De como a Flip ajuda a libertar os corpos da literatura
Igreja da Matriz, um dos principais espaços de debates na Flip 2017 (Foto José Pedro Martins)

De como a Flip ajuda a libertar os corpos da literatura

Por José Pedro Martins

I – Uma perua kombi e um brasileiro movidos a livros

Saí da Pousada da Condessa e, caminhando pelas margens do Perequê-Açu, não pude deixar de me perguntar: como essa cidade que se me apresenta, delicada e solar, se tornou o território mais badalado da literatura no Brasil do século 21? Novato na Flip, fui ruminando hipóteses, enquanto observava com incontida alegria a movimentação dos jovens pela ciclovia que acompanha todo esse trecho do rio fundador de Paraty. Eram poucas as pessoas que desrespeitavam o espaço dedicado aos ciclistas. Quando alguém mais desatento cometia esse deslize geográfico, logo era avisado pelo bikeiro: “Olha a ciclovia!”. Assim vão mudando os hábitos, assim tempos mais arejados vão tomando conta do cenário urbano.

Rápido chego à ponte que liga a margem esquerda à direita, permitindo o acesso ao centro histórico. Neste ano a ponte fez mais do que isto. Ela se tornou o símbolo da transposição da Festa Literária Internacional de Paraty, de um ao outro lado do canal. Mudança de endereço motivada pela crise econômica, embora eu logo perceba que a metamorfose no perímetro da edição de 2017 tenha sido muito maior do que de ordem cartográfica.

Rio Perequê-Açu e ponte que levou a Flip ao centro histórico (Foto José Pedro Martins)

Rio Perequê-Açu e ponte que levou a Flip ao centro histórico (Foto José Pedro Martins)

Como a maioria dos turistas e/ou visitantes, paro no alto da ponte e admiro, de cá e de lá, as escunas e demais embarcações que oferecem passeios e outras delícias. Aí me viro para o núcleo nervoso da Flip, agora instalado na Praça da Matriz e entorno. A praça foi requalificada em 2012, resgatando-se a concepção de 1910, de autoria do poeta e historiador Samuel Costa. Ação que integra o rol dos benefícios da Flip para a cidade.

Vejo o fervo à distância e sinto aquele comichão que apenas os arrebatados por livros entendem. Que surpresas e encantos, ou eventuais decepções, me esperam? As bandeiras azuis tremulando nas bordas da ponte são uma espécie de saudação, um convite à dança das letras.

O primeiro contato com a atmosfera literária do local surpreende. Logo depois da ponte, no início da Rua do Comércio, me deparo com uma perua kombi transformada em sebo. “É a primeira do Brasil”, garante seu proprietário-idealizador, Daniel de Jesus Lima.

Sebo Cultural de Paraty: atmosfera literária (Foto José Pedro Martins)

Sebo Cultural de Paraty: atmosfera literária (Foto José Pedro Martins)

Ele conta que sempre gostou de livros e que foi amor à primeira vista quando viu a kombi jogada praticamente no lixo. Não tinha dinheiro suficiente para comprar o objeto de desejo na época, mas o antigo dono segurou a kombi e em alguns meses Lima conseguiu levar o que restou do veículo para casa.

Outra batalha foi pela restauração da kombi, mas o dia aguardado chegou. “É a única kombi movida a livros”, orgulha-se o livreiro singular, enquanto mostra a traseira do veículo, lotado de títulos. O vai e vem não cessa durante a Flip. Muitos param, perguntam quanto é e não são poucos os que levam algum livro embora. Daniel de Jesus Lima sempre sorridente. Percebo como a mística da literatura está impregnando a vida local.

Daniel de Lima, livreiro singular (Foto José Pedro Martins)

Daniel de Lima, livreiro singular (Foto José Pedro Martins)

Deixo a kombi-livro e a poucos metros encontro uma espécie de ícone underground da Flip. Instalado no alto de dois pedaços de madeira cortados na medida, Paulo Marcos Cavalcante exibe o visual típico e oferece exemplares de sua nova obra aos passantes. O chapéu e bolsa de couro e a moringa a tiracolo com a água fresquinha compõem o estereótipo do nordestino, mas engana-se quem pensa que ele logo vai recitar um poema de cordel.

