Tunga, uma das estrelas dos históricos Salões de Arte Contemporânea de Campinas e da Bienal 1987
Instalação de Tunga na Bienal de 1987 de São Paulo (Foto Adriano Rosa)

Tunga, uma das estrelas dos históricos Salões de Arte Contemporânea de Campinas e da Bienal 1987

O ritual foi seguido à risca. Junto a uma chapa de metal que havia solicitado, o artista agregou tranças de cobre imitando cabelos e um lenço de seda feito à mão. Força e leveza, a linha fina que embala e define os corações humanos. Com este conjunto de peças e materiais, praticamente compondo uma instalação, tão em voga nos anos 1970 e 1980, Tunga foi uma das estrelas do XIII Salão de Arte Contemporânea de Campinas, em 1988. A presença do artista falecido ontem, 6 de junho, aos 64 anos, no Rio de Janeiro, é mais uma prova de como os Salões sediados no Museu de Arte Contemporânea de Campinas (MACC) “José Pancetti” foram importantes para a cultura brasileira, o que naturalmente leva à indagação sobre as razões da interrupção de um evento determinante para projetar a imagem da cidade. Tunga também expôs um ano antes, na 19ª Bienal de São Paulo, o que apenas reforça como eram marcantes os Salões de Campinas.

Nascido em Palmares, Pernambuco, em 1952, Antônio José de Barros de Carvalho e Mello Mourão, o Tunga, era filho do poeta e jornalista Gerardo de Mello Mourão. Com uma obra recheada de simbolismos, ele se tornou um dos principais expoentes das artes plásticas brasileiras a partir da década de 1980. Inquieto, gostava de experimentar diversas linguagens, incluindo muitos projetos em vídeo.

Foi o primeiro artista brasileiro a expor no Louvre, em Paris, e tem um pavilhão permanente no Inhotim, o espaço em Minas Gerais que já ganhou notoriedade internacional. Uma das obras expostas no Inhotim é “Lezart”, de 1989, considerado um ícone de sua trajetória. Pois “Lezart” teve o seu ensaio no XIII Salão de Arte Contemporânea de Campinas, um ano antes.

Outro ângulo da instalação de Tunga na Bienal de São Paulo, um ano antes de participar do XIII Salão de Arte Contemporânea de Campinas (Foto Adriano Rosa)

Outro ângulo da instalação de Tunga na Bienal de São Paulo, um ano antes de participar do XIII Salão de Arte Contemporânea de Campinas (Foto Adriano Rosa)

A décima terceira edição do SACC aconteceu entre 23 de abril e 25 de junho de 1988. Com o tema “Simbologias e Alternâncias: Momentos ocupacionais da expressão plástica”, o Salão prestava um tributo ao artista plástico Hélio Oiticica, que teve expostos dois trabalhos da série dos Metaesquemas, “Piercing 3” e “Lá e Cá 10”.

Como informou Carolina Tiemi Odashima, em “Os Salões de Arte Contemporânea de Campinas na década de 1980″, trabalho de iniciação científica no Instituto de Artes, da Unicamp, sob orientação da professora Dra.Maria de Fátima Morethy Couto, o XIII SACC teve a curadoria geral de Clélia Berenice Corrêa Pimentel, então coordenadora do MACC, e curadorias especiais para os cinco setores em que se dividiu: Linguagens contemporâneas (Alberto Beuttenmüller), Reprografia (Marcos Rizolli), Vídeo Arte (Paulo de Tarso Cheida Sans), Holografia e Raio laser (José Joaquin Lunazzi, professor do Instituto de Física da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, e pesquisador na área de tecnologia em holografia e raio laser) e Meios eletrônicos (Júlio Plaza, artista plástico e curador de grandes mostras, como a sala especial de Arte Postal da 16ª Bienal Internacional de São Paulo, de 1981).

