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Sarau da Dalva desta Quarta vem com a Obra de um Mestre, Luiz Antônio da Silva
Luiz Antonio da Silva (Foto Parada Poética / Márcio Salata - Divulgação)

Sarau da Dalva desta Quarta vem com a Obra de um Mestre, Luiz Antônio da Silva

Por Rafa Carvalho

O evento poético da cidade de Campinas, em sua edição de Novembro, conta com lançamento de livro, participação muito especial e uma série de outros motivos, nesta quarta-feira, 14 de Novembro, a partir das 19h, seguindo a tradição em sua já 49ª edição, no Bar do Manoel – Estrela Dalva, na Av. Lafayette Arruda Camargo, 767 – Parque São Quirino, fone (19) 3296-4912

Sempre senti o Sarau da Dalva como um encontro. Pra ser efetivo mesmo, precisa ser de um, consigo próprio. Nalgum momento. E se encontrar, nesse mundão, nunca foi, nem ainda é, tarefa fácil. Daí tem um encontro com o outro. Um respeito, a compreensão, uma empatia. Um afeto pela diversidade. Depois, enfim, esse encontro com o nosso. O nós. Nóis, noiz. Tudo isso. É o que chamamos ali de: Constelação.

Achamos que gente é pra brilhar, não pra morrer de fome – como diz Caetano. E aí lutamos, pela luz de cada uma; e cada luta que podemos, por cada direito humano desses, que sentimos. Ainda e, violentamente, distratados. A utopia de um mundo mais justo, duma gente mais ajustada. Mas aí, a respeito do brilho, apesar do estrelismo irrepreensível em cada um. Tentamos não trabalhar por nenhuma gente-estrela, senão por um povo-constelação. É isso que queremos. Fosse futebol, não seria um time inteiro jogando por um centroavante. Mas o contrário. Ninguém no banco. E o gol de qualquer um, sendo sempre nosso.

Batendo bola com meu parceiro e mestre Renato Gama, a conclusão é: o campo é deles, a bola é deles, o juiz; é deles. Mas o drible: é nosso. E a história é nossa. Então, deixa que a gente escreve. Não tem como passar por essas máximas, nem por cada mínimo, sem lembrar de quem veio antes. E dos que ainda estão. Sem saravar Conceição Evaristo, Solano Trindade e Raquel Kambinda, Carolina Maria de Jesus, Vaz, Pezão e Binho, Ferréz, Da Rosa, Rodrigo, Renan. Xênia, Suzi, Otília. Daniel. Lucas. Noémia de Sousa, do além mar Moçambique (e mãe, certamente tão ainda nossa!), Dona Edite e Dona Maria lá, dos fundões da zona sul, por Sampa; a nossa Sinhá, cá de Campinas mesmo, Rosária. Meu mestre e hoje amigo Nelson Sargento. Tanta gente bamba, que sem dúvida ainda é gente, tem seus tropeços (ainda na carne, ou no carma), como eu, como você. Mas que vêm resistindo. Surpreendendo entre a cadência. E o corre de cada dia. Bem, com muita sorte ainda, essa lista é bem maior. Que minha sabedoria, e o tamanho possível a esse texto. Mas, saravá!

É isso. No começo, eu me sentia incomodado de escrever sobre a gente. Hoje não. A gente encosta ali, naquela encruza, na quebrada, mesmo pra tomar. Tomar uma, com a família. Uma gelada, um quente. Tomar a benção de Dalva, de seo João de Deus, que tomou sua cachacinha ali primeiro que nós todos, que o asfalto, o cimento e tudo mais. À benção dos nossos ancestrais, dos verdadeiros donos daquele chão. E desse céu, que ainda há sobre todos. A gente senta ali pra tomar poesia, utopia, doses e doses. Tomar um caldo gostoso, de graça. E tomar, por que não, os meios de produção. Parece que é nada. mas pode ser tudo. Quem já viu a planta brotar da mínima brechinha no concreto, sabe.

Enfim, ali a gente toma. Toma as porradas também. Mas seguimos. Construindo, desconstruindo. Reformando. Revolucionando quem sabe. Tudo uma questão de um dia. De cada vez. Se eu tivesse uma lista de poetas que mais me marcaram na vida, até hoje, mais da metade: seria analfabeta. Isso diz muito, do que ainda somos. Mas não diz do que devemos ser. Ou é pra todo mundo, ou não é pra ninguém. A arte precisa ser distribuída, como a terra. O conhecimento – inclusive das letras -, deve ser partilhado, como a renda. O protagonismo deve ser comunitário. Acesso não é só acesso a ver, ouvir. É sim a poder sentir plenamente. E fazer, se quiser.

Nós ficamos honrados com cada “terceira série primária” que aparece aqui, com a poesia que seo Manoel, Asa, Maria José e tantas outras esbanjaram. Com cada preta pobre que se virou sem oportunidade às universidades, e outras necessidades básicas humanas. Mas não queremos essa honra por mais tempo. Queremos avançar nas igualdades fundamentais, da diversidade imprescindível: humana.

Queremos que os motivos que temos hoje, para celebrar, por tratarem dos exageros dessas exceções, continuem sendo motivos de celebração, mas tão comuns como respirar. Como deve ser comer bem. E fazer amor.

Contudo, nessa fase de transição, estamos muito honrados em uma coisa, relacionada a tudo isso.

