Um novo conceito unindo cultura, saúde e cuidado com meio ambiente está mobilizando a comunidade de Maranguape, cidade do interior do Ceará. “A saúde integral considera o bem estar físico, mental, social e emocional e a cultura atua diretamente nestas frentes”, observa Maria Luiza Barbosa Sampaio, 31 anos, uma das participantes do Projeto Consigo, que vem sendo desenvolvido em Maranguape e já ganhou prêmio internacional em sua área. O Projeto Consigo visa justamente mobilizar a comunidade local, conectando profissionais de saúde e agentes culturais, de modo que estas dimensões da vida social não atuem mais de forma isolada, mas conjuntas, com ações intersetoriais.
O Projeto Consigo dá sequência a um trabalho executado há anos pelo Ecomuseu de Maranguape, desenvolvido no distrito rural de Cachoeira, naquele município cearense. Em parceria com a Escola Municipal “José de Moura” e a comunidade local, o Ecomuseu de Maranguape tem promovido a educação patrimonial de jovens, que passam a atuar como monitores e multiplicadores de conhecimento. Além do patrimônio ambiental, o foco é a defesa do patrimônio histórico e cultural.
O Ecomuseu funciona em um casarão de meados do século 19, que hoje é patrimônio da comunidade e também opera como um centro cultural de múltiplas atividades, como a tradicional festa do Feijão Verde. Entre 2010 e 2013 o Projeto Ecomuseu de Maranguape foi apoiado pelo Fundo Juntos pela Educação (formado pelo Instituto Arcor Brasil e Instituto C&A), como parte do Programa pela Educação em Tempo Integral.
Nos últimos anos nasceram novas iniciativas, novos rumos como Projeto Consigo, lançado em 2020, em pleno ano da pandemia, como uma semente de educação patrimonial plantada pelo Ecomuseu de Maranguape. Reconhecida internacionalmente logo em sua gênese pelo Prêmio Ibermuseus de Educação, a iniciativa conectou 25 escolas públicas de Maranguape em uma rede de valorização do patrimônio cultural e das memórias locais entre os jovens estudantes.
O que começou como uma ação pontual evoluiu para um programa contínuo de graduação em fases. Em 2022, na Fase 2, o projeto foi laureado com o Prêmio Nacional Darcy Ribeiro (Ibram), com o subtítulo “Maranguape Cidade-Museu”. Ali, a cidade passou a ser compreendida como um acervo a céu aberto, onde cada rua, edificação histórica, praça, monumento, personalidade e cada cidadão guardam fragmentos da identidade maranguapense, a serem catalogados, sistematizados e visibilizados por meio de estratégias de curadoria comunitária.

Escola Municipal “José de Moura”, base da experiência de Cidade Educadora em Maranguape, Ceará (Foto José Pedro Martins)
É nesta fase que o Projeto Consigo está neste momento. Jovens de várias regiões de Maranguape, e não apenas do Distrito de Cachoeira, estão envolvidos na iniciativa. É o caso de Maria Luiza Barbosa Sampaio, 31 anos, moradora do Distrito de Itapebussu. Ela nota que, tradicionalmente, Cultura e Saúde têm sido objeto de “políticas públicas colocadas em gavetas separadas, mas agora a própria Ciência e a Organização Mundial da Saúde reconhecem que o acesso à arte, às tradições musicais, à literatura, ao convívio comunitário, tem impacto na prevenção de doenças”.
Com esta visão, ela acrescenta, “a cultura não é um supérfluo, um entretenimento nas horas vagas, mas um ecossistema em que a vida ganha sentido”. Maria Luiza evidencia, portanto, que a cultura e a saúde devem estar próximas, visando “uma saúde integral, humanizar é cuidar do corpo e alimentar alma e identidade”.
Outro envolvido no Projeto Consigo é Matheus Vieira Paula, de 23 anos, morador do Distrito de Amanari. Ele está se formando em Enfermagem e também é um profissional fazedor de cultura do mundo junino e das Paixões de Cristo em Maranguape. “Estamos fazendo nossa caminhada no Projeto Consigo, participando da criação do inventário cultural de fazedores de cultura de Maranguape. Na minha opinião, incluir o tema da saúde na cultura pode dar muito fruto no futuro, para toda a comunidade”, destaca ele.

Matheus Vieira Paula: participando do inventário cultural de fazedores de cultura de Maranguape (Foto Divulgação)
Justiça Climática – Como parte das atividades do Projeto Consigo, foi iniciada, nos primeiros dias de junho, a Sétima Turma do Programa de Formação de Agentes Jovens do Patrimônio Cultural (AJPC). Em 2026, foi iniciado mais um ciclo de três anos de imersão, afeto e transformação, com base na práxis em museologia comunitária. O centro dessa jornada continua sendo o Distrito de Cachoeira, mobilizando os estudantes do 6º ao 9º ano da Escola Municipal José de Moura, para que se tornem os novos guias culturais da comunidade.
Para este novo ciclo, o Ecomuseu traz um debate urgente e inspirador, por meio do seu tema-gerador: “Juventude e Territórios Regenerativos”. Mais do que conservar o que já existe, assinalam os responsáveis pelo Projeto Consigo, falar em territórios regenerativos é “pensar em cura e cuidado, conservação preventiva e protagonismo. O tema foi escolhido para costurar as dimensões ecológicas, culturais e sociais de Maranguape. A matriz dos conteúdos programáticos do AJPC vai integrar profundamente as pautas de justiça climática tanto nas formações teóricas quanto nas vivências práticas”.
E por que Justiça Climática no Ecomuseu? “Entendemos que as mudanças ambientais não afetam a todos da mesma maneira. Capacitar nossos jovens para enxergar essas desigualdades e propor soluções locais é o caminho para um desenvolvimento verdadeiramente integral e sustentável”, salienta a Equipe técnica do Ecomuseu de Maranguape.
Saúde do ser humano e do planeta, tendo a cultura como força motriz. O Projeto Consigo traz para a prática novos conceitos e práticas, envolvendo toda a comunidade de Maranguape, tendo o Ecomuseu como mola propulsora.
Agência Social de Notícias Notícias

