Por José Pedro Soares Martins
Campinas, 12 de junho de 2026
Uma casa de fazenda, no distrito rural de Cachoeira, em Maranguape (CE), foi transformada em Ecomuseu, um lugar onde a comunidade se reúne e discute o seu futuro, adotando práticas sustentáveis e com grande participação de alunos da Escola Municipal José de Moura. A coordenadora museológica do Ecomuseu de Maranguape é Nádia Helena Oliveira Almeida, uma das beneficiadas por um novo momento do ensino superior na Região Nordeste.
“Sou a primeira pessoa da minha família a me graduar com o título de mestre e, hoje, estou na reta final do doutorado — toda a minha jornada construída na universidade pública”, diz Nádia. “Minha trajetória na graduação começou em 2004. Naquela época, a realidade do ensino superior era marcada por um funil social perverso: o número extremamente limitado de vagas tornava a universidade pública um espaço majoritariamente elitizado. O vestibular funcionava como uma barreira que, em sua maioria, privilegiava os egressos de escolas particulares”, ela complementa.
Com Bacharelado e Licenciatura plena em Geografia pelo departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará, Nádia tem mestrado em Museologia pela Universidade do Porto, em Portugal, com estágio realizado pelo Programa Erasmus Internacional na Rede de Ecomuseus do Piemonte, Itália. Nomeadamente, no Ecomuseo della Pastoriza (Pontebernardo/Cuneo), Ecomuseo Colombano Romean (Salbertrand) e Ecomuseo del Freidano (Settimo Torinese).

Casarão histórico onde funciona o Ecomuseu de Maranguape, no distrito rural de Cachoeira, Maranguape, CE (Foto José Pedro Martins)
Centros de excelência no Nordeste
A trajetória de Nádia Almeida sintetiza o novo patamar alcançado pelo ensino superior no Nordeste e que agora está dando um novo salto, com dois projetos em curso. No último dia 1º de abril, o Ministério da Educação inaugurou o alojamento estudantil do novo campus do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) no Ceará, referente à primeira etapa de obras. Os investimentos dessa etapa somam R$ 75,8 milhões, valor repassado pelo MEC ao Governo do Ceará para a execução das obras do alojamento e dos prédios acadêmicos das engenharias. A cerimônia foi realizada na Base Aérea de Fortaleza, na capital Fortaleza, e teve a presença do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e do ministro da Educação, Camilo Santana.
Por outro lado, estão avançados os entendimentos para a instalação do IMPA Tech Nordeste, com campus em Teresina, no Piauí. Lançado em 2024 no Rio de Janeiro, o IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) Tech tem foco na formação profissional voltada a áreas como tecnologia, ciência de dados e inteligência artificial, atendendo principalmente estudantes com histórico de destaque em olimpíadas científicas. Já o IMPA Tech Nordeste, com calendário a ser definido, ofertará até 50 vagas por ano e apoio integral aos estudantes, incluindo moradia e auxílio para subsistência.
Estes dois novos campus, do ITA e do IMPA, duas instituições de reconhecida excelência no ensino superior, de fato ratificam um novo ciclo para o nível universitário no Nordeste, que historicamente tem lacunas em relação a outras regiões do país. “A expansão do ensino superior de excelência no Nordeste, com iniciativas como o ITA em Fortaleza e o IMPA Tech Nordeste em Teresina, representa um avanço histórico na redução das desigualdades regionais brasileira”, comenta o presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Márcio Pochmann.
“Além de ampliar oportunidades de formação qualificada, esses investimentos ajudam a descentralizar a produção de conhecimento, reter talentos e fortalecer a capacidade de inovação da região, aproximando-a das novas fronteiras científicas e tecnológicas do país”, completa Pochmann, que foi pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (desde 1989) da Universidade Estadual de Campinas e professor desde 1994 (Titular desde 2014) desta instituição.
Dois campus que são referência nacional e internacional
Contemplando todas as etapas de implantação do novo campus, o investimento total do MEC no ITA Ceará poderá ultrapassar R$ 445,4 milhões. Desse valor, segundo o Ministério da Educação, R$ 353,9 milhões são destinados para as obras de construção e expansão da infraestrutura, e R$ 91,2 milhões são voltados à aquisição de equipamentos de laboratório, mobiliário e estrutura operacional necessária para o funcionamento acadêmico da instituição.
