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Oscar 2019: festa estranha, com filmes esquisitos, finalmente
Atrizes e atores premiados (Foto Divulgação/The Academy)

Oscar 2019: festa estranha, com filmes esquisitos, finalmente

Por Daniela Prandi

São novos tempos e o Oscar 2019 deu o recado neste domingo (24 de fevereiro) em uma “festa estranha, com filmes esquisitos”. Pela primeira vez na história 15 mulheres levaram a estatueta dourada para casa, assim como sete profissionais negros, um recorde sem precedentes na Academia de Cinema de Hollywood. Racismo, preconceito, novas iniciativas sociais, cinema por streaming, menstruação, um super-herói africano, um herói dos palcos que morreu de Aids, um homem de vestido-fraque e Lady Gaga, ah Lady Gaga, que protagonizou uma cena (fake?) das mais românticas, a entrega da principal premiação do cinema foi tão diferente que dispensou até mesmo as piadinhas do mestre de cerimônias, grande ausência (bem-vinda) da festa de 2019.

Tempos mudaram, e o Oscar também (Foto Divulgação/The Academy)

Tempos mudaram, e o Oscar também (Foto Divulgação/The Academy)

Na primeira festa sem apresentador em 30 anos, a entrega dos prêmios fluiu melhor. A sequência de “oscarizados” chamava a atenção em uma noite “das diferenças”, mas o principal prêmio, o de melhor filme, para “Green Book”, trouxe a plateia de volta à realidade. O filme, digamos, mais convencional da temporada, com final edificante, cuja força está no fato de ser uma história real, desbancou fortes concorrentes. “Green Book” retrata um momento na vida de Don Shirley (Mahershala Ali, vencedor na categoria ator coadjuvante), um talentoso pianista negro que cai na estrada com um motorista ítalo-americano (Viggo Mortensen), ambos vítimas de preconceito e que se unem em uma improvável amizade. O filme, que levou ainda o Oscar de roteiro original, segue a cartilha de Hollywood e certamente logo mais estará na “sessão da tarde”.

Mas vamos falar dos diferentes. “Roma”, produção da plataforma de streaming Netflix, um dos favoritos, com dez indicações, foi prestigiado com o Oscar de melhor diretor para Alfonso Cuarón, e ainda levou o de melhor fotografia e o de filme estrangeiro, que pela primeira vez na história foi para o México. Cuarón é o quinto mexicano a faturar a estatueta nos últimos seis anos e o recado foi dado: nenhum muro pode conter uma força criativa. “O nosso trabalho é olhar para onde ninguém olha. Essa responsabilidade se torna muito maior numa época onde estamos sendo encorajados a não olhar”, discursou Cuarón, que levou para as telas, em preto e branco, suas memórias de infância, com o foco na sua babá, indígena.

Por "Roma", Alfonso Cuarón levou três estatuetas para casa (Foto Divulgação/The Academy)

Por “Roma”, Alfonso Cuarón levou três estatuetas para casa (Foto Divulgação/The Academy)

O Oscar começou com um show da banda Queen, cujo líder Freddie Mercury tem sua história contada em “Bohemian Rhapsody”, que rendeu o Oscar de melhor ator para um exagerado Rami Malek. O prêmio de melhor atriz foi para Olivia Colman, divina como a rainha de “A Favorita”, que fez o melhor discurso da noite, em uma mistura de emoção e humor. Ambos tinham fortes rivais e suas premiações não foram uma unanimidade. Muitos apostavam em Mortensen, de “Green Book”, e tudo indicava que Glenn Close, de “A Esposa”, finalmente levaria seu primeiro Oscar. Mas Oscar é Oscar e todos os anos há os “injustiçados”. Fica para a próxima.

Depois do “Oscar branco” de temporadas passadas, o ano de 2019 deu visibilidade aos artistas e profissionais negros do cinema. Regina King abriu a festa com o prêmio de melhor atriz coadjuvante em “Se a Rua Beale falasse”, um drama que se passa no Harlem dos anos 1970. Depois teve o divertido “Infiltrado na Klan”, de Spike Lee, que levou o prêmio de melhor roteiro adaptado. Lee comemorou com “um pulo” em Samuel L. Jackson e mandou ver: “Diante do mundo, eu gostaria de reverenciar os ancestrais que construíram esse país, e também os que sofreram genocídios”, disse ele em seu discurso. “Os ancestrais vão ajudar a voltarmos a ganhar nossa humanidade. As eleições de 2020 estão chegando, vamos pensar nisso. Precisamos nos mobilizar, estar do lado certo da história. É uma escolha moral. Do amor sobre ódio. Vamos fazer a coisa certa”, finalizou, citando seu próprio filme.

