Piracicaba 249 anos: cidade une identidade, cultura e visão de futuro
Rio Piracicaba transbordando, em janeiro de 2016: imagem de vitalidade (Foto Adriano Rosa)

Piracicaba 249 anos: cidade une identidade, cultura e visão de futuro

Por José Pedro Soares Martins

Piracicaba, 31 de julho de 2016 – Piracicaba completa 249 anos nesta segunda-feira, 01 de agosto, como exemplo de cidade que busca preservar a sua cultura e identidade, ao mesmo tempo que pensando o futuro. É o olhar para o local, o regional e o global, de forma simultânea. Assim a cidade começa a se preparar para comemorar os 250 anos, protegendo sua memória e sinalizando os novos tempos.

O eixo de Piracicaba, o elemento que fundamenta a identidade cultural local, é muito conhecido e celebrado. É o rio Piracicaba, o rio “onde o peixe pára”, em idioma indígena.

As principais festas, como a Festa do Divino (que já soma 190 edições), são realizadas no Rio Piracicaba. A preocupação com as raízes culturais é política permanente e resultou em iniciativas como a Bienal Naifs, que já teve 12 edições, como uma das mais importantes ações do gênero no país. A Bienal é realizada no SESC Piracicaba, localizado… a poucos metros da rua do Porto, ícone de cultura e lazer.

Prêmio Destaque Aquisição, para Augusto Japiá, de Paulista (PE),na edição de 2014 da Bienal Naïfs do Brasil, em Piracicaba (Foto José Pedro Martins)

Prêmio Destaque Aquisição, para Augusto Japiá, de Paulista (PE),na edição de 2014 da Bienal Naïfs do Brasil, em Piracicaba (Foto José Pedro Martins)

Mas a inquietação com a proteção da memória e da identidade não tem uma conotação provinciana, pelo contrário. A Campanha Ano 2000, lançada em 1985, pela Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Piracicaba, sob a liderança do engenheiro Nelson de Souza Rodrigues, e voltada para denunciar a degradação do rio e propor soluções de mudança, levou à criação em 1989 do Consórcio Intermunicipal das Bacias dos rios Piracicaba e Capivari. Hoje também envolvendo a bacia do rio Jundiaí.

Criado por iniciativa do então prefeito de Piracicaba, José Machado, com apoio do prefeito de Bragança Paulista, Nicola Cortez, o Consórcio PCJ tornou-se referência nacional e internacional no debate sobre recursos hídricos. Por sua atuação, Machado tornou-se presidente da Agência Nacional de Águas (ANA).

A atuação do Consórcio e região em geral foi determinante para a nova legislação paulista e brasileira de recursos hídricos, que incluiu por exemplo a criação de comitês de bacias. Os Comitês PCJ são atualmente presididos pelo prefeito de Piracicaba, Gabriel Ferrato dos Santos.

O agrônomo com um exemplar do raríssimo cascudo-espinho (Foto Adriano Rosa)

O agrônomo Nelson Rodrigues com um exemplar do raríssimo cascudo-espinho (Foto Adriano Rosa)

MEMÓRIA DO RIO E DA ESPERANÇA

Principal liderança da Campanha Ano 2000, o engenheiro agrônomo Nelson de Souza Rodrigues é um ícone da preocupação de Piracicaba com a preservação da memória e da identidade, ao mesmo tempo em que se preocupa com a qualidade de vida das novas gerações.

Além de lutar pela despoluição do rio que representa a própria alma da cidade, o agrônomo se voltou, ao longo de toda a sua vida, para catalogar e documentar espécies animais e vegetais que fazem a riqueza da biodiversidade das bacias dos rios Piracicaba, Mogi-Guaçu e outras do interior de São Paulo.

Quando ainda morava em Pirassununga, na de´cada de 1950, trabalhando no Posto Avançado de Piscicultura do Instituto de Pesca, da Secretaria Estadual da Agricultura, o agrônomo nascido em São Paulo teve a oportunidade de cultivar uma paixão antiga. Junto ao rio Mogi-Guaçu, o encanto cada vez maior pelas águas e os peixes, mas também se tornando um grande colecionador de pássaros. Chegaria a ter cerca de 400 deles, de dezenas de espécies.

Tangarás azuis com faixa preta e topete vermelho, saíras do Rio Negro, handais, periquitos, araras, tico-ticos e um raríssimo japu-açu, entre outros, promovendo uma sinfonia permanente de cores e múltiplos sons. Dois pássaros tinham um certo xodó do colecionador. Eram duas sabiás, uma poca e uma laranjeira, ambas muito raras e muito procuradas. O agrônomo rejeitou grandes ofertas por esses e outros pássaros.

