Samba no Maneco completa cinco anos neste sábado: o prazer da música e do encontro
Samba no Maneco, instituição cultural em Campinas (Foto Sabrina Sanfelice/Divulgação)

Samba no Maneco completa cinco anos neste sábado: o prazer da música e do encontro

A primeiríssima roda foi em 2010. Isso se sabe. Até então, o que costumava acontecer no Bar do Manoel, ali no São Quirino, era o forrozinho de sempre. Aquele que ainda acontece sem aviso, com a chegada de um, de outro, com a sanfoninha, o zabumba e o triângulo que ficam ali, guardados no depósito à espreita. Naquele tempo a intenção já era fazer do boteco um centro cultural comunitário. Havia vontade de poesia. De cinema, de dança, circo, teatro. Da cultura em partilha, às pessoas dali e de além. E um desejo de luta e de festa. De se equilibrar no caminho. E de caminhar junto num ato social, comunitário; e político. Pelo encontro. Pela convivência. Neste sábado, dia 21 de outubro, o Samba no Maneco completa cinco anos. Começa às 14 horas, na avenida Lafayette Arruda Camargo, 767, Parque São Quirino, Campinas.

O poeta Rafa Carvalho, idealizador do evento, sentia que o samba seria o porta-bandeira dessa história toda. Seu grande abre-alas. E assim foi: juntou amigos e amigas; alguns colegas assim como ele iniciantes nas estradas da vida e da música; Diogo Nazareth, parceiro de canção; Diogo Mendes, o parceiro de circo e acrobacia que agora se aventurava nas fotografias, a família do extinto Coletivo Ajuntaê, na época muito atuante na cidade; e com a ajuda da comunidade toda, assim discretamente, o primeiro samba aconteceu. Nesse dia, o poeta sobrou só na mesa lá pelas onze da noite, e compôs ali “Dama do Boteco”. Nascia o primeiro samba-canção feito naquela encruzilhada. Nascia o Samba no Maneco.

Depois disso, tudo se confunde. No meio de tantas coisas, a soma daquelas juventudes, a labuta da sobrevivência, a dificuldade de se fomentar cultura de modo comunitário e organizado no Brasil, as datas iam se perdendo, o intento da constância se diluindo, e assim, o Samba no Maneco pintava na encruza muito de vez em quando, como alguém quase se afogando que, aqui e lá, ainda aponta além de toda água.

Para acontecer era uma batalha e, quando acontecia, era batalha também. O samba chegava pequenininho, como ensinou Dona Ivone Lara, mas com ele temáticas importantes e urgentes, de modo inevitável e bem-vindo, também vinham. Foi num beijo de duas moças, que as diversidades deram o recado. Feliz e finalmente elas chegavam. O preconceito reagia. E ainda havia os embates: de Molejão com Chico Buarque, de João Gilberto e Katinguelê. Se é pagode, se é samba, se não é. O que toca, quem. Se só toca quem sabe tocar. E assim ia.

Muita pedra rolou, até que a turma do Pagode do Souza, que ia de certo modo revolucionando cenas em Barão Geraldo e na Unicamp se foi achegando. Por um lado, Rafa que por 7 anos havia vivido intensamente o distrito e a universidade, voltava à sua comunidade e provocava os colegas sobre “sair da bolha”, viver a cidade, dialogar com as periferias e seus contrastes todos, provar uma real ideia de extensão universitária; por outro, a turma do Pagode do Souza era a que mais se mostrava aberta e disposta à experiência, além da potência que tinha, de unir Cartola e Só Pra Contrariar num mesmo plantel e assim circular bem por esse espaço diverso. Com isso foram chegando Tchuka, Mali, Pedrinho, Bilé, o Souza, Camila, Sheilinha, o Nei, Raulzito, e o movimento foi ganhando força.  Daí, o povo do bairro tava cada vez mais junto, Lalá e todo mundo. Os bambas da quebrada foram se apresentando. A nova guarda veio surgindo, Robsinho vinha de bicicleta lá do Parque Brasília. E foi no meio disso, lá por 2012, que o samba, ainda com muitos trancos e barrancos, passou a ser deliberadamente mensal.

Alegria, a síntese do Samba no Maneco (Foto  Sabrina Sanfelice/Divulgação)

Alegria, a síntese do Samba no Maneco (Foto Sabrina Sanfelice/Divulgação)

Lá por 2014, era outubro, e a galera decidiu que se fazia necessário celebrar aniversários. Resolveram contar a partir de 2012, o que talvez seja um engano, levando-se em conta só o período em que o evento passou a acontecer todos os meses. E já naquele mês, festejaram os 2 anos. Mas assim como ninguém sabe ao certo quando se compôs o primeiro samba no Brasil, ninguém sabe ao certo as datas desse Samba no Maneco, nem o número de edições que teve até hoje, seus dias e meses. O que se sabe é que o Samba no Maneco é. Nem sempre, uma referência de samba redondo. Diferente da maioria das rodas, no Maneco não se impede ninguém de tocar. Muita gente aprende ali os primeiros compassos e essa conta é dividida entre todas e todos. A roda acontece na mesma proposta relativamente anárquica que é a marca do espaço. Na busca de uma harmonia do todo, de um balizamento orgânico das medidas e relações. A aposta é num processo conjunto, que, mesmo que muito mais lento, não deixe ninguém para trás; a não ser que realmente queira ou quem se deixe mover convicto pelo desamor e suas derivações. Assim é o Samba o Maneco. Como alguém que nasceu na periferia e só foi registrado tempos depois.

Não se sabe quanto, se cinco, se sete anos. Não se sabe como. Mas ele segue. Uma roda de fé. Pra sarar pés e cabeças. Que de fato abriu alas a outros eventos fixos como o Sarau da Dalva, o clube de cinema já anunciado para 2018, as festas de São João e Santa Luzia, e tantos acontecimentos esporádicos que somam já um belo número de ações culturais e artísticas com pessoas de todos os cantos, do Brasil e de fora passando ali pelo singelo bairro da zona leste campineira. Isso sem falar de extensões, como essa com Alê, que esteve na primeira roda em 2010, e em muitas outras, e hoje movimenta belas rodas de samba e luta lá no planalto central, em Brasília.

E nesse sábado, dia 21 de outubro, o terceiro do mês como tem sido, tem Maneco e toda essa comemoração. E com uma programação especial. Normalmente, como explica Rafa, o Samba procura começar no fim da tarde, sorver um pouco da luz do dia antes de seguir noite a dentro até a hora de cessar o som em respeito ao descanso da vizinhança. Nesse sábado, o encontro começa mais cedo, às 14h, com um caruru com pipoca que Rafa vai preparar e oferecer de graça à comunidade. A tradição baiana de agradecimento vai acompanhada de um bom samba de roda, pela tarde, que com o cair da noite se converterá na já tradicional roda de samba. Uma viagem do nordeste ao sudeste, nas tradições do samba brasileiro. À noite também conta com aquele bolo de fubá com queijo emblemático de todo aniversário e com os mimos de sempre, como o licor de jabuticaba com as frutas do quintal da casa de Sil e de Seo Manoel. Tanto o caruru quanto o bolo devem ser oferecidos também em versões veganas e assim segue o Samba no Maneco, festejando a vida, lutando para melhorá-la, a quem quer que seja. Vida longa ao Maneco! E que não deixemos nunca o Samba morrer.

 

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