Capa » Centros Urbanos » SARAU DA DALVA CHEGA À SUA EDIÇÃO Nº50 COM LANÇAMENTO DE FILME
SARAU DA DALVA CHEGA À SUA EDIÇÃO Nº50 COM LANÇAMENTO DE FILME
Edição número 50 do Sarau da Dalva teve lançamento de filme (Foto Giancarlo Giannelli)

SARAU DA DALVA CHEGA À SUA EDIÇÃO Nº50 COM LANÇAMENTO DE FILME

Documentário média-metragem sobre o Sarau estreia hoje, com exibição compondo a programação da edição nº50 do evento, a partir das 19h, no Bar do Manoel – Estrela Dalva. Filme sintetiza 4 anos e meio de história e poesia, além de evidenciar as características gerais, do amplo trabalho que vem sendo realizado na região.

Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.”

A fala é do escritor russo Liev Tolstói. E já falamos aqui de Rafa Carvalho, poeta do mundo e campineiro, em analogia ao autor de “Guerra e Paz”. Seja pela longa barba, seja pela dificuldade em se qualificar suas escolhas de vida e trabalho. Coisas que acabam gerando contradições aparentes, como misturar um grande espiritualismo, com anarquia o bastante para intrigar.

Fato é que, para Rafa, passa a ser fundamental que sua própria aldeia se pinte a si mesma. Nesse ponto, fica notável sua aproximação com a máxima da literatura marginal: se a história é nossa, deixa que nóis conta. Segundo o poeta, não há erro. “Nóis” é mesmo singular, em certas condições, como diz a poesia de Marco Pezão. E a grafia, nada mais é que coragem. A não-hipocrisia de assumir, no papel, aquilo que aparece em nosso dia a dia. Nossa língua prática. Viva. Concreta e flexível.

Conversando com o idealizador do Sarau da Dalva, ele diz saber dos privilégios que teve e tem. “Minha condição social de hoje, não é a mesma da infância. Não nasci mulher, o que vergonhosamente ainda é um privilégio. E no Brasil, sou negro o bastante pra ter sido acusado de ladrão por madame que achou que o boné que eu usava não podia ser mesmo meu; negro o bastante pra ter sido esculachado por dois, três PM’s no máximo. Mas não o suficiente pra passar por toda a opressão que irmãs e irmãos em tons e características muito mais fortes passam, diariamente. Tive chances pro crime, que não aceitei. E as chances de estudo, a sorte de acessos, que muitos não têm. Fora tantas outras variáveis que, em mim, me fazem um privilegiado.”

Privilegiado sim, mais importante nunca. Segundo ele, “é preciso distribuir o Possível, tanto quanto a renda e a terra”. As pessoas precisam de pão sim, de poesia também. De acessar a possibilidade das coisas, em vias gerais e específicas. De ter, sensatamente, as mesmas chances e oportunidades. E é por isso que o hoje organizado como Coletivo Cultural de Convivência e Comunidade Encruzilhada Estrela Dalva, vem desenvolvendo um trabalho pela integração das pessoas, diversidades, garantia dos direitos humanos e alcance da cidadania, com enfoque no empoderamento e no protagonismo comunitário. É importante que a comunidade acesse, frua e produza cultura – e arte – conscientemente. Que cada vez mais escreva – e conte – sua própria história. Cuidando muito de seu presente. Entendendo e amando o passado. Sonhando, e decidindo, o futuro.

