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A descoberta de um mundo novo (de paz), no coração do Cambuí
Alunas e alunos da EMEJA Pierre Bonhomme visitam (e se encantam com) a Exposição Artes pela Paz (Fotos José Pedro Soares Martins)

A descoberta de um mundo novo (de paz), no coração do Cambuí

Por José Pedro Martins

Maria do Carmo, 64 anos, era só deslumbramento. Um mundo novo estava ao seu alcance. Se encantava com tudo, como com a andorinha gigante, coberta de mensagens pela paz e produzida em impressão 3D com acabamento em pintura branca. A ave símbolo de Campinas é o destaque em uma instalação repleta de outras andorinhas brancas em adesivo, com fundo de tecido preto. Afinal, uma andorinha só não faz verão, o lema que dá nome ao trabalho assinado pelo artista Piassa.
“A paz é muito importante”, repetia Maria do Carmo, enquanto percorria as galerias do Centro de Convivência Cultural, no coração do Cambuí, onde foi está montada a exposição coletiva do Festival Artes pela Paz. Era a primeira vez que Maria do Carmo e muitas das outras andorinhas, quer dizer, dos outros e das outras colegas da Escola Municipal de Educação de Jovens e Adultos (EMEJA) Pierre Bonhomme visitava o mais importante espaço cultural da cidade.

Maria do Carmo, na instalação interativa de Gilberto Aparecido Alves Francisco, "Circular Diversidade Anatomia da Paz" (Foto JPSM)

Maria do Carmo, na instalação interativa de Gilberto Aparecido Alves Francisco, “Circular Diversidade Anatomia da Paz” (Foto JPSM)

Foi mais uma das visitas guiadas à exposição que estará aberta no Centro de Convivência até o dia 27 de junho, como parte do Festival idealizado por Silvana Bragatto e Célio Turino e realizado pelo Instituto Casa Comum, com apoio do Fundo Nacional de Cultura do Ministério da Cultura e Prefeitura de Campinas. Como Maria do Carmo, os demais alunos da EMEJA Pierre Bonhomme se encantaram com a grande exposição de artes plásticas e outras tantas linguagens, expressando a mensagem central do Festival: mais do que nunca, é fundamental fertilizar e praticar a cultura de paz, o silêncio que grita ao coração do mundo.

Artes pela Paz, nas galerias do Centro de Convivência Cultural (Foto JPSM)

Artes pela Paz, nas galerias do Centro de Convivência Cultural (Foto JPSM)

     Um encontro com Francisco. Como Célio Turino explica no catálogo do Festival, a ideia do evento floresceu a partir de um encontro que manteve com “um amigo querido”, Jorge Bergoglio, o Papa Francisco. Foi em 2015, no Vaticano, onde Turino foi como convidado para falar sobre os Pontos de Cultura e a Cultura Viva, ações que liderou quando atuou no Ministério da Cultura, na gestão do ministro Gilberto Gil (ver “A cultura viva de Campinas e do Brasil no Vaticano, a convite do papa Francisco“, na Agência Social de Notícias, de 28 de janeiro de 2015).
Desde então, muitas conversas, sempre com a presença de Silvana Bragatto, companheira de vida e de sonhos de Turino, ela, como presidente do Instituto Casa Comum. Por meio do Programa Scholas Occurrentes (Escolas do Encontro), idealizado por Francisco, foram materializados vários projetos, que incluiu um livro assinado por Turino e lançado em 2018 em Castelgandolfo, a casa de verão dos papas. No mesmo local, o Instituto Casa Comum realizou um Seminário Internacional, no qual foi lançada a proposta de um programa mundial, o UNI+ON, direcionado a comunidades de jovens nos diferentes países, cujos membros atuariam como Agentes Jovens pela Paz.

Instalação da Casa de Cultura Tainã (Foto JPSM)

Instalação da Casa de Cultura Tainã (Foto JPSM)

“Nas conversas com Francisco, ele falava da necessidade de harmonizar as linguagens do coração, cabeça e mãos como o grande desafio contemporâneo”, diz Turino. “Sentir, pensar e agir em harmonia, o oposto do que acontece no mundo atual, em que as pessoas sentem de uma forma, pensam de outra e agem de maneira ainda mais desencontrada”, complementa.
Como plataforma especial para essa utopia, essa harmonização dos sentidos, as artes, o território da beleza. “A beleza salvará o mundo!”, advertia o príncipe Michkin, personagem de “O Idiota”, de Fiódor Dostoiévski (1821-1881).
Desse mosaico de conceitos foi então planejado o Festival Artes pela Paz, que logo teve o apoio da secretária municipal de Cultura de Campinas, Alexandra Caprioli, e também das Secretarias de Gestão de Pessoas e Educação, com suporte fundamental de emenda parlamentar da deputada federal Luiza Erundina.

