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Lula.4 e os desafios socioambientais
Globo terrestre pendurado no teto de pavilhão da COP 30 em Belém. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Lula.4 e os desafios socioambientais

Por José Pedro Soares Martins

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva representou a vitória da democracia e dos avanços civilizatórios, contra os retrocessos e o negacionismo. No seu quarto mandato, entretanto, Lula terá muitos desafios socioambientais a enfrentar, para responder aos anseios dos milhões que foram às ruas, em especial da juventude que renovou a esperança em um futuro melhor, de justiça social, educação transformadora e liberdade.

Na área ambiental, são muitos dilemas para equacionar. Um deles será superar a onda de retrocessos que o atual Congresso Nacional promoveu na legislação ambiental e que a próxima legislatura, teoricamente mais conservadora, poderá aprofundar.

O governo também precisa manter e aprimorar as iniciativas de combate ao desmatamento, que caiu muito nos últimos quatro anos. O desmatamento na Amazônia, entre agosto de 2025 e julho de 2026, de 3.335 km², representou uma queda de 41,8% em relação ao ciclo anterior e o menor índice da série histórica do Prodes/Inpe desde 1988.

Mas também houve redução no desmatamento nos outros biomas. No Cerrado, foi de 5.516,69 km², representando uma redução de 23,8%, também o menor índice desde o início da série histórica do bioma em 2001. Queda também na Caatinga (-34,3%), Mata Atlântica (-15,2%) e Pampa (-41,7%).

A redução do desmatamento refletiu na diminuição das emissões no Brasil de gases de efeito estufa (GEE), que alimentam o aquecimento global. As emissões caíram mais 6% em 2025, atingindo seu menor valor bruto desde 2018. Os dados são do Seeg, o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima, cuja 14a coleção foi lançada no último dia 20 de outubro.

A redução nas emissões foi puxada pela forte desaceleração do desmatamento, principalmente na Amazônia e no Cerrado, destacou o Observatório do Clima. As emissões brutas nacionais foram de 2,06 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) equivalente (GtCO2e) no ano passado, contra 2,19 GtCO2e em 2024.

Mas, para ser coerente, o Brasil terá nos próximos anos de acelerar a transição energética, e nesse sentido o governo tem o desafio derivado da descoberta de novas possíveis fontes de exploração de petróleo nas costas da Amazônia. O país vai aprofundar a aposta nesta fonte poluente, ou nas fontes renováveis cada vez mais promissoras, como a eólica, a solar e a dos biocombustíveis?

Ainda em termos ambientais, o Brasil tem o grande dever ético de ampliar o saneamento básico. Cerca de metade da população brasileira ainda não tem acesso à rede coletora e muito menos de tratamento de esgotos. Em torno de 30 milhões ainda não têm acesso sustentável a água potável.

No campo social, os desafios não são menores. Os resultados do último Pisa reafirmaram como o Brasil ainda tem de caminhar no setor. De fato, os resultados dos exames de 2025 do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), promovidos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), confirmaram os enormes desafios para a educação brasileira, sobretudo em termos de ensino e aprendizado em Matemática.

De forma geral, os resultados apontam uma estagnação na situação dos estudantes brasileiros com 15 anos, nas áreas consideradas nos exames, que são as de Leitura, Matemática e Ciências. Estagnação, se considerados os resultados de 2015 e de 2025.

Em 2015, o Brasil registrou 407 pontos em Leitura, 377 pontos em Matemática e 401 pontos em Ciências. Em 2022, foram 410 em Leitura, 379 em Matemática e 403 em Ciências. Já em 2025, foram 408 em Leitura (média da OCDE de 461), 377 em Matemática (média da OCDE de 463) e 409 em Ciências (média da OCDE de 482). Houve uma leve melhora em Ciências, portanto, de oito pontos em uma década.

Os sinais de alerta são ainda maiores em termos de proficiência na faixa 2, a mínima esperada. Em Leitura, 49% dos estudantes brasileiros estão pelo menos no nível 2 de proficiência. A média da OCDE é 69%. “As habilidades previstas nesta faixa incluem identificar a ideia principal em um texto e encontrar informações a partir de critérios explícitos”, explica a Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca) em análise sobre os resultados.

Já em Ciências, 48% dos estudantes no Brasil estão no nível 2 de proficiência, ou acima. Na média da OCDE, são 74%. “Nesta faixa, os estudantes reconhecem a explicação correta de fenômenos científicos familiares”, observa a Jeduca.

E a grande questão está na proficiência em Matemática, na qual somente 28% dos estudantes estão pelo menos no nível 2 de proficiência, contra 65% na média da OCDE. “Para este nível, é esperado que os jovens consigam comparar a distância total entre duas rotas e converter preços em moedas diferentes, por exemplo”, nota a Jeduca.

Em seus discursos de vitória, Lula acentuou que o Brasil precisaria investir muito em Matemática. Tomara que não seja somente em nível universitário, mas também no básico, fundamental.

Também existe o desafio de fortalecer ainda mais o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e demais políticas públicas sociais. Isso tudo sem aprofundar o déficit público, que pressiona taxas de juros e outras consequências no panorama macroeconômico.

O horizonte é de dificuldades, mas o Brasil é grande demais, criativo demais, rico demais em recursos humanos e naturais. E melhor ainda que seja em um ambiente democrático, de liberdade, respeito e diversidade. Fundamental manter a esperança e os olhos bem abertos para que não haja novos riscos de retrocessos.

(Artigo publicado originalmente no portal Hora Campinas)

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