Por José Pedro Soares Martins
2026 é o Ano Internacional do Voluntariado para o Desenvolvimento Sustentável, de acordo com a Resolução A/RES/78/127 da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 2023. Como aconteceu em 2001, declarado Ano Internacional do Voluntário, a ONU quer valorizar e fomentar a ação voluntária, que nada mais é do que a cidadania ativa, o “colocar a mão na massa” para efetivas transformações sociais. Como aconteceu em 2001, o Brasil e em especial Campinas têm tudo para se destacar no Ano Internacional do Voluntariado para o Desenvolvimento Sustentável.
Desta vez, o propósito específico é estimular a ação voluntária para a promoção do desenvolvimento sustentável, que nada mais é do que o desenvolvimento social, ambiental e econômico de modo concomitante, conjunto, nenhuma dimensão superando a outra. Neste sentido, trata-se de mais uma ação da ONU em alinhamento com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. A Agenda 2030 compreende 17 grandes metas, ou objetivos, para a promoção global do desenvolvimento sustentável.
De modo concreto, os propósitos do Ano Internacional do Voluntariado para o Desenvolvimento Sustentável são reconhecer e mensurar as contribuições dos voluntários para o alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável; integrar o voluntariado ao planejamento do desenvolvimento sustentável; implementar políticas que eliminem todas as desigualdades e riscos no voluntariado; e criar plataformas de conhecimento para desenvolver novas formas de voluntariado.
A ONU destaca que os Estados-Membros são incentivados a designar um ponto focal a nível nacional que reúna os intervenientes relevantes e lidere uma campanha nacional para o Ano Internacional do Voluntariado. Esta campanha nacional, assinala a ONU, deve envolver os poderes públicos, a sociedade civil e o empresariado em grandes ações de valorização e promoção do voluntariado, como um dos caminhos mais transformadores da realidade.
O Brasil tem grande potencial para se destacar mais uma vez no Ano Internacional do Voluntariado para o Desenvolvimento Sustentável, assim como tinha feito em 2001, no Ano Internacional do Voluntário. Naquele momento, houve uma forte liderança do Centro de Voluntariado de São Paulo e do Faça Parte – Instituto Brasil Voluntário, no fomento a ações voluntárias por todo o país. Destaque em especial para a atuação de Milú Villela na direção dessas duas organizações e de cidadãos como o empresário Luis Norberto Pascoal, de Campinas, também com forte engajamento na defesa do voluntariado e de seu potencial transformador. Ele integrou o Comitê Nacional do Ano Internacional, presidido por Milú Villela.
A participação brasileira foi tão grande que o Faça Parte foi convidado pelas Nações Unidas para apresentar um relatório do Ano Internacional, com propostas de continuidade de ações. Desta forma, o Ano Internacional do Voluntariado para o Desenvolvimento Sustentável representa uma continuidade das ações realizadas em 2001 e indicadas pela representação brasileira.
O relatório brasileiro foi apresentado em Genebra, Suíça, e depois na própria Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Dois pontos da atuação brasileira no Ano Internacional chamaram a atenção. Em primeiro lugar, que as ações do Ano Internacional em 2001 no país tiveram o protagonismo da sociedade civil, enquanto na maioria das nações as iniciativas estiveram fortemente ligadas aos poderes públicos. O outro ponto foi que as ações no Brasil de estímulo ao voluntariado estiveram muito ligadas à educação, ou seja, eram ações voluntárias para fortalecer o sistema educacional, sobretudo público. O Brasil também sugeriu no relatório um estímulo especial à atuação da juventude em ações voluntárias. Houve um grande apoio global a essas sugestões brasileiras na ocasião.
Pois em 2026 o Brasil também pode se destacar, com novas ações importantes de valorização e apoio ao voluntariado para a promoção do desenvolvimento sustentável. O momento é mais do que oportuno, considerando os grandes desafios socioambientais no horizonte. As desigualdades sociais permanecem, os direitos humanos continuam sendo violados e existem grandes agressões ao meio ambiente, com o grande desafio, em particular, da emergência climática já produzindo seus frutos. São cada vez mais impactantes os eventos climáticos extremos e todo esse conjunto de desafios é apresentado, então, como agenda de ação para o Ano Internacional.
Campinas tem tradição de fomento ao trabalho voluntário e o novo Ano Internacional do Voluntariado para o Desenvolvimento Sustentável é uma nova oportunidade de fortalecer o que já existe e de criação de novas modalidades de voluntariado.
A atuação da Fundação FEAC foi tão importante na época que a organização, criada dois anos antes, recebeu em março de 1966 a visita do então diretor do Comitê Coordenador do Serviço Voluntário Internacional da Unesco, Jean-Michel Bazinet. Ele esteve em Campinas justamente para o convite formal para que a FEAC integrasse o órgão de apoio ao Voluntariado da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
Desta forma, a Fundação FEAC, criada em 1964, foi a primeira organização brasileira a se filiar ao Serviço Voluntário Internacional da Unesco. E nessa condição a instituição ainda tão jovem e já tão ousada receberia, entre 29 de junho e 30 de julho de 1969 o Seminário Regional de Capacitação de Líderes em Serviço Voluntário. Participaram representantes de vários países.
Ao longo de sua história, a FEAC continuou estimulando o voluntariado. Criada em 1989, a Fundação Educar, sob a liderança do empresário Luis Norberto Pascoal, também se destacou na promoção do voluntariado. Em 1998, três anos antes do Ano Internacional do Voluntário, a Fundação Educar decidiu apoiar ações voluntárias em substituição ao trote violento que acontecia no momento do ingresso de jovens em universidades. Naquele ano, deu apoio ao Trote da Cidadania realizado na Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp.
A iniciativa deu tão certo que foi muito ampliada nos anos seguintes, com ações em todo o Brasil. Enfim, o Trote da Cidadania estimulado e apoiado pela Fundação Educar, com ênfase na ação voluntária, mudou a cultura do trote no Brasil. A juventude cada vez mais engajada em ações voluntárias de transformação social, um conceito que os universitários passaram a levar para a vida toda.
Em suma, o Ano Internacional do Voluntariado para o Desenvolvimento Sustentável veio mais do que na hora certa. Desde a Segunda Guerra Mundial, provavelmente, o mundo não esteve tão instável. São conflitos por toda parte e desafios socioambientais gigantescos para a humanidade enfrentar. Neste cenário, o voluntariado se apresenta como um grande marco civilizatório que pode e deve ser motivado, rumo a tempos mais favoráveis à paz e ao desenvolvimento social, ambiental e econômico, pelo fim das desigualdades e de toda forma de violência e preconceito. (Publicado originalmente no portal Hora Campinas, dia 14 de janeiro de 2026).
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