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O Pisa 2025 e os desafios para a Educação no Brasil
Quase nenhum estudante do Brasil teve alto desempenho no teste de Matemática do Pisa (Foto Magnific)

O Pisa 2025 e os desafios para a Educação no Brasil

Por José Pedro Soares Martins

Foram divulgados ontem os resultados dos exames de 2025 do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), promovidos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). E os resultados confirmam os enormes desafios para a educação brasileira, sobretudo em termos do ensino e aprendizado em Matemática.

O Pisa avalia os conhecimentos, habilidades e atitudes de estudantes de 15 anos. Os testes cognitivos investigam em que medida os estudantes conseguem resolver problemas complexos, pensar criticamente e se comunicar de forma eficaz. Os dados coletados por meio de questionários descrevem o contexto em que os estudantes aprendem. “Isso oferece insights sobre como os sistemas educacionais estão preparando os estudantes para desafios da vida real e para o sucesso futuro”, destaca a OCDE. O Brasil participa do Pisa desde 2000.

Cerca de 760 mil estudantes de 15 anos, de 91 países e economias, incluindo o Brasil, participaram da avaliação.  A amostra do Pisa 2025 no Brasil foi composta por 30.140 estudantes de 1.053 escolas, sendo representativa para um universo de 2.185.000 estudantes de 15 anos (cerca de 76% da população total desta idade).

De forma geral, os resultados apontam uma estagnação na situação dos estudantes brasileiros com 15 anos, nas áreas consideradas nos exames, que são as de Leitura, Matemática e Ciências. Estagnação, se considerados os resultados de 2015 e de 2025.

Em 2015, o Brasil registrou 407 pontos em Leitura, 377 pontos em Matemática e 401 pontos em Ciências.  Em 2022, foram 410 em Leitura, 379 em Matemática e 403 em Ciências. Já em 2025, foram 408 em Leitura (média da OCDE de 461), 377 em Matemática (média da OCDE de 463) e 409 em Ciências (média da OCDE de 482). Houve uma leve melhora em Ciências, portanto, de oito pontos em uma década.

Os desafios aparecem quando são avaliados outros resultados do Pisa, em especial no exame de proficiência na faixa 2. É a faixa com proficiência mínima esperada.

Em Leitura, 49% dos estudantes brasileiros estão pelo menos no nível 2 de proficiência. A média da OCDE é 69%. “As habilidades previstas nesta faixa incluem identificar a ideia principal em um texto e encontrar informações a partir de critérios explícitos”, explica a Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca) em análise sobre os resultados.

Já em Ciências, 48% dos estudantes no Brasil estão no nível 2 de proficiência, ou acima. Na média da OCDE, são 74%. “Nesta faixa, os estudantes reconhecem a explicação correta de fenômenos científicos familiares”, observa a Jeduca.

E a grande questão está na proficiência em Matemática, na qual somente 28% dos estudantes estão pelo menos no nível 2 de proficiência, contra 65% na média da OCDE. “Para este nível, é esperado que os jovens consigam comparar a distância total entre duas rotas e converter preços em moedas diferentes, por exemplo”, nota a Jeduca.

“Quase nenhum estudante no Brasil teve alto desempenho no teste de Matemática do PISA, ou seja, atingiu o nível 5 ou 6 em Matemática (média da OCDE: 8%). A maior parcela de estudantes que atingiram o nível 5 ou 6 foi observada em sete países e economias asiáticas: B-S-J-Z (China) (54%), Singapura (37%), Taipé Chinês (32%), Macau (China) (29%), Coreia (23%), Japão (22%) e Hong Kong (China) (21%)”, comentou a própria OCDE, ao analisar os resultados do Brasil.

Os resultados em Matemática são considerados muito desafiadores, no mínimo. “Em Matemática continua um problema muito sério, com 72% não alcançando o conhecimento mínimo que se espera para alguém com 15 anos de idade. Esta porcentagem é muito alta”, comentou para esta coluna Robert Evan Verhine, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), uma das referências em avaliação educacional no Brasil.