Fundado em 1950, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica é uma instituição de educação superior pública do Comando da Aeronáutica localizada em São José dos Campos (SP), que oferece alimentação gratuita e moradia de baixo custo aos seus alunos. É um centro de excelência, com cursos de graduação e pós-graduação em áreas afins da engenharia. O setor aeroespacial, por exemplo, é o de maior destaque. O instituto é reconhecido nacional e internacionalmente.
Inspirado no Massachusetts Institute of Technology (MIT) dos EUA, o ITA foi idealizado pelo militar Casimiro Montenegro Filho e projetado por Oscar Niemeyer, teve suas obras concluídas em 1950. No ensino superior trouxe inovações como a estruturação acadêmica por departamentos, ausência de cátedras vitalícias, currículo flexível, regime de dedicação exclusiva dos docentes e um modelo de pós-graduação pioneiro.
O ITA foi responsável pela formação do primeiro mestre em Engenharia no Brasil, em 1963, e o primeiro doutor, em 1970. O vestibular do ITA é reconhecido como um dos mais difíceis do país. A implantação do ITA no Ceará deriva de processo desencadeado em 2023, fruto da cooperação entre os ministérios da Educação e da Defesa, em parceria com o Governo do Ceará, para ampliar a formação de engenheiros de excelência no país.
,Já o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), sediado no Jardim Botânico, no Rio de janeiro, foi criado em 1952, por iniciativa de um grupo de destacados matemáticos ligados ao recém-criado Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. “O novo instituto nasce com uma missão clara, cuja relevância e atualidade permanecem inalteradas: realizar pesquisa de vanguarda em Matemática, capacitar novos pesquisadores e professores, disseminar o conhecimento matemático na sociedade e integrá-lo à ciência e ao setor produtivo”, destaca o IMPA.
“A ideia foi aproveitar os talentos que nós temos de jovens estudantes no Brasil para se aperfeiçoarem na área da engenharia, da matemática, da ciência de dados, da robótica, da inteligência artificial. Eu acredito que [o IMPA Tech Nordeste] será um grande e importante equipamento, que vai formar grandes profissionais no Nordeste”, afirmou o ministro da Educação, Camilo Santana, no ato de anúncio da instalação do IMPA Tech Nordeste.
O IMPA Tech é a instituição que promove as Olimpíadas Brasileiras de Matemática das escolas públicas e privadas, em implementação há 20 anos. “Hoje nós temos 20 milhões de jovens que participam todos os anos das Olimpíadas de Matemática no país, financiadas pelo governo federal, o Ministério da Ciência e Tecnologia e o Ministério da Educação. A maioria dos campeões são do Nordeste, do Piauí, do Ceará e de Pernambuco. O presidente sempre tem dito que nós não queremos só exportar ‘commodities’, nós queremos exportar conhecimento, exportar inteligência deste país”, completou o ministro.
A nova unidade do IMPA Tech será instalada no antigo prédio do Centro de Formação Antonino Freire, direcionado à formação de talentos da Região Nordeste em matemática, ciência de dados, robótica, inteligência artificial e ciência da computação. No mesmo ato de anúncio do IMPA Tech Nordeste, o ministro da Educação também assinou a autorização para a oferta do curso de medicina da Universidade Federal do Piauí (UFPI) no campus Amílcar Ferreira Sobral, em Floriano (PI).
Expansão das Universidades no Nordeste
Os dois novos campus do ITA e IMPA no Nordeste vão representar, com efeito, mais um fato significativo para o momento promissor do ensino superior na região, que ainda apresenta muitos desafios a superar, em relação às demais regiões brasileiras. De acordo com dados do IBGE, a região apresenta o menor percentual de população com ensino superior.
No Brasil, a média de população com ensino superior é de 16,75%. No Nordeste, a média é inferior em todos os estados: Rio Grande do Norte (13,61%), Sergipe (13,35%), Paraíba (13,16%), Pernambuco (12,62%), Piauí (12,54%), Alagoas (11,85%), Ceará (11,51%), Bahia (10,77%), e Maranhão (9,86%).
Várias ações estão sendo tomadas para mudar este panorama e os resultados estão sendo colhidos. Entre 2023 e 2024, segundo o Mapa do Ensino Superior, do Semesp, o número de matrículas no ensino superior no Brasil cresceu 2,5%, atingindo 10,2 milhões de matrículas. No Nordeste, o número de matrículas cresceu 3,2%, chegando a 2,1 milhões de matrículas, o segundo maior número regional absoluto no país, atrás da Região Sudeste, com 4,5 milhões de matrículas. Este crescimento em todo país se refere às matrículas presenciais e por Ensino à Distância (EAD).
