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ATENÇÃO! DESCUBRA SE VOCÊ TAMBÉM TEM OS SINTOMAS
Fé / Rafa Carvalho (arquivo pessoal)

ATENÇÃO! DESCUBRA SE VOCÊ TAMBÉM TEM OS SINTOMAS

POR RAFA CARVALHO

Eu comecei a escrever por sobrevivência.

A vida me vinha demasiadamente intensa, e desaguar – palavras num papel – parecia-me um jeito assim: de respirar. Assimilar o tanto. Não se afogar em tudo. Eu escrevia como um homem-bomba em cujo corpo a vida explode e que, ironicamente: não quer rebentar. Obviamente, só me restou o fracasso. Rebentei muitas vezes. Morri, outras tantas. A dura realidade é que a palavra pode pouco, ou quase nada, frente ao existir.

Escrever pra se ter um respiro. Viver, pra perder o fôlego.

Assim eu fui. Passei dos 27. Recebi Saturno em minha casa, até que nem tão bagunçada quanto imaginei que estararia. Cheguei aos 33. Fracassado, irreconhecido, mas cheio de milagres. A vida me aplicou sua violência-gentil, no sentido da essência. Me encheu de fundamentos, quando sonhei asas. Mas nem por isso, me privou de aventurar. Não posso dizer que não girei-mundo, embora inda haja tanto.

De uns tempos pra cá, experimentei assentamentos. Como regar uma planta diariamente. Dizer boa noite todas as noites, numa cama única. Ver menos plantas exóticas porque estrangeiras, mas saber quando vai florir o boldo. No quintal. Quando vai parir seu cacho, a bananeira. A evolução do outono, num mesmo ângulo de vista. Semana. Após semana.

Nisso, a vida me deu um filho. Ele foi ao mesmo tempo o poema que nunca escrevi. E o motivo, mais impraticável para a escrita. Há quase três meses eu não caibo, muito mais que antes. Há quase três meses as palavras ficaram menores. Há quase três meses eu fracasso, bem melhor do que podia. Meu filho reouve em mim esse direito. Do perder a hora. E concomitante: aumentou urgências. A demanda pela possibilidade. Habilidade de existir, responder à vida. Sem palavras. Meu filho resgatou e transcendeu. Muitas paixões que tive. Venturas. Descobertas. Texturas. Sabores. Sentimentos. Ao ponto de eu saber que nunca tive nada. Como agora não tenho um filho. Sim. Filhos são do mundo. Disto: do existir.

Mas um filho me garantiu, de novo, o improvável de ir ao banheiro e já sentir saudade. O êxtase de reconhecer. Eu me lembro de ter uma fase, na infância quase adolescência, em que todas as manhãs, ao acordar, eu chorava. Caía, nessa profunda angústia: e chorava. Chorava a primeira meia hora do dia. E, só depois, é que podia viver. Chorava sem saber motivo. Parecendo não haver porquê.

Levou tempo, até que eu entendesse. Eu tinha 21 anos. Sentado na areia da praia em Kushikino. De frente para o Sol se pondo ao Mar da China Oriental. Ali eu soube. Ser marinheiro. Não necessariamente desses mares. Mas ali eu acessava minhas raízes: nômades. Ciganas. Minha herança de caixeiro viajante. Do viver fora da caixa. Ali eu desvendei: a beleza dos ocasos. E alvoradas. O mais lindo que há no tênue. Aprendi por dia e noite. O yin e o yang. Um pouco disso, daquilo, que ali me pareceu iluminada esta questão, do quanto eu já não poderia ser pleno, sem aquele lado do mundo. De como aquilo tudo me fazia falta, nas muitas manhãs de angústia em Campinas. Bastou reconhecer. E ali, também, eu reconheci que em Campinas: tinha tudo. Sim. Ao mesmo tempo. Em cada uma das manhãs, em si. Tanto que ali, eu chorei por Campinas, pela infância. E soube, um pouco menos e tranquilo, dos mistérios estes: do planeta. Coisas que não acessamos, ou por nunca ter havido, ou por ter havido demais. Mas que sabemos. Nalgum íntimo de nós: as sabemos.

A Terra é tudo isto. E de uma vez: é só um porto. Ela assim, inteira. Um porto. Pra barcas siderais, galáxias distantes, Brasil, Japão, China. Argentina. Tudo é muito único. A poesia não conta só daqui. É por isso que idioma nenhum sabe resolver a poesia. A poesia é da conta da viagem. O motivo pelo qual falando, escrevendo, a gente não dá conta de nada.

