Por José Pedro Martins
Há duas semanas comentei neste espaço as ameaças à liberdade de imprensa em escala global, que representam riscos para a própria democracia como conhecemos. Hoje trato dos perigos que rondam especificamente os jornalistas do Brasil e de todo continente latinoamericano, se traduzindo em vários tipos de violência.
Os dados estão no documento “Cartografia do Silêncio – Informe Sombra sobre a Liberdade de Imprensa na América Latina 2025”. Um relatório produzido pela Rede Vozes do Sul, um conjunto regional de organizações da sociedade civil da América Latina e Caribe que trabalham em coordenação com o objetivo de promover e defender a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, o acesso à informação e a segurança e proteção de jornalistas.
No Brasil, por exemplo, integra a Rede Vozes do Sul a Associação Brasileira de Jornalismo de Investigação (Abraji). O documento “A Cartografia do Silêncio” foi editado com apoio da Fundação para o Desenvolvimento Pan Americano.
De acordo com o relatório, a liberdade de imprensa atravessa um momento de retrocesso estrutural, “marcado pela consolidação de formas de silenciamento cada vez mais complexas”. Com relação a 2024, o documento revela uma situação não de melhora em 2025, mas de “reconfiguração da violência até mecanismos menos visíveis – especialmente no âmbito digital, judicial e institucional – somado ao avanço da autocensura e das zonas de silêncio”.
De qualquer modo, a violência letal representou a morte de 23 jornalistas em 2025 no continente, nove a mais do que em 2024, o que representa um morte a cada 16 dias. Com sete assassinatos, o México foi o país mais letal para jornalistas em 2025. Depois vieram Equador e Perú, com cinco e quatro assassinatos de jornalistas cada.
A maioria das vítimas fazia investigações sobre corrupção, economias ilegais ou crime organizado, tendo denunciado ameaças e contando muitas delas com medidas de proteção. Para Vozes do Sul, a impunidade com relação a esses crimes confirma o colapso das garantias mínimas para o exercício do jornalismo na América Latina e Caribe.
Foram ainda registradas 296 agressões físicas contra jornalistas, equivalentes a mais de uma de cada dez alertas regionais. Foram 2.484 alertas de diferentes modalidades de violência contra jornalistas no continente no ano passado, sendo 861 agressões verbais, escritas e digitais, envolvendo 3.230 vítimas.
No Brasil, de modo particular, foram documentados 204 alertas de violência contra jornalistas, afetando 247 vítimas. Foram 80 agressões verbais, escritas e digitais, 55 agressões físicas e 18 intimidações judiciais. Agressores estatais representaram 42,7% dos casos, a maioria dos alertas no Brasil.
As agressões verbais contra jornalistas brasileiros estiveram relacionadas a ameaças de morte contra profissionais que investigam o manejo de fundos públicos, insultos contra quem questionam figuras de destaque nos esportes, ataques em grupos de whatsapp e intimidações verbais em reportagens na rua.
Um caso citado em “A Cartografia do Silêncio”, de violência cometida por agente estatal, foi o da cobertura jornalística do Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília. Durante a manifestação, diz o documento, forças policiais lançaram bombas de gás lacrimogêneo que lesionaram jornalistas que faziam a cobertura do evento. Prefeitos e vereadores foram outros agentes estatais que cometeram violências contra jornalistas brasileiros em 2025, indica o relatório.
Entretanto, manifestações de violência também foram cometidas por agentes não-estatais. Caso de manifestantes que ameaçaram jornalistas e lançaram pedras contra um veículo de rede de televisão em Londrina (PR). Um cinegrafista ficou ferido e equipamentos foram danificados.
O relatório ainda cita dados da Abraji, registrando 31 alertas de violência baseados no sexo da vítima. Foram vários ataques misóginos a jornalistas, em um cenário de forte polarização política no país.
Com efeito, a Abraji faz um alerta de preocupação em relação ao processo eleitoral de 2026, que tende a ser marcado pela intensificação dessa polarização. Trata-se de um momento em que historicamente se registra um aumento da virulência contra jornalistas, com impactos diretos em sua segurança e no exercício da liberdade de expressão.
A Abraji sugere então o fortalecimento do marco legal e das políticas públicas destinadas a prevenir e sancionar a intimidação contra jornalistas. Também defende a necessidade de fomento a programas de capacitação e de protocolos específicos para autoridades locais e forças de segurança, de modo a melhorar a prevenção, a investigação e a resposta frente a agressões contra a Imprensa e os jornalistas.
Proteger os jornalistas é proteger a democracia. É um dos últimos pilares de garantia contra a barbárie e os retrocessos civilizatórios.
(Publicado originalmente no Portal Hora Campinas)
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