Uma das razões para o incremento do acesso ao ensino superior no Nordeste é a abertura de novos campus e também de novas Universidades públicas, sobretudo no interior. Esta foi a constatação de Marcelo Ximenes Aguiar Bizerril, professor da Universidade de Brasília (UnB), que fez um estudo sobre o avanço das universidades federais no país desde o início do século 21: “O processo de expansão e interiorização das Universidades Federais brasileiras e seus desdobramentos”. Ele lembra que o estudo abrangeu somente as Universidades Federais, pois também houve processos semelhantes nas Universidades estaduais, além das instituições de ensino superior particulares.
Doutor em Ecologia, ele nota que algumas das mais antigas instituições de ensino superior no Brasil foram criadas no Nordeste, casos das Faculdades de Medicina de Salvador (primeira capital brasileira), em 1808, e de Direito, do Recife, de 1827. Nos séculos seguintes, entretanto, houve o deslocamento cada vez maior do poder econômico e político para o Sudeste, tendo como uma das consequências o menor número de instituições de ensino superior no Nordeste, e todas basicamente nas capitais estaduais.
A modificação desta dinâmica acontece a partir do lançamento pelo Ministério da Educação, através do Decreto 6096/2007, do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). O Programa contemplou a criação de novos campi e Universidades Federais, além da abertura de novos cursos e vagas nas instituições já existentes.

Marcelo Bizerril: uma nova malha de Universidades como indutor do desenvolvimento no Nordeste (Foto Arquivo Pessoal)
Com o Reuni, assinala Marcelo Bizerril, houve “o avanço das Universidades Federais, sobretudo para o interior dos estados nordestinos, com a viabilização de projetos de campi que as instituições não estavam conseguindo materializar e com a criação de novos campi ou mesmo novas Universidades”. Com isso, completa, “foi implementada uma malha de Universidades Federais muito maior no Nordeste”.
Ele destaca em especial as Universidades e novos campi instalados no interior dos estados, citando por exemplo a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), a Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), a Universidade Federal do Cariri (UFCA), a Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF) e a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Desde o início do Reuni até 2020, a malha de Universidades Federais no Nordeste somou 18 instituições, com 75 campi (maior número de campi em federais no país).
Marcelo Bizerril também evidencia um caso especial, o da criação da Universidade de Integração Internacional de
Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), instalada no Ceará, com importante atuação no panorama dos países de língua portuguesa e outros da África. “Uma instituição diferenciada, com uma visão bem cosmopolita”, ele complementa.
O professor da UnB entende que existem alguns desafios para que o processo de expansão das Universidades Federais no Nordeste seja sustentado, observando que outras instituições e campi já foram anunciados pelo atual governo. “A principal crítica feita ao Reuni era que não havia uma previsão sustentada para a manutenção das instituições, e então os reitores tiveram que redimensionar os orçamentos. Depois, nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, em que houve cortes muito fortes de recursos para as Universidades, muitos desses campi tiveram dificuldades de desenvolvimento. Muitos se consolidaram, como da própria UnB Planaltina, no Distrito Federal, onde eu trabalho, mas sabemos que outros tiveram dificuldades. Então é preciso uma retomada do financiamento para que se fortaleçam os cursos e corpo docente para o desenvolvimento de um trabalho de qualidade”, adverte o especialista.
Desenvolvimento regional
De qualquer modo, o professor Bizerril entende que a expansão da malha de Universidades Federais (e também estaduais) no Nordeste contribui para o processo de desenvolvimento da região. “As Universidades, sobretudo em termos da pós-graduação, sempre foram concentradas nas regiões Sul e Sudeste. Agora, os programas de pós-graduação do Nordeste, e também no Norte e Centro-Oeste, estão se fortalecendo, o que também fortalece a pesquisa, a extensão, desenvolvendo suas regiões, com temas daquele lugar. É um impacto relevante”, comenta.
Ele também nota que existe, igualmente, o impacto derivado do próprio investimento na estruturação dos campi. “Em uma região onde não havia mão-de-obra, não havia como atrair pessoas para lá, criando renda, um mercado consumidor importante, é então significativo que os novos campi são uma forma de desenvolvimento. Os recursos são um impacto direto e a mão-de-obra, indireto, para a região onde são instalados”, diz o professor da UnB, para quem “o Nordeste é outro depois da expansão dessa malha de Universidades públicas, além, é claro, de outras políticas públicas implantadas na região, melhorando as condições para os pesquisadores e estudantes da região e levando a um processo como o atual, de instalação de filiais de instituições importantes e renomadas como o ITA e o IMPA no território nordestino”.
