quarta-feira , 26 julho 2017
A recusa do Vaticano ao convite do CMI para programa ecológico e a mudança com a Laudato si
Apresentação da cultura local no último dia da Conferência de JPIC em Seul, Coreia do Sul, em março de 1990 (Foto José Pedro Martins)

A recusa do Vaticano ao convite do CMI para programa ecológico e a mudança com a Laudato si

A encíclica Laudato si, do papa Francisco, lançada a 18 de junho de 2015, marcou o ingresso oficial do Vaticano, e com muita força e repercussão, na discussão ambiental planetária. Mas a Santa Sé poderia estar há muito mais tempo nesse debate, se tivesse aceito o convite para participar do Programa Justiça, Paz e Integridade da Criação (JPIC) do Conselho Mundial de Igrejas (CMI).

Sediado em Genebra, Suíça, o CMI é a principal organização ecumênica internacional, reunindo mais de 350 Igrejas, como as chamadas denominações evangélicas históricas. O apelo que resultou no Programa JPIC foi feito na Assembleia do CMI em Vancouver, Canadá, em 1983.

A declaração de Vancouver indica aquela que deveria ser, para o CMI, a única resposta cristã possível naquele momento histórico, de acúmulo de arsenal atômico pelas grandes potências, que poderia levar a humanidade à autodestruição: ” O alicerce desta ênfase deve ser confessando Cristo como a vida do mundo e da resistência cristã aos poderes da morte do racismo, do sexismo, da opressão de castas, da exploração económica, o militarismo, as violações dos direitos humanos e o mau uso da ciência e tecnologia.

O encontro em Vancouver evoluiu o processo que resultou no JPIC. Em 1988, uma mensagem do Comitê Executivo do CMI fez a convocação para uma grande conferência de Igrejas sobre o JPIC, com o propósito de “fazer afirmações teológicas sobre justiça, paz e integridade da criação, e para identificar as principais ameaças à vida nestas três áreas e mostrar sua interconexão, e para propor às Igrejas atos de compromisso mútuo em resposta a elas”. A conferência foi marcada para Seul, Coreia do Sul, em março de 1990.

Ainda em janeiro de 1987, o então secretário-geral do CMI, Emilio Castro, fez convite formal ao Vaticano para participar como convidado do encontro em Seul. A Igreja Católica não é membro oficial do CMI. A resposta do Vaticano, então sob João Paulo II, foi dada em dezembro de 1987 e foi negativa, argumentando com as diferenças de perspectiva entre o CMI e a Santa Sé.

A posição do Vaticano não impediu que organizações católicas europeias, e mesmo conferências nacionais de bispos, participassem de encontros relacionados ao processo do JPIC, como um evento em Basileia, Suíça, em maio de 1989. O CMI não desistiu e em setembro de 1988 fez novo convite ao Vaticano, com o pedido de que fossem indicados 50 representantes católicos na conferência de Seul.

Com algum atraso o Vaticano respondeu que poderia enviar 20 representantes, mas o mal estar já estava consolidado e Emilio Castro não se furtou de fazer críticas públicas à postura da mais alta hierarquia católica. A delegação do Vaticano também deixou claro que não iria apoiar oficialmente o que foi aprovado em Seul, na medida em que algumas de suas afirmações “eram dificilmente conciliáveis com a doutrina católica”.

Esses gestos motivaram muitas críticas entre os setores católicos mais progressistas, e que há anos já vinham alertando para a importância e gravidade das questões ambientais, que também deveriam merecer atenção e posicionamento dos cristãos. Uma das vozes mais críticas nesse sentido foi a do missionário irlandês Sean McDonagh, que viveu durante muitos anos nas Filipinas e é considerado um dos pioneiros do ambientalismo contemporâneo.

Em 1986 McDonagh lançou uma obra que se tornou clássica, “To Care for the Earth: a Call to a New Theology”, e na qual propunha uma “nova história do universo”, como forma de questionar a visão cientificista que tem prevalecido como paradigma da ordem tecno-industrial. Uma das alternativas propostas pelo religioso – que trabalhou com os aborígenes T`Boli, na ilha filipina de Mindanao – é que o cristianismo aprenda com as tradições indígenas e, com isso, contribua para a reformulação de seu modo de ver a vida humana e a natureza.

Há décadas, portanto, o sacerdote columbano Sean McDonagh é uma voz de referência no meio católico, sobre questões ambientais. E foi com essa credencial que criticou a posição do Vaticano sobre o processo de Justiça, Paz e Integridade da Criação do Conselho Mundial de Igrejas.

“Em um mundo inundado com notícias da devastação ecológica na Europa Oriental, América Latina e Sudeste Asiático, a fome na África e na guerra no Oriente Médio, o processo de Justiça e Paz é um farol de esperança e um modo concreto de ajudar os cristãos de todas as Igrejas promover a paz, a justiça e uma administração responsável da criação de Deus”, escreveu o missionário irlandês. “Ninguém sugeriria que o processo é perfeito ou que a Santa Sé não poderia trazer uma dimensão enriquecedora para o debate. Mas isso não vai acontecer enquanto ele permanecer à margem”, afirmou, ainda na década de 1990.

Mas houve mudanças importantes na cúpula católica, com o papado de Francisco, e uma nova postura é anunciada, com a publicação da encíclica Laudato sí. O próprio Sean McDonagh foi uma das vozes ouvidas na elaboração da encíclica. “O que o papa Francisco Francisco apresenta é uma doutrina um tanto revolucionária. E ela está muito à frente de onde a Igreja Católica se encontra em termos de ministérios que se preocupam com meio ambiente nas paróquias e dioceses locais”, comentou.

McDonagh continua defendendo uma mudança radical de olhar do mundo católico para a questão ecológica, e entende que Laudato sí pode ser um importante impulso nesse sentido. A expectativa é de toda comunidade internacional, pois os desafios apontados pelas mudanças climáticas, pela erosão da biodiversidade, crise hídrica, entre outras questões, exige amplo envolvimento na busca de soluções. (Por José Pedro Martins)

Arte no final do encontro em Seul, pela justiça, paz e integridade da criação (Foto José Pedro Martins)

Arte no final do encontro em Seul, pela justiça, paz e integridade da criação (Foto José Pedro Martins)

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