Cascudo, defendia ser um diminutivo de forrobodó) também popularíssimo em toda região, o frevo que contagia a partir de Pernambuco e por aí vai. Uma força motriz para a criatividade e a inovação na região.

UMA FORÇA CRIATIVA SEM IGUAL

O desenhista e diretor de cinema Lancast Mota, cearense de Fortaleza, há muitos anos vivendo no Sul e Sudeste, assinala que a cultura de sua região de origem é o fundamento de seu processo criativo, uma de suas grandes inspirações:

“A minha infância foi em Fortaleza, eu morava com minha tia e meu pai me levava para o interior nas Festas Juninas. Não tinha luz elétrica onde meu avô morava, mas ele colocava a mesa na frente da casa, com tapioca, café, bolo de milho, broa e vinha todo pessoal da redondeza, sob o luar. Na sexta-feira era só história de assombração, meio medieval, primitiva. Eu ia dormir na rede apavorado. No sábado era repente, cordel, era um ambiente super festivo, com viola, sanfona. Eu moleque, aquelas bandeirinhas, fogueiras enormes, as brasas subindo para o céu, músicas, quadrilha, dança, os momentos de humos, o mamulengo, que é um fascínio para o nordestino. Era muito cordel, Pavão Misterioso, A Moça que Casou com o Bode e por aí vai. Então fui criado nesse caldo de três culturas, indígena, negra e portuguesa. A cultura nordestina te dá uma identidade, com diferentes vertentes, a estética do visual e a estética da arquitetura, a culinária, a música, o cordel, uma cultura enfim que lhe dá uma substância criativa que depois depois, muito tempo fora, aflora de alguma forma. É difícil encontrar outro lugar no planeta com cultura tão rica. Deve ser por isso que o povo é tão alegre. É por isso que alguém como o Mestre Vitalino faz algo, uma estética de bonecos, que vira universal”, diz Lancast, diretor de filmes de animação como “O Reino Azul” e “Anabel”. Ele confessa: “Devo muito a esse lugar, muita coisa que eu carrego, eu trouxe do Nordeste”.

 

O turismo no Nordeste, grande potencial para a economia

A cultura nordestina está diretamente associada a um outro potencial da região, o do Turismo, que cresce cada vez mais e tem nas festas como as Juninas e o Carnaval um dos atrativos, mas não o único. “As pessoas viajam para se encontrarem umas com as outras, encontrar novas culturas, novas conexões, e no momento em que encontram o diferente, o singular, se percebem no universal. Este é o sentido da força do turismo de base popular, comunitária, e sobretudo no Nordeste. As pessoas vão para conhecer, experimentar o que é um Maracatu. Melhor ainda quando apreciam um Maracatu saindo de um canavial, mas se não der assim, que seja na capital”, afirma o historiador Célio Turino.

Ele foi o pilar de sustentação do projeto que levou à criação de uma rede nacional de Pontos de Cultura na gestão do baiano Gilberto Gil no Ministério da Cultura, e prossegue:  “É por isso que a humanidade circula, faz turismo, para se ver a si mesmo. O turismo faz esse deslocamento. Circulamos para nos enxergamos. Quando esse deslocamento vem próximo da cultura popular, das raízes e tradições de nosso povo, a gente se enriquece muito, porque aí a gente readquire o sentido de historicidade”.

Turino acrescenta: “Um dos problemas do tempo atual é a perda do senso de historicidade. Tudo está muito fragmentado, é como as narrativas começassem e terminassem naquele instante. Encontrar com a cultura popular, com uma manifestação de vida pulsante é se reconectar com o sentido de humano e isso o Nordeste tem muito”, diz Turino.

Além da cultura, os recursos naturais do Nordeste são um atrativo em si mesmos. O litoral nordestino não atrai apenas as torres de energia eólica. Um dos mais lindos do mundo, o litoral da região é chamariz permanente para os turistas, nacionais e internacionais.

Em 2024, de acordo com o IBGE, o Nordeste registrou os maiores gastos médios com viagens no Brasil, de R$ 2.523, bem à frente do Sul (R$ 1.943) ,Centro-Oeste (R$ 1.704), Sudeste (R$ 1.684) e Norte (R$ 1.263). Números que ratificam o potencial da turismo da região para gerar emprego, renda e mais desenvolvimento.

De forma associada à cultura e ao turismo está outro ativo da região, o seu patrimônio histórico, natural ou arquitetônico. É o que destaca Marcos Tognon, doutor em Storia Della Critica D’arte pela Scuola Normale Superiore Di Pisa e atualmente professor livre docente da Universidade Estadual de Campinas.

