Com mais de três décadas de experiência na área, a pesquisadora Keyla Ferrari Lopes lidera estudo focado em linguagens corporais, vibração e comunicação sensorial
Compreender como o corpo se comunica quando a visão e a audição estão ausentes é o cerne do projeto de pesquisa cultural “Dança e ritmo com surdocegos: Uma pesquisa sobre linguagens corporais, vibração e comunicação sensorial”. Idealizado pela pesquisadora, docente e proponente Keyla Ferrari Lopes, o estudo investiga os caminhos pelos quais pessoas com surdocegueira constroem interações por meio do movimento e percebem ritmos musicais e vibrações sonoras no contexto da dança contemporânea inclusiva.
A investigação é fruto de uma trajetória consolidada de mais de 30 anos de atuação de Keyla na dança inclusiva. Com mestrado, doutorado, pós-doutorado e diversas publicações voltadas às práticas corporais adaptadas e à Libras tátil, a pesquisadora, que é empresa-filha da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), agora aprofunda esse repertório por meio de análises sistemáticas, experimentações guiadas, observação de seus alunos surdocegos e registros audiovisuais deles.
A iniciativa foi contemplada pelo Edital Fomento CultSP – PNAB nº 35/2025 – Realização de Pesquisa e Publicação de Estudo Cultural, realizado pelo Programa de Ação Cultural (ProAC), da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo, e pela Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), do Ministério da Cultura do Governo Federal. O projeto conquistou o primeiro lugar geral e a maior nota neste edital – 9,63 -, por meio do acesso de ampla concorrência.
“O objetivo é dar mais subsídios para que outros profissionais possam compreender o universo sensorial dessas pessoas e aplicar técnicas inclusivas em suas próprias práticas pedagógicas e artísticas”, explica Keyla, que é pedagoga e bailarina. O estudo começou há cerca de um mês e é realizado em parceria com o Centro Cultural de Inclusão e Integração Social (CIS-Guanabara), que é vinculado e mantido pela Pró-reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (ProEEC) por meio da Diretoria de Cultura da Unicamp. “As oficinas e a escrita do estudo já começaram.”
Aplicação da pesquisa
A metodologia da pesquisa combina procedimentos qualitativos com a aplicação prática de uma proposta didático-metodológica desenvolvida especificamente para este público. As ações centrais incluem laboratórios e oficinas para aplicação de metodologias de ensino de dança contemporânea e criativa específicas para adultos com surdocegueira, comunicação tátil com uso direcionado de técnicas de comunicação tátil e Libras tátil durante os encontros e análise Científica com a observação do participante, registros em vídeo e relatos de experiência tratados rigorosamente por meio da análise de conteúdo.
Os dados coletados, no período de um ano, serão organizados e analisados de forma reflexiva para identificar unidades de sentido. Esse mapeamento servirá como base para a produção de um livro didático e de um vídeoensaio inéditos sobre o tema.
O estudo está estruturado em três eixos fundamentais de investigação que são o ritmo, a comunicação tátil e a expressão corporal, analisando detalhadamente como o indivíduo com surdocegueira percebe a pulsação, a cadência e o fluxo rítmico por meio do toque, de estímulos vibratórios e da relação direta com o espaço e com o outro. O objetivo é fazer uma análise da corporalidade e da acessibilidade estética desse público nas artes cênicas.
Produção de livro e videoensaio
Ao unir a sensibilidade da arte à chancela da investigação acadêmica, o projeto amplia o olhar sobre a diversidade humana e abre caminhos inovadores para a inclusão cultural e pedagógica de pessoas com surdocegueira no Brasil. Isso porque a pesquisa resultará em um livro acessível contendo análises, registros e a sistematização completa da metodologia construída ao longo do processo, em duas versões complementares: um livro impresso e outro digital, com descrição de imagens e navegação acessível.
Serão entregues dez exemplares impressos à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Governo do Estado de São Paulo, conforme previsto em edital. Além disso, será produzido um vídeoensaio, contendo demonstrações práticas da metodologia, trechos dos laboratórios, entrevistas e explicações técnicas sobre os procedimentos adotados. Todos os materiais serão distribuídos gratuitamente.
Agência Social de Notícias Notícias
