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Lar dos Velhinhos, 122 anos pela dignidade
Lar dos Velhinhos: longevidade com dignidade e plena inclusão social (Foto: Divulgação)

Lar dos Velhinhos, 122 anos pela dignidade

Por José Pedro Martins

Em 2026, o Lar dos Velhinhos de Campinas celebra nada menos que 122 anos de trajetória. Uma longa e rica existência, pela longevidade com dignidade e plena inclusão social.

O Lar dos Velhinhos trata de uma das questões mais desafiadoras no momento para o Brasil e o planeta em geral, o rápido envelhecimento da população. E o país não tem política pública adequada para responder a esse movimento.

      Segundo o Censo Demográfico de 2022, aplicado pelo IBGE, o Brasil tem 32 milhões de pessoas idosas, com 60 anos ou mais, 17,8 milhões dos quais de mulheres e 14,2 milhões de homens. Esse contingente,  representando cerca de 15,8% da população brasileira, faz com que o país seja o sexto com maior número de pessoas idosas do planeta, depois da China, Índia, Estados Unidos, Japão e Rússia.

Já existe legislação específica sobre os direitos das pessoas idosas no país. A Lei 8.842, de 1994, instituiu a Política Nacional da Pessoa Idosa. Depois de uma década, e exatamente em 2003, foi editado o Estatuto da Pessoa Idosa.

Contudo, é evidente que a pessoa idosa no Brasil ainda tem que lutar muito para garantir alguns de seus direitos. Durante a pandemia de Covid-19, a maioria das vítimas fatais foi de pessoas idosas, confirmando a situação de vulnerabilidade de grande parte dessa população  O Lar dos Velhinhos de Campinas é uma das organizações voltadas para assegurar a longevidade com saúde e qualidade de vida para seus usuários. São cerca de 100 usuários, com idade média de 74,28 no sexo masculino e 83,06 anos no sexo feminino. São cadeirantes cerca de 25% dos atendidos.

        Como aconteceu na história de várias organizações sociais de Campinas, o embrião do Lar dos Velhinhos foi lançado após uma campanha na imprensa. No caso, foram os artigos de Antônio Sarmento, publicados no “Diário de Campinas”, nas edições de 22 de janeiro e 8 de fevereiro de 1899.

A ideia apresentada por Antônio Sarmento ganhou força e finalmente foi viabilizada, após uma forte campanha na comunidade. No dia 25 de julho de 1904, na sala de audiência da Delegacia de Polícia, reunião convocada pelo delegado Paulo  Machado Florence foi decidida a criação de um Asilo dos Inválidos em Campinas, conforme a denominação comum na época.

Foi então eleita uma comissão, presidida pelo próprio Paulo Machado Florence, para organizar os trabalhos visando a estruturação da nova entidade. No dia 13 de agosto de 1905, houve a escolha da primeira diretoria do Asilo dos Inválidos, tendo Orosimbo Maia, que seria prefeito de Campinas, como primeiro presidente.

Essa diretoria mobilizou a comunidade e no dia 10 de dezembro de 1905 foi inaugurado o Asilo dos Inválidos, na chácara “República”, comprada do coronel Bento Bicudo e esposa. A escritura foi lavrada a 23 de outubro de 1905.

O Asilo foi inaugurado com a capacidade de atender a 200 pessoas, em sua maioria idosas e em grande parte vivendo em situação de mendicidade.

Em 1944 teve início uma grande reforma no Asilo. Com um aporte generoso de Risoleta Ferreira Jorge, foi construído o Pavilhão Comendador João Jorge, uma homenagem ao pai da benemérita. Cinco anos depois, foi a vez da inauguração, a 24 de dezembro de 1949, da primeira ala do Pensionato Nossa Senhora das Graças, dedicada às residentes do sexo feminino.

Em 1972, a instituição mudou seu nome para Lar dos Velhinhos de Campinas (LVC). Consequência natural da mudança de perfil, pois passou a atender exclusivamente pessoas idosas, com mais de 60 anos.

