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Europa em chamas, planeta à deriva
Aquecimento global continua, o desentendimento sobre o que fazer, também (Imagem Rawpixel)

Europa em chamas, planeta à deriva

Por José Pedro S.Martins

A Europa toda, e particularmente a França, está em chamas. Temperaturas no início do Verão em torno de 40 graus. A onda de calor despertou nova polêmica a respeito dos impactos das mudanças climáticas, provocadas pela queima sem controle dos combustíveis fósseis.  Para muitos europeus,  a Copa do Mundo que está valendo é essa: quem vai ganhar essa corrida maluca, o aquecimento global que parece não ter fim, porque a matriz energética baseada nos fósseis insiste em não abrir mão de suas práticas suicidas (para o planeta e a humanidade), ou a transição energética,  com uso cada vez mais acentuado de fontes renováveis, como solar, eólica e hidrogênio verde?

        No último dia 26 de junho, a organização World Weather Attribution (WWA) divulgou um relatório sobre a onda de calor intensa na Europa.  “As emissões de combustíveis fósseis agravaram rapidamente as ondas de calor na Europa em apenas algumas décadas.

Apenas algumas semanas após uma onda de calor severa que quebrou todos os recordes de maio, a Europa está passando por outra grande onda de calor que está quebrando recordes de junho e anuais”, afirma o documento nos seus primeiros parágrafos.

     A WWA nota que este fato ”é particularmente notável, visto que junho não é historicamente o mês mais quente na Europa Ocidental. Na França, Alemanha, Itália, Espanha e sul da Inglaterra, as temperaturas estão atingindo de 5 a 12 °C acima das médias sazonais, impulsionadas por um sistema persistente de alta pressão”.  Esse padrão, prossegue o documento, transportou ar quente do norte da África para a região, trazendo também céu claro e sol forte, o que intensificou ainda mais o calor.

   Ainda não existe uma contabilidade completa das mortes provocadas pela atual onda de calor, mas WWA lembra : “As ondas de calor representam uma séria ameaça à saúde humana e têm impactos profundos nos ecossistemas. Durante o verão de 2022, mais de 60.000 pessoas em toda a Europa morreram como resultado do calor extremo. Mesmo no verão seguinte, que foi significativamente mais fresco, foram registradas mais de 47.000 mortes relacionadas com o calor. No ano passado, a primeira onda de calor na Europa, também a atingir o continente no final de junho, custou a vida a cerca de 2.300 pessoas em apenas 12 cidades europeias”.

   Além das mortes que já aconteceram,  são resultado da atual onda de calor o fechamento generalizado de escolas, o cancelamento de eventos ao ar livre e grandes interrupções ferroviárias, à medida que o calor extremo leva à expansão térmica dos trilhos e à interrupção das linhas de energia aéreas.

    No Reino Unido, o Hospital East Surrey declarou estado crítico devido ao aumento da procura, restringindo os serviços apenas a emergências com risco de vida. A Itália registrou mortes relacionadas com o calor, aumento das admissões em salas de emergência e cortes de energia associados ao uso crescente de ar condicionado, enquanto os sistemas de saúde e transportes na Bélgica e nos Países Baixos enfrentaram uma pressão crescente e

interrupções de serviço.

   A onda de calor também está pressionando os sistemas energéticos europeus, com preocupações relativamente à redução da produção das centrais nucleares francesas arrefecidas pelos rios Ródano e Garona. Como a França constitui uma parte fundamental da rede elétrica do continente, as restrições à geração de energia podem apertar o fornecimento regional de energia e contribuir para o aumento dos preços da eletricidade, agravando a crescente pobreza energética no verão europeu.

     Pesquisadores da Suécia, Dinamarca, Estados Unidos, Holanda, Irlanda e Reino Unido, continua o documento de WWA, colaboraram para avaliar em que medida as mudanças climáticas induzidas pelo homem alteraram a probabilidade e a intensidade do calor extremo na Europa Ocidental. A análise concentra-se nos 3 dias e noites mais quentes na área mais afetada e em análises adicionais das 19 capitais dos países afetados.