A literatura de cordel integra a obra Cavalcante, mas ela trafega em outras rotas. Na Flip 2017 ele está apresentando seu novo título, “Um andarilho em busca de cultura”, de 2016. É a saga do próprio autor, suas andanças literárias/culturais por vários pontos do país. “Na manhã de segunda-feira, 04 de março de 1974, ele saiu da casa de seus pais, da ribeira do Curralinho, nas margens do riacho Grande, um dos afluentes do rio Paraíba do Norte e na despedida sua mãe reafirmou que ele precisava continuar os estudos, procurar um futuro melhor que o do seu pai, que o dos seus ancestrais, não desejava que seus filhos, quando mais velhos, ficassem deficientes de tanto trabalhar no pesado, tortuosos e endurecidos como as árvores da caatinga, que não perdessem pedados de dedos, mutilados por facas e foices, em acidentes de trabalho, como se fossem batismo de sangue” – assim começa o livro, sinalizando como será a trajetória de Cavalcante, que trará a marca da superação, como a de tantos outros brasileiros que tiveram que comer pó e pedra por um lugar ao sol da cidadania.

Paulo Cavalcante: há 13 anos na Flip (Foto José Pedro Martins)

Paulo Cavalcante: há 13 anos na Flip (Foto José Pedro Martins)

O universo da literatura, sagrado e profano, foi o portal de Paulo Cavalcante para o novo mundo, aquele sem limites para a criação. Graduou-se em História e especializou-se em Educação pela Universidade Estadual da Paraíba e dá aulas em História em Campina Grande, mas não esconde o fascínio pelos livros, o passaporte que usou para materializar o sonho da mãe.

Logo que a Flip começou, Cavalcante intuiu o seu potencial e frequenta a Festa desde a terceira edição. Penou para participar das primeiras, ele confessa, mas depois a venda dos livros aumentou e as longas viagens a Paraty passaram a ser autossustentadas. “Vale muito à pena. Paraty é uma vitrine especial da literatura, a Flip é um oásis de esperança, é como o Brasil pode ser diferente amanhã”, diz o professor-escritor, pronto para vender mais um exemplar.

E assim a Flip me foi apresentada. Livros que movem vidas.

Pé de moleque que conta histórias (Foto José Pedro Martins)

Pé de moleque que conta histórias (Foto José Pedro Martins)

II – A sintaxe do pé de moleque  

As ruas do centro histórico de Paraty têm uma sintaxe de pedra, mais exatamente de pé de moleque, como é conhecido o calçamento irregular, pontiagudo e que clama por cuidado. São muitas as lendas sobre as origens desse pavimento que não desperta nenhuma simpatia entre motoristas, embora desde o início da década de 1970 seja proibido o trânsito de veículos por grande parte da área central da cidade.

Uma das lendas reza que as pedras vinham como lastro nos navios que chegavam ao porto paratyense, durante muito tempo um dos principais do Brasil Colônia. Como as embarcações retornavam para Portugal, repletas do ouro das Minas Gerais, as pedras permaneciam, e assim foram sendo acumuladas para calçar as ruas inusitadas.

É preciso atenção, não é todo tipo de calçado que se adapta ao pedrario, mas durante a Flip a textura singular das ruas proporciona algumas vantagens. Muitas pessoas costumam andar pelas bordas ou nos passeios para fugir do pé de moleque e esta é a oportunidade para surpreender um autor com uma entrevista não planejada.

