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Inquietante, angustiante, a queda da cobertura na imprensa sobre mudanças climáticas
O desaparecimento de geleiras por todo planeta é um dos mais graves sinais do agravamento do aquecimento global, além de ser uma perda incomensurável em termos de referência espiritual para milhões de pessoas (Foto Cemera-man para Pixabay)

Inquietante, angustiante, a queda da cobertura na imprensa sobre mudanças climáticas

Por José Pedro Soares Martins

O Hemisfério Norte tem experimentado seguidas ondas de calor no Verão de 2026, com número de mortes ainda não totalmente contabilizado, mas que pode superar as anteriores. Outros indicadores são de agravamento crescente do aquecimento global, como no caso do virtual desaparecimento, ainda este ano ou em 2027, da última geleira da Indonésia (conhecida como Pirâmide Carstensz, situada na ilha indonésia de Papua), como demonstrou recente relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM). O mesmo relatório alertou que entre 2005 e 2023 foi de 42% a redução das geleiras da Nova Zelândia, no contexto do incremento das temperaturas do Pacífico Sudoeste, com recordes sucessivos.

O desaparecimento de geleiras por todo planeta é um dos mais graves sinais do agravamento do aquecimento global. Além disso, trata-se de uma perda irreparável, irrecuperável, de referência espiritual para milhões de pessoas, que há séculos têm na cobertura de neve em suas montanhas a sua inspiração, e mesmo a sua diretriz cultural e de vida.

Enquanto isso, têm sido frustrantes as negociações relacionadas ao enfrentamento das mudanças do clima, como se viu no encontro realizado há poucos dias em Bonn, Alemanha, preparatório à COP 31, que acontece em novembro no charmoso balneário de Antália, na Turquia. A COP 31 terá presidência dupla, do país anfitrião e da Austrália, que queria levar a conferência para Adelaide e não conseguiu. Mais um sinal do labirinto em que se encontram as negociações multilaterais, cada vez mais afetadas pela posição unilateral do governo de Donald Trump, que vem inspirando governos de direita e extrema-direita por todo planeta a se afastarem de tudo que diz respeito a proteção da natureza e, claro, a qualquer entrave ao lucro a qualquer preço, sobretudo das grandes corporações dos combustíveis fósseis e da indústria bélica.

Em meio a todo esse cenário estarrecedor, é inquietante, angustiante, a queda da cobertura da imprensa sobre as mudanças climáticas. O mais recente estudo do Observatório Mídia e Mudanças Climáticas, da Universidade do Colorado, informou que a cobertura da mídia em 2026 permanece inferior à de 2025. “Comparando o primeiro semestre de 2026 com o primeiro semestre de 2025, a cobertura caiu pouco menos de 32%. Enquanto isso, a frequência de cobertura em junho de 2026 foi 13% menor do que em junho de 2025″, afirma a pesquisa, que é feita com o monitoramento do noticiário dos principais veículos de comunicação do planeta.

Houve alguns aumentos pontuais, como no caso de mídias europeias, em função das ondas de calor no continente, mas de forma geral há um arrefecimento na cobertura, talvez reflexo de uma tendência de atenuação das políticas de proteção socioambiental, como a que tem sido verificada na própria Comunidade Europeia. Está em curso, por exemplo, a flexibilização da Diretiva de Reporte de Sustentabilidade e da Diretiva de Due Diligence sobre Sustentabilidade Corporativa. Com isso, diminuem ou desaparecem obrigações empresariais e em suas cadeias de fornecedores, em termos de respeito aos direitos humanos ou proteção ambiental.

O mesmo retrocesso já havia sido verificado com a suspensão das atividades da Net-Zero Banking Alliance (NZBA), a aliança de bancos que tinha sido criada para promover a descarbonização no âmbito das maiores instituições financeiras do planeta. Está em curso, enfim, um evidente andar-para-trás em termos de proteção ambiental, justamente no momento em que o planeta sente cada vez mais os impactos de um crescimento contínuo de emissões de gases derivados de combustíveis fósseis, apesar do avanço, ainda insuficiente, do uso de energias renováveis. Nem precisamos falar dos retrocessos que têm ocorrido no Brasil, como na absoluta flexibilização do sistema de licenciamento ambiental, aprovado pelo Congresso Nacional, por iniciativa de seus setores mais retrógrados.

Em um panorama absolutamente negativo, a esperança continuava na ação da imprensa, mas o que tem sido observado não é nada animador, pelo contrário. Continuam na trincheira de defesa dos direitos de cidadania os sites e mídias chamados alternativos, independentes ou populares, que sobrevivem com muita luta e esforço de seus profissionais e alguns patrocinadores benevolentes. Mas até quando vão suportar?

No fundo, no fundo, está a questão do esvaziamento da influência da mídia como um dos pilares da democracia. Aqui dizemos democracia política, social, econômica e ambiental. Nesta rota, todos saem perdendo, inclusive os podres poderes que têm a ilusão de vitória. Quando não sobrar mais geleira, nem água, nem solo, nem floresta, nem nada, nem eles terão o que comemorar, a não ser a sua própria estupidez, arrogância e ignorância.

 

 

 

 

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