Mãos de amor
Dois terapeutas por maca bastam para viabilizar o trabalho (Foto Adriano Rosa)

Mãos de amor

Trabalho voluntário feito em terreiro de umbanda mostra como o reiki pode aliviar dores físicas e emocionais

Por Josiane Giacomini Alves

Campinas, 9 de outubro de 2017

Na rua de terra, a poeira ganha ares de neblina… Quando ela se assenta, vê-se: o que era para ser um barracão “comercial” transforma-se em território de fé e cura. Toda quinta-feira, a partir das 19 horas, no distrito de Barão Geraldo, em Campinas, voluntários de dentro e de fora da Casa de Umbanda Mãe de Deus fazem de si a ponte para ajudar ao próximo. Posicionados diante de macas, usam as mãos para aplicar o reiki em pessoas que buscam alívio para as suas dores físicas e emocionais.

Se antes o reiki – método terapêutico que trabalha a energia vital presente em toda a matéria – era olhado de soslaio, hoje sabe-se que a técnica é usada até em hospitais para melhorar a qualidade de vida de seus pacientes. E esse conhecimento se deu graças ao doutor Mikao Usui, que redescobriu as potencialidades do reiki no final do século XIX, guardado por uma tradição de mais de 2.500 anos.

Aline Colares estende as mãos para ajudar a quem não conhece (Foto Adriano Rosa)

Aline Colares estende as mãos para ajudar a quem não conhece (Foto Adriano Rosa)

No caso do terreiro, há que se acrescentar um componente extra, o chão santo. “É lugar sagrado. Tem axé. E ainda tem gente que sabe que o mundo precisa de cura, de luz”, ressalta a yalorixá Tatiana Rocha, que comanda não só a casa como também é responsável pela formação dos terapeutas que lá atuam. “São, na grande maioria, médiuns do terreiro que, por amor à humanidade, se dispõem a doar mais um dia da semana para atender gratuitamente. Acho que isso que faz bem, o amor”.

Tatiana Rocha explica que percebeu o reiki como componente de cura quando fez sua iniciação, nos anos 2000. E reforça que faz tempo que se sabe “do poder do reiki em equilibrar o corpo humano como um todo”.

Equipe do reiki reunida antes do início do atendimento: afinação (Foto Adriano Rosa)

Equipe do reiki reunida antes do início do atendimento: afinação (Foto Adriano Rosa)

Emoções à tona

Carlos Eduardo Tarateta já havia experimentado o reiki como terapia em atendimento particular. “Quando fui procurar estava ruim emocionalmente”, lembra. Mas não teve dúvidas da eficiência do trabalho. Isso porque sensorialmente, diz, já dava para sentir as “emoções à tona” durante a aplicação, desde a vontade de chorar a pensamentos de toda ordem. “Uma limpeza… Chegar de um jeito e sair mais leve, e sentir isso continuamente nos outros dias também”.

Em sua primeira vez no reiki do terreiro Mãe de Deus, Tarateta salientou a importância de ter esse tipo de psicoterapia aberta ao público e sem custos. “Muitas pessoas que não têm possibilidade de pagar conseguem ter esse tipo de tratamento também”. Camila Andrade, que aguardava sua vez de ser atendida, reforçou: “Gostei mais daqui”, disse, comparando ao tratamento pago que já havia feito anteriormente em outro lugar.

Segundo Aline Colares, que coordena o trabalho do reiki no Mãe de Deus, 20 pessoas por semana, em média, passam pelo atendimento. Há quem venha por frequentar o terreiro às terças-feiras e outros sem nenhuma relação com a umbanda ou qualquer religião. Cada aplicação dura cerca de 40 minutos e 52 voluntários se revezam em sistema de rodízio para cumprir a tarefa (8 por quinta-feira). Os agendamentos podem ser feitos pelo e-mail reikimaededeus@gmail.com e o atendimento é por ordem de chegada.

