sábado , 27 maio 2017
Jornalistas de Campinas colocam o dedo na ferida ao falar sobre a profissão
Álvaro Kassab: jornais cometem suicídio ao não investir na qualidade (Foto Adriano Rosa)

Jornalistas de Campinas colocam o dedo na ferida ao falar sobre a profissão

Sem jornalismo não há sociedade livre e democrática. Esta foi uma das conclusões do Fórum de Jornalistas Nós na Pauta, realizado há três anos em Campinas e que discutiu o (crítico) estágio atual e o futuro (incerto) da profissão. As reflexões permanecem muito atuais neste dia 3 de maio, quando mais uma vez é lembrado o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa.

O Fórum de Jornalistas Nós na Pauta foi realizado na Associação Campineira de Imprensa (ACI) e foi idealizado pelos jornalistas Adriana Menezes, Roberto Cardinalli, Milton Bridi e José Pedro Martins,  com a parceria de Martinho Caires e Adriano Rosa. Foram apenas três sessões, mas com denso conteúdo.

Tendências no jornalismo

O lançamento aconteceu na noite do dia 25 de março de 2014, no auditório da ACI, presidida por Marcelo do Canto. O jornalista José Pedro Martins citou alguns dados mostrando tendências do jornalismo no século 21. Citou por exemplo dados do Projeto Inter-Meios, segundo os quais a participação dos jornais no bolo publicitário caiu progressivamente nos primeiros anos do século 21, de 21,45% em 2000 e 18,12% em 2003 para 14,08% em 2009 e 11,24% em 2012, até atingir 10,12% em 2013.

Queda semelhante foi observada na participação das revistas no bilionário bolo publicitário brasileiro – em 2013, os gastos com publicidade no país, somando todos os meios, foram de R$ 32,2 bilhões. A fatia das revistas no bolo publicitário declinou de 10,59% em 2000 e 9,39% em 2003 para 7,69% em 2009 e 6,38% em 2012, chegando a 5,53% em 2013. Para o jornalista, estes números explicam o fechamento de títulos importantes, em um processo que começou com a “Gazeta Mercantil” (que chegou a ter 500 profissionais) e “Jornal do Brasil” (edição impressa) há alguns anos, chegando recentemente ao “Jornal da Tarde” e revista “Bravo”, entre outros.

Neste cenário, a tendência de fortalecimento da Internet e da TV por assinatura é clara pelos números de Inter-Meios. A TV continuará absoluta e os jornais, revistas e rádio terão que se reinventar, encontrando novas fórmulas para manter sua presença como importantes meios de comunicação e transmissão de informação e conhecimento. Foi este justamente o tom das discussões que se seguiram, no lançamento do Fórum Permanente da Profissão de Jornalista – Nós na Pauta.

Marcel Cheida destaca importância da "persona" frente bombardeio de informações (Foto Adriano Rosa)

Marcel Cheida destaca importância da “persona” frente bombardeio de informações (Foto Adriano Rosa)

A importância da “Persona” no jornalismo do século 21

O jornalismo do século 21 tende a ser marcado pela crescente importância do “persona”, do jornalista que, através dos blogs e mesmo nos meios tradicionais, é o responsável pela análise contextualizada e crítica dos fatos, ajudando o leitor a entender o que está acontecendo e a formar a sua própria opinião. A ideia foi defendida pelo professor Marcel Cheida, do Curso de Jornalismo da PUC-Campinas, no lançamento do Fórum Permanente Profissão do Jornalista – Nós na Pauta, na noite do dia 25 de março de 2014, na ACI.

Marcel Cheida destacou que ainda não há um distanciamento histórico necessário para a exata compreensão do que está acontecendo em termos das rápidas transformações tecnológicas que afetam o universo da comunicação em geral e do jornalismo em particular. De qualquer modo, fazendo um paralelo com o que ocorreu com o lançamento da imprensa por Gutenberg, salientou que as mudanças tecnológicas sempre levaram a modificações importantes na forma de comunicação entre as pessoas, com reflexo direto na forma de fazer jornalismo.

Diante do avanço da Internet e outros meios eletrônicos de comunicação, observou, o volume de informações em circulação, que duplicava a cada cinco anos, já está dobrando a cada dois anos. “E o cérebro humano não está capacitado para absorver tantas informações, é por isso que as pessoas selecionam os seus favoritos e começam por eles quando navegam na Internet”, disse.

Para o professor da PUC-Campinas, em função da proliferação de fontes de informação, a tendência é de fortalecimento da figura do “persona”, o jornalista que conquista a credibilidade dos leitores e se torna referência, os ajudando a formar opinião, ao analisar e criticar os fatos de modo contextualizado e interdisciplinar.

