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Carta final do 22º ATL reafirma luta dos povos indígenas por seus territórios demarcados
Indígenas presentes no I Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, em Altamira, em fevereiro de 1989, reproduziram aspectos de seu modo de vida do lado de fora do local onde o evento estava sendo realizado: a defesa das raízes da cultura brasileira. As 22 edições do Acampamento Terra Livre indicam a continuidade da mobilização sinalizada no evento histórico de 1989. (Foto José Pedro Soares Martins)

Carta final do 22º ATL reafirma luta dos povos indígenas por seus territórios demarcados

“Não existe futuro possível quando a terra vira mercadoria e nossos povos são tratados como obstáculo”. Uma das frases fortes da Carta final do 22º Acampamento Terra Livre 2026 (ATL), ocorrido em Brasília (DF), entre 6 e 10 de abril. Mais de 7 mil indígenas de todo o Brasil participaram da manifestação que reafirmou a luta dos povos originários pela demarcação integral de seus territórios, o que ainda não aconteceu.

Durante o ato final do ATL 2026, o governo federal empossou a nova presidenta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Lucia Alberta Baré, e anunciou a instituição de um Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação (RCID), um processo de identificação e delimitação, a criação de três novos Grupos Técnicos (GTs) de  estudos de identificação e delimitação e a recomposição de um quarto, além da constituição de uma Reserva Indígena (RI), a RI Txi Juminã, constituída a partir de destinação da Gleba Pública Federal Rural Uaçá, localizada no município de Oiapoque, estado do Amapá, tendo superfície aproximada de 36.801,62 m. Abriga os povos indígenas Karipuna, Galibi-Marworno, Palikur e Galibi Kali’na. Abaixo, a carta final do ATL 2026:

“Manifestamos nosso grito de protesto do Acampamento Terra Livre 2026, que reuniu em Brasília mais de sete mil indígenas de todas as regiões e biomas do Brasil.

Aqui, onde os povos se encontram, na maior mobilização indígena do mundo, reafirmamos um caminho que não começa hoje e não termina aqui. Caminho feito de memória de luta da nossa ancestralidade e decisão política.

Territórios livres de exploração é posição de compromisso com a vida da humanidade e da biodiversidade. A mensagem que resume os dias do ATL 2026 e que reforça nossa convicção de que venceremos!

Não existe futuro possível quando a terra vira mercadoria e nossos povos são tratados como obstáculo.

Nossos territórios são a base da vida. É neles que estão nossas línguas e culturas, os nossos modos próprios de organização social e saberes.

Os caminhos que sustentam o equilíbrio do planeta, começam nos territórios indígenas.

Assim como as nascentes dos grandes rios surgem nas pequenas frestas da terra e, ao se conectarem, formam os cursos de água que sustentam a vida por onde passam.

Defender os territórios é sustentar o mundo.

Este ATL acontece em um tempo de disputa aberta. De um lado, avançam projetos perversos de morte que incentivam a exploração mineral e tentam tomar nossa soberania com a privatização de rios e territórios voltada a interesses estrangeiros. Também buscam transformar a crise climática em novo ciclo de exploração, usando a ideia de falsas economias verdes.

De outro, seguimos fortalecendo as organizações indígenas que formam a APIB, ampliando alianças com movimentos sociais e aliados, lutando pela vida dos povos e afirmando que o futuro só será decidido com presença indígena.

Ao longo do ATL, construímos e tornamos públicas nossas posições políticas com denúncias e propostas!

Cada documento é parte de um mesmo caminho político, construído com a força dos nossos povos

As manifestações do ATL se espalham como semente lançada na terra. Nossas cartas e mensagens são a orientação política de chamado à luta que apontam as propostas de futuro que seguimos construindo.

Reunidas, essas mensagens formam um corpo vivo de luta, que segue em movimento para além do acampamento.

O fim do ATL abre novos ciclos, porque nossa mobilização não se encerra aqui. O ano de 2026 dos povos indígenas começa neste território de encontro e decisão.

Seguimos afirmando que a demarcação das Terras Indígenas é a base de qualquer resposta real à crise climática. Não existe transição justa construída sobre a destruição dos nossos territórios. Não existe política ambiental séria sem garantir nossos direitos. O que defendemos não é apenas para os povos indígenas. É para toda a humanidade.

Chamamos a sociedade brasileira e a comunidade internacional a caminhar junto! É hora de reconhecer o papel dos povos indígenas na proteção da vida com os caminhos de bem viver que seguimos sustentando há milênios.

Aos três poderes do Estado brasileiro, nossa mensagem segue direta. Nosso futuro não está à venda. A resposta somos nós.

Acampamento Terra Livre, Brasília, 10 de abril de 2026

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) 

Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME)

Articulação dos Povos Indígenas da Região Sudeste (ARPINSUDESTE)

Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul (ARPINSUL)

Comissão Guarani Yvyrupa (CGY)

Conselho do Povo Terena

Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB)

Grande Assembleia do Povo Guarani e Kaiowá (ATY GUASU)”

Sobre ASN

Organização sediada em Campinas (SP) de notícias, interpretação e reflexão sobre temas contemporâneos, com foco na defesa dos direitos de cidadania e valorização da qualidade de vida.