Proliferação do zika vírus e dengue é fruto do atraso secular no saneamento no Brasil
Destinação inadequada de resíduos ainda é realidade em muitas partes do Brasil (Foto Adriano Rosa)

Proliferação do zika vírus e dengue é fruto do atraso secular no saneamento no Brasil

O zika vírus virou uma questão de emergência internacional, como deliberou a Organização Mundial da Saúde (OMS) na última segunda-feira, 1 de fevereiro. No Brasil, um dos focos principais do zika, muitas providências estão sendo tomadas em pesquisas científicas e medidas de combate ao Aedes aegypti,  mas uma das principais causas da proliferação do vírus, da dengue e outras doenças transmitidas pelo mosquito está sendo esquecida: o atraso mais do que secular na implantação de adequada estrutura de saneamento básico no país. O maior número de casos suspeitos de microcefalia é registrado no Nordeste, onde são piores os indicadores de saneamento do que a média nacional, já baixa.

A OMS define saneamento básico como o conjunto dos serviços de coleta, tratamento e distribuição de água, coleta e tratamento de esgoto, coleta e destinação adequada de resíduos e drenagem apropriada nos espaços urbanos. O dilema é mundial, pois segundo as Nações Unidas cerca de 2,6 bilhões de pessoas não contam com saneamento apropriado no planeta, considerando os quatro eixos envolvidos. Um dos resultados é a morte diária de mais de 3 mil crianças por falta de saneamento apropriado.

No Brasil a estrutura ainda está muito longe do ideal. Mais de metade da população, ou cerca de 100 milhões de pessoas, não conta com coleta de esgoto, e somente 39% dos esgotos são tratados. A consequência é o despejo de esgoto in natura em rios e córregos a céu aberto, em cujas margens ou proximidades moram milhões de brasileiros.

A estimativa é a de que seja despejado diariamente nos cursos d´água o equivalente a 5 mil piscinas olímpicas de esgoto sem tratamento. O uso de fossas ainda é uma realidade para milhões de brasileiros. Um dos impactos é no sistema de saúde. Segundo o DataSUS, em 2013 foram registradas 340 mil internações por infecções gastrointestinais. Se o Índice de Desenvolvimento Humano, calculado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), considerasse dados de saneamento básico em sua metodologia, o Brasil despencaria em sua posição mundial, que já não é confortável. No último ranking, relativo a 2014, o Brasil ficou em 75º lugar no IDH.

O cenário do saneamento é ainda mais grave na zona rural no Brasil. Pouco mais de 5% dos 8 milhões de domicílios rurais, onde vivem 30 milhões de pessoas, contam com coleta de esgoto ligada à rede e metade dos esgotos é jogada diariamente em valas ou em rios, córregos e lagoas.

As piores coberturas em saneamento básico são registradas nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, onde está sendo registrado o maior número de casos suspeitos de microcefalia.   Na Região Norte, que tem 40% de sua população de crianças e jovens de até 18 anos, 67% dos domicílios não contam com rede de esgoto ou fossas sépticas, e além disso 45% não são servidos por rede de água, em plena Amazônia, maior concentração de água doce do mundo. No Nordeste, onde 34% da população são de crianças e adolescentes, 54% dos domicílios são estão ligados à rede de esgoto, como acentuou a publicação “Cenário da Infância e Adolescência no Brasil 2015″, lançada pelo pelas organizações Fundação Abrinq e Save the Children.

O Ministério da Saúde divulgou na terça-feira, dia 2, que está investigando 3.670 casos de microcefalia. 404 casos foram confirmados, sendo 17 com ligação comprovada com o zika vírus. A região Nordeste concentra 98% dos municípios com casos confirmados, estando Pernambuco na liderança do número de municípios com casos confirmados (56), seguido dos estados do Rio Grande do Norte (31), Paraíba (24), Bahia (23), Alagoas (10), Piauí (6), Ceará (3), Rio de Janeiro (2) e Rio Grande do Sul (1).

Mas o saneamento básico também mantém muitos déficits na Região Sudeste, a mais populosa do Brasil e onde foram registrados mais de 1 milhão de casos prováveis de dengue em 2016, entre os mais de 1,6 milhão computados em todo país no ano passado.  São 2,4 milhões de domicílios da Região Sudeste sem acesso a rede de água e 3,3 milhões de moradias sem acesso a rede de esgoto. O Sudeste concentra 1,6 milhão de domicílios em favelas, e o Nordeste, 926 mil, segundo o Censo do IBGE de 2010, citado na publicação “Cenário da Infância e Adolescência no Brasil 2015″. Sem a substancial melhoria no saneamento básico no Brasil, a luta contra o Aedes aegypti continuará inglória nos próximos anos.(Por José Pedro Martins)

 

 

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