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CULTURA LÚDICA DA INFÂNCIA: FUNDAMENTO DE UM DESENVOLVIMENTO AUTOREFERIDO
Ilustração de crianças brincando no parque

CULTURA LÚDICA DA INFÂNCIA: FUNDAMENTO DE UM DESENVOLVIMENTO AUTOREFERIDO

Regina Marcia Moura Tavares

 “A Infância é o chão sobre o qual caminharemos o resto de nossas vidas.”

Lya Luft

Ao longo de mais de três décadas, desenvolvi o projeto de Ação Cultural “Brinquedos e Brincadeiras: Patrimônio Cultural da Humanidade”, uma iniciativa voltada para a preservação, valorização e reativação da cultura lúdica da infância em diferentes regiões do Brasil. Essa trajetória, que articulou pesquisa antropológica, ação educativa e mobilização comunitária, nasceu da convicção profunda de que as práticas lúdicas tradicionais são portadoras de saberes, valores e modos de ser que constituem a base viva da identidade cultural dos povos.

Desde os anos 1980, o projeto vem sendo implementado em escolas, museus, espaços públicos e comunidades, envolvendo educadores, crianças, famílias e gestores culturais. A proposta foi — e continua sendo — documentar e revitalizar brincadeiras e brinquedos tradicionais, muitos dos quais ameaçados de desaparecer diante da homogeneização cultural imposta pela globalização e pelas novas formas de entretenimento padronizado. Com o apoio de instituições nacionais e internacionais, como a UNESCO, essa ação resultou em publicações, exposições itinerantes, palestras, congressos e atividades culturais que alcançaram milhares de pessoas.

No cerne dessa proposta está a compreensão de que brincar é um ato cultural. Ao brincar, a criança não apenas reproduz modelos: ela cria, transforma, interpreta e transmite cultura, tornando-se agente ativa na teia social que a forma e que ela, simultaneamente, transforma. Cada brincadeira tradicional carrega camadas de memória coletiva, técnicas corporais, relações sociais e modos de imaginar o mundo. Recuperá-las e valorizá-las significa reconhecer a criança como sujeito histórico e cultural, e não apenas como um futuro adulto em formação.

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Em contextos contemporâneos marcados pelo avanço acelerado da tecnologia há uma tendência generalizada de importar e incorporar inovações concebidas em outros contextos socioculturais, como se o simples transplante de tecnologias fosse suficiente para garantir o progresso. Tal movimento, porém, ignora as especificidades da Herança Cultural de cada povo, elemento indispensável para um Desenvolvimento Autorreferido, isto é, um desenvolvimento enraizado na própria realidade histórica, simbólica e social de um país.

No caso brasileiro, a preservação, valorização e reativação contínua da cultura lúdica da infância não deve ser vista como um gesto nostálgico ou folclórico, mas como um ato político e estratégico de afirmação identitária. É por meio dessas práticas que as novas gerações se reconhecem como produtoras de cultura, fortalecem vínculos comunitários e constroem referências próprias de pertencimento e de ação no mundo.

Com esta visão concebi o projeto “Brinquedos e Brincadeiras: Patrimônio Cultural da Humanidade” no fim dos anos 80. A minha intenção central foi dupla:

  1. Mostrar ao ser humano, já na infância, que ele é criador de CULTURA, revelando-lhe seu papel ativo, inventivo e transformador no tecido social, o que lhe dará autoestima permanentemente;
  2. Evidenciar que, ao exercer esse papel desde cedo, a Criança prepara-se integralmente para viver em uma sociedade concreta, particular, dotada de história, valores e modos de vida próprios — e não em um modelo genérico ou imposto de fora.

Em suma, a Cultura Lúdica da Infância constitui-se como um dos alicerces mais sólidos para a superação dos resquícios coloniais que ainda permeiam nosso imaginário e nossas práticas. Integrá-la às reflexões sobre ciência e tecnologia significa afirmar que o verdadeiro desenvolvimento não se constrói apenas com laboratórios e dispositivos de ponta, mas também com raízes culturais firmes, capazes de sustentar e orientar os rumos das inovações. E será sempre nesse encontro entre tradição e invenção que poderemos projetar um futuro genuinamente nosso.

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Regina Márcia M. Tavares_500xRegina Marcia Moura Tavares é antropóloga, professora universitária aposentada, escritora, palestrante e autora, entre outros, do livro “Brinquedos e Brincadeiras: Patrimônio Cultural da Humanidade”, divulgado internacionalmente com o apoio da OEA e UNESCO.

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