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Liberdade de imprensa em xeque, mundo ameaçado
Liberdade de imprensa é fundamental para a democracia (Foto Freepik)

Liberdade de imprensa em xeque, mundo ameaçado

Por José Pedro S.Martins

Um dos pilares nos quais se sustenta a civilização moderna e contemporânea é a liberdade de imprensa. Sem ela, já teríamos a hegemonia de regimes totalitários e bárbaros em boa parte do mundo, apesar de eventuais vernizes coloridos. Pois a liberdade de imprensa está cada vez mais ameaçada no planeta e, com ela, tudo o que imaginamos e acreditamos em termos de democracia e respeito aos direitos humanos.

Esta é a mensagem central que ecoou no último 3 de maio, quando se lembrou mais um Dia Internacional da Liberdade de Imprensa. Em documento sobre o tema, lançado por ocasião da data, a Unesco apresenta números e fatos estarrecedores sobre a situação da imprensa em âmbito internacional. Um quadro que deveria preocupar a cada um dos cidadãos e cidadãs, pois o fim da liberdade de imprensa é o fim da própria liberdade do ser humano, onde quer que esteja.

O relatório “Tendências mundiais em liberdade de expressão e desenvolvimento da mídia 2022-2025” aponta uma queda de 10% na liberdade de expressão mundial desde 2012, um retrocesso comparável apenas a outros três períodos – a Primeira Guerra Mundial, o prelúdio da Segunda Guerra Mundial, e o período da Guerra Fria do final dos anos 1970.

A análise da UNESCO dos dados do Instituto V-DEM, sediado na Universidade de Gotemburgo, Suécia, e que elabora anualmente os Índices de Democracia no planeta, mostra que a autocensura global entre a imprensa cresceu 69%, entre 2012 e o final de 2025. A forma mais prejudicial de censura agora está internalizada, lamenta a Unesco.

O documento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura também assinala que o assédio online contra jornalistas – especialmente aqueles que visam mulheres – aumentou mundialmente. Pesquisas realizadas pelo Centro Internacional de Jornalistas (ICFJ) para a ONU Mulheres, em parceria com a Unesco, constataram que 75% das jornalistas relataram ter sofrido violência online. Ainda mais preocupante, pelo menos 42% das jornalistas disseram em 2025 que esses ataques online levaram a abusos, ameaças ou violência offline – o dobro (20%) do número que relataram isso em 2020.

Todos esses fatos inquietantes, lembra a Unesco, acontecem em um momento em que pela primeira vez em 20 anos o número de regimes não democráticos supera os democráticos. Atualmente, 72% da população mundial vivem sob regime não democrático, percentual mais alto desde 1978, conforme o monitoramento do Instituto V-DEM.

Em 2024, 361 jornalistas estavam presos, um número entre os mais elevados da história. Somente nos últimos quatro anos, mais de 300 jornalistas foram assassinados, não contando os homicídios ainda não contabilizados em conflitos bélicos em curso. Desde 2010, 46 jornalistas que trabalham com meio ambiente foram mortos em função de sua profissão, muitos deles na América Latina, inclusive no Brasil. Foram 24 mulheres jornalistas assassinadas entre 2022 e setembro de 2025, acrescenta a Unesco.

A agência da ONU também alerta para o aumento da desconfiança na imprensa, aliás o que ocorre com quase todas as instituições na sociedade contemporânea. E isso é um grande desafio para a civilização atual. O relatório da Unesco também adverte para o avanço da desinformação nas redes sociais, como no caso de fake news relacionadas às mudanças climáticas, que cresceram de 24% para 40% nas plataformas digitais entre 2021 e 2024.

Em meio a essas tendências globais negativas, há também fortes tendências positivas, “que oferecem sinais de esperança e evidências de soluções inovadoras para desafios globais”, entende a Unesco. A mídia comunitária está ganhando reconhecimento crescente. Dos 194 países analisados na pesquisa global da Unesco de 2025, quase metade já possui marcos legais e, em muitos casos, oferece apoio financeiro, refletindo um compromisso mais forte com o pluralismo midiático. “Também houve progressos no acesso à informação: 139 Estados-Membros da ONU já adotaram garantias legais para o direito do público de acesso à informação”, acrescenta o relatório.

Por ocasião da Conferência do Dia Mundial da Liberdade de Imprensa 2026, que terminou ontem em Lusaka, na Zâmbia, a Unesco defendeu que no atual panorama global “as fronteiras entre jornalismo, tecnologia, espaço cívico e direitos humanos estão cada vez mais entrelaçadas”. Isso permite, segundo a  agência da ONU, a fertilização cruzada de ideias, soluções e abordagens – incluindo perspectivas sensíveis ao gênero – entre jornalistas, defensores dos direitos digitais, tecnólogos, formuladores de políticas, reguladores, organizações da sociedade civil, academia, pesquisadores, educadores, líderes juvenis e criadores de conteúdo. “Essa convergência oferece uma plataforma para ir além do diagnóstico, rumo à ação coordenada, alinhando jornalismo, tecnologia (incluindo IA) e atores de direitos humanos em meio a formas práticas de fortalecer os ecossistemas de informação para o futuro”, acrescenta a Unesco.

Mas o cenário de modo geral é realmente desafiador e muito inquietante. O poder das big techs, que hoje controlam grande parte do fluxo das informações globais, também é um elemento muito sério a ser considerado pelas sociedades que desejam continuar sendo democráticas em plenitude. E ainda tem o impacto da Inteligência Artificial, como por exemplo nas eleições brasileiras que se aproximam.

Enfim, são muitas vertentes e vários os interesses em jogo. A cidadania planetária precisa ficar mais atenta e mobilizada, sob pena de ver suas liberdades, inclusive a da imprensa, cada vez mais suprimidas.

 

(Artigo publicado originalmente no Portal Hora Campinas)

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