Capa » Cultura Viva » Música e passos do flamenco embalam homenagem a Bernardo Caro e 50 anos do MACC
Música e passos do flamenco embalam homenagem a Bernardo Caro e 50 anos do MACC
O tributo a Bernardo Caro e aos 50 anos do MACC (Fotos Martinho Caires)

Música e passos do flamenco embalam homenagem a Bernardo Caro e 50 anos do MACC

Em junho de 1958, o Grupo Vanguarda publicava o seu manifesto, que não deixava dúvidas quanto ao que queriam aqueles artistas de Campinas: “aos escribas q pretendem que uma andorinha modelada no bronze/  deva ter penas e cheiro de andorinha /propor / mostrar / demonstrar / fazer / refazer / renovar”. A revolução estética projetada pelos integrantes do Grupo Vanguarda foi fundamental para o movimento que levou à criação, em 1965, do Museu de Arte Contemporânea de Campinas (MACC). Pois o próprio MACC foi o palco, na noite desta quarta-feira, 12 de agosto, da abertura da exposição de homenagem a Bernardo Caro, um dos expoentes do Grupo Vanguarda, marcando os 50 anos de fundação do Museu. E foi uma noite com a música e os passos do flamenco, simbolizando a estreita ligação que Caro manteve com a Espanha.

Bernardo Caro foi multiartista, indo da pintura à escultura e outros territórios

Bernardo Caro foi multiartista, indo da pintura à escultura e outros territórios

A exposição “Kaleidoscópio – Censura e Liberdade – Bernardo Caro” reúne 80 obras do multiartista, que foi pintor, gravador, desenhista, escultor, cineasta, fotógrafo, educador e professor. Nascido em Itatiba, em Itatiba, em 1931, passou já em 1933 a morar em Campinas, onde viveria toda a vida e faleceria, em 2007. Caro passou a integrar o Grupo Vanguarda em 1964, o ano que marcou o início do regime militar. Com os demais membros do Vanguarda, como Thomaz Perina, Mário Bueno, Geraldo Jürgensen, Francisco Biojone e Maria Helena Motta Paes, Caro passa a driblar a censura e o medo com uma obra seminal, que inclui Homens/Protesto, de 1967, quando a ditadura ficava mais intolerante.

Algumas das obras seminais do artista e educador

Algumas das obras seminais do artista e educador

Realismo fantástico, arte pop, arte conceitual, social. Caro transitou por vários estilos, sempre fiel ao primado da liberdade, daí o nome da exposição que tem como curadores Fernando de Bittencourt, curador do MACC, e Iracema Salgado, assessora de Artes Visuais da Secretaria Municipal de Cultura de Campinas. As obras pertencem em sua maioria à família de Caro, o artista que também deixou um importante legado acadêmico, tendo sido diretor do Departamento de Artes Plásticas da PUC-Campinas, de 1979 a 1982, também diretor do Departamento de Artes Plásticas da Unicamp, entre 1983 e 1986, e diretor do Instituto de Artes da mesma Universidade, de 1986 a 1989.

Linha do tempo mostra a trajetória de Caro e Grupo Vanguarda

Linha do tempo mostra a trajetória de Caro e Grupo Vanguarda

Bernardo Caro foi vice-cônsul da Espanha em Campinas, de 1996 a 2006. Chegou a expor em várias cidades espanholas e em 2007 o Instituto Cervantes, de São Paulo, montou uma retrospectiva da obra do artista, que morreu pouco tempo antes. Com entrada grátis, a exposição “Kaleidoscópio – Censura e Liberdade – Bernardo Caro” fica no MACC até 15 de novembro, a data da proclamação da República, cujos ideais sempre foram preciosos para o artista, assim como para todos membros do Grupo Vanguarda .

Fernando de Bittencourt e Iracema Salgado, curadores da exposição

Fernando de Bittencourt e Iracema Salgado, curadores da exposição

 

Grupo Vanguarda, o seu Manifesto (publicado originalmente em 1958, no jornal do Centro de Ciências, Letras e Artes – CCLA)

como princípio antes de tudo: m o v i m e n t o

antimodorra

predicado essencial: fazer

fazer conscientemente: ir ao âmago da coisa

por uma arte atual

pela renovação/revificação constante e progressiva

pela comunicação dos chamados §segredos da arte§

antiturris eburnea

contra a reserva dos mestres que guardam para si o pulo do gato

por uma crítica partindo do exame da coisa feita

NÃO §crítica 8 ou 80§ afirmação ou negação apoiada em pontos

estranhos ao objeto

interessa a obra em si s/ valor atual não o nome q a assina

pelo surgimento de uma atitude de debate

não basta dizer: isto é bom isto não presta

cabe dizer: porque é bom ou porque não presta

contra a cultura de almanaque

contra a crítica à moda blackwood

cumpre livrar a arte do misticismo inoculado pelos medalhões

asas conscientes

fuga porém sabendo os liames

pela divulgação impôr

escrever nos muros e andaimes se for preciso

arte para o lado de fora dos museus e das galerias fechadas

coerência c/ o atual estágio evolutivo da civilização

um poema é um poema

uma tela é uma tela

coisas não necessariamente ligadas a uma idéia determinada

de cujo esforço de expressão surgiram

sobrepor-se aos falsos estetas q usam vocabulário emprestado

a tratados superados

aos escribas q pretendem que uma andorinha modelada no bronze

deva ter penas e cheiro de andorinha

propor / mostrar / demonstrar / fazer / refazer / renovar

atitude de luta: anti-expectativa

conciliação de vectores numa ampla resultante:

renovação

não seremos velhos amanhã porque teremos mudado

artists are the antennas of the race (pound)

comunicação não / with usura / comunicação para arte presente

arte hoje

fora com os burgomestres falantes & vazios

fora com os fritadores de bolinhos

Alberto A Heinzl

Alfredo Procaccio

Edoardo Belgrado

Franco Sacchi

Geraldo Jürgensen

Geraldo de Souza

Maria Helena Motta Paes

Mário Bueno

Raul Porto

 

Sobre ASN

Organização sediada em Campinas (SP) de notícias, interpretação e reflexão sobre temas contemporâneos, com foco na defesa dos direitos de cidadania e valorização da qualidade de vida.

Deixe uma resposta