No evento de abertura,  no dia 23 de abril de 1988, às 20 horas, um resumo do que significou o Salão de Arte Contemporânea de Campinas para a cultura brasileira, com a “estreia” do projeto MAC/MAC, que consistia em um “diálogo” entre os Museus de Arte Contemporânea de Campinas e de São Paulo via satélite, pelo sistema de Slow Scan Television (SSTV). Participaram da ação os artistas Artur Matuck, Paulo Laurentiz, Milton Sogabe e Rejane Augusto. No dia 30 de abril, o projeto MAC/MAC teve uma segunda apresentação, às 16 horas, com a transmissão para o museu homônimo da capital paulista da “Imagem Cigana”, de Milton Sogabe, e outras narrativas de Paulo Laurentiz e Artur Matuck.

Entre outros, participaram do XIII SACC os artistas Anna Bella Geiger (gravura) e Regina Silveira (sombras projetadas), Silvia Basílio de Matos (com obras em fibra óptica), Guto Lacaz (vídeo arte),  Paulo Brusky (arte xerox), Augusto de Campos e Paulo Leminski (videotextos) e o próprio Tunga, como uma amostra de como o Salão foi expressivo em termos de experimentação de novas linguagens.

Tunga já havia participado das bienais internacionais de São Paulo de 1981 e 1987 e começava a se consolidar no firmamento da arte contemporânea internacional. Na 19ª Bienal de São Paulo, expôs a instalação “Enquanto Flora a Borda Tomba Magnética de Acúleos Zumbidos a Trilha Atapetara Aérea Ataraxia Pendular Arrepio Marsupial que Mesmo Hominídeo Cabia Fenosos Pêlos ao Lóbulo Rastreara Assistência Fractal Hesita-o Animal de Níquel Vêm o Vôo Entomológico Fêmea Ausculta Cabeça Genoma Penetrarás”. Apenas pelo nome é possível constatar que Tunga encontrava-se em pleno vigor criativo nesse biênio 1987-88 e como foi polêmica a obra mostrada na capital paulista.

Sua presença no XIII SACC foi apenas um exemplo, é bom repetir, da relevância da iniciativa campineira. Sua obra no Salão recebeu o título de “Imã-cobre-ferros-latão-seda-massa encefálica”, uma síntese de seu legado artístico, marcado pela criação de novos sentidos a partir da conjunção de estilos, conceitos, símbolos e materiais. Foi uma espécie de ensaio para “Lezart”, de 1989, agora constante do acervo do Inhotim.

Instalação de Tunga, em pleno vigor criativo no final dos anos 1980 (Foto Adriano Rosa)

Instalação de Tunga, em pleno vigor criativo no final dos anos 1980 (Foto Adriano Rosa)

Em sintonia com o mundo – Os Salões de Arte Contemporânea de Campinas foram assim, uma janela da arte brasileira, para cá e para o mundo. Uma iniciativa em estreita sintonia com o que acontecia de mais avançado na arte nacional e internacional, um esforço cosmopolita.

O I Salão, em 1965, nasceu de modo geminado com o próprio MACC, dois anos depois da criação do MAC-USP e no mesmo ano das históricas mostras Opinião 65 e Propostas 65. Salão e MACC nasceram com importante participação o Grupo Vanguarda, o conjunto de artistas que mudaram as perspectivas das artes plásticas em Campinas.

Foram muitos nomes, que se projetaram em esfera nacional e global, que participaram das 14 edições do SACC e cujos “prêmios aquisição” somam grande parte do acervo do MACC. Um claro sinal do potencial de Campinas de estar aberta para o novo, para o múltiplo, sempre que ela ousa romper os limites da província. (Por José Pedro Martins)

Museu de Arte Contemporânea de Campinas “José Pancetti”, nascido junto com os Salões (Foto José Pedro Martins)

Museu de Arte Contemporânea de Campinas “José Pancetti”, nascido junto com os Salões (Foto José Pedro Martins)

 

 

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