"Uma andorinha só não faz verão", de Piassa, com suas mensagens pela paz (Foto JPSM)

“Uma andorinha só não faz verão”, de Piassa, com suas mensagens pela paz (Foto JPSM)

O Festival foi aberto no dia 5 de abril de 2026, com o Concerto Sinfônico pela Paz, no Teatro de Arena do Centro de Convivência, com a Orquestra Sinfônica de Campinas regida pelo maestro Nelson Ayres. O Concerto contemplou a participação especial das Caixeiras das Nascentes, a revoada de poemas (distribuída ao público no final do evento) e dança com Diane Ichimaru e Confraria da Dança.
       Uma chuva de arte. No mesmo dia 5 de abril foi aberta a Exposição Artes pela Paz, uma chuva de obras assinadas por dezenas de artistas de Campinas e outras cidades brasileiras. Eram estas as pinturas, esculturas, vídeos e outras produções que os alunos e alunas da EMEJA Pierre Bonhomme conheceram em uma tarde fria do lado de fora, mas quente, no coração e no espaço interno do Centro de Convivência Cultural.

A paz nas mensagens da arte postal (Foto JPSM)

A paz nas mensagens da arte postal (Foto JPSM)

Até o próximo dia 27, ainda podem ser vistas obras de artistas individuais como Piassa, Marcos Garcia (com sua “Oriente – Ocidente: a harmonia entre mundos”), Ewerton Rodrigues (com a coleção “Cultura Alvo”) e, entre outros, Andrea Mendes, com sua “Revolução das Margaridas”, um apelo à paz em um momento de recrudescimento do feminicídio e outras modalidades de violência de gênero. Mas, sobretudo, muita arte coletiva, como a da Arte Postal, composta por mensagens pela paz atravessando fronteiras e mentes.
E também o Coletivo Tinteiro, coletivo artístico fundado em 2020 por pessoas negras do curso de Artes Visuais da Unicamp, nascido como uma forma de acolhimento durante a pandemia e que depois evoluiu para trabalhos presenciais. São cerca de 50 membros, 15 deles com obras na Artes pela Paz.

A Feira Sub no Festival Artes pela Paz (Foto JPSM)

A Feira SUB no Festival Artes pela Paz (Foto JPSM)

Ou, ainda, o mural concebido por Marcela e Fabiana Pacola, as irmãs idealizadoras e realizadoras da Feira [SUB], um outro festival de múltiplas linguagens artísticas, desenvolvido desde 2016 (ver todo o material sobre a Feira [SUB] publicado pela ASN aqui).  E mais Stickers e Arte de Rua, a instalação da Casa de Cultura Tainã, o painel da Brahma Kumaris e muito mais.
E também a mostra “Saberes ancestrais”, com produções de artistas indígenas, como João Baniwa, cujas obras chamavam a atenção em especial de Joaquim Fernandes da Silva, outro aluno da EMEJA Pierre Bonhomme que visitou o Centro de Convivência pela primeira vez, como um dos resultados da proposta essencial do Festival Artes pela Paz.

"Banhado", de Vale7e, do Coletivo Tinteiro (Foto JPSM)

“Banhado”, de Vale7e, do Coletivo Tinteiro (Foto JPSM)

Aposentado, nascido na região de Londrina, há muitas décadas vivendo em Campinas, Fernandes, aos 75 anos, contou que teve agora a oportunidade de voltar a estudar. Ao mesmo tempo, desenvolve trabalhos sociais, visitando doentes em hospitais, cuidando de pessoas em situação de rua e outras ações solidárias. Na escola, teve a oportunidade de atuar como repórter, produzindo um texto sobre grupos marginalizados. “Indígenas, negros, homossexuais, todos são iguais e têm os mesmos direitos”, disse o cidadão, aluno da EMEJA, que espelhava, com suas próprias palavras, a mensagem visceral do Artes pela Paz.

Joaquim Fernandes da Silva, na mostra "Saberes ancestrais", de João Baniwa: "Todos têm os mesmos direitos" (Foto JPSM)

Joaquim Fernandes da Silva, na mostra “Saberes ancestrais”, de João Baniwa: “Todos têm os mesmos direitos” (Foto JPSM)

O Festival Artes pela Paz abrangeu muitas outras atividades. Foram várias oficinas dos parceiros, música caipira, o espetáculo infanto-juvenil “Um rio que passa lá”, Correnteza da Paz, Dança Circular e Serviço Educativo, proporcionando uma visita monitorada e lúdica, reforçando a mensagem de paz, a todos os que foram apreciar a Exposição e outras ações.

O Centro de Convivência Cultural foi imaginado pelo arquiteto campineiro Fábio Penteado (1929-2011) como uma espécie de ágora dos auges tempos da democracia grega. Um espaço aberto a todos, em que as diferentes linguagens artísticas fossem a manifestação do desejo coletivo pela paz, a justiça e a fraternidade. A mesma narrativa, enfim, de Francisco, de Célio, de Silvana, Maria do Carmo ou Fernandes, todos se encontrando no já histórico Festival Artes pela Paz. As andorinhas que, juntas, em uma multidão de afetos, ainda farão muitos verões.

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