Nesses tempos, outro talento desenvolvido. Era o de taxidermista, a partir de técnicas que conheceu ainda em São Paulo. Foram muitos pássaros e peixes que ele submeteu à técnica. Mantém até hoje um exemplar de peixe raríssimo, o cascudo-espinho (Pterygoplichthys gigas).

Um dia, a libertação. As leis mudaram, a visão sobre os animais também. O agrônomo teve que libertar as suas aves. Muitas delas foram encaminhadas a instituições científicas, assim como a quase totalidade dos indivíduos empalhados. “Não foi muito fácil não ficar sem eles”, confessa, com um olhar de nostalgia feliz.

A vocação de Nelson Rodrigues para a documentação, para a guarda da memória, nasceu com ele. Em 1948, graduado como engenheiro agrônomo na ESALQ de Piracicaba, ele voltou para São Paulo. Dois anos depois, a primeira atividade profissional, mas ainda não era na área para a qual estudou.

Foi atuar como fotógrafo na capital paulista, chegando a trabalhar nos primórdios da legendária Companhia Vera Cruz. Os primeiros astros dos filmes brasileiros foram fotografados por ele.

Dominar e aprimorar as técnicas fotográficas foi determinante para que o agrônomo Nelson desenvolvesse um olhar diferenciado, sofisticado, para as coisas da natureza. Com esse olhar se tornou um dos pilares da inclinação de Piracicaba para preservar a memória, de olho no futuro melhor.

Não por acaso, deixou esse olhar como legado para o neto. Luccas Guilherme Rodrigues Longo é o coautor, com o avô, do livro “Piracicaba, seu rio, seus peixes”, lançado em 2014, pelo Proac do governo estadual e com apoio da Prefeitura de Piracicaba. O livro documenta o olhar de Nelson de Souza Rodrigues sobre o rio Piracicaba. São informações completas sobre o rio e a sua bacia de 1,2 milhão de hectares, com destaque para os estudos sobre peixes. O piracicabano Luccas é biólogo, especialista em Bioecologia e Conservação pela UNIMEP e mestre em Conservação de Ecossistemas Florestais pela ESALQ/USP.

Em agosto de 2014, rio Piracicaba quase seco: impacto das mudanças climáticas e problema de gestão (Foto José Pedro Martins)

Em agosto de 2014, rio Piracicaba quase seco: impacto das mudanças climáticas e problema de gestão (Foto José Pedro Martins)

Outra ação na cidade com visão local e global é a Agenda 21 de Piracicaba, que uniu vários segmentos em torno de uma plataforma comum. Ações de cidadania assim não são raras. O Conselho Coordenador das Entidades Civis de Piracicaba tem décadas de atuação e foi parceiro da Campanha Ano 2000.

E existe o Salão Internacional de Humor de Piracicaba, que neste ano está em sua 43ª edição. Nascido em plena ditadura militar, durante muito tempo o Salão foi um espaço único de livre expressão de ideias no Brasil. Depois alcançou fama mundial e é um dos principais territórios de manifestação das inquietudes e dos sonhos de artistas de muitos lugares, como intérpretes do que acontece em seus países. Há alguns anos o Salão de Humor é realizado no Engenho Central, um grande complexo com vocação cultural situado, claro, às margens do rio Piracicaba. Recentemente foi criada a Associação dos Amigos do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, para dinamizar ainda mais o evento.

Salão Internacional de Humor de Piracicaba: território de criação e crítica (Fotos José Pedro Martins)

Salão Internacional de Humor de Piracicaba: território de criação e crítica (Foto José Pedro Martins)

Memória da República – Além do eixo de identificação com o rio Piracicaba, a cidade de Piracicaba também cultura a memória da República. A República ainda em construção, mas que deu seus primeiros passos com o movimento que evoluiu na região de Piracicaba e Campinas, na segunda metade do século 19, pela força da cultura do café.

Neste aspecto o personagem central em Piracicaba é Prudente de Moraes, que viveu na cidade e foi o primeiro presidente civil da República, entre 1894 e 1898. As sátiras que a imprensa direcionou a Prudente de Moraes, em seu período na presidência, são indicativas do papel dos meios de comunicação na consolidação da democracia, desde essa época.