Lívia Natália e Conceição Evaristo: belos capítulos da literatura brasileira (Foto José Pedro Martins)

Lívia Natália e Conceição Evaristo: belos capítulos da literatura brasileira (Foto José Pedro Martins)

Foi o que aconteceu comigo, e justo com uma das estrelas da 15ª Flip, a mineira Conceição Evaristo. Ela circulava próximo da livraria oficial, associada à carioca Travessa, de braços dados com a poeta baiana Lívia Natália, e não perdi tempo. Pedi algumas palavras das duas e o tema não poderia ser outro: a maior abertura da Festa Literária Internacional de Paraty para as mulheres e os autores negros.

Esta foi a Flip em que pela primeira vez as mulheres superaram os homens entre os autores convidados e eram cerca de 30% de autores negros, em coerência com o principal homenageado do evento, o carioca Lima Barreto. O autor de “Triste fim de Policarpo Quaresma”, seu título mais conhecido, teve vida e obra discutidas em mesas redondas e sua biografia, “Lima Barreto – Triste visionário”, lançada por Lilia Moritz Schwarcz.

Conceição Evaristo tornou-se um símbolo da literatura de matriz africana no Brasil. Nascida em uma família numerosa e muito pobre, em Belo Horizonte, trabalhou como empregada doméstica até concluir, aos 25 anos, o curso Normal. Mudou-se então para o Rio de Janeiro, onde graduou-se em Letras pela UFRJ, Mestre em Literatura Brasileira pela PUC-Rio e Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense.

É autora de romances, poesia e livros de contos, sendo premiada pelo Jabuti por “Olhos d´água”, de 2015. São várias mulheres, como se diz, “do povo”, como Ana Davenga, Luamanda e a mendiga Duzu-Querença. Nos contos, Conceição pratica o que chama de escrevivência, uma escrita próxima da oralidade e que “não pode ser lida como histórias para ´ninar os da casa grande`, e sim para incomodá-los em seus sonos injustos”.

Com essa história pessoal, era esperado o destaque de Conceição Evaristo na 15ª Flip, onde participou de mesas e até do lançamento de uma nova opção da Cervejaria Feminista, batizada com o seu nome. A Cervejaria Feminista é uma iniciativa de Andreia Prestes, neta de Luiz Carlos Prestes, e um grupo de parceiras. A primeira homenageada foi Maria Prestes, viúva do ex-secretário geral do Partidão. A cerveja em tributo a Conceição Evaristo é feita de trigo com pitadas de canela.

“É um lugar que conquistamos por direito, pois foi um caminho construído por nós”, diz Conceição, sobre a maior abertura da principal Festa Literária do país para as vozes negras. Ela considera a Flip como um momento “ao mesmo tempo de cultura, lazer e reflexão”, e desta forma entende que a maior abertura para a diversidade literária poderia ser um paradigma para a democracia política, no sentido da inclusão, de fato, das expressões caladas ou que permanecem na invisibilidade.

Lívia Natália: reflexão sobre a mulher negra no campo dos afetos (Foto José Pedro Martins)

Lívia Natália: reflexão sobre a mulher negra no campo dos afetos (Foto José Pedro Martins)

Ao seu lado, Lívia Natália, que lançava um novo livro de poesias na Flip, o quarto (“Dia Bonito Pra Chover”), pela Editora Malê, que publica títulos de escritores negros contemporâneos. A Malê também lançou em Paraty o livro “Terra negra”, da carioca Cristiane Sobral, e o catálogo digital “Intelectuais negras visíveis”, organizado por Giovana Xavier e viabilizado em parceria com o Grupo de Pesquisa “Intelectuais Negras Escritas de Si”.

Em 2016 Lívia Natália esteve no centro de uma grande polêmica, motivada pela censura que um poema seu recebeu em Itabuna, Sul da Bahia. O poema permaneceria durante três meses em um outdoor, mas ficou somente duas semanas. O motivo? Os versos do poema “Quadrilha”, publicado no livro “Correntezas e outros estudos marinhos” (2015), diziam: “Maria não amava João. Apenas idolatrava seus pés escuros. Quando João morreu, assassinado pela PM, Maria guardou todos os seus sapatos”.

