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Lucina, Olga e Dona Neyde: a constelação de 2018 começa a brilhar hoje no Sarau da Dalva
Sarau da Dalva tem nova edição na noite de hoje (Foto Sabrina Sanfelice)

Lucina, Olga e Dona Neyde: a constelação de 2018 começa a brilhar hoje no Sarau da Dalva

Por Sabrina Sanfelice

Muito da história do Sarau da Dalva já é conhecida. Rafa Carvalho, seu idealizador, ainda era um menino. O lugar, a região do Parque São Quirino, zona leste de Campinas, abrigava a periferia, áreas de ocupação, favelas, regiões sem saneamento, rio Anhumas poluído por empresas criminosas. A favela da Moscou, Inferninho. As escolas públicas dali, onde estudou, eram: uma, construída sobre um antigo aterro, apelidada “Lixão” e cedia aos poucos no solo podre; outra próxima a terrenos públicos e áreas de ocupação no Jardim Nilópolis, gerava situações impossíveis, como assassinatos de estudantes no banheiro.

Enquanto Manoel, pai do menino e retirante nordestino semianalfabeto ia tentando a vida, após perder o emprego, único que teve na cidade, terminando por montar um pequeno boteco no bairro, as professoras de Língua Portuguesa de Rafa rogavam suas pragas. Vai ser escritor! Ele não tinha a menor vontade. E foi uma professora de Matemática que sem aviso o inscreveu para o processo seletivo de uma escola além, de Ensino Médio, que segundo ela, poderia alargar seus horizontes. A história é longa, mas em síntese: o menino foi. Saiu da escola que nunca teve a biblioteca aberta, foi estudar no centro, depois foi à universidade na Unicamp. Depois bolsa na Dinamarca, projeto e trabalho no Japão. E fugiu com o Circo, o menino, foi monge por um tempo, pintor de cascos de veleiros, garçom. E tanto girou o mundo, que a praga se cumpriu. Acabou poeta.

Rafa Carvalho: poeta e agitador cultural (Foto Marina Barbim)

Rafa Carvalho: poeta e agitador cultural (Foto Marina Barbim)

E não é à toa começar essa matéria sobre o Sarau da Dalva, falando de seu idealizador. Suas histórias se confundem. Foi num movimento de volta a seu lugar de origem, já transformado pelo tempo, pelos anos de governos que deram um pouco mais de atenção aos menos favorecidos, mas ainda carente, de acesso, estima e oportunidades, que Rafa em parceria com o pai começou o Sarau. O projeto é um dos muitos sediados no bar, que se apresenta como centro cultural comunitário, além de boteco, por ser um espaço possível, disponível em meio a tanta demanda social não-atendida. Dalva é a avó de Rafa, mãe de Manoel, já falecida e mulher baiana tida como louca, fora dos padrões sociais, que passou a vida entre a casa e manicômio: a grande matriarca de toda a Poesia que acontece nesse cruzamento da Avenida Lafayete, entre lá e o Jardim Santana.

Sarau da Dalva: confluência de almas boas (Fotos Sabrina Sanfelice)

Sarau da Dalva: confluência de almas boas (Fotos Sabrina Sanfelice)

O Sarau nasceu numa noite de quarta-feira, dividindo espaço com o futebol e a sinuca. E foi sem imposições galgando voz e vez à Poesia. Aos poucos, o próprio público e comunidade foram decidindo por desligar a TV no seu horário, fechar a mesa de sinuca para usá-la como estante de livros. E a perspectiva ampliada de Poesia que Rafa prospera foi aos poucos acolhendo diversidades, curando preconceitos, e encontrando gente. A Poesia foi apropriada por muitas pessoas que não vislumbravam sequer a possibilidade da Poesia em suas vidas, até então. Homens passaram a deixar seu time de futebol por um instante, um poema. Uma biblioteca pública começou a ser montada. Ali mesmo, aberta. E já o projeto se aproxima de completar seu quarto ano, com cerca de quarenta livros lançados, quarenta exposições de artes visuais realizadas, atrações musicais de todo Brasil e internacionais, performances cênicas diversas, meia tonelada de jiló e centenas de litros de caldos variados oferecidos gratuitamente à população presente.

