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O Super El Niño e as eleições de domingo
Urna eletrônica: patrimônio do Brasil (Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)

O Super El Niño e as eleições de domingo

Por José Pedro Soares Martins

Até fevereiro de 2027, o Brasil pode ter mais de 13 mil mortes adicionais em função do Super El Niño, que já está produzindo seus impactos em todo o planeta. Repetindo: até fevereiro de 2027, o Brasil pode ter mais de 13 mil mortes adicionais em função do Super El Niño.

Este dado estarrecedor, mas que não provocou grande comoção até o momento no Brasil, no calor da última semana da campanha eleitoral, consta de relatório divulgado na semana passada pelo Laboratório de Impacto Climático da Universidade de Chicago.

O estudo revelou que o Super El Niño pode causar 450 mil mortes no planeta, entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027. O relatório foi elaborado a partir da análise dos padrões de temperatura nos últimos 30 anos e da projeção do clima impactado pelo Super El Niño, como está sendo chamado o fenômeno neste ano.

O Brasil, de acordo com o estudo, será o país mais afetado pelo El Niño na América Latina. As regiões Norte e Nordeste seriam as mais afetadas, com maiores riscos para suas populações, de acordo com o mapa de calor que consta do relatório.

O El Niño é um fenômeno cíclico, que ocorre a cada período de dois a sete anos. É caracterizado pelo superaquecimento das águas do Oceano Pacífico, com impacto no clima global.

Os oceanos funcionam como uma espécie de bateria, que vai acumulando o calor gerado pelos raios solares na atmosfera. As correntes oceânicas transportam esse calor para o fundo, mas de tempos em tempos a “bateria” precisa ser descarregada. Daí aparece o El Niño que, de acordo com várias medições de centros especializados, já está sendo neste ano mais forte, devendo se agravar até o final de 2026 e início de 2027. Já surgiram vários nomes para qualificar a dimensão do fenômeno neste ano, como o El Niño Godzilla.

Os cientistas explicam que o El Niño não tem necessariamente ligação direta com o aquecimento global em curso. Entretanto, como os oceanos estão esquentando mais rapidamente, em função das mudanças climáticas, este superaquecimento das águas acaba potencializando, sim, os efeitos do El Niño.

Ou seja, sem a transição energética esperada, com a redução e até a eliminação dos combustíveis fósseis (petróleo, gás, carvão) da matriz energética, não haverá solução para as mudanças climáticas. E no futuro poderemos ter novos El Niños ainda piores.

O Super El Niño atual já está provocando desastres consideráveis. As cinco ondas de calor consecutivas no verão europeu deste ano resultaram em mais de 30 mil mortes adicionais, segundo as avaliações dos centros de pesquisa. O Brasil já sente o efeito do fenômeno, com o setembro mais chuvoso em décadas, talvez em séculos, também conforme as medições científicas.

E qual a percepção popular no Brasil sobre as mudanças climáticas que agravam o El Niño e qual a relação deste sentimento com as eleições gerais do próximo domingo?  O Observatório do Clima (OC), que é a mais importante rede de organizações que atuam com as questões climáticas no país, encomendou uma pesquisa ao Instituto Ipsos, sobre a visão que os brasileiros estão tendo sobre as mudanças climáticas e como o tema deveria ser tratado no atual contexto eleitoral.

A pesquisa foi realizada em agosto passado. Segundo os resultados, 91% dos brasileiros consideravam importante que os candidatos nas próximas eleições apresentassem propostas para enfrentar as mudanças climáticas. Para 62%, essa é uma questão “muito importante”. Os dados foram divulgados no último dia 17 de setembro.

“Há um consenso elevado de que a mudança climática está provocando secas, chuvas intensas e ondas de calor, com 87% de concordância”, diz o Observatório do Clima. “Além disso, 85% consideram que a mudança climática afeta o cotidiano dos brasileiros; 79% acreditam que o tema deve ser priorizado mesmo que implique custos econômicos; e 76% entendem que ainda há tempo para evitar seus piores impactos, caso medidas sejam tomadas imediatamente”, acrescenta o OC.

A questão climática, pela pesquisa, já preocupa e muito os brasileiros. E qual a posição dos candidatos à Presidência da República com relação ao tema? O mesmo Observatório do Clima fez uma análise do programa de governo dos seis candidatos mais bem posicionados nas pesquisas e a conclusão foi que “apenas um” deles apresentou, em sua plataforma registrada oficialmente, “propostas robustas para clima e meio ambiente”.

