Instituto busca patrocínio para custear a participação no Ancona Jazz 2026, consolidando uma parceria iniciada em 2015, com impacto no projeto em Campinas e também na Europa
O Anelo, instituto sem fins lucrativos que oferece aulas de música no distrito de Campo Grande, periferia de Campinas (SP), se mobiliza com o objetivo de levar músicos até a Itália pela décima vez no final deste mês de julho, para participação como convidado do Ancona Jazz Summer. Com três representantes, a associação espera dar início à segunda década de parceria musical em solo italiano – um feito com marcas importantes no desenvolvimento dos alunos atendidos e professores. Para viabilizar a viagem, porém, está em busca de um patrocínio para complementar os recursos necessários.
Com um convite recebido em 2015, então para o Arcevia Jazz Feast, por intermédio do músico Guilherme Ribeiro, o Anelo iniciou uma jornada de parceria que trouxe para a organização inúmeras possibilidades de aprendizado e trocas pedagógicas e de performance. “O que nunca havia se desenhado como uma possibilidade para os meninos e meninas da periferia de Campinas, tornou-se uma fonte de inspiração e possibilidade e, hoje, representa mais do que um marco, mas uma vitória da comunidade que pode se mostrar para o mundo de forma lúdica, para além dos estereótipos de vulnerabilidade que toda periferia carrega”, aponta Luccas Soares, fundador e coordenador geral do Anelo.
Soares enfatiza que a experiência “surreal vivida em 2015”, para as realidades dos músicos do Anelo – pessoas nascidas e criadas em um contexto de privações de acesso à cultura e a condições ideais de vida -, mudou a perspectiva de atuação e de possibilidades dos músicos, que passaram a enxergar menos barreiras para alcançar o mundo por meio da música.
“A empreitada, ao ser revisitada, parece à primeira vista que foi vivida de forma sem obstáculos, mas é aí que a realidade se impõe novamente. Em todas as ocasiões em que cumpria o propósito de levar músicos à Itália, o Anelo enfrentou desafios financeiros, que foram vencidos com muito esforço, ajuda de apoiadores, iniciativas de arrecadação, como venda de pizza, bazares, venda de apresentações musicais solidárias, pedido de doações e muita vontade de fazer a viagem acontecer, sem nunca termos conseguido um patrocínio direto de fato”, explica. Nesta edição, além da busca de um patrocínio, o instituto também está recebendo doações de qualquer valor via conta bancária (confira os dados ao fim do texto).
Ao longo dos anos, e até este momento, a parceria já garantiu a ida de 44 músicos da instituição para o festival da pequena cidade italiana de Acervia, que nesta edição se funde ao Ancona Jazz Summer, formando um importante polo de cultura de música improvisada na Itália. “A experiência também abriu o nosso horizonte de possibilidades. Só de passar a enxergar o mundo afora como um lugar que também é da periferia, fomos à China, Alemanha e África do Sul, sempre levando música brasileira e dividindo com a comunidade o que aprendemos. Fruto disso, é o Festival Transforma (criado no instituto), que já chegou a sua sétima edição e é inspirado no Arcevia Jazz Feast”, complementa Soares.
No festival internacional Ancona Jazz Summer 2026, o Anelo representará o Brasil com apresentações e uma oficina de baião, ritmo que encantou os italianos desde a primeira participação do Anelo na Itália. Serão seis dias de atividades – de 26 de julho a 1º de agosto.
Edição 2026
Neste ano, a associação levará à Europa um trio, composto pelo fundador e coordenador geral do Anelo, Luccas Soares, pela percussionista e professora Adriana Laranjeira e pela aluna de prática de banda Vanessa de Jesus. Além de divulgar a música brasileira na Itália, os músicos do Anelo, além de um grupo sueco, também convidado, participarão de ações em sala de aula, trocando e difundindo conhecimento com os europeus. O festival bancará parcialmente os custos de hospedagem e alimentação, mas, para garantir presença na Itália , o Anelo precisa arrecadar R$ 35 mil. O valor estimado é o necessário para conseguir arcar com os custos da viagem e demais gastos previstos durante a estadia.
Soares conta que a parceria com o Arcevia Fest começou em 2015, quando o pianista e acordeonista Guilherme Ribeiro, hoje é maestro da Orquestra Anelo, que já participava do festival nos anos anteriores. Ele fez a ponte entre o evento e o Anelo, apresentando o trabalho do instituto e viabilizando a participação, à época, de um grupo de cinco representantes. Desde então, a instituição conseguiu enviar outros grupos, consecutivamente até Arcevia, consolidando uma parceria que também rendeu visitas de estudantes de música italianos a Campinas e uma relação de amizade com a cantora italiana Suzanna Stivali, que chegou a ministrar aulas na associação. A única exceção foi 2020, auge da pandemia de Covid-19.