Depois, com as novas alterações na legislação, como as determinações legais após a Lei nº  8.742, de 7 de dezembro de 1993, e o Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003, alterada pela Lei nº 14.423, de 22 de julho de 2022, que mudou o nome para Estatuto da Pessoa Idosa), o LVC se tornou uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI).

Muitas mudanças também aconteceram no espaço físico do Lar. O antigo pavilhão original foi derrubado e construídos outros edifícios. Atualmente a instituição conta com infraestrutura completa, numa área muito arborizada, com mais de 72.000 m², na Vila Proost de Souza. A modernização fica evidente ao se chegar ao Lar, onde se entra após o cadastro e reconhecimento facial.

O estatuto social afirma que o Lar dos Velhinhos de Campinas tem como missão realizar ações socioassistenciais de atendimento de forma continuada, permanente e planejada a idosos com 60 anos ou mais, dos dois sexos, por meio da prestação de serviço, execução de programas ou projetos e concessão de benefícios de proteção social básica ou especial, dirigidos às famílias e indivíduos em situação de vulnerabilidade ou risco social e pessoal. As pessoas idosas são encaminhadas pelo órgão gestor de Proteção Social Especial de Alta Complexidade, ou que se apresentem voluntariamente ou são levados por terceiros.

Depois de inscrita, a pessoa idosa passa a usufruir dos serviços oferecidos pelo Lar dos Velhinhos de Campinas. Durante sua estadia, ela é atendida por equipe multiprofissional, formada por assistentes sociais, psicólogas, enfermeira, terapeuta ocupacional, nutricionista, educadora física, médicos, farmacêutica e fisioterapeuta, que atuam sob a supervisão das coordenadoras técnica e de projetos sociais.

Com todo esse olhar multidisciplinar, o usuário participa de projetos terapêuticos e socializantes, visando a sua qualidade de vida, o envelhecimento ativo e a inclusão social. “O nosso propósito é que a pessoa idosa seja de fato incluída na sociedade, não fique marginalizada. Ela se sinta parte integral de sua comunidade”, afirma o presidente do LVC, Mauro Calais de Siqueira.

São vários os serviços oferecidos pelo Lar dos Velhinhos. Um deles é o Serviço Social, que visa garantir os direitos institucionais dos idosos residentes, objetivando a proteção integral e as articulações com o sistema de garantia de direitos em promoção, controle e defesa.

Outro serviço é o de Psicologia, que objetiva a promoção, prevenção e recuperação da saúde mental dos idosos residentes em todos os níveis de dependência, através de atividades que incentivam a manutenção e expansão de sua autonomia, tanto em seu autocuidado como nas relações interpessoais.

Terapia Ocupacional é outro serviço, que realiza várias atividades, manuais, expressivas, físicas e socializantes, sempre objetivando estimular e adaptar os idosos, tanto os dependentes como os independentes.

O setor de Nutrição e Dietética conta com nutricionista, cozinheiras, oficiais de cozinha, copeiras e  auxiliares de cozinha. A equipe é responsável por produzir e distribuir as refeições em quatro refeitórios.

Já no setor Médico, dois profissionais de Medicina atuam em vários serviços, como os exames admissionais e ingresso e no atendimento às demandas internas. Muitos ingressantes apresentam comorbidades não diagnosticadas anteriormente, sem o devido seguimento clínico antes da admissão.

Por sua  vez, o setor de Enfermagem conta com enfermeira e mais de 20 auxiliares de enfermagem, que exercem várias atividades, como os atendimentos individuais, a educação continuada dos residentes, atenção em curativos e limpeza, participação nas admissões, acompanhamento de visita de Vigilância Sanitária, participação de visitas hospitalares e domiciliares.

      Já o setor de Farmácia está sob responsabilidade de farmacêutica e exercer atividades como organização e verificação das validades dos medicamentos em geral (de controle especial e de uso comum), verificação diária de estoque, entre outras atividades.