Nesse sentido os registros, fotográficos, audiovisuais, escritos, falados, desenhados, sempre fizeram parte das ações de todo o trabalho. Um esforço muito grande de gerar – e manter – os patrimônios imateriais da comunidade local. Para Rafa, é imprescindível criar memória. E uma memória que seja também boa. “Há muita injustiça no mundo, com raízes na História, alheias a nós, e também muita injustiça interna, dentro da gente. Coisas que precisam ser conhecidas, reconhecidas, e com muito empenho, transformadas. Carecemos dessa consciência crítica. Mas também necessitamos de beleza, da alegria. Duma relação que além de cada vez mais ética, seja também cada vez mais estética, poética, com o mundo. Os registros daqui eram sempre o da desgraça. A cabeça que foi pendurada no ponto de ônibus, a criança baleada pela polícia, o jovem morto atropelado na calçada, ao orelhão, por uma mulher rica que dirigia seu camaro embriagada. O tornado, as enchentes do Anhumas nos barracos alagados. Mas a nossa graça também existe. Há muita beleza na gente. Na comunidade, nas periferias. Somos ricos disso. E é daí que vem toda esperança em, dia a dia, ir superando o que é injusto, em nós e no mundo. Nossa potência, nossa força, também demandam um registro”.

O primeiro filme do coletivo estreia hoje, compondo a programação do Sarau da Dalva. Um documentário, média-metragem, co-produção do coletivo com a Cultiva Filmes. Que foi realizado com apoio do Proac, Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo, com o qual o sarau foi contemplado, para as suas ações em 2018. “Estamos experimentando de perto, agora, as dificuldades do cinema independente, do cinema no Brasil. A multiplicação dos recursos. Tanto econômicos, materiais, quanto humanos. Um filme que exigiria uma equipe de quinze, vinte pessoas, em situação ideal, feito apenas por duas. O desafio é imenso. Mas, não tentar, nunca foi um possibilidade.”

2- Cartaz de Lançamento do Documentário / arte: Rafa Carvalho (Divulgação)

2- Cartaz de Lançamento do Documentário / arte: Rafa Carvalho (Divulgação)

Doc Dalva – uma estrela sozinha não faz constelação” é feito numa linguagem ousada. Em sua construção fica nítida a influência do punk e da anarquia. Um filme sem direção que, nessa encruzilhada, aponta aos caminhos que as próprias vozes, da comunidade, de artistas renomados, visitantes, vão indicando e compondo juntasQuase em uníssono, às vezes. Numa narrativa, que as imagens, por si, vão construindo.

Após a estreia de hoje, a ideia é conseguir recursos para finalizar melhor sua montagem, cor e som, para tê-lo online em seguida, distribuído com acesso livre e gratuito, ao mesmo tempo em que pronto pra ser exibido em todos os espaços, salas de cinema bem equipadas inclusive, pra que a comunidade dali, nas adjacências do Parque São Quirino, em Campinas, com poesia, possa conversar e interagir com todo o planeta.

Embora fale especificamente do Sarau, o filme acaba sendo um registro de todo o processo histórico do amplo trabalho que vem sendo feito ali, há pelo menos oito anos. Uma joia no patrimônio imaterial da comunidade, da poesia, literatura, da arte, da cultura humana, na luta por cidadania e direitos. Da fé, da esperança e de toda e qualquer pessoa, que se reconheça parte de uma mesma, e única história. “A miudeza é justamente a imensidão desse trabalho. O mundo não se muda com grandes feitos. Precisamos partir de dentro. Cuidar das nossas intimidades, desses lugares. A utopia seria essa miudeza acontecendo junto, concomitante, em muitos outros espaços, de tantas outras maneiras, misturando jeitos, honrando raízes, constelando ações, como os cupins miudinhos que, de murundu em murundu, conectaram todo o underground de Minas à Bahia. Nossa sorte é que, pra além de utopia, esse pode ser o nosso devir.”

Além das nuvens – inclusive essas, virtuais de hoje em dia –, essa memória afetiva vai se acumulando. Sentimentos, como as pessoas, vão se constelando. E como andorinhas fazendo verão, essa aldeia, que já fez acontecer a primavera dos saraus em Campinas, vai, quiçá, fazendo muito mais. Contando sua história. Resolvendo o que querem escrever daqui pra frente. Cada vez mais, constelação.

Sobre ASN

Organização sediada em Campinas (SP) de notícias, interpretação e reflexão sobre temas contemporâneos, com foco na defesa dos direitos de cidadania e valorização da qualidade de vida.