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Entre a Cruz e o Revólver (terceira parte)
Mahatma Gandhi / Paulo Leminski (Montagem / Foto Divulgação)

Entre a Cruz e o Revólver (terceira parte)

“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!” (João, 8:32)

Por Rafa Carvalho

“Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além”. Isso quem disse foi o Paulo. Não o da Bíblia, mas o Leminski mesmo, de quem já falei aqui pra trás. Sinto que Jesus sabia disso. Por isso aquele Amor todo, sem fronteira. E o furor com a hipocrisia.

Aliás, falando mais de hipocrisia. Jesus não parecia ter nada de um Neoliberal. Parecia? O que vocês veem? Eu vejo um cara negro. Ou pardo. Nada de olhos claros. De sandália ou até descalço. O pé rachado. Cheirando suor. À roupa batida. Errante. Nômade. Ficando na rua, nas casas de pessoas, de favor. Comendo com a mão. Dormindo no chão. Falando utopias. Ficando perto dos leprosos, das prostitutas, dos rejeitados. Fazendo milagres que, na própria Bíblia, são descritos de modo muito análogo ao que hoje se entende por feitiço, encanto. E macumba. Transformando água em vinho! Cuspindo nos olhos de um cego pra curá-lo! Se transfigurando em antepassados ou homens de fé tidos como mortos! Sua hipocrisia pode não admitir. Mas nada disso deixa Cristo distante de um louco. Ou um mendigo, de hoje em dia. Pobre, daqueles pobres mesmo. Nada deixa Cristo distinto de um outsider. De um punk. Um livre pensador, educador. Idealista. Poeta! Nada deixa Cristo longe de um revolucionário. Um filho do proletariado. Um excluído social. Desses que incomodam aos militares, aos senhores acadêmicos. Que não é visto como cidadão de bem. Que é chamado arruaceiro, baderneiro, vagabundo. Nada deixava Cristo aquém de um líder sindical. Um comandante pirata. Zumbi. Nem de um anarquista. Embora sua hipocrisia possa defender até a burrice, de não procurar saber o que Anarquia de fato pode ser, antes de sair aqui fazendo qualquer crítica a essa possibilidade. Nada da vida bíblica, evangélica, de Cristo, demonstra que ele não fosse um cigano. Ou até mesmo – pasmem: um terrível comunista.

Obviamente, esses conceitos todos, “Liberalismo”, “Neoliberalismo”, “Socialismo”, “Fascismo”, “Comunismo” e tantos outros, não estavam teorizados na época de Cristo, como hoje estão. Mas o fato é: tudo o que se registra na Bíblia sobre Jesus, nos dá motivos para crer, que ele foi do tipo que tomaria enquadro da polícia militar direto. E levaria tapa na cara invariavelmente. Que ele poderia estar num prédio implodido com gente dentro por um político paulista. Que poderia ser queimado vivo dormindo num ponto de ônibus, por jovens playboys de qualquer cidade grande daqui. Que pararia num desses manicômios, amarrado, amordaçado e adormecido. Que seria torturado há cinquenta anos atrás ou hoje, pela opressão política. Que sofreria uma emboscada como Marielle, teria um destino cruel como o dela, o de Rafael Braga ou do Amarildo.

Só não se ferraria de verde e amarelo no SUS, pelo milagre da cura. Mas é isso: nada apontava prum Cristo andando em papamóvel. Nem nos carros hiper-blindados, como os líderes dum governo que quer ver o pipoco comendo solto, desde que usando a nossa grana pra se super proteger, a alto custo, da desgraça que eles próprios querem implantar. Nada aponta prum Cristo cheio de Botox, todo esticado e engomadinho, querendo ser um “gestor público”. Usando o nome do Pai, dando carteirada pra conseguir regalias, pra si próprio e pros seus familiares. Fazendo reuniões com ricos. Comendo nos melhores restaurantes, cheio de seguranças em volta. Em troca de propor dar ração pras crianças, roubando dinheiro de seu alimento e direitos, até reduzir a maioridade penal, pra poder erradicá-las de vez.

