quarta-feira , 26 julho 2017
Crise econômica atinge entidades sociais de Campinas e milhares são afetados
Dona Walderez: melhoras constantes na Pró-Visão (Foto José Pedro Martins)

Crise econômica atinge entidades sociais de Campinas e milhares são afetados

Por José Pedro Martins

A equipe dirigente e de funcionários da Pró-Visão terá um dia de trabalho diferente nesta terça-feira, 7 de março. Não haverá atendimentos externos. Todos estarão em uma reunião convocada para redefinir os rumos da instituição, uma das muitas entidades sociais de Campinas que foram duramente atingidas pela crise econômica em curso no país e que estão cortando gastos e pessoal, com reflexos nos serviços prestados a pessoas que delas dependem. Crianças, adultos, idosos – pessoas de todas as faixas etárias, e em várias condições de vulnerabilidade, estão com atendimento em risco na cidade e também na região metropolitana, uma vez que entidades de Campinas recebem usuários de diversas cidades vizinhas.

Queda nas contribuições voluntárias e diminuição de valores de convênios com os setores público e privado impactam diretamente a ação das entidades. A arrecadação de recursos com a Nota Fiscal Paulista, que passou a cobrir grande parte do orçamento de muitas entidades, também foi bem reduzida em função da crise econômica que afeta as atividades comerciais.

Em outubro de 2016, o governo paulista liberou os créditos a consumidores e condomínios, com 30% a menos do que os valores do mesmo período anterior. Já era o reflexo da queda do consumo, mas também consequência da redução do ICMS de até 30% para até 20%, que tinha sido anunciada em julho de 2015 pelo governo estadual.

A crise afeta entidades mais recentes mas também organizações tradicionais, com muitos serviços prestados à comunidade. Caso da própria Pró-Visão, criada em 1982 e que acumulou importante trajetória de tecnologia social e com milhares de pessoas atendidas ao longo de sua história. A Casa da Criança Paralítica, outra instituição histórica, também passa por sérias dificuldades (ler abaixo). Uma pesquisa do IBGE indicou que Campinas tem mais de 1700 instituições privadas e associações sem fins lucrativos.

Máquina para alfabetização em Braille (Foto José Pedro Martins)

Máquina para alfabetização em Braille (Foto José Pedro Martins)

Atendimentos suspensos –  A Pró-Visão tem barreiras para continuar funcionando normalmente, com a excelência de sempre, afirma a coordenadora técnica, Cecília Saragiotto. Ela conta que a queda nas contribuições voluntárias, de pessoas e empresas, foi de mais de 70%. A diminuição de recursos derivados da Nota Fiscal Paulista também foi expressiva. O telemarketing continua operando, mas com equipe reduzida, pois alguns cortes tiveram que ser feitos.

Os atendimentos a cerca de 40 usuários de oito cidades da Região Metropolitana de Campinas (RMC) foram interrompidos. “Nós conversamos com as famílias, falamos sobre toda a situação, foi total a transparência. É uma pena mas foi necessário”, lamenta Cecília. “Temos que repensar os serviços”, constata.

A coordenadora técnica diz que a entidade continua funcionando, longe das condições ideais, em razão do convênio mantido pela Prefeitura de Campinas. A Pró-Visão presta serviços ao município como instituição de educação complementar na área de educação especial. Entretanto, os serviços prestados tiveram que ser remodelados, para se adaptar ao valor pago pelo município, salienta Cecília. Outro convênio que continua resultando em recursos para a Pró-Visão é o mantido com a Fundação FEAC – Federação das Entidades Assistenciais de Campinas.

Telemarketing enxuto (Foto José Pedro Martins)

Telemarketing enxuto (Foto José Pedro Martins)

Uma das únicas áreas da Pró-Visão que não teve o cotidiano afetado pela crise foi a gráfica em Braille. A gráfica mantém contratos com empresas como a Sanasa, que distribui contas em Braille. Livros técnicos, infantis, cardápios e até trabalhos de conclusão de curso foram traduzidos para a linguagem Braille pela equipe da Pró-Visão.

Um “xodó” da equipe, admite a coordenadora da gráfica, Denise Mandetta Gaviolli, é o guia do Palácio da Alvorada, em Brasília. “O Palácio começou um programa para receber deficientes visuais e nos contratou para montar um guia em Braille”, orgulha-se Denise.

Dona Walderez da Silva: treinamentos e melhoras (Foto José Pedro Martins)

Dona Walderez da Silva: treinamentos e melhoras (Foto José Pedro Martins)

Usuários preocupados – Os usuários da Pró-Visão estão particularmente preocupados com o futuro da instituição. “O pessoal aqui é tudo de bom, que pena que chegou nessa situação”, diz Walderez José da Silva. Aos 74 anos, ela frequenta há mais de quatro a entidade, depois que uma cirurgia de catarata não deu os resultados esperados.

“Já melhorei muito depois que vim para cá”, relata Dona Walderez, que começou lendo letras em tipo maior e hoje já consegue ler com caracteres menores, com o uso de uma telelupa. Não é o caso dela, mas a Pró-Visão mantém várias telelupas que disponibiliza para os usuários.