O novo livro, explica Lívia, reflete sobre o lugar da mulher negra na cena dos afetos. Historicamente, desde a escravidão, ela lembra, o corpo da mulher negra sempre foi visto como hipersexualizado, e “Dia bonito pra chover” propõe uma reflexão sobre a dimensão dos afetos, do campo amoroso.

Conceição Evaristo e Lívia Natália: contraponto ao estigma, à narrativa de hegemonia branca da literatura brasileira. Ajudar a superar essa ferida aberta foi um dos objetivos da Flip deste ano, assim como também é do portal LiterAfro (www.letras.ufmg.br/literafro/),  editado pelo professor Eduardo de Assis Duarte, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O portal reúne textos “que apresentam temas, autores, linguagens mas, sobretudo, um ponto de vista culturalmente identificado à afrodescendência, como fim e começo”.

O professor Assis Duarte acompanhava Conceição Evaristo e Lívia Natália, autoras incluídas no LiterAfro, e  destacou a relevância da abertura da Flip para a literatura negra: “O Brasil é um país de negros, de mestiços, de brancos, de indígenas. Há grupos no Sul do Brasil que não falam o português. Essas vozes do Brasil multiétnico precisam ser mais ouvidas. A fala do negro, especialmente, precisa ter um lugar de direito na nossa literatura”, conclui Duarte, para quem o conceito de literatura afro-brasileira está em construção.

Professor Eduardo de Assis Duarte: literatura afro-brasileira em tem lugar de direito (Foto José Pedro Martins)

Professor Eduardo de Assis Duarte: literatura afro-brasileira em tem lugar de direito (Foto José Pedro Martins)

Assim ele se expressou, em texto com esse título (“Literatura Afro-brasileira: um conceito em construção”): “No alvorecer do século XXI, a literatura afro-brasileira passa por um momento extremamente rico em realizações e descobertas, que propiciam a ampliação de seu corpus, tanto na prosa quanto na poesia, paralelamente ao debate em prol de sua consolidação acadêmica enquanto campo específico de produção literária – distinto, porém em permanente diálogo com a literatura brasileira tout court. Enquanto muitos na academia ainda indagam se a literatura afro-brasileira realmente existe – e assinalemos aqui até mesmo a perversidade de uma pergunta que às vezes não deseja ouvir resposta –, a cada dia a pesquisa nos aponta para o vigor dessa escrita: ela tanto é contemporânea, quanto se estende a Domingos Caldas Barbosa, em pleno século XVIII; tanto é realizada nos grandes centros, com dezenas de poetas e ficcionistas, quanto se espraia pelas literaturas regionais, a nos revelar, por exemplo, uma Maria Firmina dos Reis escrevendo, em São Luiz do Maranhão, o primeiro romance afrodescendente da língua portuguesa – Úrsula – no mesmo ano de 1859 em que Luiz Gama publica suas Trovas burlescas… Enfim, essa literatura não só existe como se faz presente nos tempos e espaços históricos de nossa constituição enquanto povo; não só existe como é múltipla e diversa”.

Lázaro Ramos participou de momento especialmente emocionante do evento (Foto José Pedro Martins)

Lázaro Ramos participou de momento especialmente emocionante do evento (Foto José Pedro Martins)

A Flip de 2017 foi, nessa linha, histórica, ao valorizar, pela primeira vez, os discursos e narrativas da literatura afro-brasileira. Além de Conceição Evaristo, da presença da ruandense Scholastique Mukasonga e da homenagem a Lima Barreto, a Festa abriu espaço para outra voz forte, determinada, a do ator Lázaro Ramos, que tem ampliado sua presença no território das letras, com livros infantis. Na Flip ele lançou a autobiografia “Na minha pele” (Objetiva), leu trechos do livro de Lilia Schwarcz e vivenciou um dos momentos mais emocionantes e comentados do evento.

