Encontro de Choro eleva a Cultura da continuidade e do pertencimento
Mônica Salmaso em apresentação na Concha Acústica do Taquaral, em Campinas, no dia 21/04: chuva ameaçou realização do show, mas público permaneceu e mutirão limpou o local após estiagem (Foto Martinho Caires)

Encontro de Choro eleva a Cultura da continuidade e do pertencimento

Por Adriana Menezes  Fotos Martinho Caires

Foram nove dias de muito choro em Campinas. Um choro canção embalado predominantemente por vozes femininas e ouvido por um público de todos os gêneros, credos, cores e origens. O 1º Encontro de Choro de Campinas, que aconteceu de 16 a 24 de abril, terminou nesta sexta-feira à noite no Coreto da Praça Carlos Gomes, Centro, com a Orquestra de Choro Campineira. A estimativa do 1º encontro foi de um público de 2 mil pessoas nos nove shows realizados em diferentes pontos da cidade, além de 95 alunos de música que participaram de oito atividades normativas.

A avaliação dos organizadores, ainda em “êxtase” com o sucesso, foi de que atingiram o objetivo: realizaram um verdadeiro encontro entre músicos, alunos, professores e público em torno do choro. Em 2016, prometem novidades. “Tivemos um almoço de confraternização onde a equipe estava em êxtase, porque estes encontros trazem vida e perspectiva para as pessoas. Nós acreditamos na Cultura e na Arte como continuidade, como processo, e não como produto. A Cultura que cria o sentimento de pertencimento, de uma maneira que se contrapõe ao que existe de dominante hoje”, define Franco Galvão, um dos organizadores e idealizadores do evento que deriva do Encontro de Choro da Unicamp, criado em 2004 no Instituto de Artes.

Com a ideia de expandir e levar o choro à população fora da universidade, um grupo de três pessoas, que ganhou mais dois integrantes em 2014 e hoje é composto por cinco, resolveu empreender na produção cultural. “Nós somos de uma escola crítica de produção cultural. Não somos produtores padrão de entretenimento”, diz Franco, que é mestre em Economia e profissional e aluno de música. O grupo de organizadores é formado por alunos e ex-alunos de música, dança e artes cênicas da Unicamp, entre eles a atriz e produtora Cassiane Tomilhero.

 

Cerca de mil pessoas foram à Concha Acústica do Taquaral para ouvir choro tocado por professores da Escola Portátil do Rio de Janeiro e a cantora Mônica Salmaso

Cerca de mil pessoas foram à Concha Acústica do Taquaral, debaixo de chuva, para ouvir o bom choro tocado por professores da Escola Portátil do Rio de Janeiro e interpretado pela cantora Mônica Salmaso

Em primeiro lugar, um encontro

“Nós evitamos chamar de festival porque queríamos dar esta ideia de encontro. A ordem das palavras hierarquiza o que aconteceu: Encontro de Choro de Campinas. Em primeiro lugar, um encontro, em torno do choro, e em Campinas”, explica Franco. Que em seguida discorre sobre a pergunta óbvia sobre o subtítulo ‘A mulher no choro’: Por que lembrar da mulher desta vez? Ou melhor, por que só agora?

A resposta não foi tão óbvia assim: “Foi uma avaliação geral de que nas rodas de música, samba e choro, a música brasileira é predominantemente masculina, apesar da contribuição e participação históricas das mulheres. Em 2014, no encontro da Unicamp, o público feminino foi muito baixo. Decidimos incentivar a presença da mulher, trazer o público feminino, mas sem a pretensão de processar o que é o feminino. Isso está além de nosso controle. Não queremos cair no debate raso de tratar como igual, porque tem de ser igual respeitando as diferenças.”

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Foto Martinho Caires

 

Atrações gratuitas

Todos os nove shows e as oito rodas de choro foram gratuitos para o público e aconteceram em espaços diversos como o Boteco da Estação Cultura de Campinas, a Concha Acústica do Taquaral e o Coreto da Praça Carlos Gomes, além dos espaços do Instituto de Artes da Unicamp. As atividades normativas, que tiveram 95 alunos em grupos de no máximo 15, aconteceram na Unicamp. Para as aulas eram cobradas uma taxa de R$ 40,00, que dava direito ao aluno a uma camiseta e uma apostila. “O valor era para garantir a presença e evitar que alguém fizesse a inscrição e não comparecesse, tirando a oportunidade de outra pessoa”, diz Franco.

A programação também abriu espaço para grupos já formados, que puderam se apresentar aos professores, sempre no período da manhã. Ao final, os cinco grupos fizeram uma apresentação aberta. No período da tarde, aconteciam as aulas conceituais sobre o universo do choro.

A produtora Cassiane Tomilhero utilizou rodo para diminuir a água da chuva que acumulou na Concha Acústica, mas não impediu a realização do show na última terça-feira (Foto de Danilo Fernandes)

A produtora Cassiane Tomilhero utilizou rodo para diminuir a água da chuva que acumulou na Concha Acústica, mas não impediu a realização do show na última terça-feira (Foto de Danilo Fernandes)

Segundo Franco, o envolvimento da equipe, que há mais de dez meses trabalha na organização do encontro, foi fundamental para o sucesso da programação. A apresentação de Mônica Salmaso, na Concha Acústica do Taquaral, no dia 21/04, estava prestes a ser cancelada por causa da forte chuva que durou cerca de uma hora minutos antes do horário marcado, mas a mobilização da equipe garantiu que o show fosse realizado. “Nosso núcleo é de cinco pessoas, mas convocamos um pessoal muito bom, de coração inclusive, para nos ajudar. Na terça, queríamos muito que o show acontecesse, daí caiu muita água. Ficamos impressionados de ver que o pessoal continuava lá. Então nos mobilizamos. Surgiram rodos nem sei de onde, foi uma coisa muito espontânea”, conta o organizador.

Os organizadores do 1o Encontro de Choro de Campinas estimam que cerca de 2 mil pessoas assistiram aos nove shows da programação em diferentes espaços da cidade

Os organizadores do 1o Encontro de Choro de Campinas estimam que cerca de 2 mil pessoas assistiram aos nove shows da programação em diferentes espaços da cidade (Foto Martinho Caires)

Novas ideias

O 1º Encontro de Choro de Campinas é um projeto contemplado pelo edital “Festivais de Artes” do Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo (PROAC) e conta com a parceria da Secretaria Municipal de Cultura de Campinas, Pró Reitoria de Extensão da Unicamp, Instituto de Artes da Unicamp, Empório do Nono e Almanaque Café, além de diversos apoiadores que tornaram possível o evento. “Já tivemos muitas ideias para 2016. “O choro, para muitos, é uma coisa de velho. Então pensamos em levar às escolas”, sinaliza Franco.

A programação incluiu apresentações de Mônica Salmaso, dos professores da Escola Portátil do Rio de Janeiro, dos grupos Choro das 3, Duo Sheila Zagury e Dani Spielmann, Corta Jaca, Praça Onze (composto exclusivamente por mulheres), Subindo a ladeira, Grupo de Choro da UFMT e Orquestra de Choro Campineira. As aulas foram ministradas por professores e pelas artistas Monica Salmaso e Sheila Zagury No repertório, um leque enorme de compositores brasileiros, entre eles Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Ernesto Nazareth, K-Ximbinho, Abel Ferreira sem deixar de visitar novos compositores como Maurício Carrilho, Proveta, Pedro Amorim, Paulinho da Viola, Leroy Amêndoa e muitos outros.

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