domingo , 25 junho 2017
Metade do Brasil sofre com a seca prolongada (e com a falta de ideias e soluções)
A terra seca é um cenário visto hoje em grande parte do Brasil (Foto Adriano Rosa)

Metade do Brasil sofre com a seca prolongada (e com a falta de ideias e soluções)

Por José Pedro Martins

Metade do território brasileiro, pelo menos, está sofrendo no momento com uma seca histórica, que não aparece nos noticiários nacionais e nem parece prioridade de muitos gestores. A única solução que alguns órgãos têm apresentado é a adoção do rodízio no abastecimento, o que já acontece no Espírito Santo, Distrito Federal, Goiás e Minas Gerais. O Nordeste já sofre há quatro anos com uma estiagem severa – que já mudou muitos hábitos dos moradores e setor produtivo – e a Amazônia também tem sentido os impactos de mais um evento climático extremo. Todas estas regiões não recebem a mesma atenção que São Paulo recebeu, com a crise hídrica de 2014-2015. O número de queimadas também explode em todo país.

Na terça-feira, dia 20, a Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa) decretou o racionamento semanal do abastecimento em cinco regiões do DF: Planaltina, Sobradinho (I e II), Brazilândia, São Sebastião e Jardim Botânico. Na prática foi a oficialização do racionamento, na medida em que várias regiões do Distrito Federal já vinham sofrendo com interrupções no fornecimento de água. Os dois principais reservatórios que abastecem o DF, do rio Descoberto e Santa Maria, estavam com, respectivamente, 37,7% e 49% de capacidade, níveis mais baixos da história.

Na Região Metropolitana de Vitória (ES), o racionamento de água começou nesta quarta-feira, dia 21 de setembro, atingindo 431 bairros. Os municípios de Vitória, Vila Velha, Viana, Cariacica e Serra estão sendo particularmente atingidos. O racionamento está sendo feito no formato de rodízio, abrangendo sete regiões em que foi dividida as bacias do Jucu e do Santa Maria.

Em Goiás, cortes no fornecimento de água já aconteciam em 14 cidades no início da semana. O cenário mais inquietante era verificado em Anápolis e Cidade Ocidental. A capital, Goiânia, também já sente o impacto da estiagem prolongada.

A seca extrema já acontece há quatro anos em grande parte do Nordeste. No Ceará, segundo o Monitor de Secas do Nordeste, da Agência Nacional de Águas (ANA), entre julho e agosto o território sob seca extrema ou excepcional avançou de 37,18% para 58,51% do total do estado. Desde a segunda-feira, dia 19, uma tarifa de contingência já é cobrada na Grande Fortaleza, como forma de inibir o consumo. Na realidade, a tarifa de contingência é aplicada na Grande Fortaleza desde dezembro de 2015, mas as metas passaram a ser mais severas a partir desta semana.

Ainda na segunda-feira, a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil publicou, no Diário Oficial da União, a Portaria reconhecendo o estado de emergência por seca ou estiagem em 19 municípios:  Baianópolis, Barro Alto, Caém, Itatim, Tanhaçu, Bom Jesus da Lapa, Luis Eduardo Magalhães e Muquém de São Francisco, na Bahia: Jequitinhonha, Umburatiba, Bocaiúva, Claro dos Porções, Lassance, Medeiros e Presidente Olegário, em Minas Gerais; Carira e Gracho Cardoso, no Sergipe; e Oeiras, no Piauí.

No início de setembro, a agência espacial americana divulgou informa revelando que a seca na Amazônia, em 2016, pode superar às de 2005 e 2010, que há foram extremamente severas. A navegação nos maiores rios da região, como o Amazonas e o Madeira, encontra-se muito afetada, com grandes prejuízos para o transporte de alimentos e medicamentos para muitas regiões distantes. Também no início de setembro, os municípios de Guajará, Anamã e Apuí, no Amazonas, haviam decretado situação de emergência por causa da estiagem. Extrativismo, agricultura e pecuária foram atingidos nestes e outros municípios da região.

A região com maior volume hídrico do planeta, a Amazônia, sofre com a falta de água. Poucas medidas efetivas têm siso vistas, nos últimos anos, para evitar que os anunciados eventos climáticos extremos (sobretudo a estiagem), derivados do aquecimento global, tenham grandes impactos no Brasil.

Com a estiagem prolongada em muitas regiões, o número de queimadas tem explodido no país. Um levantamento divulgado nesta sexta-feira, dia 23 de setembro, pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), revelou que o número de queimadas no primeiro semestre de 2016 foi 40% maior do que no mesmo período do ano passado.

“Mais de 90% dos incêndios têm ação humana”, afirmou o chefe do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), Gabriel Zacharias, esclarecendo então que, apesar da estiagem, as queimadas geralmente não começam em função do clima, mas por intervenção antrópica.

A ANA tem divulgado, nos últimos anos, o Atlas Brasil do Abastecimento Urbano de Água (aqui), que contém uma série de sugestões para evitar o desabastecimento de água em todos os municípios brasileiros, como mudança de mananciais para captação e construção de novos sistemas para captação, tratamento e distribuição. É um roteiro que, se fosse seguido, diminuiria e muito o impacto dos eventos extremos, que tendem a ocorrer com maior intensidade.

O Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima, lançado no início de maio deste ano, contém várias estratégias e ações, como informou a Agência Social de Notícias (aqui). A gravíssima situação em grande parte do território nacional mostra que as medidas anunciadas no Plano devem começar a ser tomadas imediatamente, sob pena de milhões de brasileiros continuarem sofrendo, e muito, com a estiagem, que por enquanto não é apenas de chuva, mas também de ideias e soluções.

 

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