Para Verhine, não dá para ignorar a situação identificada em Matemática. “Isto volta para a questão da formação de professores, volta para a própria organização da sala de aula, da gestão da escola e outros problemas”, ele comenta.

Outra importante referência em avaliação educacional no país, Lina Kátia Mesquita de Oliveira, do Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (CAEd) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), também entende que o panorama em Matemática é desafiador. “Continua o forte compromisso de nós trabalharmos para melhorar o desempenho dos estudantes em Matemática”, ela diz, também em comentário para a coluna.

Lina lembra que os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2025 já apontavam desafios, em relação ao que era esperado, especialmente em Matemática. Ela nota igualmente que, na avaliação dos resultados do Pisa, deve ser considerado que “esta é uma geração escolar que saiu da pandemia”.

A pesquisadora também enfatiza os resultados do Paraná, muito expressivos em relação a toda a América Latina. Em Ciências, o Paraná obteve a nota 462 no Pisa de 2025, enquanto o país do continente melhor colocado, o Uruguai, alcançou a nota 445. Em Leitura, o Paraná atingiu a nota 458, 22 pontos acima do país melhor colocado, o Chile, com 436. E em Matemática, o Paraná alcançou a nota 423, também acima do Uruguai, o país melhor colocado, com 405. “Foi muito interessante, o Paraná entre os melhores da América Latina e isso deixa a gente feliz, o resultado é promissor. Não está no patamar ideal, com questões importantes, mas com progresso considerável e merece o nosso reconhecimento”, diz ela.

Outros pontos avaliados pelo Pisa 2025 também precisam ser considerados. Um deles é o relacionado ao absenteísmo. Em 2025, cerca de 55% dos estudantes no Brasil relataram ter faltado à escola por pelo menos um dia nas duas semanas anteriores à aplicação do teste (média da OCDE: 22%) e 53% relataram ter faltado a pelo menos uma aula (média da OCDE: 24%). “O problema da frequência é uma situação para destacar, porque é difícil imaginar de onde veio está falta de frequência, comparando com outros países e os  resultados do passado aqui no Brasil”, evidencia Robert Verhine.

Outro ponto a considerar está relacionado ao impacto dos níveis socioeconômicos dos alunos em seu desempenho. No Brasil, em 2025, estudantes socioeconomicamente favorecidos (os 25% mais ricos em termos de status socioeconômico) superaram os estudantes desfavorecidos (os 25% menos favorecidos) em 96 pontos em Ciências. Essa diferença é maior do que a diferença média entre os dois grupos (85 pontos) entre os países da OCDE.

“Entre 2015 e 2025, a diferença no desempenho em Ciências entre os 25% dos estudantes no topo e os 25% dos estudantes na base, em termos de status socioeconômico, aumentou no Brasil, enquanto a diferença média entre os países da OCDE diminuiu. Durante esse período, o desempenho melhorou entre os alunos favorecidos, mas permaneceu estável entre os desfavorecidos”, comentou a OCDE sobre os resultados do Brasil.

O professor Verhine salienta que realmente este é um aspecto negativo indicado pelo Pisa 2025. “A diferença entre os que vêm de boa situação socioeconômica e os que vêm de situação socioeconômica ruim está aumentando. Isto é terrível para um país que tem muitas pessoas em situação econômica difícil”, ele lamenta.

Mais um ponto inquietante se refere à percepção sobre o impacto de recursos materiais no processo de ensino e aprendizagem. Cerca de 26% dos estudantes no Brasil em 2025 frequentavam escolas cujos diretores relataram que a falta de material educacional (por exemplo, livros didáticos, equipamentos de informática, material de biblioteca ou laboratório) dificultava o ensino, pelo menos em certa medida, e 28% estavam em escolas onde a falta de infraestrutura física (por exemplo, edifícios, terrenos, sistemas de aquecimento/resfriamento, iluminação e sistemas acústicos) era percebida como um obstáculo ao ensino. Em 2022, os índices correspondentes foram 25% e 26%, respectivamente.