“O fator mais importante do Nordeste, para todos nós, é reconhecer que  ali foi o primeiro Brasil, no sentido da ocupação e encontro, dos europeus, depois da diáspora africana, escravizada infelizmente, mas que é parte importante de nossa cultura agora, e dos indígenas que ali estavam. Foi o primeiro Brasil, do encontro dessas etnias e do início de construção do que foi o Brasil, seus monumentos, seu patrimônio”, diz Tognon.

Ele acrescenta “Então temos por exemplo em Salvador um circuito de fortalezas que até hoje podem ser visitadas. Temos também inúmeros monumentos religiosos, talvez os mais expressivos, em Salvador, Recife e outras cidades. Me lembro da Igreja de São Cosme e São Damião, em Igarassu, pintada por Frans Post, no século 17. Excelente obra, fundamental para a história da arquitetura brasileira. E aquilo que foi chamado de paraíso, o paraíso dos trópicos, que foi encontrar esse clima, essa vegetação, essas praias maravilhosas, que até hoje estão lá, embora muito urbanizadas em alguns casos, mas que ainda têm seu potencial. O perímetro marítimo do Nordeste é muito atraente, muito interessante”, observa.

Tognon lembra que “a tipologia arquitetônica construída no Nordeste foi depois levada para outras regiões brasileiras” e cita, ainda, casos como o do Convento dos Franciscanos, em João Pessoa, inaugurado em 1539 e que visitou há pouco tempo. “Sempre que visitamos o Nordeste, a gente volta animado e querendo mais”, conclui.

Cartaz do documentário "Pindorama: uma história  do Brasil ancestral"

Cartaz do documentário “Pindorama: uma história do Brasil ancestral”

Além do patrimônio histórico cultural, o natural é outro grande atrativo nordestino. Caso do Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, uma região que na era pré-colombiana era densamente povoada. O Parque ficou muito conhecido pelos estudos da arqueóloga Niède Guidon sobre a arte rupestre na região.

A história do Parque e de Niède está presente no documentário “Pindorama: uma história do Brasil ancestral”, de Marcos Rogatto, lançado em 2025. O documentário revela a rica e pouco conhecida história do território, hoje conhecido por Brasil, antes da chegada dos colonizadores. Através de descobertas arqueológicas e paleontológicas, apresenta os povos originários e os gigantes pré-históricos que habitaram essa terra.

“Uma das maiores emoções de minha vida foi ver a dois palmos de meu rosto essas pinturas rupestres. Foi impactante, é uma emoção potente. A Serra da Capivara tem coisas maravilhosas, que remetem ao nosso passado ancestral, à história profunda brasileira, como a possibilidade de mudar a teoria da origem da presença humana no continente”, diz Rogatto.

Uma das paisagens do Parque Nacional Serra da Capivara, imagem capturada na filmagem de "Pindorama" (Foto Marcos Rogatto/Divulgação)

Uma das paisagens do Parque Nacional Serra da Capivara, imagem capturada na filmagem de “Pindorama” (Foto Marcos Rogatto/Divulgação)

Ele entrevistou arqueólogos e paleontólogos para contara pré-história brasileira e, claro, o Parque Nacional da Serra da Capivara é um dos destaques. Afirma o cineasta: “O legado de Niède é impressionante, incluindo dois museus, o Parque Nacional enorme, mas as pousadas, a pista de pouso, a cerâmica. Para fazer as caminhadas é preciso contratar um guia local, isso gerou muito emprego, há muita gente humilde que hoje é guarda parque, guia, enfim, criou muito emprego. E, claro, tem a beleza natural, o bioma é maravilhoso, os cactus com flores maravilhosas, tem uma vista impressionante, nunca tinha visto igual aqueles cânions, parece até que você está em outro planeta. Então acho um potencial enorme, porque isso é economia criativa, não polui, traz pertencimento, traz renda, autoestima para a comunidade. Esse é o caminho do Brasil, investir em economia criativa”, conclui Rogatto.

“Pindorama”, em síntese, é exemplar de como os recursos naturais do Nordeste são fonte permanente de inspiração para a economia criativa, para a cultura, seja suas manifestações populares tradicionais, seja para uma linguagem como a do cinema. E tudo gerando renda, emprego, desenvolvimento.

Desafios para o desenvolvimento integral da região

Um mosaico de investimentos e projetos, em várias áreas, está alavancando um novo surto de desenvolvimento no Nordeste, fundamental para que a região equacione vários de seus desafios. Um dos mais urgentes é o do saneamento. De acordo com o Instituto Trata Brasil, mais de 13 milhões de habitantes no Nordeste não têm acesso à água potável, e quase 38 milhões vivem sem coleta de esgoto. Diariamente, ainda de acordo com o Trata Brasil, “um volume equivalente a quase 1,4 mil piscinas olímpicas de esgoto sem tratamento é despejado no meio ambiente da região, agravando os riscos à saúde pública e ao ecossistema”.

