Por José Pedro Soares Martins
A desinformação é um dos maiores desafios coletivos para a sociedade contemporânea e deve ser combatida em múltiplas frentes. A desinformação é um risco porque ameaça a democracia, os pilares de uma sociedade civilizada. E a desinformação mata, motivo pelo qual seu enfrentamento é urgente, sobretudo no âmbito das redes sociais e em especial para os jornalistas profissionais.
Estas foram algumas das mensagens centrais do Seminário “Jornalismo digital em tempos de desinformação”, realizado no último dia 9 de abril, na Câmara Municipal de Campinas. O evento encerrou a programação de celebração de cinco anos do portal Hora Campinas, com o qual tenho a honra de contribuir com os artigos da Hora da Sustentabilidade.
Foi uma oportunidade única ter participado do seminário, ao lado de amigos e profissionais por quem tenho o maior respeito. Como no de Marcelo Pereira, o chefe do Hora Campinas, que mediou os debates. Aprendi muito e com certeza as pessoas que assistiram pela TV Câmara também se enriqueceram muito com o conhecimento transmitido por especialistas renomados em suas áreas (menos no meu caso, é claro). A gravação está disponível no canal da Câmara Municipal de Campinas no Youtube: https://youtu.be/-zE5nX0Ln10
Um alerta especial foi dado pelo médico hematologista Carmino de Souza, que falou sobre “Hesitação Vacinal: Desafios e perspectivas em 2026”. O Dr.Carmino tem uma trajetória de enorme contribuição na área da ciência médica, sendo professor há décadas na Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e tendo exercido dois importantíssimos cargos de gestão pública, o de secretário estadual da Saúde na década de 1990 e o de secretário municipal da Saúde de Campinas entre 2013 e 2020.
Falando com a experiência de quem, como médico, cientista e gestor, enfrentou várias epidemias, inclusive a pandemia de Covid-19, o Dr.Carmino evidenciou que o programa de vacinação do Brasil já foi referência mundial. Os índices de vacinação eram muito altos há alguns anos, em bebês, crianças, adultos e pessoas idosas. Os dias especiais de vacinação, lembrou, eram atos cívicos da maior relevância, mobilizando mais brasileiros do que nas datas cívicas como o Sete de Setembro.
E essa vacinação foi fundamental, acentuou o médico, porque vacinas salvam vidas ou evitam sequelas importantes de muitas doenças. A varíola foi erradicada no planeta e a poliomielite foi erradicada nas Américas, em função da vacinação exitosa, disse o Dr.Carmino. Existe uma estimativa, completou, de que 154 milhões de mortes foram evitadas no planeta nos últimos 50 anos, em função da aplicação de diferentes vacinas.
Nos últimos tempos, infelizmente, os índices de vacinação caíram muito e o Brasil também está nesta situação, lamentou o médico hematologista. Entre 2024 e 2025, exemplificou, 84% das crianças no mundo receberam a primeira dose da vacina contra sarampo, mas apenas 76% completaram a segunda dose.
O médico advertiu que a desinformação tem sido um fator importante para a queda assustadora nos índices de vacinação, no Brasil e em escala internacional. “As redes sociais criam bolhas de medo e teorias conspiratórias que se propagam rapidamente, especialmente sobre tecnologias novas como mRNA”, destacou.
Para o Dr.Carmino, uma das formas de enfrentamento desse cenário é que “profissionais de saúde devem ser treinados para identificar e responder mitos com evidências científicas de forma clara e empática”. Ele entende que no caso do Brasil, especificamente, a retomada dos índices positivos de vacinação do passado passa por algumas estratégicas importantes.
Ele entende por exemplo que é preciso “levar a imunização diretamente onde as crianças estão, facilitando o acesso para famílias”. Vacinação em escolas, entre outros locais. As campanhas de vacinação, do mesmo modo, devem “estender horários e levar postos para locais de grande circulação”, como praças e comunidades em geral. E o Dr.Carmino entende que o profissional de saúde deve ser “acolhedor e não julgador”, ouvindo as preocupações e respondendo com empatia, como postura a ser tomada para a ampliação dos índices de vacinação.
É fundamental, acrescentou o especialista, que haja um engajamento comunitário para o resgate da vacinação no Brasil, com a retomada dos chamados Dias D de vacinação, o envolvimento das escolas no processo, a capacitação de agentes comunitários para diálogo com as famílias hesitantes e o trabalho com parcerias locais (com lideranças políticas, comunitárias, religiosas e outras).
O Dr.Carmino de Souza, enfim, entende que é fundamental o monitoramento das fake news na área da saúde, como no caso do negacionismo em relação às vacinas, com respostas rápidas e fundamentadas na ciência. “Não vacinar crianças é um crime”, disse o médico, deixando claro sua posição sobre a importância da imunização desde os momentos iniciais da vida do bebê.
O combate à desinformação, é claro, foi o foco central da exposição dos profissionais de comunicação que participaram do seminário. Caso de Graça Caldas, que já trabalhou em diferentes veículos de comunicação, entre eles Diário de Notícias, Editora Bloch, TV Globo, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo. Ela é Doutora em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e tem Pós-Doutorado em Políticas Científicas pela Unicamp, onde atualmente é docente do Programa de Pós-Graduação em Divulgação Científica e Cultural do Labjor-Unicamp.
Graça descreveu uma trajetória da evolução da mídia, no caso das publicações impressas, rádio, televisão e, atualmente, com um verdadeiro ecossistema multimídia, com o papel cada vez mais relevante das redes sociais na formação da opinião pública. Também comentou sobre a crescente influência das novas tecnologias na comunicação, como no caso da inteligência artificial.