Luciana de Almeida, idealizadora e diretora do portal Campinas.Com.Br (Foto Adriano Rosa)

Luciana de Almeida, idealizadora e diretora do portal Campinas.Com.Br (Foto Adriano Rosa)

Cultura do empreendedorismo

O jornalista atual precisa assimilar os conceitos do empreendedorismo, que geralmente não faz parte de sua cultura e de sua formação. A afirmação é da jornalista Luciana de Almeida, a idealizadora do site Campinas.Com.Br, que se tornou a principal referência em agenda cultural e de lazer da cidade e região. Ela e a diretora de conteúdo do site, Sara Silva, também participaram como debatedoras convidadas do lançamento do Fórum Permanente Profissão do Jornalista – Nós na Pauta, na noite de 25 de março, terça-feira, na Associação Campineira de Imprensa (ACI).

As jornalistas comentaram a experiência de empreendedorismo representada pelo lançamento e manutenção de um meio digital, quando esta ainda não era uma alternativa consistente para os profissionais de Imprensa. “De fato é preciso mudar a cultura do jornalista, para que ele se torne um empreendedor, colocando em prática as suas ideias”, disse Luciana. “Com todas as mudanças que estamos vivendo, pela primeira vez o jornalista, em razão da Internet, pode ser dono de seu meio de produção, o que antes era muito difícil acontecer. É preciso então aproveitar essa oportunidade, mas para isso o jornalista deve se preparar”, afirmou Sara.

A idealizadora do Campinas.Com.Br concordou em que ainda representa um importante desafio a sustentabilidade de projetos em meio digital, inclusive porque ainda não foi encontrado o formato adequado para a publicidade em sites. Entretanto, destacou que já existem outras modalidades de financiamento de projetos, com importância crescente das formas de colaboração, como a do crowdfunding, de financiamento coletivo. “A questão é colocar em prática as ideias, é ter iniciativa, mas para isso é fundamental mudar a cultura do jornalista”, reiterou Luciana de Almeida.

Sara Silva, diretora do Campinas.Com.Br (Foto Adriano Rosa)

Sara Silva, diretora do Campinas.Com.Br (Foto Adriano Rosa)

“Suicídio” dos grandes jornais?

Em um cenário de rápidas mudanças tecnológicas, e de avanço do poder das mídias digitais, os grandes jornais cometem suicídio ao não apostar na qualidade e na reflexão. A ideia foi defendida pelo editor do Jornal da Unicamp, Álvaro Kassab, no dia 28 de abril de 2014, no segundo encontro do Fórum de Jornalistas Nós na Pauta, realizado na Associação Campineira de Imprensa (ACI). O mercado de trabalho do jornalista em Campinas e região foi o tema do debate da noite.

Para Kassab, a mídia impressa deveria investir no talento, na criação, na reportagem, nas grandes ideias, como forma de manter o seu prestígio e enfrentar os impactos da transição para o universo digital. O jornalista entende que não é isso, infelizmente, o que tem ocorrido, e com isso as novidades, as reflexões, estão cada vez mais limitados aos sites e blogs na web. Uma consequência natural, observou, é a diminuição do número de profissionais trabalhando na grande mídia.

Kassab comentou a sua trajetória como editor do “Jornal da Unicamp”, que foi concebido pelo jornalista Eustáquio Gomes, recentemente falecido. Na edição da publicação desde 2002, Kassab observou que a linha editorial do “Jornal da Unicamp” tem privilegiado a divulgação das pesquisas realizadas na Universidade, sempre com a busca do contraditório, do debate, como forma de aprofundar os questionamentos, de modo que o leitor possa formar a sua própria opinião.

O editor considera que o “Jornal da Unicamp” já divulgou mais de 5 mil pesquisas, pelo menos, nos últimos doze anos. “São pesquisas que no seu conjunto ajudam a pensar o Brasil, qual o modelo de desenvolvimento que o país deseja”, disse, acrescentando que as reportagens e os artigos têm sido reproduzidos por dezenas de outras publicações e blogs por todo país.

Paulo Reda e Ana Carolina Silveira (Foto Adriano Rosa)

Paulo Reda e Ana Carolina Silveira (Foto Adriano Rosa)

Desvalorização da profissão

O jornalista não pode aceitar passivamente o processo de desvalorização que a profissão vem passando, pediu Paulo Reda, então editor do “Destak” de Campinas, durante o segundo encontro do Fórum de Jornalistas Nós na Pauta. Reda lembrou que muitos jornalistas foram e continuam sendo agredidos por todo país, citando o exemplo dos casos registrados durante as jornadas de protesto em 2013.

Também observou que a imprensa, e os jornalistas como o suporte principal dela, vem sendo culpabilizada por várias questões econômicas, sociais e políticas que, na realidade, são derivadas de complexas situações estruturais e conjunturais. “Será que os jornalistas não estão muito passivos frente a tudo isso?”, perguntou.

O jornalista comentou a trajetória em Campinas do “Destak”, uma das novidades em mídia que surgiram no mercado local e regional nos últimos anos, em plena época de avanço do poder da Internet.  Para ele, o jornal é um dos exemplos do potencial de Campinas e região em criar novos empreendimentos em mídia.

Jornalismo no Terceiro Setor

Campinas é a cidade do interior do Brasil com maior número de fundações privadas e associações sem fins lucrativos, formadoras do chamado Terceiro Setor. Pois essa é uma das áreas de grande potencial de trabalho para jornalistas em Campinas e região, conforme concluiu o segundo encontro do Fórum de Jornalistas Nós na Pauta, realizado dia 29 de abril de 2014, na Associação Campineira de Imprensa (ACI).