“Nossa parte didática foi impactada diretamente pela parceria. Isso fora o contexto social. Para os jovens da periferia, a Itália é algo muito longe ou desconhecido. Minha mãe, por exemplo, até me perguntou se a gente iria de ônibus. Então, ter essa oportunidade é muito relevante, não é ostentação ou um luxo, e sim mostrar que os músicos daqui podem alcançar esse palco”, afirma Soares. Segundo ele, a escolha pelo gênero baião nas apresentações atende a um interesse dos organizadores do festival, repetindo uma opção feita na primeira participação, em 2015, com grande aceitação.
Oportunidade
Estudante no Anelo, Vanessa de Jesus Silva Sarmento, seguirá, aos 30 anos de idade, para sua primeira viagem internacional. Mineira de Belo Horizonte, ela começou na música na igreja, e se mudou para a região de Campinas ainda criança, devido a uma necessidade dos pais. Fascinada por ritmos e influenciada principalmente pela black music, se dedica à formação em bateria e contrabaixo e está há três anos no Anelo.
“Em busca de oportunidades, estava fazendo testes para entrar no conservatório de Tatuí, mas acabei desistindo pela distância e necessidade de locomoção constante, que seria muito custosa. Então acessei o Google à procura de lugares para aprender música na região, e o Anelo veio como primeira opção. Me interessei pelos projetos que existiam nele, a relevância, e a quantidade de alunos talentosos”, conta.
“O Anelo exerce um papel fundamental no meu processo de formação musical, proporcionando acesso ao estudo da música de qualidade e a vivências que talvez eu não tivesse em outros contextos. Receber a notícia de que faria parte do trio que irá para a Itália foi uma grande alegria e uma surpresa muito especial. Senti orgulho, satisfação e honra. Demorou um tempo para eu compreender a dimensão dessa oportunidade para minha trajetória musical. Ter uma experiência internacional como essa e poder incluí-la em meu portfólio é algo que considero extremamente significativo.”
Já Adriana Laranjeira, outra representante do trio, e que atua há 20 anos como baterista, percussionista e professora, afirma que participar do festival na Itália representa a realização de um sonho pessoal e profissional.
“É a minha primeira vez no país e poder representar o Instituto Anelo e a música brasileira em um festival internacional é motivo de muita honra e alegria. O repertório que estamos preparando busca valorizar a riqueza rítmica e a diversidade da música brasileira, levando um pouco da nossa identidade cultural para o público internacional. Adriana considera que o contato com músicos de diferentes culturas servirá para ampliar a visão artística dos representantes do Anelo, incorporar conhecimentos e inspirar novas possibilidades de ensino. “Tenho certeza de que voltarei ainda mais motivada para compartilhar essas vivências com meus alunos e continuar construindo caminhos através da música“, aponta.
“No Anelo, além de professora, tenho a alegria de acompanhar de perto o impacto transformador da música na vida dos alunos.”
Música sem barreiras
Ancona, cidade que receberá o festival Foto: Divulgação
Segundo o diretor do Arcevia Feast e professor de trompete Samuele Garofoli, o festival, que ocorre há 28 anos, busca o desenvolvimento do pensamento musical por meio de uma didática e de uma metodologia já comprovadas. Ele ressalta como grande diferencial do evento a possibilidade aberta para unir pessoas e compartilhar diferentes experiências. “No festival tocamos o dia inteiro, levantamos temas, mas há também momentos de partilha. À mesa, enquanto todos comem juntos, nas jam sessions, desde o café da manhã até tarde da noite, sem nenhuma barreira geracional ou de gênero.”
Garofoli revela que as participações musicais de Brasil e Suécia ganham atenção especial dos organizadores nesta edição. “Muitos desses artistas que tocarão à noite estarão em sala de aula no dia seguinte”, conta. Afirma ainda que a união com o Ancona Jazz preencherá uma demanda de aumento das atividades. “Sentíamos falta de shows e precisamos disso, porque fazer música não é apenas estudar, mas também ouvir, inspirar-se e conhecer músicos. A união com o Ancona Jazz dá origem a um polo cultural dedicado ao jazz e à música improvisada de grande importância na Itália. Não esquecemos nossas raízes, mas desenvolveremos outras atividades, dedicadas a residências de música, gravações e documentários.”
Sobre a relação com o Anelo, ele define como parte de um processo de escolhas e de transformação do polo de formação italiano. “O trabalho realizado no Brasil é para nós uma grande fonte de inspiração. A atenção aos jovens, a construção de comunidades, o diálogo com o território e com diferentes culturas, a adaptação contínua dos espaços e da didática para responder aos desafios é uma abordagem que nos une. Os caminhos que seguimos são, em grande parte, fruto da experiência do Anelo. Arcevia Jazz Feast, Ancona e Instituto Anelo são amigos para sempre.”
DOAÇÕES
Quem quiser contribuir com o Anelo para viabilizar a viagem dos músicos pode enviar qualquer valor para a conta bancária do instituto ou via PIX.
Banco do Brasil
Agência: 3551-3
Conta Corrente: 11.379-4
PIX (CNPJ): 05.896.161/0001-29
Agência: 3551-3
Conta Corrente: 11.379-4
PIX (CNPJ): 05.896.161/0001-29
O Anelo pede, por gentileza, que, após a doação seja enviado o comprovante para: contato@anelo.org.br
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