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BRINCAR: UM DIREITO HUMANO AMEAÇADO

BRINCAR: UM DIREITO HUMANO AMEAÇADO

Regina Márcia Moura Tavares

No próximo 28 de maio celebra-se o Dia Internacional do Brincar. A data, aparentemente simples, talvez nos conduza a uma das questões mais urgentes do mundo contemporâneo: o que estamos fazendo com a infância?

Vivemos uma época de extraordinários avanços tecnológicos. A comunicação tornou-se instantânea, os mercados globalizaram-se, as informações circulam em velocidade vertiginosa e o cotidiano passou a obedecer a ritmos cada vez mais acelerados. Entretanto, em meio a tantas transformações, algo profundamente humano vem sendo silenciosamente reduzido: a Cultura Lúdica da Infância.

Há mais de três décadas venho pesquisando brinquedos, brincadeiras, cantigas, jogos e manifestações tradicionais infantis em diferentes regiões do Brasil e da América Latina. Ao longo desse percurso, compreendi cada vez mais claramente que brincar não é mero passatempo: trata-se de uma necessidade vital da criança e de um patrimônio cultural da humanidade.

Muito antes das escolas formais, das teorias pedagógicas e até mesmo da escrita organizada, as crianças já brincavam. Brincavam para compreender o mundo, experimentar o corpo, criar vínculos, aprender regras, lidar com perdas e desenvolver a imaginação. Nas brincadeiras de roda, nos jogos de correr, nos brinquedos construídos artesanalmente e nas narrativas inventadas coletivamente, desenvolvem-se simultaneamente inteligência, criatividade, sociabilidade e capacidade simbólica.

Foto Martinho Caires

Foto Martinho Caires

O brincar livre constitui uma sofisticada experiência de formação humana.

Em diversas comunidades, observei crianças produzindo brinquedos com pedaços de madeira, sementes, barro, folhas, tecidos e materiais simples do cotidiano. Vi também como inúmeras brincadeiras preservam marcas profundas das matrizes indígenas, africanas e europeias que constituem a identidade cultural brasileira. A memória lúdica transmitida entre crianças carrega modos de sentir, imaginar e conviver que nenhuma tecnologia consegue substituir.

Entretanto, o cenário atual é preocupante.

As ruas esvaziaram-se de crianças. Os quintais diminuíram. As praças tornaram-se inseguras. O tempo infantil passou a ser rigidamente organizado por agendas exaustivas. Muitas escolas reduziram o brincar a pequenos intervalos cronometrados, enquanto famílias, pressionadas pela lógica da produtividade ou seduzidas pela hiperestimulação eletrônica, substituem a convivência coletiva por telas e atividades excessivamente dirigidas.

Nunca houve tantos brinquedos industrializados e, paradoxalmente, tão poucas oportunidades de verdadeira experiência lúdica.

Os efeitos desse processo já se tornam visíveis: ansiedade precoce, sedentarismo, empobrecimento da imaginação, dificuldades de convivência, fragilidade emocional e crescente incapacidade de elaboração simbólica.

Uma infância privada do brincar perde parte essencial de sua potência criadora. E sociedades que destroem suas culturas lúdicas comprometem também sua própria capacidade de invenção coletiva.

Os mamulengos, as cantigas, os jogos de mãos, as brincadeiras tradicionais e os brinquedos artesanais constituem uma herança cultural profundamente ligada à criatividade do povo brasileiro. Preservá-los não significa nostalgia romântica, mas compromisso com uma formação humana mais sensível, criativa e solidária.

Pais e avós podem resgatar brincadeiras de sua própria infância e compartilhá-las com filhos e netos. Escolas precisam reconhecer o brincar como dimensão central do processo educativo. Universidades, museus, centros culturais e meios de comunicação também possuem papel decisivo na valorização da Cultura Lúdica da Infância.

Foto divulgação

Foto divulgação

Talvez uma das maiores contradições de nosso tempo seja esta: quanto mais avançamos tecnologicamente, maior parece tornar-se nossa dificuldade de preservar aquilo que nos humaniza.

Ao observarmos uma criança brincando livremente, vemos muito mais do que entretenimento. Vemos linguagem nascendo, inteligência se organizando, afetividade se constituindo e imaginação produzindo futuro.

Proteger o brincar é proteger a própria humanidade.

Regina Márcia M. Tavares_500x Regina Marcia Moura Tavares, antropóloga, professora universitária aposentada, escritora e pesquisadora da Cultura Lúdica da Infância. É autora do livro Brinquedos e Brincadeiras: Patrimônio Cultural da Humanidade, divulgado internacionalmente com apoio da Organização dos Estados Americanos e da UNESCO.

Reg3mar@gmail.com

 

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