Quando eu decidi arriscar uma partilha literária com o mundo, por essas vias da internet, que àquele tempo não eram mais sombrias do que ainda são, mas sim, mais nebulosas, criei um espaço que se chamava “vida em obras”. Era uma brincadeira ingênua, quase infame, dessa minha ludicidade concreta menor, com as palavras, para o termo “vida e obra” tão usado nos discorreres sobre os grandes nomes. Era também, além da ironia, uma fé sincera no devir artístico, como um dever obreiro. Um labor braçal, de transpiração e transcendência. Nos aproximando mesmo de construtores. Pedreiros se virando, com as pedras do caminho.

Um dia fui construir um cubico, meu cafofinho nos fundos da casa de minha mãe, nas quebradas do Jardim Nilópolis. Tentando sair do aluguel, nos primeiros anos difíceis de um poeta. Uns doze metros quadrados, em cima da laje da lavanderia. E quis conhecer o peso de cada tijolo. O valor de erguer cada parede. De encher cada coluna e percinta. De içar cada viga ou vigota. Antes disso tinha batido só umas massas. Carregado umas latas de pedra. Me aventurando pela gringa, cheguei a fazer bicos. Parcialmente legal, atuando sobretudo na desconstrução civil, derrubando umas casas pra serem refeitas. Paredes pra algumas reformas. Uns muros. Por algumas coroas que me ajudavam a sobreviver ali. Mas apesar dessa experiência, que talvez me tenha dado alguma dignidade. Nunca tive a urgência, nem a decência, dessa profissão.

Conheci pedreiros maravilhosos, na minha vida. Um desconhecido me fez chorar cantando Cartola perfeitamente, às seis e meia da manhã, de uma segunda-feira qualquer. Seo Juvenil morreu pedalando com quase oitenta a caminho da construção. E o que nos honra, nesta quarta-feira de Sarau da Dalva, é receber Luiz Antônio da Silva. Isso mesmo. Mais um “lula” no Brasil. Construtor civil, pedreiro. Pra mim, um mestre de obras. Ainda não vi suas casas. Mas quem vê seu sorriso já sabe o que mais é preciso sobre um ser humano. E sua obra poética é uma jóia improvável nos rumos da “nossa” história, até aqui. Uma planta dessas que vingou na brecha mínima. Sua poesia é um bezerro desenganado que abandonaram à morte, mas que viveu, crescendo um touro forte. E que vence o toureiro no fim, deixando-o à vergonha de ser mais elegante que o próprio. Assim, sem perder a ternura. Um peão, no requinte de um xeque-mate tranquilo.

“Concretando Versos” é o primeiro livro do poeta, paranaense crescido em Sumaré, editado de modo independente, “na raça” – como quem sabe, sabe. E que chega assim, à sua segunda edição. Desse modo, aquela brechinha vai servindo para “expandir a poesia”, expressão do próprio Lula, usada em entrevista dada para compor o documentário do Sarau da Dalva, a ser lançado mês que vem, na última edição do ano.

Bom, aí, voltando àquela do futebol, eu fico ali pra tomar umas “canetas” desses caras. E aprender um pouquinho mais dessa manha, que é viver. Fica aqui o convite, a quem quiser fazer o mesmo. Jogar junto. Levar uma pérola dessa pra casa, com dedicatória do autor ainda em vida. É só mais um Silva. De quem a estrela ainda brilha. Resistindo.

A gente tá lá pra isso. Gol dele é gol nosso. Elegância de Sócrates, Ademir da Guia, jogando pra expandir a poesia. Querendo ver, também nas suas palavras, “mais e mais poetas novas e novos chegando”. E, quem vai chegando da base, como eu, chega com a responsa de ter tido essa escola. À consciência de que, são tantos “lulinhas” por aí, que se tenta impedir, submeter; neutralizar. Mas o brilho de cada um deles é nosso. Nossa revolução é constelar. E em síntese: quarta-feira é dia de bola rolando. Parece nada, só que não. Nossa vida tá em disputa. Então, olho no lance. Vamo calmar o jogo. De classe, com classe. E tabelar bonito. Entrosamento ajuda. O drible é nosso. A encruza, não é deles. E o jogo, só termina, quando acaba.

Fale você nós, nóis ou noiz. Sua história é nossa. E sempre cabe mais um nessa constelação. Vale lembrar que, no início do Sarau, o futebol predominava debaixo daquele barracão de zinco, toda quarta. A própria comunidade foi sugerindo deixar. Que a poesia também jogasse. Corresse pelos flancos, solta, moleca, com espaço. Uma vez por mês. E nesta quarta tem!

Concretar versos, no fim, é isso. Que esse Lula faz todo dia, que o Sarau da Dalva faz todo mês. Construindo sonhos e versos concretos, nos terrenos da utopia. A gente ocupa. E resiste. Se é gol de letra, é nosso.

 

Sobre Rafa Carvalho

Rafa Carvalho é poeta apesar de tudo. Em 15 anos de carreira, são 21 países, por quase todos continentes, trabalhando com Arte, Educação e fazendo de tudo, porque tudo é o que a Poesia pode ser. E, para quem acha que Poesia não é profissão, ele já trabalhou de garçom em inúmeros estabelecimentos, na demolição civil escandinava como imigrante parcialmente legal e, atualmente, está desempregado.