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Por amor à música brasileira, Guinga e Ernani Aguiar são celebrados em festival que se encerra hoje em show gratuito
Um dos homenageados pelo Festival de Música Contemporânea Brasileira, Guinga ensaia no auditório da CPFL

Por amor à música brasileira, Guinga e Ernani Aguiar são celebrados em festival que se encerra hoje em show gratuito

Por Adriana Menezes

Os dois músicos homenageados na 6ª edição do Festival de Música Contemporânea Brasileira (FMCB), em Campinas, Ernani Aguiar e Guinga, nasceram no mesmo ano e no mesmo estado do Rio de Janeiro. Conheceram-se pessoalmente, no entanto, somente agora, aos 68 anos, semanas antes deste encontro musical, e descobriram, além da música, outras afinidades como suas opiniões sobre a inspiração e sobre a obra de Carlos Gomes. Os dois compositores encerram hoje (30/03) a programação do FMCB, às 20h, no Teatro Castro Mendes, em apresentação com a Orquestra Sinfônica de Campinas sob a regência do maestro Ricardo Bologna (ingressos gratuitos retirados a partir das 19h).

O músico compositor Ernani Aguiar, homenageado na sexta edição do FMCB

O músico compositor Ernani Aguiar, homenageado na sexta edição do FMCB

Descontraídos, os dois conversaram com a imprensa durante a semana, mas não foi o único momento de conversa na agenda do festival. Começaram na terça-feira (26/03) com uma oficina de música para crianças no Centro Infantil Boldrini. Depois não pararam mais de conversar e tocar. Fizeram bate-papo com a plateia em apresentação com o Quinteto da Paraíba no dia 27/03, às 20h, na CPFL; participaram de congresso no Instituto de Artes da Unicamp nos dias 28 e 29/03 (com comunicação oral e mesa-redonda) e fizeram concerto comentado nos dias 28 e 29/03 no Teatro Castro Mendes. O público aproveitou a oportunidade e interagiu nos eventos (todos gratuitos).

Guinga em entrevista à imprensa na CPFL, patrocinadora do festival

Guinga em entrevista à imprensa na CPFL, patrocinadora do festival

“Não estou muito habituado a ser homenageado”, disse Guinga à imprensa. “Dos prêmios que fui indicado, 90% eu deixei de ganhar. Então, sou um contumaz perdedor. Acho que ganhar e perder é uma coisa que faz parte da vida. Aliás, ninguém aprende na vitória, e sim na derrota. Ganhei quatro prêmios em minha vida e há pouco tempo joguei fora, porque não é isso que importa. É a obra que fica que importa”, afirmou o músico refletindo sobre a vida.

Guinga é o que ele mesmo chama de “músico de ouvido”.  “Sou um músico que fez o caminho da rua para a universidade.” Em seguida, confessa: “Odeio partitura”, mas diz que gostaria de poder fazer ele mesmo seus arranjos “pegando uma partitura”. A relação de parceiros musicais e intérpretes que ele já teve dizem muito sobre a sua obra: Chico Buarque, Aldir Blanc, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Elis Regina, Leila Pinheiro, Mônica Salmaso (com quem começa turnê no Japão dia 2/04) e uma lista enorme de talentos.

Hermeto Pascoal resumiu em uma frase o que pensa sobre Guinga: “Um cara como ele aparece a cada cem anos.” A admiração é mútua, como se pode ver na música de Guinga e Aldir Blanc “Chá de panela” que homenageia o “bruxo” Hermeto.

Ernani Aguiar e Guinga se apresentam no FMCB de quarta a sábado, em Campinas, como homenageados

Ernani Aguiar e Guinga participaram de congresso e shows promovidos na sexta edição do FMCB

“Boa música é aquela que me provoca algum sentimento, uma reação física. Cada um tem uma forma de sentir”, define Guinga, que diz acreditar em inspiração. “Quando ela chegar, que ela te encontre trabalhando. Não tem processo, ela vem na hora que você menos imagina, vem quando ela quer.” O compositor e regente Ernani Aguiar interrompe e corrobora: “Eu acho o mesmo que o Guinga sobre inspiração.”

O compositor, regente, professor e pesquisador Ernani Aguiar “passeia” pela música vocal, instrumental, de câmara e orquestral. Versatilidade e criatividade descrevem a obra de Ernani, que defende a valorização da música brasileira enfaticamente, mencionando em poucos minutos de conversa músicos como Villa-Lobos, Radamés Gnattali, César Guerra-Peixe, Ernesto Nazareth e Carlos Gomes. “Quero sempre reger música de compositores brasileiros.”

Ernani Aguiar recebeu da Câmara Municipal de Campinas, em 2015, a Medalha Carlos Gomes

Ernani Aguiar recebeu da Câmara Municipal de Campinas, em 2015, a Medalha Carlos Gomes

“Fiz a obrigação com Carlos Gomes que todo regente brasileiro deveria fazer”, disse quando respondia sobre a Medalha Carlos Gomes que recebeu da Câmara Municipal de Campinas em 2015. “Já regi várias coisas de Carlos Gomes, ganhei prêmio e a medalha por ter regido a ópera ‘Colombo’, pela primeira vez executada por uma universidade latina.” Ainda sobre o compositor campineiro, Ernani falou de “Burrico de pau” , sonata para orquestra de cordas, último movimento. “É uma obra-prima”, dizia Ernani, quando foi interrompido por Guinga dizendo ter a mesma opinião. Ernani emendou, referindo-se a Guinga: “Parece que já nos conhecíamos há 38 anos.”

Ernani Aguiar é também professor universitário desde 1985, atividade que ele diz ser importante em sua vida: “Isso me põe vivo, esse contato com os jovens músicos.” Elogiou a Unicamp, a Orquestra Comunitária da universidade e Rubem Alves.

Nascido em Petrópolis (RJ), o músico faz questão de dizer que “nós não somos de onde somos paridos, somos de onde amamos”. A cidade que escolheu, diz ele, foi Ouro Preto (MG), como “cidade natal”, e Firenze, na Itália, como “cidade real”.

Autor de peças com nomes que fazem referência à cultura brasileira, como “Tempo de Maracatu” e “Tempo de Caboclinhos” (ambas executadas esta semana pelo Quarteto da Paraíba), Ernani Aguiar diz que muitas vezes não sabe exatamente de onde vem a influência: “Quando componho, a minha memória busca no meu arquivo, que nem conheço.” Para concluir, Ernani se autoproclamou anarquista, no mesmo tom bem-humorado e descontraído que manteve durante a edição do festival que o homenageou em Campinas.

Informações
www.fmcb.com.br
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