A poesia é isto: Nada. Justamente porque tudo.

É confuso, dúbio: paradoxal. Eu sei. Meu filho se chama Fé. E ele só não devolveu a fé, a mim, porque essa eu nunca perdi. Nem quando a enfermeira me disse: ele está morto. Meu filho não me devolveu assim, esse sentido. Mas ampliou. Ampliou gentil e violentamente. Com um choro manso, um sorriso só com o cantinho da boca – exatamente como eu fazia, meus pais me contam. Com mãos mínimas, meu filho segurou a poesia. Coisa que nem o maior dos navios cargueiros no mundo aguentaria transportar.

Poesia é fé.

É pescar um peixe sem pesca. E viver morrendo. Morrer assim: pleno da vida. É o que dá, viver num planeta dialético. Dual. As coisas são e não são. É relativo. O Sol se vai em Kushikino. Pra nascer noutro lugar.

A vida, filho. Talvez um dia você leia este texto. E, se o fizer, saiba que: cê ainda nem tinha três meses completos, quando já demonstrava todos os sinais, sintomas, de saudade. Pra muitos, esse seu pai é só um monte de mitos. Um pescador, contador de histórias. Pois saiba que sou tudo isso sim. E nunca se envergonhe. Pelo menos não de si mesmo. Pode crer que mesmo assim, esquisito, seu pai foi muito feliz até você chegar. Muito mais ainda: depois de sua vinda.

E nesse mundo de mão dupla, tudo que grafo, aqui, é também cartografia. Cartas minhas a você, Fé. E a ninguém. Mapas dos afetos. E saudade. O seu pai, filho, é um antro de saudades.

Quem me vê nu, não enxerga tatuagem alguma, por meu corpo. Mas elas existem, filho. Assim como sou marinheiro. Como amo o mar e a terra. E sempre estou extremamente feliz de estar em um, mas sentindo angustiosamente a falta doutra. Ou vice-versa. Assim. Meu corpo é todo, inteiro, tatuagem. A maior delas é você. Filho. Fé.

Me falta palavra, corpo. Pra tudo isso. Pra nada.

É confuso, eu sei. Comecei a tocar pandeiro pra ele, cantando junto cantigas. Coisas do sertão. Coco, pontos, capoeiras. Fazendo aboios, sambas, bois e ijexás. Ficou imensamente feliz. De rir, gargalhar. Dos olhos brilharem, as pernas chutarem. E os braços agitados. Do corpo todo sacudir. Forte. Era Fé experimentando o não caber. Um querer expressar, caçar palavra. Pra depois aprendê-las, daqui um tempo. E daqui mais tempo ainda, sentir que elas não servem. Não dão conta, da viagem. E confrontar que as mãos maiores, acabam por desaprender o impossível.

Imediatamente depois, Fé começou a chorar. De esperneio e grito – coisa que ele não faz nem com cólica ou qualquer incômodo. Molhou todos seus olhos de lágrima. Depois riu. De novo. Fez bico. Quis começar chorar, outra vez. Deu um gritinho de euforia. Suspirou. É isso. Tava bobo, o pequeno. De repente. Diante da vida. Dessas memórias futuras, ou profundas. Como as tatuagens que as pessoas não conseguem ver. Mas poderiam. Bobo, como sempre fui. E como estou, bem mais, depois que veio à luz.

E porque tudo é mesmo assim, contraditório, eu, pai, que sei o quanto vale a pena, mas também o quanto é foda, essa vida, de sensibilidade aumentada, de ver sozinho as coisas, meio como quem faz arte, um tanto “outista”, utópico, punk, brega, esquisito e tanta coisa além, quando vi esse menino assim, todo bobo oscilante, não cabendo, nos sintomas da saudade, pensei: que peninha, o bendito é poeta também.

Sobre Rafa Carvalho

Rafa Carvalho é poeta apesar de tudo. Em 15 anos de carreira, são 21 países, por quase todos continentes, trabalhando com Arte, Educação e fazendo de tudo, porque tudo é o que a Poesia pode ser. E, para quem acha que Poesia não é profissão, ele já trabalhou de garçom em inúmeros estabelecimentos, na demolição civil escandinava como imigrante parcialmente legal e, atualmente, está desempregado.