     Principais Conclusões destes pesquisadores:

  • As ondas de calor causam mais mortes na Europa do que todos os outros desastres naturais combinados. À medida que as temperaturas continuam a subir, o envelhecimento da população, a crescente prevalência de doenças crônicas e o acesso desigual a sistemas de refrigeração e habitações resistentes ao calor aumentam a vulnerabilidade, exercendo uma pressão crescente sobre os sistemas de saúde.
  • A vulnerabilidade ao calor varia em toda a sociedade, desde idosos que vivem sozinhos até populações que enfrentam desvantagens socioeconômicas e doenças crônicas, incluindo pessoas sem-teto e migrantes, o que destaca a necessidade de políticas de saúde relacionadas ao calor adaptáveis ​​e focadas na equidade.
  • Na região estudada, esta onda de calor é a mais severa já registrada.
  • Em 1976, quando alguns dos recordes europeus anteriores foram estabelecidos, as temperaturas de 2026 seriam praticamente impossíveis de ocorrer em junho, além de serem altamente improváveis ​​em qualquer época do ano. Em 2003, durante a primeira grande onda de calor deste século, um calor diurno como este ainda seria muito raro, cerca de 10 vezes menos provável do que hoje, enquanto temperaturas noturnas como as deste junho seriam mais de cem vezes menos prováveis ​​em 2003.
  • Muitas capitais estão experimentando não apenas o período de três dias mais quente de junho, mas também o período de três dias mais quente desde 1950, de acordo com o conjunto de dados ERA5. No entanto, devido ao aquecimento global, essas temperaturas muito altas agora são esperadas regularmente durante os meses de verão em muitas capitais.

     Isso significa que uma onda de calor semelhante em junho teria sido cerca de 3,5 °C mais fria durante o dia em 1976 e cerca de 2 °C mais fria em 2003. As temperaturas noturnas teriam sido cerca de 2,4 °C mais frias em junho de 1976 e cerca de 1,3 °C mais frias em junho de 2003.

  • O risco de calor se concentra nas cidades, onde os efeitos das ilhas de calor urbanas, o envelhecimento do parque imobiliário e as desigualdades socioeconômicas se combinam para intensificar a exposição. Muitas casas, escolas, sistemas de transporte e infraestrutura energética não foram projetados para calor extremo prolongado, destacando a necessidade urgente de adaptação equitativa, reformas prediais, medidas de resfriamento passivo e planejamento urbano resiliente ao calor.
  • Este verão mostra que, com um aquecimento global de 1,4°C, o calor extremo já está atingindo os limites da capacidade de nossas sociedades de lidar com ele. “Nossa análise aqui mostra que o calor intenso está aumentando rapidamente, mesmo em tempos recentes, com tais eventos dezenas a centenas de vezes mais prováveis ​​desde apenas 2003 e praticamente impossíveis há apenas 50 anos. Uma rápida eliminação gradual dos combustíveis fósseis é crucial se quisermos evitar temperaturas ainda mais altas e suas consequências no futuro”, conclui o documento de WWA.

     Pois as atuais ondas de calor na Europa se intensificaram justamente nos dias posteriores à realização em Bonn, na Alemanha,  de mais uma rodada de discussão sobre o que os países que assinaram o Acordo de Paris podem fazer para enfrentar o aquecimento global e acelerar a transição energética. E, mais uma vez, houve frustração com os resultados.

      O encontro em Bonn era preparatório à COP 31, que acontece em novembro no charmoso balneário de Antália, na Turquia, mas sob presidência dupla, do país anfitrião e da Austrália, que queria levar a conferência para Adelaide e não conseguiu. Tudo muito esquisito. Enquanto a Europa arde em chamas, o planeta está à deriva. Todos sabemos onde tudo isso pode nos levar.

(Publicado originalmente no Portal Hora Campinas)

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