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Cantador Asa Branca pousa em Campinas neste sábado, dia 27 de outubro
Asa Branca do Ceará, chegando em Campinas (Foto Divulgação)

Cantador Asa Branca pousa em Campinas neste sábado, dia 27 de outubro

Asa Branca do Ceará, nome com que é conhecido, por sua terra de origem, experiente cantador que há muitos anos habita Monteiro, na Paraíba, com uma longa estrada na arte da cantoria, se apresenta esta semana em Campinas, fechando sua passagem com uma apresentação no Bar do Manoel – Estrela Dalva, resistência cultural nordestina na cidade.

Ele cantou com Patativa do Assaré. Não seria necessário dizer muito mais que isso. O Asa ainda era moço, quando desse acontecido. Em tempos de tantos desafetos, com todo tipo de gente. Inclusive com os nordestinos, ditos preguiçosos, vagabundos, mas que ainda assim construíram boa parte dos prédios deste Sudeste trabalhador, é importante dizer: o Nordeste é lindo! Patativa era analfabeto. E é, como sempre será, um de nossos maiores poetas. A inteligência nordestina, a arte, o estilo, a sagacidade, a potência, a beleza da caatinga, do cerrado, do sertão, são coisas escondidas nas miudezas. Gente insensível não vê. Não valoriza. Pensa que não tem nada ali. Mas quando vê, já foi. É como à Capoeira. A gente julga mal. E nem dá conta da rasteira.

E é aí, que a gente se engana: diploma, não é sabedoria. Main stream não é mérito. Quase nada que parece, é. Talvez tenha passado da hora de olharmos direito pro Nordeste. Como para o povo pobre, à mulher, à negritude, às diversidades. E todas essas imensidões. Que nada têm de minoria, nem de menor.

O sertanejo é antes de tudo um forte, já dizia Euclides. Vai lá. Fazer alegria brotar da terra seca. Vai fazer poesia nascer da exclusão. Vai disputar com um cabra desses, vagabundo, preguiçoso e analfabeto, um debate para presidenciáveis. Vai ver quem ganha. Vai pegar na enxada capinando contra ele, ver quem ganha. Vai buscar água no poço, no açude. Vai caçar beleza nessa vida, apesar de tudo. Ver quem ganha.

Claro, tudo isso sem generalizações. Afinal, toda generalização que segregue, é uma forma de fascismo. O importante é a potência humana. O ser humano. O mundo todo nosso. Asa Branca viveu, viveu, cantou a vida inteira. E virou um senhor de muitos anos. Setenta e sete, pra ser mais exato. Pai do cordelista Samuel de Monteiro, que há algum tempo vive em Campinas, organizando o Sarau de Boteco e importante agente cultural na cidade, o cantador aqui pousou recentemente, para um curto período de partilhas. Tendo já passado por Jundiaí e feito atividades com estudantes da Unicamp, Asa participa nesta quinta-feira da FLIC, Feira Literária de Campinas; na sexta-feira do espetáculo “Lá vem o pai e o filho – cordel, causos e cantoria”, na Fundação Jurgensen (com participações de Samuel, Gilber Souto Maior e Stephen Bollis). E no sábado, o encontro se dá no Bar do Manoel – Estrela Dalva. Para uma cantoria autêntica. Nos moldes como manda a tradição, desse evento tão comum pelo Nordeste, que quase nunca se vê em nossa região.

Uma oportunidade preciosa. O encontro neste sábado, 27 de outubro, começa a partir das 19h. Parelha de Asa Branca com Seo Manoel. São dois “terceira série primária” como eles mesmos dizem. Seriam dois pelo menos semianalfabetos pelos critérios mais rasos e comuns. Agora, critério bom mesmo seria não perder essa dupla junto, pois a chance é válida como fosse única. Asa na cantoria. E Seo Manoel na cozinha. Ele prometeu um cardápio especial pra noite, com pratos típicos como baião de dois com cangote de carneiro; carne do sol frita com macaxeira na manteiga e sarapatel, ou sarrabulho, com torresmo. Caldos e outras opções veganas ou vegetarianas também estão garantidas.

Então é isso. Para entender a dinâmica de uma cantoria de viola nordestina, ou cantoria de “pé-de-parede”, nada melhor do que ver e ouvir (e degustar, nesse caso), com os próprios sentidos. Mais informações sobre as apresentações todas do cantador em Campinas, podem ser obtidas nas páginas de Asa Branca do Ceará nas redes sociais, bem como da produtora De Repente Produções Culturais. E do próprio Bar do Manoel – Estrela Dalva.

Quem sabe todo mundo se letra um pouco mais em alegria. E a gente sabe do Bar do Manoel como sendo este espaço dedicado a apreciar as singularidades, suas importâncias. E a riqueza delas juntas, misturadas, na diversidade nossa, mundana e brasileira. Sempre dá uma esperança, nessas convivências. Sem dúvidas, um bom lugar pra se estar neste Sábado, véspera de eleição.

E segue o baile. Seguiremos. Cantando. E sendo exatamente aquilo que somos, parafraseando o sulista Leminski. (Por Rafa Carvalho)

 

Sobre Rafa Carvalho

Rafa Carvalho é poeta apesar de tudo. Em 15 anos de carreira, são 21 países, por quase todos continentes, trabalhando com Arte, Educação e fazendo de tudo, porque tudo é o que a Poesia pode ser. E, para quem acha que Poesia não é profissão, ele já trabalhou de garçom em inúmeros estabelecimentos, na demolição civil escandinava como imigrante parcialmente legal e, atualmente, está desempregado.

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