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A arte de Portinari do Brasil encanta a China
Público chinês aprecia algumas das principais obras de Portinari na histórica exposição (Fotos Julia Brendas/Divulgação)

A arte de Portinari do Brasil encanta a China

Por José Pedro Soares Martins

Um encontro de duas civilizações, a necessária conversa entre Ocidente e Oriente, um tributo à paz e ao entendimento entre os povos em um panorama planetário atribulado. Sete décadas depois que os painéis Guerra e Paz foram apresentados ao público, antes de ficarem expostos na sede da ONU em Nova York, a mensagem poderosa de Cândido Portinari (1903-1962), através de sua arte sofisticada, agora encanta a população da China, no coração de Pequim, no lado leste da lendária Praça Tiananmen.

No dia 9 de junho foi aberta a exposição “O Brasil de Portinari”, a primeira do nosso pintor maior em território chinês. Até 10 de outubro, são esperados mais de 4 milhões de visitantes no Museu Nacional da China, o maior museu do mundo em um único edifício, com 200 mil metros quadrados.

Menino chinês encantado com a "Bailarina Carajá", de 1958

Menino chinês encantado com a “Bailarina Carajá”, de 1958

O Museu Nacional guarda as principais riquezas da evolução artística da China, como o Houmuwu Ding (peça de bronze antiga mais pesada do mundo), da dinastia Shang, e a cerâmica da dinastia Song, entre outras preciosidades, no conjunto das mais de 1 milhão de peças que cobrem toda a vida do país, até o final da dinastia Qing, a última dinastia imperial da história chinesa.

Agora, todo esse acervo impressionante está ao lado de 56 das principais obras de Portinari, todas elas representando outro tesouro, o da cultura mestiça do Brasil. Fazem parte da exposição, entre outras, “Mestiço”, de 1934; “Café”, de 1935; “Cabeça de Índio”, de 1938; “Futebol”, de 1940; e a impressionante “Retirantes”, de 1944 – todas compondo um mosaico colorido da miscigenação cultural brasileira.

Todo o cuidado na preparação do lendário "Retirantes"

Todo o cuidado na preparação do lendário “Retirantes”

Também estão lá amostras de “Guerra” e “Paz”, de 1952, representando os painéis gigantes que Portinari pintou, por encomenda do governo brasileiro, e que foram expostos pela primeira vez em 1956, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, antes de serem levados para a sede da Organização das Nações Unidas. Como se sabe, no início da década de 1950, o Secretário-Geral da ONU, Trygve Lie, solicitou a todos os Estados-Membros que presenteassem as Nações Unidas com uma obra de arte que representasse sua cultura.

O Brasil encomendou a Cândido Portinari uma obra de arte para as Nações Unidas com o tema guerra e paz. Portinari criou dois murais intitulados Guerra (parede leste) e Paz (parede oeste), respectivamente. A inspiração para a Guerra foi o Apocalipse, da Bíblia. E para a Paz, as Eumênides, uma das tragédias mais conhecidas de Ésquilo, sinalizando o desejo de paz como fruto da justiça e não da vingança das Fúrias mitológicas.

João Portinari e autoridades percorrendo a exposição

João Portinari e autoridades percorrendo a exposição

Uma longa caminhada até a China  

Pois data justamente de 1952 a origem da ideia original de uma grande exposição de Portinari na China. Foi o poeta espanhol Rafael Alberti (1902-1999), que na época vivia no Uruguai, exilado da ditadura de Francisco Franco (1892-1975), quem sugeriu ao amigo pintor, paulista de Brodowski, montar uma exposição em solo chinês. Tanto Alberti como Portinari comungavam de ideias de esquerda e estavam sob o impacto da criação da República Popular da China, em 1949, após a vitória da revolução liderada por Mao Tsé-Tung.

Naquele momento histórico não foi possível viabilizar a sonhada exposição e a ideia foi depois retomada por outros amigos de Portinari, como o poeta cubano Nicolás Guillén (1902-1989) e o escritor brasileiro Jorge Amado (1912-2001), todos compartilhando os mesmos princípios políticos. Mas chegou a hora e finalmente “O Brasil de Portinari” desembarcou na China, com todo destaque que merece, com o patrocínio master da Petrobras, patrocínio da Pátria Investimentos e incentivo do Governo do Brasil, por meio dos ministérios da Cultura, das Relações Exteriores e da Embratur, via Lei Rouanet. A exposição integra a programação do Ano Cultural Brasil-China 2026.

 

Público chinês no espaço imersivo, outra atração da exposição histórica

Público chinês no espaço imersivo, outra atração da exposição histórica

“Esta exposição é uma BITNET, because it´s time, está na hora”, afirma João Cândido Portinari, o filho do artista, que tem sido o grande responsável por manter e propagar o legado do pai nas últimas décadas, através do Projeto Portinari. João, que liderou passo a passo a verdadeira epopeia que foi preparar a exposição de Portinari na China, está se referindo à analogia que faz do momento de realização do evento, no atual contexto global, com os primórdios da internet, onde o B.I.T. de Bitnet queria dizer because it´s time.

Em entrevista à Agência Social de Notícias e Portal Hora Campinas, João Cândido Portinari assinala que “a presença de Portinari na China tem sido um marco não apenas para o Projeto Portinari, mas para a diplomacia cultural brasileira. Expor 56 obras originais no Museu Nacional da China, em Pequim, junto a um belo espetáculo imersivo, é um reconhecimento da universalidade de um artista que, embora profundamente brasileiro, falava para a humanidade”.

“O que tem significado esta mostra, acima de tudo, é a democratização do acesso à arte”, diz o filho do pintor de visão de fato universal. “Levar a memória de Portinari a um público tão distinto, em uma nação que compartilha valores profundos sobre o trabalho e a terra, reforça a atualidade do nosso projeto. A recepção tem sido de um respeito que comove, provando que a arte não conhece fronteiras quando comunica verdades essenciais sobre a condição humana”, ele complementa.

João tem vivenciado momentos de muita emoção em todas as etapas do processo de planejamento e montagem de “O Brasil de Portinari” no gigantesco museu. Acompanhou de perto a instalação das obras-primas nos corredores do complexo, percorreu a exposição com a imprensa chinesa e fez a grande apresentação na sessão de abertura, que contou com a participação do secretário-executivo do Ministério da Cultura (MinC), Márcio Tavares; da presidenta do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), Fernanda Castro; do embaixador do Brasil na China, Marcos Galvão; e do diretor do Museu Nacional da China, Luo Wenli.

E especialmente emocionante foi o presente que ganhou de uma estudante chinesa, que reproduziu o singelo “Retrato de João Cândido com Cavalo”, de 1941, a pintura em que o pai mostra todo o amor pelo filho, por meio de magníficos tons vermelhos, cinza, azuis, terras, preto e branco, e retratando o menino de corpo inteiro.

"Café", uma das principais obras de Portinari, retratando a força da terra que ajudou a fazer um país (Reprodução Julia Brendas/Divulgação)

“Café”, uma das principais obras de Portinari, retratando a força da terra que ajudou a fazer um país (Reprodução Julia Brendas/Divulgação)

Singeleza, amor pelo país e seu povo, construído pela mestiçagem de várias etnias, de diferentes raízes, gerando uma mensagem única e universal de amor à paz e à justiça social. O Brasil de Portinari agora sob os olhares da China, em uma hora mais do que oportuna para reiterar e reverberar sua narrativa pictórica singular e magistral.

 

 

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