Ele participava na Tenda da Praça, superlotada, de uma mesa sobre preconceito, colonização e identidade com a jornalista portuguesa Joana Gorjão Henriques, quando convidou para subir ao palco a professora aposentada Diva Guimarães, de 77 anos. A mestra fez uma acalorada defesa da educação e protestou: “A gente teve uma libertação que não existe até hoje”. Muitos aplausos, lágrimas e gritos se seguiram, e um abraço apertado de Lázaro e Diva.

A Flip 2017 foi assim, política e afetuosa, terna e questionadora, nas ruas de pé de moleque.

Casario histórico de Paraty: cenário ideal para as caminhadas dos amantes dos livros (Foto José Pedro Martins)

Casario histórico de Paraty: cenário ideal para as caminhadas dos amantes dos livros (Foto José Pedro Martins)

III – O casario encantado 

As ruas do centro histórico de Paraty têm um traçado simétrico, regular, muito diferente do formato tradicional dos núcleos urbanos criados pelos portugueses, de contornos desordenados, como lembrou Sergio Buarque de Holanda no “Raízes do Brasil” (Companhia das Letras). As ruas seguem um alinhamento do nascente para o poente e do norte para o sul.

Reza outra lenda que esse arruamento planejado deve-se à influência da Maçonaria na estruturação de Paraty, o que ocorreu no entorno da Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, a padroeira local. Os desenhos geométricos, em relevo, nas fachadas dos sobrados seriam outro indício da presença maçônica na cidade fundada em 1667 e que teve um papel de destaque no Ciclo do Ouro.

O fato é que o casario de Paraty é um dos mais bem preservados do Brasil, o que pode ser explicado pelo isolamento da cidade durante longos períodos. Quando a Estrada Real foi construída, viabilizando o transporte do ouro diretamente para o Rio de Janeiro, o pequeno porto foi mais ou menos abandonado. As estradas eram precárias e somente com a construção da Cunha-Paraty, na década de 1950, e em particular a Rio-Santos, na década de 1970, a cidade passou a integrar os roteiros turísticos mais conhecidos.

Aí deu-se a alquimia, os ventos soprando a favor dos livros em um país em que se lê muito pouco e o que se lê ainda está longe de ser o ideal. Morando no Brasil no efervescente período de 1964 a 68, então trabalhando como modelo, a inglesa Liz Calder foi uma das estrangeiras que se derreteram por Paraty. Editora famosa, uma das fundadoras de uma das principais casas literárias do mundo, a britânica Bloomsbury, que lançou sucessos como “Harry Potter”, Calder teve a iniciativa, no início do novo século, de criar uma festa literária na cidade do litoral fluminense nos moldes de outros eventos que ajudou a organizar, como a “Hay-on-Wye”, no País de Gales. Ela havia comprado um sítio no município e logo percebeu o potencial local para um grande festival literário.

Muito em função do peso de Liz Calder no mercado literário internacional, a primeira edição da Flip, em 2003, reuniu gente do porte do historiador inglês Eric Hobsbawn, do norte-americano DonDelillo e de autores mais jovens, como Daniel Mason (“O Afinador de Piano”) e Julian Barnes (“Papagaio de Flaubert”). O time brasileiro foi igualmente considerável. Estiveram lá Ferreira Gullar, o recém-acadêmico Antônio Cícero, Marçal Aquino, Zuenir Ventura, Adriana Calcanhoto e a cineasta Susana Moraes, entre outros, para participar de mesas, lançamentos e do tributo a Vinícius de Moraes, o primeiro homenageado da Flip.

E desde então Festa e cidade se tornaram unha e carne, sob a gestão da Associação Casa Azul. Logo na primeira edição, aconteceu a I Off-Flip, o I Evento Paralelo à Festa Literária Internacional de Paraty, que contemplou encontros em casas particulares, como a do geólogo João Jerônimo Monticelli, cujo restaurante tem sediado várias atividades da Flip ao longo dos anos. Era uma tentativa de aproximar ainda mais o clima proporcionado pela Festa do cotidiano dos moradores, por meio de mesas informais e de leitura de trechos de livros por vários convidados. O ator Pedro Paulo Rangel, entre outros, leu poemas de Denise Saraceni.

