Livro de alunos do Labjor da Unicamp ajuda a romper silêncio sobre Mariana
Editoras do livro comentam o conteúdo da obra (Foto José Pedro Martins)

Livro de alunos do Labjor da Unicamp ajuda a romper silêncio sobre Mariana

Por José Pedro S.Martins

Foram 26 horas de horror, após o rompimento em 5 de novembro de 2015 da barragem de Fundão, da empresa de mineração Samarco, levando à devastação do distrito de Bento Rodrigues, à morte de 19 pessoas e ao lançamento imediato, nos cursos hídricos, de 33 milhões de metros cúbicos de rejeitos – muito mais depois, em uma corrente de destruição que atingiu 40 cidades do Vale do Rio Doce, até desembocar no Oceano Atlântico, em Linhares, no Espírito Santo. Pois esta crônica de aniquilamento, que inundou a imprensa nos dias seguintes, começa a correr o risco do esquecimento no país da memória curta e é para que isto não aconteça que foi lançado nesta quarta-feira, dia 18 de outubro, o livro “Vozes e silenciamento em Mariana: crime ou desastre ambiental?”

O livro reúne textos de 35 alunos do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp, sob a coordenação e orientação da professora Graça Caldas, que editou a obra ao lado da jornalista Adriana Menezes. Com outros alunos do curso, a jornalista participou de expedição a Mariana e o relato dessa viagem integra o conteúdo do livro, que aborda vários aspectos, ambientais, econômicos, sociais e culturais, da grande tragédia. Uma visão ampla, multidisciplinar, do ocorrido em Mariana foi justamente um dos propósitos do projeto, assinalou a professora Graça Caldas no lançamento do livro eletrônico, em evento no auditório da Diretoria Geral da Administração (DGA) da Unicamp.

Reitor Marcelo Knobel: é papel da Universidade "questionar, alertar" (Foto José Pedro Martins)

Reitor Marcelo Knobel: é papel da Universidade “questionar, alertar” (Foto José Pedro Martins)

“Tem sido dito, anunciado e denunciado que este evento pode não ser o único, se não tomarmos cuidado, e é este então o papel da Universidade pública, de divulgar, questionar e alertar”, afirmou no lançamento o reitor da Unicamp, Marcelo Knobel, justificando a postura da instituição de apoiar o projeto do livro digital, que logo estará disponível ao público em geral no site do Labjor (http://www.labjor.unicamp.br/)

Knobel participou do lançamento ao lado de outros dirigentes da Universidade, como a coordenadora da Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa (Cocen), Ana Carolina de Moura Delfim Maciel. Para ressaltar a relevância do projeto, a coordenadora da Cocen citou o trabalho da jornalista bielorrussa Svetlana Alexievich sobre o desastre nuclear em Chernobyl, acontecido em 26 de abril de 1986. Em suas reportagens e no livro “Vozes de Tchernóbil”, que lhe rendeu o Prêmio Nobel de Literatura de 2015, colheu depoimentos sobre cientistas, militares e, principalmente, operários e cidadãos atingidos pelo acidente na usina nuclear situada na Ucrânia. Ana Carolina de Moura Delfim Maciel destacou, então, o esforço dos alunos do Labjor, em igualmente colher o depoimento das vítimas de Mariana, contribuindo assim para a criação de uma “contracorrente do esquecimento”.

Graça Caldas comenta o desafio que foi coordenar uma obra coletiva e multidisciplinar (Foto José Pedro Martins)

Graça Caldas comenta o desafio que foi coordenar uma obra coletiva e multidisciplinar (Foto José Pedro Martins)

Páginas de dor e alerta – Após o pronunciamento dos dirigentes da Unicamp, as editoras do livro, Graça Caldas e Adriana Menezes, resumiram o seu conteúdo e a metodologia utilizada no projeto. Graça Caldas evidenciou o empenho de todos os envolvidos e sublinhou que um dos objetivos foi, além de registrar a voz das vítimas, dar espaço para a opinião de especialistas e pesquisadores, o que pouco aconteceu nas reportagens da chamada grande imprensa sobre o episódio.

Adriana Menezes, por sua vez, fez a síntese de dois dos capítulos, um deles com o relato da expedição que fez, com outros alunos do Labjor, à cidade mineira, poucos meses depois do grande desastre. Um dos elementos que chamou atenção, disse a jornalista, foi o clima de aparente hostilidade entre a população urbana e rural de Mariana.

Adriana Menezes fez uma síntese da expedição de alunos do Labjor a Mariana (Foto José Pedro Martins)

Adriana Menezes fez uma síntese da expedição de alunos do Labjor a Mariana (Foto José Pedro Martins)

 

Por outro lado, Adriana citou as ações de vários grupos, em solidariedade às vítimas, como o jornal “A Sirene”, produzido pelos próprios atingidos pelo rompimento da barragem. A expedição a Mariana dos alunos do Labjor também teve o apoio de profissionais da Universidade Federal de Ouro Preto, assim como a Associação dos Repórteres Fotográficos e Cinematográficos de Minas Gerais (ARFOC – MG) contribuiu com muitas imagens para o livro, comentou a jornalista.

O projeto gráfico de  “Vozes e silenciamento em Mariana: crime ou desastre ambiental?” foi em seguida comentado pela sua autora, Fabiana Grassano. Ela evidenciou como o tema recebeu destaque nas capas dos principais jornais brasileiros, com várias manchetes, nos dias seguintes ao rompimento da barragem, para cair praticamente no esquecimento depois do atentado terrorista em Paris, a 13 de novembro de 2015. A edição de fotografia do livro digital foi de Camila Brunelli.

Percurso da lama pelo rio Doce, até o dia 18 de novembro de 2015 (Fonte: ANA/CPRM)

Percurso da lama pelo rio Doce, até o dia 18 de novembro de 2015 (Fonte: ANA/CPRM)

Impactos de Mariana – Alguns dos múltiplos impactos do episódio em Mariana foram debatidos, na sequência, em mesa com destacados pesquisadores da Unicamp. Carlos Joly (IB-Unicamp/Biota) salientou os graves efeitos ambientais do gigantesco lançamento de rejeitos, particularmente na biodiversidade da bacia do Rio Doce.

De sua parte, Roberto do Carmo (IFCH/Nepo-Unicamp) comentou alguns efeitos sociais da tragédia. Carmo entende que o evento foi um “desastre tecnológico socialmente construído”, e não ambiental, salientando que essa distinção é importante inclusive em termos de responsabilização dos autores.

O pesquisador advertiu que episódios semelhantes tendem a voltar a acontecer, por fatores como o agravamento das mudanças climáticas. Ele lamenta os retrocessos ocorridos na área ambiental, nesses últimos 25 anos pós-Eco-92, o maior evento das Nações Unidas sobre o tema, realizado no Rio de Janeiro em junho de 1992. “Onde erramos, o que aconteceu?”, indagou-se Roberto do Carmo. O questionamento do pesquisador praticamente sintetiza o espírito do livro “Vozes e silenciamento em Mariana: crime ou desastre ambiental?” Uma obra para ajudar a impedir que o véu do silêncio caia sobre um dos mais graves fatos de ordem socioambiental na história do Brasil.

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