A jornalista Ana Carolina Silveira, que há anos atua em assessoria de comunicação para organizações empresariais e do Terceiro Setor, comentou a sua experiência e defendeu uma melhor preparação dos jornalistas para trabalhar na área, que tem características singulares em relação a outros setores do mercado.

De acordo com estudo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com dados de 2010, Campinas registrava 1.715 fundações privadas e associações sem fins lucrativos, onde atuavam 34.907 pessoas, com salários e outras remunerações no valor de R$ 969,3 milhões. As organizações religiosas (588) lideravam o ranking, seguidas das organizações de perfil cultural e de recreação (227) e de assistência social (205).

No conjunto de 19 municípios da Região Metropolitana de Campinas (hoje são 20), existiam 3.416 organizações não-governamentais, onde trabalhavam 49.485 pessoas, com salários de R$ 1,2 bilhão na época. Americana estava em segundo lugar no ranking regional, com 289 organizações.

Depois de atuar por muitos anos na imprensa, em jornais como “Correio Popular” e “Gazeta Mercantil”, Ana Carolina Silveira criou e dirige uma empresa de assessoria de comunicação, que há anos trabalha com organizações empresariais e do Terceiro Setor. Entre elas, algumas das mais importantes instituições que atuam na área social em Campinas, como Grupo Primavera, Sobrapar e Casa da Criança Paralítica.

A assessoria cuida das publicações próprias das entidades, mas também faz o contato com a mídia, propondo pautas, apontando ideias. E nesta área Ana Carolina Silveira entende que ainda representa um desafio a maior abertura de espaços na mídia tradicional de Campinas e região para os temas e eventos do Terceiro Setor.

Para ela, os cursos de jornalismo não têm oferecido, aos futuros profissionais, uma preparação adequada para atuar na área social. Por outro lado, considera que o próprio Terceiro Setor, de forma geral, necessita uma melhor compreensão sobre a relevância de uma atuação eficiente e profissional na área da comunicação, como forma de dar maior visibilidade e transparência a suas ações.

Logotipo do Fórum Nós na Pauta, elaborado por Fabiana Pacola Ius

Logotipo do Fórum Nós na Pauta, elaborado por Fabiana Pacola Ius

Jornalismo e violência

A relação entre o jornalismo e o jornalista com a violência foi o tema do terceiro e último encontro do Fórum Nós na Pauta, dia 4 de junho de 2014, na ACI. “Os dois lados precisam se conhecer melhor. Tudo é uma questão de conhecimento. O agente de segurança conhecer melhor como é o jornalista, e o jornalista também conhecer melhor o lado do agente. É possível e necessário esse entendimento, essa interação”, afirmou em reiteradas ocasiões, durante o debate, o secretário municipal de Cooperação nos Assuntos de Segurança Pública de Campinas, Luiz Augusto Baggio, depois que foram apresentados dados a respeito de episódios de violência contra jornalistas.

Levantamento da Fenaj, apresentado pela diretora Márcia Quintanilha, mostrou que mais de cem profissionais “foram agredidos enquanto faziam a cobertura jornalística dos protestos populares, realizados em várias capitais brasileiras, a partir do mês de junho” de 2013. Em 2014, citou a diretora, já tinham sido registradas 21 agressões a jornalistas, sendo 17 delas em manifestações. Márcia citou os esforços que vinham sendo feitos pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo e pela própria Fenaj para maior proteção dos jornalistas frente à violência.

O debate também contou com a participação do jornalista Adagoberto Batista, o Gandhi, de enorme experiência como repórter policial em grande parte de sua carreira profissional. No debate, ficou evidente a necessidade do jornalismo abordar com maior profundidade, em uma perspectiva contextualizada, a séria questão da violência no Brasil. O jornalista Roberto Cardinalli apresentou então dados revelando que em 2012 o Brasil teve um recorde de homicídios: foram mais de 56 mil. No mesmo ano, também houve um recorde no número de mortes no trânsito no país: 46.01. Portanto, mais de 100 mil mortes por homicídio ou no trânsito naquele ano, de acordo com o Mapa da Violência, da Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais.

Jornalismo hoje

Passaram-se três anos desde o Fórum de Jornalistas Nós na Pauta. O cenário brasileiro mudou muito, para pior, em termos econômicos, políticos e sociais. A profissão de jornalista tornou-se ainda mais desafiadora. A violência continuou crescendo, assim como o desemprego em todas as áreas, inclusive na imprensa. O Brasil é um país muito perigoso para os jornalistas, como demonstraram relatórios recentes, da Anistia Internacional e Repórteres Sem Fronteiras.

Nesse sentido as discussões do Fórum devem ser relativizadas, pois alterou o contexto histórico. De qualquer modo, foi um momento de reflexão e de debate de ideias e muitas delas continuam muito atuais.  Também foi momento de reafirmação da paixão por uma profissão sem a qual não existe sociedade livre, justa e feliz, por mais que ela esteja tão distante no horizonte.

 

 

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