A inclusão dos ‘fora de padrão’ ganha novos contornos no Mercado Mundo Mix
A estilita Wendi Caires, da Liga Plus Size: "Falta espaço no mercado para este tipo de produto fora do padrão de beleza" Fotos: Martinho Caires

A inclusão dos ‘fora de padrão’ ganha novos contornos no Mercado Mundo Mix

O fim de semana na Estação Cultura de Campinas foi mais uma vez totalmente Mix. Se há um espaço onde é possível dançar, experimentar, beijar, andar, brincar, comer, vestir, consumir e ser o que se é, sem se sentir intimidado por olhares de repressão, esse lugar é o Mercado Mundo Mix. Pela segunda vez em Campinas em 2016, o MMM criou uma estratégia para ampliar ainda mais o seu potencial de inclusão. Fez o Liquidamix (com descontos em todos os expositores), estabeleceu o valor máximo de R$ 20,00 nos lanches e trouxe os expositores da Cooperativa Liga Plus Size com peças em tamanho grande. Teve também os sempre surpreendentes empreendedores criativos e corajosos. Pena que já acabou! Mas uma nova edição já está prevista para dezembro.

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Diversidade e inclusão, em todos os sentidos, em ambiente sem repressão no Mercado Mundo Mix Foto: Martinho Caires

A inclusão dos excluídos no mercado de consumo, afinal, vai muito além do valor do produto. Não é apenas quem não pode pagar pela peça que se vê fora do mercado. Quem não tem o corpo esbelto ou a beleza das revistas também é excluído das lojas tradicionais. E quem é mulher e homem ao mesmo tempo – ou nenhum dos dois – sente-se da mesma forma fora do padrão imposto. Para incluir todos os gêneros (e sem gênero), todos os tamanhos, todos os orçamentos e gostos, é preciso abrir um espaço que ainda não existe nas ruas do comércio ou grandes centros comerciais. Diversidade e inclusão em todos os sentidos se expandem no Mundo Mix, que traz novos contornos a cada edição.

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Cristiane foi à feira para encontrar roupas com modelagem apropriada à mulher que tem curvas   Foto: Martinho Caires

A vendedora Cristiane Mayworm foi à feira especialmente atraída pelos preços mais baixos dos lanches e os produtos da Liga Plus Size. “A questão não é apenas o tamanho, mas o corte, a modelagem. Eles aqui sabem que as gordinhas têm culote e barriguinha, e a mulher brasileira tem bumbum, quadril e coxa grandes. Quando compro nas lojas sempre preciso fazer ajuste. Com as roupas chinesas piorou, porque elas são menores que nós”, protesta Cristiane. “No meu trabalho, eu visito empresas e preciso estar elegante, não posso trabalhar de jeans, por exemplo. Além disso, eu gosto de sair, quero estar sexy e feminina, variar os modelos”, diz a vendedora de 45 anos, que foi ao MMM com toda a família – marido, filhos e sobrinho – e saiu animada com as novas opções de roupa que conheceu.

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Na segunda edição do MMM em Campinas este ano, os lanches não custavam mais de R$ 20,00     Foto: Martinho Caires

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Em ambiente musical, a feira criada há 23 anos em São Paulo acontece na Estação Cultura de Campinas

 

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Wendi Caires: sob medida

Wendi Caires foi uma das expositoras que Cristiane conheceu no Mundo Mix. Ela mora em São José dos Campos, mas faz roupa sob medida para gordinhos em todo o Brasil pela internet (wendiwelove). Há quatro anos a estilista empreendeu, mas desde os 9 ela costura roupas de boneca e, na adolescência, começou a sentir o drama de encontrar roupas que lhe agradassem. “Aos 14 anos, eu só vestia jeans, camiseta e tênis. Eu não conseguia variar. Saía da loja chorando porque não achava uma roupa mais descolada.”

Aos 18 anos, começou a fazer suas próprias roupas. Aprender a lidar com as formas do corpo se tornou um desafio para Wendi, que cursou Moda e descobriu tecnicamente que vestir uma gordinha não é apenas fazer com que a roupa caiba nela. “Aos poucos, perdi o medo de provar.” Como empresária, Wendi reclama da falta de espaços para esse tipo de produto, situação que ela atribui ao padrão estético imposto pelo mercado. A cooperativa foi criada para ampliar as oportunidades e aumentar a participação dos produtores em diversas feiras do setor.

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Rafael Cavaglhyery mostra peças exclusivas criadas no Ateliê das Mora, em Barão Geraldo (Campinas), vendidas no MMM

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Oficina de maquiagem e máscara com As Ramires

O Ateliê das Mora também participou desta edição do Mundo Mix, com roupas sem gênero – ou de todos os gêneros. “Trouxemos um pouco do nosso espaço para a feira, porque nós discutimos estes processos, fazemos um movimento artístico que questiona este consumo por gênero. Fazemos roupas sem gênero definido”, diz o estilista Vicente Perrotta. O curador do estande, Rafael Cavaglhyery, incluiu no espaço – além das peças exclusivas – uma oficina de maquiagem artística e máscara d’As Ramires, que ensinava a fazer uma máscara do próprio rosto em uma hora e meia. “O ateliê é também espaço de empoderamento, especialmente LGBT.”

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O estilista Vicente Perrotta, do Ateliê das Mora: “Fazemos roupas sem gênero, que questiona esse consumo por gênero”

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Haydèe Carvalho customizou uma Kombi para levar às feiras seus produtos vendidos na loja virtual Namascracyonline

 

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Haydèe: “Não sigo tendências”

A empreendedora Haydèe Carvalho de Campos levou sua Kombi personalizada à Estação Cultura para participar pela primeira vez do MMM. A estilista já tinha uma loja online (namascrazyonline.com.br), mas começou a participar de feiras com a Kombi esse ano. “Comprei a Kombi há um ano e customizei. Coloquei vidro elétrico, direção hidráulica e novo revestimento nos bancos. Eu mesma dirijo, eu faço as peças e eu vendo.” A irreverência, diz Haydèe, é a sua marca. “Não sigo tendências. É o meu espírito de porco que eu estampo nas camisetas”, diz Haydèe, que comemora o ano de bom desempenho.

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Ney Carrasco: “Este modelo de feira é maravilhoso. A Estação Cultura está aberta a outras iniciativas como esta”

O secretário de Cultura de Campinas, Ney Carrasco, foi um dos visitantes do Mundo Mix no domingo, na Estação Cultura. “Adoro essa feira, é muito legal, porque reúne a produção alternativa de qualidade e com variedade. Este modelo de feira é maravilhoso. Nós oferecemos o espaço e então acontece este evento grande, de impacto, com custo baixo”, diz o secretário. Segundo Ney, a Estação Cultura está aberta a iniciativas como esta. “O papel da secretaria de Cultura não é fazer, mas fomentar iniciativas da comunidade.” Ele lembra da Feira Afro Mix que também é realizada na Estação Cultura duas vezes por ano. Bijouterias, artesanato, joias e camisetas são os produtos que o secretário disse que mais consome na feira. (por Adriana Menezes)

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Em dezembro, o Mercado Mundo Mix volta a Campinas para uma nova edição na Estação Cultura

 

 

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