Por José Pedro Martins
O Serviço Social do Comércio está completando 80 anos de atividades neste mês de setembro e é um grande motivo para comemoração, por parte de todos aqueles que valorizam a cultura, a cidadania, a ousadia criativa. O Sesc é o Brasil inteligente, que acredita na força inovadora de seu povo. Com razão, a aviação e a agricultura são apontadas como grandes destaques nacionais no cenário global, mas eu também colocaria o Sesc neste pódio, por tudo o que já fez e continuará fazendo pelo país, por sua crença no potencial de transformação e realização dos brasileiros.
Para começar, as unidades do Sesc são em si mesmas um manifesto, elas traduzem o que o órgão propõe para as comunidades onde estão instaladas. São verdadeiros oásis arquitetônicos, ilhas de pensamento e inovação geralmente no meio do cinza monótono das grandes cidades.
Podem ser releituras de monumentos históricos, como nos casos do Sesc Pompeia, em São Paulo, e do Sesc de Registro, no Vale do Ribeira. O Sesc Pompeia era uma antiga fábrica de tambores que foi repaginada pelo traço genial de Lina Bo Bardi e, em determinado momento, uma usina de inspiração para a cena underground paulistana.
Já o Sesc de Registro ocupa o conjunto arquitetônico conhecido como KKKK, a sigla de Kaigai, Kogyo, Kabushiki, Kaisha, a Companhia Ultramarina de Desenvolvimento que instalou 450 famílias nipônicas na colônia estruturada na cidade na década de 1920. Ao revitalizar monumentos históricos, o Sesc tem um propósito pedagógico, de mostrar à população a importância que tem a valorização de suas origens, de suas raízes culturais.
As unidades contemporâneas do Sesc também são especiais, pelas linguagens arquitetônicas que utilizam. São exemplares, neste sentido, as unidades de Guarulhos e as paulistanas de Birigui e 24 de Maio, esta, com a assinatura de ninguém menos que Paulo Mendes da Rocha (1928-2021), em um de seus últimos projetos.
E o Sesc também valoriza a sustentabilidade em suas instalações, como na unidade do Pantanal, entre os municípios de Poconé e Barão de Melgaço, no Mato Grosso, que é na prática um complexo que inclui a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Sesc Pantanal, a primeira das 13 áreas do Brasil consideradas Sítio Ramsar no Brasil. Convenção de Ramsar é como ficou conhecida a Convenção das Nações Unidas sobre Zonas Úmidas de Importância Internacional, que visa proteger as áreas úmidas, como a do Sesc Pantanal.
Chegar ao Hotel Sesc Porto Cercado, desde Cuiabá, já constitui um passeio a ser curtido em detalhes. A cada trecho da rodovia Estrada Parque Porto Cercado (MT-370) o Pantanal se apresenta em sua exuberância e diversidade. Espaços com a vegetação típica do bioma se revezam com fazendas de gado e áreas úmidas com abundância de garças e jacarés, entre outras espécies que encantam os visitantes.
Em boa parte de seu trajeto, a rodovia foi projetada e estruturada em uma altura bem superior à do solo, como forma de prevenção às conhecidas inundações que contribuem para a riqueza biológica do Pantanal. Esta particularidade contribui para a sensação de se apreciar a paisagem pantaneira como em um voo rasante, perfeito para fotos e filmagens. Paradas ao longo do percurso, como a que eu fiz em 2011, são inevitáveis, para uma mirada ainda mais atenta e ampla do cenário que comove.
Visitar o Borboletário do Sesc Pantanal é obrigatório. Entrar e permanecer alguns minutos – horas, talvez – no borboletário é uma experiência transformadora de quem passa pelo Hotel, por representar um emblema de preservação ambiental aliada à geração de renda.
Homens e principalmente mulheres, reunidas na Associação dos Criadores de Borboletas de Poconé, recebem ovos coletados no borboletário e cuidam das crisálidas ou pupas, que são as borboletas em fase de larvas e casulos. As crisálidas retornam então ao borboletário, onde ocorre a eclosão, a maravilha que é o nascimento de uma borboleta.
São 20 a 30 espécies protegidas, que podem ser apreciadas no borboletário, onde monitores fornecem todas as explicações necessárias. Cerca de 25 famílias vivem dessa atividade, uma contribuição anônima e essencial para a proteção das borboletas do Pantanal.
A preocupação do Sesc com a proteção ambiental não é recente. Pelo contrário, ele foi palco de algumas das primeiras expressões do que ficou conhecido como movimento ambientalista no Brasil e eu fui testemunha de uma delas.