Posição semelhante é a da Doutora em Demografia Monica Aparecida Tomé Pereira, da Universidade Federal do Vale do São Francisco, que comenta sobre o impacto das novas Universidades e campi no Nordeste, desde o início do século 21. “Uma das contribuições das universidades é a melhoria da qualidade do profissional que elas fornecem para a sociedade. E considerando nas diversas áreas do conhecimento Ciências Humanas e Arte, Ciências Exatas e da Terra, Ciências Biológicas e Saúde, as habilidades e as competências trabalhadas no meio universitário atreladas as necessidades da região, com a inserção desde os primeiros anos de formação, podem garantir o aperfeiçoamento da formação propiciada pelas universidades e garantindo o atendimento da expectativa da população, desde a formação (ainda enquanto estudantes) e como profissionais após a sua formatura”, afirmou Monica Pereira, no trabalho “Universidades federais novas e novíssimas nordestinas: expansão e trajetória no ensino superior e sua contribuição para além da formação”, que apresentou na 72ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada em 2020.
Monica Pereira citou, como exemplo de impacto regional de uma instituição de ensino superior pública “interiorizada”, o da Universidade Federal do Vale do São Francisco. No caso, a cessão de servidores do quadro permanente da Universidade para atuarem em áreas estratégias em prefeituras da região de Petrolina (PE), onde está instalada, para atuarem na capacitação do quadro de colaboradores de áreas estratégicas.
Uma perspectiva semelhante é a de Robert Evan Verhine, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Nascido e criado na Califórnia, Estados Unidos, Bob Verhine, como é conhecido, concluiu o bacharelado em Economia pela Universidade da Califórnia. Tem mestrado em Estudos Latinoamericanos pela mesma Universidade e doutorado pela Universidade de Hamburgo, Alemanha. Professor visitante de várias Universidades, foi diretor de 1998 a 2007 do Centro de Estudos Interdisciplinares do Setor Público (ISP), ligado à UFBA, onde trabalha desde 1977.
Neste período, Verhine direcionou o ISP para focalizar o campo da avaliação educacional. O ISP foi executor de um amplo projeto de avaliação externa do sistema estadual de ensino da Bahia. O convênio entre a Universidade e o governo estadual resultou na criação de uma Agência de Avaliação UFBA-ISP/Fapex (Fundação de Apoio à Pesquisa e à Extensão), no âmbito do Programa Educar para Vencer.
Com um amplo conhecimento, portanto, da realidade educacional do Nordeste, e em particular da Bahia, Bob Verhine assinala que a região de fato está em uma situação muito melhor em termo de ensino superior, com destaque para o fenômeno da interiorização das instituições públicas, federais e estaduais. “Na Bahia temos por exemplo um número de alunos de pós-graduação fora de Salvador muito maior hoje do que no passado, em função da forte interiorização das instituições”, diz ele.
Impacto das ações afirmativas
Bob Verhine destaca, por outro lado, que o avanço do ensino superior no Nordeste foi igualmente impacto pelas ações afirmativas em curso nas universidades brasileiras, sobretudo nas públicas. Houve iniciativas anteriores, mas com a Lei 12.711, de 2012, a ação afirmativa tornou-se obrigatória nas instituições federais de ensino, com a padronização dos critérios. “As cotas oferecidas pelas Universidades públicas, federais e estaduais, abriram as portas das instituições para muitos alunos, em situação de pobreza ou negros, que antes não tinham acesso ao ensino superior”, comenta o professor da UFBA.
Efetivamente, houve um expressivo aumento no número de estudantes negros em universidades federais do Brasil, crescendo de 17% para 49% em 13 anos. Em 2009, o contingente de estudantes negros era de 135,1 mil, evoluindo para 515,7 mil em 2022. Os dados são de pesquisadores do SoU Ciência (Centro de Estudos, Sociedade, Universidade e Ciência), vinculado à Unifesp – Universidade Federal de São Paulo. Grande parte dos estudantes que tiveram acesso através das cotas são do Nordeste.
De forma associada ao avanço da abertura de vagas para estudantes negros através das cotas, também houve a expansão do número de docentes negros na região. O Nordeste responde por 40% dos docentes negros no ensino superior no Brasil, segundo o Censo da Educação Superior de 2023, do Ministério da Educação. São 31,3 mil docentes negros na região, ente os 77,2 mil professores no país.