Não dá, pela Bíblia, pra imaginar um Cristo fazendo isso hoje, nem nada relativo em sua época. Não. O cara nasceu sem regalia nenhuma, num estábulo. Curral. No meio da merda dos ruminantes. E seguiu assim, sem regalias, até a morte. Ministros do STF têm seus subordinados, os “capinhas”, ganhando muito mais que eu – e que você provavelmente, a menos que você ganhe mais que uns dez, quinze mil reais por mês – para lhes servirem água, café. Puxar e empurrar as cadeiras pra que os juízes se sentem direito e – olhem que delicadeza! – ajudá-los a vestir a toguinha. Afinal, usar capa de super-herói é fácil, difícil mesmo é se vestir. Tanto estudo, tanto título, tanto salário, benefício, e não podem nem se vestir sozinhos, coitados. Enquanto isso, Jesus lavava os pés dos seus discípulos. Qualquer diferença talvez seja mera coincidência, mas: hoje, aqui, os que falam em seu nome, e pela família e pelo povo, só lavam o dinheiro dos seus seguidores.

De qualquer forma, o que Cristo foi mesmo, em vida, nós não vamos saber. Como terá sido, de fato. Pois não estivemos lá. Ou estivemos? Logo, tudo que pensamos que sabemos, é só a nossa fé. E embora a fé seja a certeza do que não se vê, se dissermos que temos uma certeza concreta de algo, é hipocrisia. Mesmo com a Bíblia. Mesmo com o Supremo, com tudo. Mesmo assim. Vou provar: uns tem fé no Comunismo; outros, no Capitalismo. Os dois lados juram ter certeza de que seu lado é o melhor. Um dos dois, nessa dinâmica ainda cartesiana do mundo, estará, necessariamente: errado. Como saber quem é o hipócrita? Como conhecer a verdade que nos liberta?

Vou dizer algumas verdades, então. Minhas. De fé. Quando o menino Jesus nasceu, ele nasceu num lugar pior que o centro de saúde do meu bairro – que aliás nem existe mais hoje, está desabado. Pior que o SUS, na prática corrupta dos nossos governos. Com os pais fugindo, escondidos. Se passando por mentirosos. Numa resistência difícil, estratégica. Lutando contra muitos, pela sobrevivência. A estrela que selou aquilo tudo foi do Oriente, vejam só. Não o contrário. A visita estimada, foi de três reis magos. Quê? Magos? Pode isso, bancada cristã? Que vinham do Oriente. Do Oriente! Reconheceram aquela luz antes de todos. Reparem: todos. Antes do governo, antes dos sábios, dos ricos, militares. Dos fariseus, ou seja, antes mesmo de muitos sacerdotes. Enfim. Antes de todos.

Pois bem. Guardemos essas informações em nossa consciência. Depois, esse menino cresceu. E fez tudo isso. Tudo isso que você, conhecedor da Bíblia e do Evangelho vai saber, naturalmente. Disse pra gente dar a César o que é de César. O Jesus errante libertário que não tinha nada registrado no seu nome. Nem casa, nem carroça, nem salário. O que será que Ele quis dizer com isso? O que Ele, nosso maior exemplo, deu a César?

Daí, seguindo sua biografia, ele foi traído – a traição sempre existiu. Por dinheiro! Vejam só. Por um apóstolo que alguns dizem ter sido o tesoureiro do grupo. Aquele que lida com o maior desafio desses nossos tempos. O dinheiro. Poder. Victor Hugo dizia. Ter dinheiro é possível. Mas é imprescindível deixar claro, todo dia, quem é que manda em quem. Edgar Morin comenta da importância que há, em se ter idéias. E o perigo, que está representado, quando as idéias é que nos têm.

E, resumindo, quando lá, nas mãos de Pôncio Pilatos, Jesus ainda teve a chance de uma espécie de julgamento, com voto, opinião ou júri popular. E a voz do povo – que afinal, é a voz de Deus – decretou a morte de Jesus Cristo.

Bom, vamos lá. Sobre Barrabás, a quem o povo escolheu deixar viver nessa ocasião: talvez ele não fosse assassino ladrão, assim de forma tão simplista, como se diz por aí nos cultos e missas. Barrabás talvez fosse um importante líder da resistência judaica, à dominação romana. Talvez naquele dia, Pilatos não tivesse ninguém pra sentenciar à morte justamente.