Também há o desafio da escolaridade e alfabetização. De acordo com o último Censo do IBGE, de 2022, a região apresentou a taxa mais baixa (85,8%) de alfabetização, seguida da Região Norte, com 91,8%, e da Região Centro-Oeste, com 94,9%. A Região Sul mantém a maior taxa de alfabetização do país (96,6%), seguida da Região Sudeste, com 96,1%.

Para o economista Márcio Pochmann, presidente do IBGE, o risco central para o Nordeste é “o de uma modernização sem enraizamento: um boom energético que exporta amônia em vez de fertilizante sustentável, que importa engenheiros em vez de formá-los, que integra o Nordeste ao mundo sem integrá-lo a si mesmo. O potencial presente do futuro nordestino é real e crescente, ainda que a sua realização dependa de uma decisão política que o Brasil não tomou de forma consistente. Precisa tratar a infraestrutura, a educação técnica e a industrialização verde como política de Estado de longa duração, não como vitrine de mandato”, acrescenta.

Por sua vez, o chefe da Embrapa Territorial, Gustavo Spadotti, reitera o poder do agronegócio de alta intensidade na região, mas entende que, na área agricultura familiar, permanecem desafios importantes, para sedimentação e expansão no Nordeste. “Caracterizações territoriais e socioeconômicas revelam forte concentração de renda e produção em um pequeno número de estabelecimentos de grande escala, enquanto a maioria dos produtores rurais, predominantemente familiares, enfrenta restrições de acesso a mercados dinâmicos, infraestrutura e inovação tecnológica”, nota Spadotti.

No bioma Caatinga, continua, os estudos do SITE-Caatinga e das iniciativas de combate à desertificação e Agronordeste da Embrapa Territorial “enfatizam a diversidade de sistemas de produção da agricultura familiar, adaptados às condições semiáridas. A região apresenta grande variabilidade de contextos agropecuários, com ênfase em atividades que conciliam produção de alimentos, conservação do solo e convivência com a seca”.
Spadotti destaca que os desafios incluem “a irregularidade climática, processos de degradação e a necessidade de fortalecimento de práticas sustentáveis, como sistemas agroflorestais e manejo adequado dos recursos hídricos e da vegetação nativa, para garantir resiliência e produtividade em escala familiar”.
Quanto ao microcrédito para o produtor rural, complementa Spadotti, as análises territoriais da Embrapa “apontam que o acesso a financiamento orientado e acompanhado é um dos principais gargalos para a agricultura familiar tanto no Matopiba quanto na Caatinga. Muitos pequenos produtores enfrentam dificuldades de inclusão financeira, capacitação gerencial e integração com cadeias de valor, o que limita a adoção de tecnologias e a diversificação de renda. Os projetos da Embrapa Territorial indicam a importância de políticas que combinem crédito com assistência técnica, ordenamento territorial e estratégias de baixo carbono, visando reduzir desigualdades socioeconômicas e promover o desenvolvimento inclusivo na região Nordeste”.

Alguns dos desafios para a região são apontados no estudo “Rotas para o Nordeste: Produtividade, Empregos e Inclusão”, publicado em 2025 pelo Banco Mundial. O estudo evidencia por exemplo alguns dados do setor industrial. Entre 2000 e 2017, 2,2% das receitas líquidas da indústria manufatureira no Nordeste foram destinados em média à Inovação, o menor índice nas regiões brasileiras e inferior à média do país, de 2,5%. O gasto médio de uma indústria no Nordeste com Inovação é de cerca de 40% da média observada no Sudeste. O Nordeste responde por 8% da exportação de bens do Brasil, contra 50% da Região Sudeste e 20% da Região Sul.

O estudo do Banco Mundial indica alguns roteiros para o que caracteriza como a necessária convergência econômica e social. Um deles é o do incremento da produtividade nos setores industrial e de serviços. “O aumento da produtividade nos setores de manufatura ou serviços resultaria num crescimento regional maior ao longo do tempo, complementando os ganhos da agricultura”, afirma o estudo.

O avanço da economia digital no Nordeste é, neste cenário, um elemento promissor, assinala o Banco Mundial. Diz o estudo a respeito: “Sua economia digital vem se expandindo por meio de iniciativas que promovem a digitalização dos serviços públicos, o crescimento do comércio eletrônico, o empreendedorismo digital, a capacitação em áreas de alta tecnologia e investimentos significativos em data centers. Embora o Sudeste e o Sul ainda abriguem a maior parte dos data centers do país, o setor vem crescendo no Nordeste, especialmente em estados como Ceará e Pernambuco, que oferecem uma combinação única de condições favoráveis para investidores. O Ceará, por exemplo, destaca-se pela disponibilidade de energia eólica, custos operacionais competitivos e conectividade internacional de alta velocidade. A capital Fortaleza recebe mais de 15 cabos submarinos internacionais. Ela é o ponto de chegada para sistemas de alta capacidade como o EllaLink, que fornece conectividade direta entre a América Latina e a Europa, e o Monet, que liga o Brasil aos Estados Unidos. Além disso, o setor recebe incentivos fiscais, com a Sudene oferecendo reduções de até 75% no Imposto de Renda de Pessoa Jurídica para projetos de data centers e infraestrutura de TIC, além de isenções de ICMS, ISS e IPTU oferecidas por estados e municípios”.