Portadora de um glaucoma congênito, Nicole Rodrigues, de 10 anos, frequenta há três a Pró-Visão e também tem feito progressos. Além das aulas com a equipe de profissionais, pratica natação na piscina na entidade – o equipamento não está funcionando no momento, pois depende de reparos. “Melhorou muito, gosto bastante de vir aqui”, atesta a menina, que está na quinta série.

Nicole: avanços na leitura e natação (Foto José Pedro Martins)

Nicole: avanços na leitura e natação (Foto José Pedro Martins)

É a situação de usuários como Dona Walderez e Nicole que mais inquieta a equipe da Pró-Visão. Atualmente, são 95 usuários atendidos. A instituição acumulou conhecimento qualificado em seus 35 anos de atividades e gostaria de continuar funcionando em alto nível, recebendo a muitas pessoas. São muitos campineiros e moradores de outras cidades que passaram a ter mobilidade e melhor qualidade de vida em geral por causa dos treinamentos e capacitações que a entidade oferece. As famílias também recebem orientações qualificadas.

Uma sala de inclusão digital, por exemplo, não está funcionando, pois são necessários recursos para a compra de software e instalação e manutenção de redes. Outros serviços poderiam ser potencializados, como a inclusão de jovens aprendizes ou em atendimento à lei de cotas de inclusão em empresas.

Sala de inclusão digital, à espera de ajustes (Foto José Pedro Martins)

Sala de inclusão digital, à espera de ajustes (Foto José Pedro Martins)

A Pró-Visão também tem contribuído para o avanço científico e tecnológico. Um aplicativo desenvolvido na Unicamp, pensado para crianças com deficiência visual poderem executar contas simples de matemática, foi testado na instituição.

“Estamos preocupados, mas acreditamos na comunidade em geral que sempre nos apoiou”, destaca Cecília Saragiotto, resumindo o sentimento da equipe, dirigentes e de todas as pessoas que reconhecem a contribuição histórica da entidade nascida do trabalho com crianças portadoras de deficiência visual desenvolvido por Terezinha Von Zuben e Vilma Martins Machado. Entre os usuários já atendidos pela entidade está a nadadora Fabiana Sugimori, medalha de ouro nos 50 metros livres nas Paraolimpíadas de Sidney (2000) e Atenas (2004), além da medalha de bronze em Pequim (2008).

Guia do Palácio da Alvorada em Braille, produzido na Pró-Visão (Foto José Pedro Martins)

Guia do Palácio da Alvorada em Braille, produzido na Pró-Visão (Foto José Pedro Martins)

CASA DA CRIANÇA PARALÍTICA: CRISE FINANCEIRA HISTÓRICA

Nesta quarta-feira, dia 8 de março, a Casa da Criança Paralítica de Campinas fará uma queima de estoque de roupas, calçados e acessórios em seu bazar, das 8 às 17 horas. Será uma das ações pensadas para tentar equacionar o que a própria instituição caracteriza como a “maior crise financeira de sua história”, igualmente motivada pelos reflexos da crise econômica do país e outros fatores.

São 340 crianças e adolescentes com deficiência física e comprometimento neurológico atendidos pela Casa, que busca alternativas para dar continuidade aos serviços prestados. As despesas previstas para 2017 somam R$ 4,2 milhões e o déficit estimado chega a R$ 1,2 milhão.

O diretor financeiro, Valdir Oliveira, afirma que não houve diminuição no número de doadores. Entretanto, os valores doados são menores e o período entre uma doação e outra tornou-se mais longo.

Casa da Criança Paralítica, ícone da ação social em Campinas (Foto Divulgação)

Casa da Criança Paralítica, ícone da ação social em Campinas (Foto Divulgação)

Entre as medidas tomadas pela entidade estão a suspensão dos investimentos que seriam feitos em 2017, a redução dos valores dos contratos de prestação de serviços e a implementação de programa de redução de gastos internos. Foram suspensas atividades de alto custo e efetuado o corte de 19% no quadro de colaboradores, sem prejuízo no atendimento às crianças.

Em seus 62 anos de atividades, a Casa da Criança Paralítica já atendeu a mais de 15 mil pessoas. São prestados serviços de alta qualidade, em fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, odontologia, nutrição, psicologia e outras áreas. Mais um emblema das sérias dificuldades enfrentadas pelas entidades sociais de Campinas, em plena crise econômica e instabilidade política do país.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um comentário

  1. Maria Cristina von Zuben de Arruda Camargo

    Na condição de Presidente da Pró-Visão e em nome de sua Diretoria, formada por pessoas respeitadas de nossa cidade, Profa. Mirian Santos, Sra. Maria Laura Cintra, Dr. Ricardo Silva, Dr. Hamilton Caviola e Sr. Eduardo Simões, quero agradecer ao José Pedro Martins que, com sua usual competência e brilhantismo profissional, retratou a dolorosa situação vivenciada pelas Organizações Sociais em nosso município.
    A você José Pedro os agradecimentos das Pessoas com Deficiência Visual em reabilitação na Pró-Visão, daquelas que virão, bem como de suas famílias.

    Respeitosamente,

    Profa. Dra. Maria Cristina von Zuben de Arruda Camargo

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