Aa artista plástica Olga Bilenky (Foto Sabrina Sanfelice)

Aa artista plástica Olga Bilenky (Foto Sabrina Sanfelice)

Rafa brinca com as iguarias do pai, dizendo que o Sarau da Dalva viu Seo Manoel fundar o “Jiloísmo”. Segundo o poeta, muitas pessoas já aceitaram o jiló em suas vidas, por conta dos modos surpreendentes como Manoel os apresenta. Sem dúvidas há muito carinho em tudo que compõe o Sarau da Dalva. E neste ano, o projeto que teve já edições com presença de mais de 300 pessoas –  extrapolando em muito a capacidade física do estabelecimento e extravasando Poesia e Arte pelas calçadas – viu-se contemplado pelo Proac, Programa de Ação Cultural do Governo do Estado de São Paulo. Rafa comenta esse apoio como, antes de tudo. o apoio do povo. Segundo ele, é do povo que vem esta verba. É o povo o grande fomentador da Cultura, inclusive financeiramente. E é para povo que tudo deve voltar: “A Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo é uma mediadora. Aliás, é isso que nossas instâncias de governo devem ser. O protagonismo é nosso. A finalidade de qualquer ação política e cultural é sempre a população. Temos visto bons e sérios trabalhos artísticos sendo feitos com o Proac e ficamos honrados de sermos um deles. Tudo precisa voltar à comunidade. E o fomento econômico é fundamental sim, mas é também apenas parte do processo. Há o fomento afetivo, energético, que para mim é imprescindível. E isso, nós sempre tivemos de todas as pessoas, no Sarau da Dalva. É o que nos move”.

Cantora e compositora Lucina apresenta seu Canto de Árvore (Foto Olivia Hublet)

Cantora e compositora Lucina apresenta seu Canto de Árvore (Foto Olivia Hublet)

A primeira edição dessa programação especial fomentada pelo Programa deu-se em Fevereiro, em plena quarta-feira de Cinzas. Foi uma noite de casa cheia com lançamento de livro, intervenções, performances e muitas cores. A segunda edição, por sua vez, será hoje, nesta noite, com a presença da cantora e compositora Lucina, que vem do longo de sua carreira partilhar seu “Canto de Árvore”, confluindo a participação com a exposição de obra “Mandala”, da artista plástica Olga Bilenky, pintada no final da vida de sua amiga Hilda Hilst na Casa do Sol, em Campinas, e que serve como cenário dessa edição do Sarau. Que tem ainda a exposição “Mão de Laços” de Neyde Giacomini, a Dona Neyde, ou Neydoca, frequentadora assídua que, do alto dos seus 86 anos, vem para partilhar sua arte criada a partir de novelos feitos com retalhos de malha. E o lançamento da antologia feminina “Damas Entre Verdes”, recém-lançada em São Paulo pelas Edições Senhoras Obscenas, com presença de algumas de suas autoras.

Neyde Giacomini vai apresentar sua exposição Mão de Laços (Foto Josiane Giacomini)

Neyde Giacomini vai apresentar sua exposição Mão de Laços (Foto Josiane Giacomini)

O Sarau da Dalva segue acontecendo em edições mensais, sempre na segunda quarta-feira de cada mês e deve contar daqui para Julho com muitas presenças importantes da Poesia, Canção, Literatura e Artes em geral. Segundo Rafa, essas presenças servem para, em um só tempo, verificar os ideais igualitários de valor humano e equidade entre os presentes, proporcionar acesso a bens culturais  à comunidade local e todo público interessado, além de proporcionar essa convivência com grandes artistas, mestras e mestres que podem na partilha de suas vidas e obras servirem a todas e todos com muita inspiração. Seja à Arte, seja à Vida.

Além do Sarau da Dalva, esse ano traz o Sarau da Dalvinha, que destina um domingo por mês às crianças, com contações de estórias, espaços de livre criação e convivência entre elas, além do convite a mães, pais e interessados, a pensarem juntos um processo de educação complementar livre ao público infantil, pela Poesia. E 2018 ainda promete inaugurar um Clube de Cinema e mais ações culturais comunitárias, além do já tradicional Samba no Maneco e das festas de São João e Santa Luzia.

Mais informações podem ser obtidas pelas páginas de Rafa Carvalho e do Sarau da Dalva, no Facebook.

https://www.facebook.com/rafacarvalho.br/

https://www.facebook.com/saraudadalva/

 

Serviço:

Sarau da Dalva

Quarta-feira, 14 de março de 2018. A partir das 19h.

Bar do Manoel – Estrela Dalva

Av. Lafayete Arruda Camargo, 767. Parque São Quirino.

Sobre ASN

Organização sediada em Campinas (SP) de notícias, interpretação e reflexão sobre temas contemporâneos, com foco na defesa dos direitos de cidadania e valorização da qualidade de vida. Já ganhou os prêmios de jornalismo: FEAC (2015), Prêmio Nacional de Jornalismo em Seguros (2016), ABAG-Ribeirão Preto "José Hamilton Ribeiro" de Jornalismo (2017) e Prêmio INEP de Jornalismo (2017).

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