Sesc Campinas: unidades são em si mesmas um manifesto, traduzem o que o órgão propõe para as comunidades onde estão instaladas. Foto: Reprodução
Em 1980, o Sesc de Piracicaba, que tinha sido inaugurado no ano anterior, sediou a primeira edição do Festival de Música Ecológica, uma iniciativa totalmente em coerência com a grande mobilização da cidade, naquela época, em defesa do seu principal patrimônio, o rio Piracicaba. O rio começava a ser ameaçado pelo Sistema Cantareira, que retira águas da bacia do Piracicaba para abastecer a Grande São Paulo, e já sofria os impactos da degradação derivada do Proálcool.
O Festival de Música Ecológica era, portanto, uma oportunidade para a manifestação, através da arte musical, do sentimento daquela comunidade, e também de outras, em relação a um modelo de produção econômica que começava a mostrar suas tinturas insustentáveis. Inesquecível a interpretação, na terceira edição do Festival, em 1982, de “O rio”, por Zeza Amaral, co-autor da canção com Keula Ribeiro.
“Cada rio que nasce/ É uma moda de viola da natureza/ Pra cantar o nu dos meninos/ Pra botar nos frutos beleza. É um rosário de peixes e chuvas/ Trançado nas corredeiras/ É o espelho da lua, do sol, dos chorões/ Das lavadeiras/ É o berço das águas, o mel da terra/ Das bocas nas beiras …”, cantava Zeza.
Naquele mesmo período de mobilização pelo rio Piracicaba, um dos maiores crimes ambientais da história do Brasil estava em curso, o desaparecimento das Sete Quedas, para a formação do lago da hidrelétrica de Itaipu.
A água, a fonte da vida, atacada e violentada de cima abaixo no país que tem o maior volume de água doce do planeta. Então eu ouço aquela voz forte, para cantar a música que terminava, em seus versos marcantes: “Cada rio que morre/ É uma veia que seca, é um rumo sem norte/ Viola quebrada, é um cantador sem estrada,/ É uma faca sem corte/ É um espelho partido, é um berço desfeito/ É o rosário da morte … Cada rio que morre é uma tristeza …”
A música não ganhou o festival, mas para mim foi de longe a melhor, em letra e interpretação. A educação pela arte, a consciência pela música, pelas diferentes linguagens artísticas. Não há instrumento mais poderoso de refinamento de coração e razão.
Esta a força do Sesc ao valorizar o que a cultura brasileira tem de mais belo, a sua diversidade. Ao longo do ano, nas diferentes unidades do Sesc, desfilam criações artísticas brasileiríssimas, as tradicionais e aquelas contemporâneas.
Um dos exemplos de como o Sesc promove a democratização da cultura é a itinerância das Bienais de São Paulo. Muitas unidades sediam, por vários meses, amostras do que foi exposto na Bienal, revelando o novo, o autoral, do fazer artístico de criadores dos mais diferentes países.
A produção literária do Sesc é igualmente muito relevante. As Edições Sesc contemplam um catálogo com obras nas mais diversas áreas da criação. Eu mesmo tive a oportunidade de lançar o livro “Big Bands Paulistas”, na Flip, em Paraty, em 2017, pelas Edições Sesc. O livro, em co-autoria como José Ildefonso Martins, teve prefácio de ninguém menos que Danilo Miranda (1943-2023), durante muitos anos diretor do Sesc São Paulo e um dos grandes responsáveis por tornar o Sesc um dos principais motores culturais do país.
O Sesc é uma verdadeira antena, capta tendências e abre novas frentes de discussão e reflexão. É o caso da situação da pessoa idosa no Brasil, que começou a ser discutida já na década de 1960 pela organização, muito antes do acelerado processo de envelhecimento da população, atualmente em curso.
E a unidade de Campinas teve um papel central neste tema. O Sesc Campinas recebeu a primeira Semana do Idoso, em 1974, e a partir de 1977 sediou a pioneira Escola Aberta da Terceira Idade. Foi uma iniciativa precursora das Universidades da Terceira Idade, de papel muito significativo no movimento hoje denominado de busca do envelhecimento ativo.
Em tempos de avanço do negacionismo nos mais diversos campos, celebrar os 80 anos do Sesc é um gesto de esperança e agradecimento. De gratidão pelo que o Serviço Social do Comércio tem feito por São Paulo, pelo Brasil. Uma explosão de saberes e sabores – a culinária saudável que o Sesc promove em suas unidades é outra delícia a ser degustada sempre. Obrigado Sesc, parabéns pelos 80 e que venham outros 80, pelo bem da cultura brasileira.
Agência Social de Notícias Notícias