Capa de "Big Bands Paulistas", lançado na Casa SESC, Em Paraty

Capa de “Big Bands Paulistas”, lançado na Casa SESC, em Paraty

A ideia da Off-Flip não prosperou como se pensou, mas o espírito ficou. Em todas as edições ocorrem eventos paralelos, cada vez mais de alto nível. Muitos dos eventos mais concorridos acontecem nos casarões antigos, transformados em espaços de casas editoriais. A Casa SESC, por exemplo, sediou conversas e lançamentos de livros, como o “Big Bands Paulistas – História de orquestras de baile do interior de São Paulo”, de minha autoria e de José Ildefonso Martins.

O lançamento aconteceu junto com a apresentação de uma das orquestras que documentamos no livro, a do maestro Arley Mazzuia, de Catanduva. Participar de um momento em que se casava literatura e música foi bem comovente para mim, um autor de vários livros mas estreante na maior festa literária do país.

Casa Folha, uma das mais concorridas (Foto José Pedro Martins)

Casa Folha, uma das mais concorridas (Foto José Pedro Martins)

Uma das mais concorridas casas de editoras na Flip 2017, como em outros anos, era a Casa Folha, da “Folha de São Paulo”, que levou nomes como a angolana Djaimilia Pereira de Almeida (lançando “Esse cabelo”), os escritores brasileiros Cristóvão Tezza e Lira Neto (lançando “Uma história do samba – As origens”) e os atores Lázaro Ramos e Fernanda Torres.

Outra estrela da Casa Folha foi Drauzio Varella, que falou sobre o seu novo livro, “Prisioneiras”, o terceiro da trilogia sobre prisões. Como acontece com nomes muito conhecidos, era imensa a fila de pessoas querendo autógrafos do médico. A fila continuou mesmo quando ele deixou a Casa Folha e seguiu pela Praça da Matriz.

No meio da pequena multidão, consegui fazer uma pergunta para o médico-escritor-apresentador: “A Flip é o Brasil que pode dar certo?” Alguns risos em volta e a resposta de Varella, enquanto distribuía autógrafos e mais autógrafos: “Pode ser uma das coisas. Essa multidão aí falando de literatura é uma maravilha”.

Dráuzio Varella, autógrafos na praça (Foto José Pedro Martins)

Dráuzio Varella, autógrafos na praça (Foto José Pedro Martins)

A mensagem é clara. A Flip é um sonho, a utopia de um Brasil muito melhor, mas ainda há muito o que fazer, inclusive pela própria literatura. Pelas ruas pedregosas e acolhedoras de Paraty era possível ver representantes de etnias indígenas da região, merecedoras de maior atenção da sociedade brasileira do que apenas as fotografias clicadas ou artesanatos comprados.

Casa da Porta Amarela: a Flip aberta à inovação (Foto José Pedro Martins)

Casa da Porta Amarela: a Flip aberta à inovação (Foto José Pedro Martins)

Mas nessas mesmas ruas o evidente potencial despertado pelo amor às letras. Fora do roteiro oficial,  um vocabulário novo era apontado por muitos eventos e programas realizados com pouco dinheiro e muita garra. Um emblema  foi o da Casa da Porta Amarela. Assim foi batizada a feira de publicações independentes e outros produtos vinculados à literatura montada em um casarão bem perto da Igreja do Rosário, a poucos metros da movimentada Rua do Comércio.

Foi muito empenho e amor na viabilização do espaço, alugado pelo conjunto de expositores, conta Murilo Martins, um dos autores participantes e um dos que mais botaram a mão na massa para ver o sonho concretizado. Ilustrador, artista gráfico e produtor de zines, Martins é sobretudo apaixonado pelos quadrinhos e na Casa da Porta Amarela apresentou seus títulos já lançados, “Love Hurts”, “Eu sou um pastor alemão” e “Eu era um pastor alemão”, que levou para feiras especializadas nos Estados Unidos e Canadá e recebeu ótimas opiniões da crítica profissional.