Apesar de todas as mudanças, defendeu que o jornalismo continua sendo “um ato político” e que o profissional da área deve atuar na identificação de problemas e na indicação de caminhos (com base em fontes confiáveis e em observações in loco, ou seja, fora das redações). O jornalista deve continuar exercendo a profissão como “um ato de coragem” e realizar a “leitura crítica do mundo”, nos âmbitos local, regional, nacional e internacional.
Graça listou alguns desafios para o jornalismo digital, como o financiamento, a sua sustentabilidade financeira. Ela entende que alguns caminhos podem ser seguidos, como as parcerias, assinaturas assinaturas comunitárias, o financiamento coletivo (crowfunding) e o financiamento público, como é feito por exemplo no caso da BBC, da Inglaterra, principal referência em comunicação pública do planeta. Ela entende que este tema deve ser aprofundado em esfera local, como no caso da própria Câmara Municipal de Campinas.
Entre outros aspectos, a professora do Labjor-Unicamp lamentou a existência dos “desertos de notícias” no Brasil, em plena era multimídia. Ela citou uma pesquisa indicando que, dos 5.569 municípios brasileiros, em 2.712 não existem veículos locais de comunicações, o que os caracteriza então como “desertos de notícias”.
Por sua vez, Fabiano Ormaneze, que também já atuou em redações de veículos de comunicação e desde 2008 tem experiência docente, sendo professor em várias faculdades e universidades, abordou o tema específico das fake news. Fabiano é Doutor em Linguística pela Unicamp e Mestre em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor-Unicamp, onde atualmente é professor permanente do programa de Mestrado nessa área.
“Fake news mata”, avisou Fabiano, que citou vários casos de notícias falsas que levaram à morte de algumas pessoas, em diferentes locais do território brasileiro. “Compartilhar notícia falsa não é brincadeira. É perigoso e as consequências podem ser fatais”, completou.
Ele citou o desafio do enfrentamento da desinformação, como no caso das fake news, no contexto da crise da imprensa e das instituições públicas em geral. É um ambiente em que “a verdade é cada vez mais questionada”, alertou. Para ele, a disseminação de notícias falsas e outras formas de desinformação ocorre, entre outros motivos, porque existe uma identificação entre o leitor e o que está sendo divulgado, o que leva à formação das “bolhas informativas”.
Fabiano defendeu, entre as estratégias de enfrentamento das fake news, a implementação do letramento midiático, nas escolas e em outras instâncias. O letramento midiático ocorre, ele acredita, quando ocorre um questionamento e o treinamento da capacidade de curadoria, de seleção da notícia. Mas ele apontou como um grande desafio as desigualdades existentes no Brasil, como na esfera da educação. Destacou por exemplo o alto índice de analfabetismo e de analfabetismo funcional, o que dificulta o enfrentamento da desinformação. Este, então, concluiu, é um problema “social e político” muito sério, disse Fabiano.
De minha parte, falei sobre o combate à desinformação no campo do jornalismo socioambiental, área em que atuo há 45 anos. Eu apontei esse desafio no contexto de uma crise de fato geral das instituições, inclusive da imprensa que, na minha opinião, tem sido enfraquecida por vários fatores. Um deles é o caso do fim da exigência do diploma para o exercício do jornalismo, o que na minha opinião foi muito grave para a profissão.
Destaquei, com base na minha experiência, que a ascenção do jornalismo digital e das mídias de sociais efetivamente levou a uma dimensão cada vez maior da desinformação, pela rapidez com que as notícias falsas são hoje disseminadas. Entretanto, destaquei que a desinformação não é um desafio novo para a profissão. Citei então o caso da manipulação da verdade em uma situação que vivenciei como repórter, no início de 1989, no I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, em Altamira (PA).
Naquela ocasião, havia uma grande discussão sobre uma usina que seria construída naquela região da Amazônia e seus impactos nas comunidades locais, como dos povos indígenas. Em Altamira, a União Democrática Ruralista (UDR) promoveu uma grande mobilização, em defesa da construção da usina. Os indígenas conseguiram que ela não fosse batizada de “Kararaô”, mas a usina acabou sendo construída, curiosamente nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, com o nome de Belo Monte.
Eu destaquei na minha apresentação que sempre procurei utilizar a Ciência como aliada, desde o início de meu exercício profissional, em Piracicaba, no começo da década de 1980. Naquele momento, a cidade estava mobilizada em defesa de seu rio e eu, no exercício do jornalismo, procurei ampliar meus conhecimentos em recursos hídricos e meio ambiente em geral com professores e pesquisadores da Esalq-USP e CENA-USP.
Na minha opinião, afirmei que o combate à desinformação exige uma postura proativa do jornalismo, sempre em parceria com a Ciência. A questão também deve ser enfrentada com a educação socioambiental e, igualmente, com a educação midiática, em todos os níveis da educação básica. Os estudantes devem ser capacitados, no meu entender, em como ler uma notícia, identificar suas fontes, buscar a origem da informação e a quem ela interessa, entre outros pontos.
Também defendo o fortalecimento da comunicação pública, independente, sem interferência de governos. E que os jornalistas que atuam na área ambiental se organizem como por exemplo já fizeram os jornalistas em educação, através da Jeduca (Associação de Jornalistas de Educação).
Enfim, acho que o jornalista que atua na área socioambiental tem muito a contribuir no enfrentamento da desinformação. Mas esta batalha apenas será ganha com ações em muitas frentes, envolvendo toda a sociedade.
Agência Social de Notícias Notícias