Spike Lee e o salto em Samuel L. Jackson (Foto  Divulgação/The Academy)

Spike Lee e o salto em Samuel L. Jackson (Foto Divulgação/The Academy)

E ainda teve “Pantera Negra”, que faturou três prêmios técnicos, dois deles históricos: o Oscar de figurino, para Ruth E. Carter, a primeira negra a vencer na categoria, e que já havia sido indicada por “Amistad (1997) e “Malcom X” (1992), e o Oscar de direção de arte para Hannah Beachler, também a primeira mulher negra a ganhar na categoria. “A Marvel criou o primeiro super-herói negro, mas com o nosso figurino o transformamos em um rei africano”, discursou Ruth. “Pantera Negra” é diversão de primeira e elevou o nível dos filmes de super-heróis com uma história bem contada e, é claro, com o visual impressionante e merecidamente premiado.

Lady Gaga ganho um Oscar e "monstrinhos" vibraram (Foto  Divulgação/The Academy)

Lady Gaga ganhou um Oscar e “monstrinhos” vibraram (Foto Divulgação/The Academy)

E não dá para esquecer Lady Gaga, que venceu como melhor canção com “Shallow”, a única estatueta de “Nasce uma Estrela”. Depois de uma emotiva apresentação da música ao lado de Bradley Cooper, a artista que já desagradou muita gente na indústria do entretenimento saiu ainda mais consagrada (como se isso fosse possível) de uma temporada em que faturou o Globo de Ouro, o Critics Choice, o Grammy, o BAFTA… “Não é sobre ganhar. É sobre não desistir. Não é sobre quantas vezes você é rejeitada, mas quantas vezes você vai em frente”, discursou. Nas redes sociais os “monstrinhos”, como seus fãs são conhecidos, deliraram.

Para marcar ainda mais a “festa esquisita”, o prêmio de melhor documentário em curta-metragem foi “Absorvendo o Tabu”, trabalho feito por financiamento coletivo que registra o nascimento de uma pequena fábrica de absorventes na Índia, país onde o estigma ao redor da menstruação é tão grande que muitas meninas abandonam a escola quando começam a menstruar (disponível no Netflix). Rayka Zehtabchi, que foi a única mulher indicada da categoria, declarou, emocionada: “Eu não consigo acreditar que um filme sobre menstruação ganhou o Oscar”. Pois é.

VENCEDORES

Filme: “Green Book: O guia”
Diretor: Alfonso Cuarón (“Roma”)
Ator: Rami Malek (“Bohemian Rhapsody”)
Atriz: Olivia Colman (“A Favorita”)
Ator coadjuvante: Mahershala Ali – “Green Book – O guia”
Atriz coadjuvante: Regina King – “Se a Rua Beale falasse”
Trilha sonora original: “Pantera Negra”
Roteiro adaptado:”Infiltrado na Klan”
Roteiro original: “Green Book – O guia”
Edição: “Bohemian Rhapsody”
Fotografia: “Roma”
Filme de língua estrangeira: “Roma”
Melhor animação: “Homem-Aranha no Aranhaverso”
Canção original: “Shallow”, “Nasce uma estrela”
Figurino: “Pantera Negra”
Curta-metragem: “Skin”
Edição de som: “Bohemian Rhapsody”
Mixagem de som: “Bohemian Rhapsody”
Curta de animação: “Bao”
Direção de arte: “Pantera Negra”
Efeitos visuais: “O primeiro homem”
Documentário: “Free Solo”
Documentário curta-metragem: “Absorvendo o tabu”

Sobre Daniela Prandi

Daniela Prandi, paulista, jornalista, fanática por cinema, vai do pop ao cult mas não passa nem perto de filmes de terror. Louca por livros, gibis, arte, poesia e tudo o mais que mexa com as palavras em movimento, vive cada sessão de cinema como se fosse a última.

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