Mais um desafio se refere à participação dos pais na vida escolar dos filhos. “Em 2025, 51% dos estudantes no Brasil relataram que seus pais ou responsáveis perguntavam, pelo menos uma vez por semana, o que faziam na escola, enquanto 41% relataram ter pelo menos conversas semanais sobre problemas que poderiam ter na escola. Em 2022, os índices correspondentes foram 62% e 55%, respectivamente”, observa a OCDE. Houve, portanto, uma diminuição da percepção sobre a participação dos pais na vida escolar, o que aliás foi verificado em quase todos os países e economias participantes do Pisa entre 2022 e 2025.

Mas também há um ponto positivo nos resultados do Pisa 2025, que está relacionado à redução do uso de celulares em ambientes escolares. Em 2025, 81% dos estudantes no Brasil frequentavam escolas que adotavam esse tipo de proibição (média da OCDE: 49%), um aumento em relação ao Pisa 2022, quando esse percentual era de 37% (média da OCDE no Pisa 2022: 34%). “Isso indica um aumento substancial na adoção de proibições ao uso de celulares nas escolas nesse período”, nota a OCDE.

Em termos de Ciências Ambientais, disciplina fundamental no atual contexto da emergência climática em todo planeta, o Pisa 2025 apontou a continuidade de desafios para o Brasil, mas também aspectos positivos. No Brasil, 49% dos estudantes atingiram pelo menos o nível de proficiência básico (nível 2) em ciências ambientais. Em média, nos países da OCDE, 74% dos estudantes alcançam esse nível, com mais de 85% atingindo-o em sete países e economias.

Por outro lado, no Brasil, 84% dos estudantes acreditam que podem impactar positivamente o meio ambiente (média da OCDE: 81%); 87% dos estudantes acreditam que a ação coletiva pode contribuir para enfrentar os problemas ambientais (média da OCDE: 82%); 77% relatam saber como trabalhar com outras pessoas para gerar um impacto positivo no meio ambiente (média da OCDE: 68%). Ou seja, há um otimismo maior entre os estudantes brasileiros, em relação aos de outros países.

Do mesmo modo, no Brasil, 67% dos estudantes relataram estar um pouco ou muito interessados em contribuir para a proteção do meio ambiente em seus futuros empregos (média da OCDE: 62%). A maioria dos estudantes se envolveu em atividades relacionadas ao meio ambiente pelo menos uma vez nos 12 meses anteriores à aplicação do Pisa. Em média, nos países da OCDE, as formas mais comuns de participação são conversar com amigos e familiares sobre como gerar um impacto positivo no meio ambiente (Brasil: 60%; média da OCDE: 56%) e tomar decisões de compra com base na sustentabilidade dos produtos (Brasil: 58%; média da OCDE: 54%). Mais dados indicando uma superioridade nas médias brasileiras, em comparação com as de outros países da OCDE.

Em resumo, o Pisa 2025 confirmou que o Brasil ainda tem muito a caminhar para melhorar em termos educacionais, particularmente no ensino e aprendizagem de Matemática, que é essencial para a formação de um aluno crítico, capaz de resolver problemas – demandas fundamentais no século 21. Os desafios estão aí, não dá para perder mais tempo, considerando a atual velocidade dos avanços científicos e tecnológicos.

É imperativo que o Plano Nacional de Educação 2026-2036 represente avanços de fato para o sistema educacional brasileiro, com uma atuação conjunta, coordenada e eficaz dos entes federativos e com a participação ativa do setor privado e sociedade civil. É o futuro muito próximo do Brasil que está em jogo.

 (Artigo publicado originalmente no Portal Hora Campinas)

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