Um dos economistas mais renomados do Brasil, Luiz Gonzaga Belluzzo acredita que precisam ser mantidos investimentos públicos no Nordeste, em logística, energia e outros setores, como um dos ingredientes para manter o ritmo de desenvolvimento da região. “O Nordeste precisa de um programa de investimentos públicos consistentes, como em infraestrutura, ferrovias. O investimento público acaba atraindo acaba atraindo o investimento privado”, afirma ele.

Ele defende, também, o fortalecimento da agricultura familiar, inclusive como componente do processo de redução das desigualdades e de retomada dos estoques reguladores de alimentos, que na sua opinião “foram abandonados, mas já foram importantes no Brasil”. O economista também entende que permanecem insuficientes os fundos de investimento destinados ao desenvolvimento do Nordeste, mas também de outras regiões do país. “O desenvolvimento deve significar a redução das desigualdades, e este era por exemplo o projeto de Celso Furtado para a Sudene”, diz Belluzzo, sintetizando um dos grandes desafios para que o alto ciclo de desenvolvimento do Nordeste tenha real sustentabilidade, significando ganhos reais para toda a população da região.

Os nordestinos que pensaram (e agiram) sobre o desenvolvimento

Quatro dos maiores pensadores sobre o desenvolvimento no Brasil são nordestinos. De diferentes profissões ou visões, deram contribuição fundamental para reflexões profundas a respeito do processo de desenvolvimento, na perspectiva do Brasil e em especial do Nordeste. E não se limitaram a elaborar e expressar ideias. Eles foram ativos em participar de iniciativas visando fomentar um desenvolvimento justo, solidário, democrático e cidadão, particularmente voltadas para a sua região de origem. Seu legado é inestimável e com certeza lança luzes neste momento em que o Nordeste vive um conjunto de elementos promissores sinalizando um novo e consistente ciclo de desenvolvimento.

Um nome lendário é o do economista paraibano de Pombal Celso Furtado (1920-2004), que tem uma das mais importantes contribuições em pensar o desenvolvimento. Para ele, a economia, mas também a cultura, são fundamentais para alavancar o desenvolvimento. Foi inclusive o primeiro ministro da Cultura do Brasil, entre 1986 e 1988. Atuou na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), vinculada à ONU, e foi criador da Sudene, da qual foi o primeiro superintendente, de 15 de dezembro de 1959 a 1964. Durante este período, é por um ano, foi o primeiro ministro do Planejamento do BR, no governo de João Goulart. Com o golpe militar, foi um dos primeiros cassados, partindo para o exílio que durou 21 anos. Autor, entre outros, de Formação Econômica do Brasil (1959), A Operação Nordeste (1959) e Uma política de desenvolvimento econômico para o Nordeste, todos de 1959, ano em que criou a Sudene.

O médico e geógrafo Josué de Castro (1908-1973), pernambucano de Recife, é outro nome emblemático. Seu livro Geografia da Fome, de 1946, é um clássico da literatura sobre a temática da fome e segurança alimentar. De enorme respeito no plano mundial, foi embaixador do Brasil na ONU e presidente do Conselho Executivo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Também foi cassado e exilado com o golpe militar, passando a atuar em vários órgãos internacionais.

Paulo Freire (1921-1997), pernambucano de Recife, é justamente celebrado em todo mundo por seus inúmeros trabalhos em Educação, mas sua obra também é associada ao pensamento sobre o desenvolvimento. Considerava o desenvolvimento como indissociável da democracia, justiça e equidade social, como expôs em Educação como Prática da Liberdade, de 1965. Freire é um dos nomes mais respeitados no mundo na esfera educacional, por obras como Pedagohia do Oprimido, lançado em 1968 em edição em espanhol e em 1972 em português.

O baiano de Brotas de Macaúbas Milton Santos (1926-2001) é um dos mais renomados geógrafos no plano internacional, tendo lecionado em várias Universidades estrangeiras e brasileiras. Recebeu o Prêmio Vautrin Lud, considerado o Nobel da Geografia, em 1994. Para ele, o conceito de espaço foi modificado pelos avanços tecnológicos. Entendia que o Brasil estava dividido em quatro grandes regiões (Sul e Sudeste formando a região concentrada, em função do critério “meio técnico-científico-informacional). Autor de obras como O Espaço Dividido, de 1979, A Natureza do Espaço de 1996.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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