terça-feira , 22 agosto 2017
HORA E VEZ DA PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO IMATERIAL
Foto Martinho Caires

HORA E VEZ DA PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO IMATERIAL

Por Regina Márcia Moura Tavares

Estamos, neste ano, comemorando os 30 anos do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas, o primeiro em cidade do interior no país. Coincidentemente, estamos no bojo de um novo ciclo histórico, num tempo em que os desfavorecidos do mundo, ostensivamente, começam a questionar o descaso em que se encontram, a escancarar a corrupção dos poderosos, a buscar espaço e poder.

Considerando que as Culturas das sociedades humanas são teias de significados que orientam as ações do Homem em sua luta pela sobrevivência, capazes de definir o fazer, o sentir e o pensar no interior das mesmas, julgamos que ao se tratar da questão da preservação do patrimônio cultural, seja ele material ou imaterial, não se pode estar alheio aos fatos históricos e sociais que, certamente, determinam as escolhas feitas num momento dado.

O desenvolvimento de uma dada sociedade deve ter como referência a herança cultural acumulada por toda a população, ao longo das geraçõeso seu patrimônio tangível e intangível, de modo a permitir o exercício de uma criatividade referida à própria realidade, sendo ela mesma capaz de oferecer condições de realização aos seus membros, individual e coletivamente. Inclusive, a incorporação de traços de outras culturas deve ser feita seletivamente, de modo a se ajustar à configuração original.

Sendo válida a assertiva acima, por qual motivo os projetos de desenvolvimento em nosso país não priorizam esta herança abrangente? E, por qual motivo estamos sempre preservando, preferencialmente, os bens materiais e imateriais produzidos por uma única camada social privilegiada?

Simplesmente pelo fato de que, na trajetória existencial dos povos, as relações econômicas e o poder político ocupam, sempre, o centro da cena. E não há como ser diferente, pois a sobrevivência envolve ações relativas à produção de alimentos, conquista de territórios, controle da distribuição de bens, entre tantos outros fatores.

Acontece, porém, que neste início de século houve a aceleração do processo da globalização com enorme desenvolvimento tecnológico – cibernética e comunicação social, fazendo com que a democratização da informação e as possibilidades de acesso ao conhecimento sejam uma realidade, inaugurando uma nova ordem social, na qual todos os segmentos da população querem ver suas realizações devidamente anunciadas, seus desejos respeitados, a cidadania garantida. Os beneficiados nesta sociedade globalizada devem ser todas as camadas sociais, de todas as etnias, de todos os credos.

Nesse novo contexto, a UNESCO e os países membros acharam por bem eleger como importante, também, a Preservação do Patrimônio Imaterial dos povos, representado por sua língua, seus usos costumes, saberes populares, lúdica, cantos, danças, tecnologias artesanais e outros.

Embora a documentação de todo este patrimônio tenha sido sempre objeto de estudiosos tais como antropólogos, sociólogos, folcloristas, literatos, musicistas, museólogos e tantos outros acadêmicos, a ênfase recente dada a tais aspectos da Cultura obedece a interesses políticos do momento. Como não há mais como alijar as camadas menos favorecidas das sociedades de seus próprios interesses, pois a cidadania é um valor que estão a perseguir, nada mais justo do que agora o pêndulo da ação preservacionista oscilar, incluindo como objeto de sua preocupação, também o patrimônio imaterial, não construído, bem distante das catedrais góticas, das igrejas barrocas, dos timbres da realeza, da pintura de um artista bem relacionado ou contestador, do canhão do último sucesso bélico das elites.

Conhecendo por que e como a prioridade para esse tipo de ação preservacionista instala-se num momento sócio-econômico-político definido deve-se ter sensibilidade e inteligência para o planejamento de ações que venham, efetivamente, mudar o “status quo” da Cultura em cidades, regiões e países.

No Brasil estamos vivendo um momento de transição privilegiado, sob todos os aspectos, e os envolvidos com a Cultura não podem perder a oportunidade de rever seus conceitos!

Não se pode esperar que o Estado, de maneira ágil, faça a adequação de suas instituições ao novo tempo, mesmo porque suas estruturas são grandes, pesadas e burocratizadas. A iniciativa da mudança deve ser das entidades culturais, de múltiplas naturezas, que precisam agir de forma mais ousada, consciente e compartilhada, se quiserem ter alguma significação nessa nova ordem social, beneficiando a expansão dos repertórios dos muitos e diversificados segmentos da população.

Em Campinas, todo o Patrimônio Cultural material e imaterial, fruto da ação de todas as camadas sociais nos seus mais de dois séculos de existência, precisa ser revitalizado, valorizado e difundido através, não somente da ação preservacionista de órgãos públicos especializados, mas pelas múltiplas modalidades de expressão artística como a dança, a pintura, a escultura, a música, o teatro, a literatura, o cinema, assim como por museus interativos modernos na teoria e práxis.

Infelizmente, as ações nesse sentido têm sido tímidas e o que é realizado não mais satisfaz as exigências do momento. Faz-se urgente e necessária a organização de fóruns de discussão para o debate de ideias, conceitos e metodologias com vista a uma posterior ocupação dos espaços com ações culturais que, efetivamente, envolvam a população e a beneficiem promovendo a integração e o desenvolvimento auto-referido.

Somente a apropriação consciente da herança cultural produzida, ao longo do tempo, por todas as camadas sociais da cidade será capaz de levá-las a valorizar, a revitalizar e a preservar o que seus antepassados construíram; e, sem sobra de dúvida, será sempre esta herança o patrimônio cultural que lhes garantirá a identidade, a autoestima, a qualidade de vida e um futuro promissor!

 

Regina Márcia é antropóloga, consultora e conselheira em órgãos de preservação do patrimônio cultural, membro de várias entidades culturais nacionais e internacionais.

Reg3mar@gmail.com

 

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