Também há os setores de Fisioterapia e Recreação, tudo visando o bem estar geral dos atendidos. As festas em datas especiais, como os Dias das Mães e dos Pais, as Festas Juninas ou Julinas e, claro, o Natal e o Baile de Carnaval, são muito animadas. Sempre com as roupas, músicas e comida adequadas a cada ocasião.

As visitas externas são momentos especiais para os usuários do LVC. Uma viagem que não pode faltar no calendário, nota a superintendente Geise Fabiana da Silva, é ao Santuário de Aparecida do Norte.

 A ação voluntária faz parte da vida do Lar dos Velhinhos de Campinas nos seus 122 anos. É muito importante, por exemplo, na gestão e operação do seu bazar, que funciona na Avenida Governador Pedro de Toledo, 1600, no Bonfim, de segunda a sexta-feira, das 12 horas às 17h30hs. O bazar sempre recebe doações de materiais em boas condições para venda.

O trabalho da diretoria do Lar também é exemplo de voluntariado. A começar pelo presidente, Mauro Calais de Siqueira, que há 16 anos coopera com a instituição.

Outra ação voluntária muito importante foi a Primeira Mostra Mais Sustentável, iniciativa que mobilizou arquitetos, engenheiros, decoradores e outros profissionais, somando mais de 200 pessoas, e realizada entre setembro e outubro de 2017. Foi mais uma atividade mostrando a sintonia do Lar com a comunidade de Campinas e região.

Arquitetos e designers montaram vários ambientes diferenciados, com materiais sustentáveis. Um dos principais benefícios da Mostra para o Lar foi a retirada de dezenas de caminhões de entulhos, contribuindo para a qualificação do espaço.

Mais um exemplo de ação voluntária, artistas, celebridades e pessoas anônimas uniram-se em uma corrente de solidariedade para levar afeto e apoio aos idosos do Lar dos Velhinhos de Campinas, impedidos de receber visitas por causa da pandemia da COVID-19. Eles gravaram vídeos com músicas e palavras de amor e conforto, entre dezenas de manifestações recebidas repletas de carinho. Os apresentadores de TV Franklin David e Luciana Gimenez, e o músico Derico Sciotti foram artistas que enviaram mensagens de otimismo.

Manutenção é desafio permanente . A manutenção de uma instituição como o LVC, com todos serviços oferecidos, 24 horas por dia, todos os dias da semana, com 170 funcionários, é um desafio permanente. Os dois termos do convênio mantido com a Prefeitura Municipal de Campinas cobrem 45 vagas. Contribuições da comunidade, de pessoas físicas, são feitas através do call center mantido pelo Lar, que também conta com recursos de seu bazar no Bonfim. Pesquisas feitas pelo LVC mostram que a maior parte das contribuições é feita por pessoas de baixa e média renda. Pela legislação em vigor, referente às Instituições de Longa Permanência do Idoso (ILPI), a organização poderá contar com até 70% do benefício do idoso assistido para custeio. O Lar tinha anteriormente residenciais em regime de hotelaria, mas desde 2014 essa modalidade não existe mais.

A comunidade sempre colaborou com a instituição, que entretanto sempre tem muitos e cotidianos desafios para continuar a sua história, ela mesma muito longeva, de busca da felicidade e dignidade ao longo de toda uma vida. Colabore com o Lar dos Velhinhos de Campinas, sabendo mais sobre a organização nas suas redes sociais ou no WhatsApp Central de atendimento ao Doador: (19) 99668-4945.

O Lar dos Velhinhos de Campinas fica na Rua lrmã Maria de Santa Paula Terrier, 300, Vila Proost de Souza, CEP 13.033-755, fone: 19 3743-4300. O seu site na internet é www.lvc.org.br

    (Este artigo foi produzido a partir do livro “Lar dos Velhinhos de Campinas”, de José Pedro Soares Martins, lançado em 2025 pela Editora Fundação Educar, como parte da coleção Entidades Campineiras. Série de artigos em parceria com o Portal Hora Campinas)

Sobre ASN

Organização sediada em Campinas (SP) de notícias, interpretação e reflexão sobre temas contemporâneos, com foco na defesa dos direitos de cidadania e valorização da qualidade de vida.