O quadrinista Murilo Martins e dois de seus títulos (Foto José Pedro Martins)

O quadrinista Murilo Martins e dois de seus títulos (Foto José Pedro Martins)

A Casa da Porta Amarela agrupou artistas independentes, com suas propostas inovadoras. Caso de Ale Kalko, que imprime seus poemas em plataformas que mantêm sintonia com a mensagem, como bottons e mini-livros. “Carrossel – O difícil livro das escolhas” foi impresso em uma dobradura. Imagens e palavras vão sendo reveladas, à medida que o leitor vai abrindo o papel dobrado com maestria e singeleza.

Ale Kalko e suas publicações criativas (Foto José Pedro Martins)

Ale Kalko e suas publicações criativas (Foto José Pedro Martins)

Todos os objetos e itens expostos na Casa da Porta Amarela tinham relação com a literatura. Até os inventivos, como as duas linhas de cerveja comercializadas pela Cerverbaria, marca criada por Caroline Freire e André Rosemberg. “Uma cervejaria que também é editora e vice-versa”, define Caroline, enquanto serve mais uma garrafa da linha Poética, uma lager apresentada em quatro rótulos, com poemas de Joca Reiners Terron, Marcelino Freire, Bruna Beber e Angélica Freitas.

Outra linha é a Capotão, pensada para paladares mais exigentes, que vão degustando essa ipa de cor acobreada e feita com lúpulos herbáceos, ao mesmo tempo em que apreciam os contos de futebol assinados por André Sant´Anna, Maurício Barros e André Rosemberg.

Caroline e a Poética, uma das linhas da Cervebaria (Foto José Pedro Martins)

Caroline e a Poética, uma das linhas da Cervebaria (Foto José Pedro Martins)

Múltiplas experiências, portanto, para quem entrou naquelas salas e naquele quintal da Casa da Porta Amarela, bem no espírito da Flip 2017. Logo que saí daquele casarão inebriante, encontrei na esquina da Rua do Comércio dois poetas, que intercalavam declamações de Manuel Bandeira, Drummond e outras com seus próprios textos. Letícia Brito, do Rio de Janeiro organizadora do Pizzarau, na Lapa, estava em Paraty pela terceira vez.

O paulistano Lucas Bronzatto fazia sua estreia na Festa Literária Internacional, divulgando seu livro “Afronta fronteiras”, que reúne versos insubmissos, cortantes, diretos, sobre questões do cotidiano, que estão em todos os noticiários, como em “Escola de luta”: “Estudantes ocupad@s inventaram/ cadeados de abrir celas de aulas/ correntes de destrancar mentes/ vassouras de varrer desesperanças/ pontes de ligar sonhos”.

A dimensão política pulsou na Flip 2017. Ela foi até criticada por isso, como se a literatura não fosse sempre política, ao expor e sangrar os afetos e abrir as entranhas dos medos e sonhos mais humanos. A 15ª Festa Literária Internacional de Paraty, que teve a curadoria da jornalista cultural e historiadora Joselia Aguiar, congregou escritores do porte dos brasileiros Julián Fuks, Adelaide Ivánova, Noemi Jaffe, o jamaicano Marlon James (“Breve história dos sete assassinatos”, vencedor do Man Booker Prize, no Brasil pela Intrínseca, 2017) e os norteamericanos Paul Beatty (“O Vendido”, Todavia, também Man Booker Prize) e William Finnegan “Dias Bárbaros: uma vida no surfe”, Prêmio Pulitzer, no Brasil pela Intrínseca, 2017).  Mas estava atenta ao idioma vindo das ruas, das pedras pé de moleque de Paraty e outras paragens, em sua sina de contribuir para libertar os corpos, todos os corpos, da literatura.

Debate na Casa de Papel, outro espaço "cult" na Flip (Foto José Pedro Martins)

Debate na Casa do Papel, outro espaço “cult” na Flip (Foto José Pedro Martins)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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