“O programa de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é o mais verde entre os candidatos que pontuam nas pesquisas de intenção de votos das eleições de 2026”, afirma o Observatório do Clima, que assinala ter feito a análise com base no programa oficial e na avaliação da trajetória do candidato em relação ao tema das mudanças climáticas.

A avaliação “partiu de oito grandes eixos: mudanças climáticas, energia, desmatamento, proteção de povos e comunidades tradicionais, agronegócio sustentável, mineração e infraestrutura, governança ambiental e climática, oceano e zona costeira”, destaca o OC. (A íntegra do documento foi publicada no site do Observatório do Clima, aqui.)

Segundo a avaliação, sobre as mudanças do clima, “apenas o plano de Lula cita o cumprimento da meta climática brasileira (NDC) e o Acordo de Paris. A adaptação climática aparece como destaque no documento, com detalhamento de ações e prazos. Também há compromissos com o fortalecimento da fiscalização ambiental e agricultura sustentável, que se relacionam direta ou indiretamente com a ação climática”.

De acordo com o OC, o plano de Flávio Bolsonaro (PL) “sequer reconhece a existência de uma crise do clima, o que está alinhado ao seu recorrente posicionamento negacionista. Em maio de 2024, Flávio disse ser uma “armadilha” atribuir as enchentes no Rio Grande do Sul às mudanças climáticas. No fim de agosto passado, durante sabatina no Jornal Nacional, o candidato do PL voltou a repetir sua posição negacionista”.

Por sua vez, o plano de Augusto Cury (Avante), “apesar de reconhecer as mudanças climáticas, não apresenta uma política estruturada para enfrentá-las e não menciona a NDC brasileira, metas de redução de emissões, neutralidade climática, justiça climática ou racismo ambiental”, diz o OC.

Por sua vez, o programa de Renan Santos (Missão) “tampouco traz políticas específicas para a crise climática e sequer menciona a agenda de clima. Também ficaram de fora a meta climática brasileira, o Acordo de Paris, a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC) ou o Plano Clima”, diz o Observatório do Clima.

Já o candidato Ronaldo Caiado (PSD) “reconhece que as mudanças climáticas provocam eventos extremos e perdas agrícolas e propõe medidas de adaptação e prevenção de desastres. O plano, porém, não contém propostas de redução de emissões nem menciona a NDC brasileira, o Acordo de Paris, justiça climática, racismo ambiental, o Plano Clima ou os mapas do caminho”, salienta o OC.

E quanto ao  programa de Romeu Zema (Novo), “apesar de reconhecer que o país é afetado por eventos extremos, não deixa claro quais serão os meios de implementação de ações de monitoramento e resposta a desastres. Em seu governo em Minas Gerais, Zema reduziu em 96% as verbas destinadas à prevenção de impactos das chuvas entre 2023 e 2025”, sustenta o Observatório do Clima.

“Desde a última eleição, a agenda de clima ficou mais evidente no país, principalmente depois das cheias no Rio Grande do Sul e da seca na Amazônia. Eventos como estes, que afetaram a vida de milhares de brasileiros, infelizmente tendem a se repetir. Assim, é lamentável ver como alguns candidatos simplesmente ignoram o assunto em seus planos de governo ou, pior, chegam até mesmo a negar a existência das mudanças climáticas”, comentou Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, sobre o resultado da análise do programa dos principais candidatos à Presidência.

Mas é preciso lembrar que os futuros deputados estaduais, deputados federais, senadores e governadores também podem ser decisivos, cada um em sua função, em relação ao que está acontecendo com o clima do mundo e seus  impactos no Brasil. Cada município e estado precisa se fortalecer e muito para enfrentar os próximos eventos climáticos extremos, a começar pelo Super El Niño em curso.

Então é fundamental que os próximos eleitos de uma forma geral tenham compromissos firmes e ações concretas já demonstradas em relação a esse tema que, segundo 91% dos brasileiros, deveria ser relevante no atual contexto eleitoral, o que infelizmente não tem acontecido. Como era esperado, o atual debate eleitoral, em grande parte, está concentrado na troca de farpas, muitas delas derivadas de fake news e discursos de ódio, entre os candidatos.

O voto é secreto e é um direito sagrado de cidadania. Que ele seja utilizado da forma mais responsável e consequente para o Brasil e seu povo.

Neste espaço do Hora Campinas, já havíamos apresentado as propostas do mesmo Observatório do Clima para os candidatos às eleições deste ano (aqui).

(Artigo publicado originalmente no Portal Hora Campinas)

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