Qual o valor? A pergunta radical de Mário Gravem Borges
Mário Gravem Borges: sucessão no Fórum Municipal de Cultura (Foto Martinho Caires)

Qual o valor? A pergunta radical de Mário Gravem Borges

Por José Pedro Martins – Ensaio fotográfico Martinho Caires   

Uma viagem pelos trilhos das artes plásticas, com parada na estação memória. Mário Gravem Borges fez uma espécie de síntese de sua trajetória artística e de suas inquietações existenciais e políticas na intervenção que batizou de “Trem bala, caixeiro viajante, meu doce museu de arte”, com a qual participou da segunda edição dos Movimentos Convergentes, na Estação Cultura, em Campinas.

Entre 6 e 17 de setembro, vários artistas ocuparam, com diferentes linguagens, os espaços da Estação Cultura, estruturada desde 2003 na antiga estação central da Companhia Paulista de Ferrovias, inaugurada em 1872 e desativada para trens de passageiros em 2001.

Gravem transformou em residência artística um dos vagões vazios estacionados no complexo. A cenografia externa e interna do vagão foi composta com obras de arte, algumas de sua autoria e outras assinadas por grandes nomes da pintura e escultura, incluindo amigos muito queridos. Também convidou artistas para complementar a ambientação.

Quanto custa? Qual o valor? Perguntas cruciais no mundo contemporâneo

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“Como todo artista, quero provocar o espanto, a curiosidade, a dúvida, e nada melhor do que a partir de um conjunto que pode ser interpretado como kitsch”, explica Gravem. Kitsch, lembra, foi a instalação que ele e outros alunos da Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI) prepararam para a primeira Bienal Internacional de Desenho Industrial, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1968. “Era uma mesa que reproduzia um banquete, em estilo meio barroco, meio neoclássico, mas em essência kitsch, que fazia um contraponto com as linhas modernas da bienal”, explica.

O itinerário emocional-estético de Mário Gravem Borges começa, então, pelo próprio conjunto das obras reunidas no vagão metamorfoseado, que faz uma referência direta a sua formação, na ESDI, hoje vinculada à Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

Depois da visão do todo, da floresta, os detalhes, as árvores. A conversa estimulada a partir de cada um dos objetos reunidos por Gravem permitiu ao artista nascido em Campinas traçar um roteiro por sua memória afetiva, proposta central da ocupação-instalação.

O artista que colhe e acolhe

O artista que colhe e acolhe

Estava lá, por exemplo, uma gravura de Picasso, referência a todo legado da arte moderna europeia, muito forte na formação de Gravem. Depois de estudar no Rio de Janeiro, viveu anos na Inglaterra. Em 1981, foi o primeiro não-britânico a expor no Institute of Contemporary Art, em Londres.

Muitas exposições nestes anos, em muitos países. Mas as influências maiores para o pintor são, mesmo, as raízes brasileiras, e era de conterrâneos a maioria das obras que ele agrupou no seu trem-bala particular, “enquanto aquele trem-bala tão prometido não vem”.

Aldemir Martins, Afrânio Fonseca, João Bosco de Oliveira, Afrânio Montemurro, Odila Carvalho Braga e Luciane Kunde, com suas esculturas em papel machê, estavam lá, no ateliê ferroviário do artista que retornou à sua cidade natal no final da década de 1980.

E por falar em raízes brasileiras, essencial a presença de esculturas católicas anônimas, de madeira, que Gravem gosta de colecionar e que remetem a uma busca pessoal, profunda. A sua procura religiosa, explica, é motivada porque pretende entender algo tão radicalmente humano: por que a dor?

O flagelo de Cristo na cruz, diz, é o sofrimento maior. Pelo sofrimento, prossegue, Cristo se iguala à humanidade. A dor, o sofrimento, completa, também são e devem ser material para o artista provocar a reflexão, através de suas obras. Um Cristo negro, a propósito, se destaca em uma das obras próprias de Gravem expostas na Convergentes.

Qual a fronteira entre o moderno e o contemporâneo?

Qual a fronteira entre o moderno e o contemporâneo?

Muitas viagens pelo Brasil, uma delas, pela Amazônia, com os pais e irmãos. Sempre a pesquisa, a interrogação que não tem preço.

Pois, no núcleo do projeto, a pergunta: quanto vale? O que tem mais valor, o dinheiro, o corpo, a vida? Qual o maior ativo? Perguntas centrais, entende, diante do deus-mercado, no âmago da mercantilização da existência.

E o que é arte moderna, o que é arte contemporânea? Quanto vale a arte? Outras perguntas cruciais, que Gravem desejava ver suscitadas no visitante ao seu vagão de lembranças.

Uma reprodução de Juan Muzzi era o objeto que, para ele, representava a indagação sobre o valor da arte. Radicado no Brasil, Muzzi é um empresário de sucesso, mas igualmente um grande artista. “Que sempre se perguntou sobre o valor de obras de arte”, observa Gravem, curador de uma preciosa exposição do uruguaio em Campinas em 2006.

Mariangela Guadagnin, Dimas Garcia, Maria Helena Motta Paes, Jean Nascimento, Renato de Sousa, Lila Sampaio, Jerci Maccari, JadsonChic, outros companheiros na galeria de recordações.

Flashes, recortes, sinapses na moldura do tempo. Mário Gravem Borges constatou que sua proposta teve o impacto pretendido quando viu as crianças interagindo com o trem-bala, com as peças que o compunham.

Interagindo e perguntando, indagando.

O que o menino de Campinas, descendente de índios, portugueses, britânicos e holandeses, e que percorre, caixeiro-viajante, o mundo e a arte em todas as suas tessituras, sempre cultivou, em vida e obra. A vida feita obra de arte.

Ambientação kitsch, para provocar reflexão

Ambientação kitsch, para provocar reflexão

Por José Pedro Martins - Ensaio fotográfico Martinho Caires    Uma viagem pelos trilhos das artes plásticas, com parada na estação memória. Mário Gravem Borges fez uma espécie de síntese de sua trajetória artística e de suas inquietações existenciais e políticas na intervenção que batizou de “Trem bala, caixeiro viajante, meu doce museu de arte”, com a qual participou da segunda edição dos Movimentos Convergentes, na Estação Cultura, em Campinas. Entre 6 e 17 de setembro, vários artistas ocuparam, com diferentes linguagens, os espaços da Estação Cultura, estruturada desde 2003 na antiga estação central da Companhia Paulista de Ferrovias, inaugurada em…

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