O professor Bob Verhine nota que o avanço do ensino superior no Nordeste também deriva da expansão do Ensino à Distância (EaD). “Nem sempre se trata de uma coisa positiva, porque muito estudante à distância não tem este acesso com qualidade”, comenta o especialista. De acordo com o Mapa do Ensino Superior, do Semesp, em 2024, das 2,1 milhões de matrículas no ensino superior no Nordeste, 44% foram na modalidade de EaD.
“Minha experiência, em resumo, é que o ensino superior tem avançado no Nordeste, com a interiorização das Universidades públicas, com políticas de ações afirmativas e a tendência do EaD”, conclui Verhine, que é um dos fundadores da Associação Brasileira de Avaliação Educacional (Abave), que ocorreu em 2003, por ocasião do XXI Simpósio Brasileiro de Política e Administração da Educação – ANPAE, no Recife. Mais uma contribuição nordestina para a qualificação da educação brasileira.
A museóloga Nádia Helena Oliveira Almeida ratifica a perspectiva da mudança do panorama do ensino superior no Nordeste, por meio de um processo desencadeado no início do século 21. “Ao longo dos anos, testemunhei de perto uma virada histórica. Com a implementação das políticas públicas e dos governos populares do Partido dos Trabalhadores a partir de 2003, a paisagem acadêmica do Nordeste mudou. Foi nítida a transição em direção a uma equidade socioformadora e educativa”, ela destaca.
“A universidade finalmente abriu as portas para a classe trabalhadora, transformando o ensino superior de um privilégio de poucos em um direito de muitos, também em função da criação do ENEM. Ver a periferia, o interior e os filhos de trabalhadores ocupando as salas de aula e a pós-graduação é a certeza de que a educação pública se tornou, de fato, um motor de justiça social. No entanto, e talvez por esta razão, a educação pública superior (mas não só) vem sofrendo fortes ameaças dos setores neoliberais privatizantes. Portanto, a luta política contra a sanha de precarização das universidades públicas deve ganhar cada vez mais força de mobilização e transformação social”, sustenta Nádia.
Desenvolvimento científico e tecnológico
Os dois novos projetos em desenvolvimento no Nordeste, do ITA no Ceará e IMPA Tech no Piauí, comprovam como o cenário do ensino superior tem mudado substancialmente na região. O reitor do Instituto, Professor Doutor Antonio Guilherme de Arruda Lorenzi, entende que a expansão para Fortaleza representa um marco na trajetória do ITA e amplia a contribuição da instituição para o desenvolvimento científico e tecnológico do Brasil. “O campus de Fortaleza simboliza a capacidade do ITA de se renovar sem renunciar à sua essência: formar profissionais de excelência para servir ao desenvolvimento científico, tecnológico e estratégico do Brasil”, disse o reitor, no início de março de 2026, quando a primeira turma do ITA Ceará, por enquanto ainda frequentando a sede em São José dos Campos, visitou as obras do complexo.
Com o início das atividades em Fortaleza, previsto para 2027, o ITA passará a oferecer oito cursos de graduação: Engenharia Aeronáutica, Engenharia Eletrônica, Engenharia Mecânica Aeronáutica, Engenharia Civil Aeronáutica, Engenharia de Computação, Engenharia Aeroespacial, Engenharia de Sistemas e Engenharia de Energia. Mais uma opção para o ensino superior no Nordeste, formando profissionais para o momento novo vivido pela região, que se tornou, por exemplo, a principal referência no Brasil em energia solar e eólica, entre outros projetos em alta tecnologia, que demandam cada vez mais uma mão-de-obra altamente qualificada.
O ITA divulgou, no dia 2 de junho de 2026, o edital do vestibular para ingresso em 2027, com inscrições abertas até 12 de julho. Para o próximo ano, haverá aumento no número de vagas, totalizando 200 candidatos aprovados, o maior contingente já oferecido pela instituição em sua história. O aumento no número de vagas acompanha o processo de expansão do ITA, com a abertura do novo campus em Fortaleza.
Outra novidade do processo seletivo de 2027 é a ampliação das vagas destinadas às políticas afirmativas, com a inclusão de vagas para candidatos indígenas e quilombolas. Serão oferecidas 140 vagas para ampla concorrência, 50 para candidatos negros (pretos e pardos), seis para indígenas e quatro para quilombolas. Mais um indicativo da expansão do ensino superior na região, de forma associada a ações afirmativas que democratizam o ingresso.
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