Fato é: o povo, ali, não reconheceu a luta de Jesus. E a minha fé, infeliz, é: hoje, nós ainda o mataríamos. Vou começar a sair um pouco da Bíblia, mas não da História. Mahatma Gandhi. Tido como o libertador do Estado Moderno Indiano, defensor do Satyagraha, os protestos pela não-violência. Eu conheço um pouco os livros da Bíblia, pois já estive ministrante, missionário e, tentando não ser tão hipócrita, confesso que a li inteira, algumas vezes. Depois, dentre outras experiências dessa vida, estive aprendiz de um monge, que era do Congo, mas tinha crescido na Índia. Um dada tântrico que me ensinou de outros revolucionários, violentos, que também lutaram pela libertação indiana.

E aqui voltamos lá pro início do texto: quem conta esta história? E por quê? A Inglaterra perdeu, aparentemente, o controle sobre a Índia, na época. Mas, talvez, não tenha perdido a condução desse conto. Houve outros líderes além de Gandhi? A libertação teria funcionado sem eles? Por que carimbar na História, o exemplo da não-violência? Por que preferem contar do mestre que oferece a outra face, ao invés do mestre que saiu virando mesa, cadeira e tudo no templo, ou que cogitou lançar ao mar, com pedras amarradas ao pescoço, os homens que fossem irresponsáveis com as crianças?

A verdade, assumamos ou não, é essa: tudo é fé. Até o ateu precisa de fé para acreditar que Deus não existe. Não sabemos quem foi Gandhi. Não sabemos se a libertação foi mesmo libertação. Não sabemos se as conquistas foram mesmo conquistas. As fake news sempre existiram. E vindas de todos os lados. Todas as partes. Não estávamos lá pra saber. E mesmo se estivéssemos. Com a corrupção que nasce dentro da gente. Com o limite da percepção humana. Não saberíamos saber.

Talvez essa seja a verdade de João: nós, não sabemos.

Precisamos da fé. E tem gente que tem fé no Amor. No respeito. Na desenvolvimento humano. E tem gente que tem fé na bomba atômica, na truculência e na mutilação. No fim, somos todos fiéis. Extremistas. Radicais não. Pois quase não sobrou radicais nesse mundo. Embora a burrice e a hipocrisia confundam. Mas é isso. Matamos por isso. Matamos Cristo ainda, todo dia.

Ele falou que era mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha, que um rico entrar no reino dos céus. Meu Deus! Por que é que então tanta gente tá tentando ficar rica? Por que é que isso virou sinônimo de uma vida que dá certo? Por que é que a Igreja começou a falar só dessa prosperidade e parou de falar no Amor, no perdão? Nós ainda não percebemos uma coisa: é impossível ter muito dinheiro e muita posse nesse mundo, não sendo um criminoso. Sem explorar seu semelhante. Nós ainda não percebemos: meritocracia, não existe. O que existe é História. E um imenso e completo desamor, em todo canto onde o Amor não existe.

Pai, perdoa. Eles não sabem o que fazem. Foi que Jesus falou há quase dois mil anos. E o que ele falaria hoje, de novo. Evoluímos? Desenvolvemos? A energia elétrica, o etanol, o telefone, o carro, o Facebook, as células tronco, ajudaram nisso em alguma coisa? E o seu dinheiro?

Todos os templos, sagrados, financeiros, diplomáticos. Tudo está corrompido. Covis. Mas o nosso corpo também é um templo. No seu, só tem você. Seus mistérios, seu pensamento, seu sono, sonhos, suas ambições. E aí, como ele está? Como você está? No final, morremos só com isso. Só o que há dentro desse temploo seu corpo, é que talvez possa seguir. Os faraós do passado já deixaram essa lição. Sua riqueza material não vai com sua alma. Suas coisas ficam. E ainda vão guerrear por elas. Pra ver se as riquezas de um faraó egípcio ficarão num museu da França, ou da Alemanha. Seus filhos, provavelmente, começarão a tramar uns contra os outros, a disputarem por sua herança, mesmo antes que você morra. Debruçarão no seu caixão felizes com a “conquista”. Não importando se seu legado é um puxadinho na favela, ou uma multinacional.

E então. Aí, da intimidade do seu templo: você, é um covil de ladrão?

 

Sobre Rafa Carvalho

Rafa Carvalho é poeta apesar de tudo. Em 15 anos de carreira, são 21 países, por quase todos continentes, trabalhando com Arte, Educação e fazendo de tudo, porque tudo é o que a Poesia pode ser. E, para quem acha que Poesia não é profissão, ele já trabalhou de garçom em inúmeros estabelecimentos, na demolição civil escandinava como imigrante parcialmente legal e, atualmente, está desempregado.