Na onipresença de Iemanjá, a água de beber encerra a sessão (Foto Adriano Rosa)

Na onipresença de Iemanjá, a água de beber encerra a sessão (Foto Adriano Rosa)

Quando desembarcou em Campinas em 2014, vinda de Fortaleza, Aline Colares não conhecia ninguém. Um dia, quando uma amiga passava mal, fez uma sequência de posições com as mãos para ajudá-la, sem saber que eram as mesmas do reiki (até que alguém chamasse a sua atenção para isso). Movida pela curiosidade, fez a iniciação e hoje encontra-se no nível 3, a um passo de se tornar mestre da terapia. No seu caso, o reiki também serviu para estabelecer conexões humanas. Hoje, mais do que nunca, “sei o quanto isso me afeta e gratifica no amor por pessoas que não conheço”.

“Eu acho que o que move o trabalho voluntário é fazer parte de um grande grupo de pessoas no mundo, que desejam ajudar de alguma forma. Empatia que bate no peito, dar o seu pouquinho… Mais uma vez, o amor”, acredita Tatiana Rocha. “O reiki e a umbanda falam a mesma coisa, são movidos por amor e desejo de ajudar ao próximo. Tem a ver sim com a fé, mas a fé na bondade, na ação e, principalmente, na humanidade”.

Energia emanada aquece e acalma o corpo: equilíbrio (Foto Adriano Rosa)

Energia emanada aquece e acalma o corpo: equilíbrio (Foto Adriano Rosa)

De fora para dentro

Há quatro meses, uma tragédia fez Lara Ribeiro de Paula Souza vivenciar uma situação extrema: a morte do namorado em seu apartamento. Herik Penteado, voluntário do reiki no terreiro e amigo pessoal, fez na ocasião o que suas mãos podiam: ser amparo. “Ele fez um reiki em mim e eu dormi no meio daquela confusão…”, lembra.

Hoje, literalmente, Lara Souza faz um salto de fora para dentro do reiki. “Achava massa as pessoas em pé emanando energia boa para quem elas nem conhecem. E que se dispõem a isso em troca de nenhum dinheiro”. Depois de muito receber essa energia nas sessões em que participou, pela primeira vez ela experimentou o contrário, ser o instrumento, o canal que também distribui esse afeto.

“Passei por muita coisa”, admite. Agora vive a necessidade de colocar para fora essa energia de fazer o bem e de transmitir a paz que encontrou. “O fato de ser aqui, um chão santo, que já tem um significado para você e de frente para o altar, é um gatilho para te dar a fé”, reconhece.

Concentração, silêncio e entrega para servir ao próximo (Foto Adriano Rosa)

Concentração, silêncio e entrega para servir ao próximo (Foto Adriano Rosa)

Sob olhares santos

O barracão, de pé direito alto, reverbera um som que gradativamente dilui a pressa do dia a dia. As palavras dão lugar à concentração e um silêncio interno parece povoar quem está (e também chega).

Sob o olhar de orixás, santos e entidades, quatro macas reinam, feito totens modernos que logo inaugurarão sua vocação: ser cama para as mazelas humanas, até que mãos se posicionem e equilibrem o placar da dor, seja ela física ou emocional.

Tatiana Rocha: "Ainda tem gente que sabe que o mundo precisa de cura, de luz” (Foto Josiane Giacomini Alves)

Tatiana Rocha: “Ainda tem gente que sabe que o mundo precisa de cura, de luz” (Foto Josiane Giacomini Alves)

Corpo estendido na horizontal, as mãos, protagonistas de tantas habilidades, ora se posicionam a milímetros da pele, ora a tocam de maneira tão delicada que mais parecem painas a aterrissar no chão, sem peso…

Começa então uma viagem de 40 minutos no escuro de olhos cerrados, com um itinerário certo: cabeça, tronco e pernas percorridos em frente e verso, numa varredura quase sempre comandada pelo calor que emana das mãos dos terapeutas.  A respiração, maré que sobe e desce, se abranda. O pensamento voa… De repente, o onírico assume o controle e a realidade adormece.

Depois de minutos disparados no relógio, terapeutas terminam o trabalho… Alguém avisa: acabou. Sentada na maca, olhar desperto, a boca ganha um copo d’água… Sede saciada, os pés tocam o chão. O passo, agora outro, deixa para trás o peso da bagagem…

 

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