O espaço em que o piracicabano ou visitante pode apreciar essa lembrança dos primórdios da República é a casa onde Prudente de Moraes morou e que hoje sedia um Museu Histórico com o seu nome. No acervo do Museu, é possível apreciar peças como o número 35 da revista “Don Quixote”, de 1895, que publicou uma caricatura que se tornou clássica. A ilustração mostra o presidente correndo, com a legenda lapidar:  “Mas o chefe do Estado, prudentíssimo e ali ao lado, retirou-se sem cair na cova que lhe fora destinada”.

Página da edição 35 da "Don Quixote", de 1895, em que aparece no alto à direita Prudente de Morais em "fuga" (Hemeroteca Biblioteca Nacional)

Página da edição 35 da “Don Quixote”, de 1895, em que aparece no alto à direita Prudente de Morais em “fuga” (Hemeroteca Biblioteca Nacional)

A revista foi fundada por ninguém menos que Angelo Agostini, italiano nascido em 1843 e que no Brasil desde os 16 anos tornou-se um dos desbravadores do humor gráfico no país.  Vivendo primeiro em São Paulo, já aos 21 anos Agostini editou “O Diabo Coxo”. Depois morando no Rio de Janeiro, criou a “Revista Illustrada” e, também, a “Don Quixote”, cujo nome, assim citado com a grafia original, em homenagem ao personagem lendário de Cervantes, era a encarnação de seu espírito mordaz e demolidor.

Pois Prudente de Moraes tornou-se alvo da pena de Agostini. O presidente nascido em Itu, em 1841, e que faleceu em Piracicaba, em 1902, era chamado na “Don Quixote” como “Prudente de Mais”, uma referência ao seu suposto imobilismo diante de crises consecutivas ocorridas durante o mandato.

À esquerda, ala do Museu Prudente de Moraes com referências às sátiras ao ex-presidente (Foto Adriano Rosa)

À esquerda, ala do Museu Prudente de Moraes com referências às sátiras ao ex-presidente (Foto Adriano Rosa)

A realidade demonstrava que não era bem assim, muito pelo contrário. Foi durante o governo do piracicabano nascido em Itu que aconteceram as campanhas finalmente vitoriosas contra Canudos, o que rendeu vasto material para a imprensa e os seus ilustradores – lembrando que “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, um dos grandes pilares da literatura brasileira, é a crônica, dura e amarga, do conflito que teve Antônio Conselheiro no seu epicentro. O próprio Agostini é autor de uma imagem, de 1896, publicada na “Revista Illustrada”, apresentando Conselheiro repudiando a República.

Curiosamente, a “Revista Illustrada”, depois de 23 anos de atividades, encerrou o seu ciclo em 1898, o ano em que Prudente de Moraes deixou a presidência. A última edição, de número 739, foi o retrato da transição, expondo na capa Prudente conversando com o seu sucessor, o campineiro Moraes Salles, que acabava de voltar de viagem à Europa. A legenda não deixava por menos: “Em família. Conversaram animadamente sobre a Europa, as viagens, as manifestações, o estado sanitário etc. Só não trataram da política. Muito bem”. Angelo Agostini, o “algoz” de Prudente de Moraes, é o criador do “Nhô-Quim” e “Zé Caipora”, considerados personagens que ajudaram a lançar as bases das histórias em quadrinhos no Brasil. O cartunista morreu em 1910.

Prudente de Morais e Campos Salles, na "Revista Illustrada" (Hemeroteca Biblioteca Nacional)

Prudente de Morais e Campos Salles, na “Revista Illustrada” (Hemeroteca Biblioteca Nacional)

O Museu “Prudente de Moraes” tem em seu acervo, portanto, verdadeiras relíquias ilustrando as bases da democracia e da República no Brasil. E também não estariam nessas publicações as sementes do que viria a ser o próprio Salão Internacional de Humor de Piracicaba?

Novos desafios – Piracicaba cresceu muito e, claro, os desafios aumentaram de magnitude. A cidade tem em 2016 cerca de 380 mil moradores, segundo projeção da Fundação Seade, e é sede de uma Aglomeração Urbana que, em futuro não muito distante, pode vir a se transformar em região metropolitana. O incremento da violência é uma das maiores preocupações. Entre 2014 e 2015, a forte estiagem, aliada a sérios problemas de gestão no Sistema Cantareira, contribuíram para uma imagem que os piracicabanos não gostam: o seu rio quase seco, demonstrando que as mudanças climáticas vão exigir muito esforço coletivo e em particular dos poderes públicos.

O XV de Novembro, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) e a UNIMEP são outras referências importantes da memória de Piracicaba que, ao lado da forte identidade local, em torno do rio, são a base para busca de superação dos desafios. Daqui a um ano serão dois séculos e meio de uma trajetória peculiar no cenário de São Paulo e do Brasil.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>