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LISBOICES: Sem culpa
"Nestes momentos não sinto culpa de não querer voltar ao Brasil, pelo menos por enquanto." (Foto Eduardo Gregori)

LISBOICES: Sem culpa

Por Eduardo Gregori
Trabalhei a noite inteira. São 8 horas da manhã e estou na freguesia de Santos a caminhar para o centro de Lisboa. Lembro-me da noite anterior em Algés, uma freguesia perto de Belém onde trabalho. De dia, o lugar vibra com gente por todas as partes, chegando e partindo de trem, fazendo compras no mercado local ou aproveitando os raros dias quentes e sem chuva deste outono para tomar um café.
Mas é noite e o silêncio impera. Poderia sair nu que não seria notado. O silêncio só é quebrado pelos carros que passam rumo a Lisboa ou para Cascais, e é só. As vezes, quando saio para tomar a brisa que assopra do Tejo, sinto uma certa melancolia, uma saudade, mas sem sofrimento. Acho que o silencio propicia isso.
Após uma noite de chuva, finalmente o sol nasce e penso se vou perder o barco para casa se continuar no passo em que estou. Coloco Amalia Rodrigues para tocar no meu celular e decido pegar um barco mais tarde. Diminuo o passo para desfrutar da vista. Ao meu lado direito o Tejo já está apinhado de cruzeiros, veleiros, canoas e barcos. Olho para trás e ao longe o trânsito na Ponte 25 de Abril está parado no sentido para Lisboa. É hora de ponta, como chamam aqui. Toda gente a ir para o trabalho.
Pelo caminho casarios com fachadas em azulejos azulados, muitas praças arborizadas e monumentos históricos que, infelizmente estão sendo afogados por novos empreendimentos imobiliários que fazem da vista para o rio seu maior apelo e portanto, preço inflacionado. É triste ver que a velha Lisboa vai desaparecendo, mas é uma realidade irreversível.
Paro para tomar um café e comer uma bola de Berlim, um pão doce recheado de creme. Uma delícia típica portuguesa. A noite, outrora tranquila, deu lugar a uma organizada confusão. Gente emerge e todos os lugares, a descer dos ônibus, dos trens e dos charmosos elétricos.
Os elétricos antigos, para mim são uma visão poética, porque é fascinante ver um bonde minúsculo deslizar por uma cidade moderna. Deve ser bem desconfortável, coisa para turista.
Chego ao Cais do Sodré, que ainda não foi invadido pelo bando de turistas. Aproveito para sentar-me bem à margem do Tejo e respiro profundamente. A vista é privilegiada. No canto da praça uma senhora vende castanhas assadas. Nesta altura do ano a tradição manda rezar para São Martinho , comer castanhas e tomar jeropiga, uma bebida elaborada com cachaça e mosto de uvas.  O calor do forno à lenha e uma tacinha de jeropiga abrandam a friaca que insiste em se fazer presente, mesmo com o sol já majestoso no céu.
Se ainda não há turistas, de Alfama até o Cais do Sodré, a margem do Tejo é o lugar para exercitar. Muita gente a correr, a andar, roupas coloridas e coladas ao corpo. Se eu vivesse nesta região certamente faria o mesmo, pois não há academia com uma vista mais deslumbrante.
Retomo meu caminho. Passo por ruínas romanas expostas como feridas de outrora, em pleno centro da cidade. O trânsito congestionado na Ribeira das Naus me chama a atenção e ainda tenho que desviar dos patinetes elétricos, uma febre que tomou a cidade.
Paro em cima de uma pequena ponte de madeira, já perto da Praça do Comércio. Nos fones de ouvido Amália canta Uma Casa Portuguesa. Olho para o Tejo outra vez e sou tomado por uma alegria imensa. Me pergunto se essa vida que levo agora é mesmo realidade. Há muito não sentia essa sensação de amar uma cidade e fazer parte dela. Nestes momentos não sinto culpa de não querer voltar ao Brasil, pelo menos por enquanto.

 

Sobre Eduardo Gregori

Eduardo Gregori é jornalista formado pela Pontifícia Católica de Campinas. Nasceu em Belo Horizonte e por 30 anos viveu em Campinas, onde trabalhou na Rede Anhanguera de Comunicação. Atualmente é editor do blog de viagens Eu Por Aí (www.euporai.com.br) e vive em Portugal

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